Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 630 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Aspectos farmacocinéticos

semanas).

 

Efeitos do etanol

 

• O etanol age como depressor geral do sistema nervoso central de forma semelhante aos

agentes anestésicos voláteis, produzindo os conhecidos efeitos da intoxicação aguda

• São postulados diversos mecanismos celulares: aumento da ação de GABA e glicina,

inibição da abertura do canal de cálcio, ativação dos canais de potássio e inibição dos

receptores NMDA

• Concentrações plasmáticas efetivas:

– Efeitos limiares: cerca de 20 mg/100 ml (5 mmol/l)

– Intoxicação grave: cerca de 150 mg/100 ml

– Morte por insu ciência respiratória: cerca de 500 mg/100 ml

• Os efeitos periféricos principais são diurese autolimitada (redução da secreção de

hormônio antidiurético) e vasodilatação cutânea

• Ocorre degeneração neurológica com o consumo pesado e excessivo, causando demência e

neuropatias periféricas

• O consumo de etanol a longo prazo causa doença hepática, com progressão para cirrose e

insu ciência hepática

• O consumo excessivo durante a gravidez causa prejuízo do desenvolvimento fetal,

associado a tamanho pequeno, desenvolvimento facial anormal e outras anormalidades

físicas, e atraso mental

• O etanol causa tolerância, dependência psicológica e dependência física.

 

ASPECTOS FARMACOCINÉTICOS

■ Metabolismo do etanol

O etanol é absorvido rapidamente, com uma quantidade considerável sendo

absorvida a partir do estômago. Uma fração substancial é removida pelo

metabolismo hepático de primeira passagem. O metabolismo hepático do

etanol mostra saturação cinética (ver Capítulos 10 e 11) em concentrações

de etanol bem baixas, então a fração de etanol removida diminui, enquanto

a concentração que alcança o fígado aumenta. Por isso, se a absorção do

etanol for rápida e a concentração na veia porta for alta, a maior parte do

etanol escapa para a circulação sistêmica, ao passo que, com absorção lenta,

mais do etanol é removido pelo metabolismo de primeira passagem. Este é

um motivo pelo qual o consumo de etanol com estômago vazio produz um

efeito farmacológico muito mais intenso. O etanol é rapidamente

distribuído para o compartimento aquoso, com a taxa de redistribuição

dependendo principalmente do fluxo sanguíneo para os tecidos individuais,

como com os anestésicos voláteis (ver Capítulo 42).

Cerca de 90% do etanol é metabolizado, com 5 a 10% sendo excretado

sem alterações no ar expirado e na urina. Essa fração não é significativa em

termos farmacocinéticos, mas fornece a base para estimar a concentração

sanguínea de etanol a partir das medições no hálito ou na urina. A

proporção das concentrações de etanol no sangue e no ar alveolar, medida

ao final de uma expiração profunda, é relativamente constante, com 80

mg/100 ml de etanol no sangue produzindo 35 μg/100 ml no ar expirado;

esta é a base para o teste do bafômetro. A concentração na urina é mais

variável e fornece medição menos apurada da concentração sanguínea.

O metabolismo do etanol ocorre quase exclusivamente no fígado e

principalmente por uma via envolvendo oxidações sucessivas, primeiro para

acetaldeído e depois para ácido acético (Figura 49.5). Como o etanol é,

muitas vezes, consumido em grandes quantidades (quando comparado com a maioria dos fármacos), em que 1 a 2 mol por dia não é de forma alguma

incomum, isso constitui uma carga considerável nos sistemas oxidativos

hepáticos. A oxidação de 2 mol de etanol consome cerca de 1,5 kg do

cofator dinucleotídio de nicotinamida e adenina (NAD+). A disponibilidade

do NAD+ limita a taxa de oxidação do etanol para cerca de 8 g/h em um

adulto normal, independentemente da concentração de etanol (Figura 49.6),

levando o processo a evidenciar cinética de saturação (ver Capítulo 11).

Também leva à competição entre o etanol e outros substratos metabólicos

para as reservas disponíveis de NAD+, o que pode ser um fator no dano

hepático induzido pelo etanol (ver Capítulo 58). O metabólito

intermediário, acetaldeído, é um composto reativo e tóxico, e isso também

pode contribuir para a hepatotoxicidade. Ocorre, ainda, um pequeno grau de

esterificação do etanol com vários ácidos graxos nos tecidos, e estes ésteres

também podem contribuir para a toxicidade a longo prazo.

Figura 49.5 Metabolismo do etanol. NAD, dinucleotídio de nicotinamida e adenina.

 

Figura 49.6 Cinética de ordem zero da eliminação do etanol em camundongos. Foi

administrado etanol por via oral para os camundongos (104 mmol/kg), em dose única ou dividido em quatro doses. A dose única resulta em uma concentração mais elevada e mais sustentada de concentração sanguínea de etanol do que a mesma quantidade oferecida em doses divididas. Observe que, após a dose única, a concentração de etanol cai linearmente, com a taxa de declínio semelhante após uma dose pequena ou grande, devido ao fenômeno de saturação. (De Kalant, H. et al., 1975. Biochem. Pharmacol. 24, 431.)

 

A álcool desidrogenase é uma enzima citoplasmática solúvel, confinada

principalmente às células hepáticas, que oxida o etanol ao mesmo tempo

que reduz o NAD+ a NADH (ver Figura 49.5). O metabolismo do etanol

leva à diminuição da proporção de NAD+ para NADH, e isso traz outras

consequências metabólicas (p. ex., aumento do lactato e alentecimento do

ciclo de Krebs). A limitação imposta pela taxa de regeneração limitada de

NAD+ no metabolismo do etanol tem levado a tentativas de encontrar um

agente de “sobriedade” que funcione regenerando NAD+ a partir de NADH. Um desses agentes é a frutose, que é reduzida por uma enzima que

necessita de NADH. Em altas doses, causa um aumento mensurável na taxa

do metabolismo do etanol, mas não o suficiente para ter um efeito na taxa

de retorno à sobriedade.

Normalmente, apenas uma pequena parcela do etanol é metabolizada

pelo sistema de oxidase de função mista microssômico (ver Capítulo 10),

mas há indução desse sistema em alcoólatras. O etanol pode afetar o

metabolismo de outros fármacos que são metabolizados pelo sistema de

oxidase de função mista (p. ex., fenobarbital, varfarina e esteroides), com

um efeito inibitório inicial produzido por competição, seguido de

potencialização devido à indução enzimática.

Quase todo o acetaldeído produzido é convertido a acetato no fígado

pela aldeído desidrogenase (ver Figura 49.5). Normalmente, apenas um

pouco de acetaldeído escapa do fígado, proporcionando uma concentração

sanguínea de acetaldeído de 20 a 50 μmol/l após uma dose intoxicante de

etanol em seres humanos. O acetaldeído circulante em geral tem pouco ou

nenhum efeito, mas a concentração pode se tornar muito maior sob certas

circunstâncias e produzir efeitos tóxicos. Isso ocorre se a aldeído

desidrogenase for inibida por fármacos como dissulfiram. Na presença de

dissulfiram, que não produz nenhum efeito marcante quando administrado

isoladamente, o consumo de etanol é seguido de uma reação grave que

compreende ruborização, taquicardia, hiperventilação e consideráveis

pânico e angústia, devido ao acúmulo excessivo de acetaldeído na corrente

sanguínea. Essa reação é extremamente desagradável, mas geralmente não é

perigosa, pelo menos em consumidores saudáveis, e o dissulfiram pode ser

usado como terapia de aversão para desencorajar o uso de etanol. Alguns

outros fármacos (p. ex., metronidazol; ver Capítulo 52) produzem reações

semelhantes. Curiosamente, uma medicação fitoterápica chinesa tradicionalmente usada para curar alcoólatras contém daidzina, um inibidor

específico da aldeído desidrogenase.14

 

■ Fatores genéticos

Em 50% da população asiática, há expressão de uma variante genética

inativa de uma das isoformas de aldeído desidrogenase (ALDH-2); tais

indivíduos apresentam reação semelhante ao dissulfiram após o álcool, e a

incidência de alcoolismo neste grupo é extremamente baixa (Tyndale,

2003).

 

■ Metabolismo e toxicidade do metanol e do etilenoglicol

▼ O metanol é metabolizado da mesma forma que o etanol, mas produz

formaldeído em vez de acetaldeído no primeiro passo da oxidação. O

formaldeído é mais reativo do que o acetaldeído e reage rapidamente

com proteínas, causando a inativação das enzimas envolvidas no ciclo

do ácido tricarboxílico. É convertido em outro metabólito tóxico, o

ácido fórmico. Este, ao contrário do ácido acético, não pode ser

utilizado no ciclo do ácido tricarboxílico e é passível de causar dano

tecidual. A conversão de álcoois para aldeídos ocorre não somente no

fígado, mas também na retina, catalisada pela desidrogenase

responsável pela conversão retinol-retinal. A formação de formaldeído

na retina é responsável por um dos principais efeitos tóxicos do

metanol, especificamente cegueira, que pode ocorrer após a ingestão de

doses tão baixas quanto 10 g. A produção de ácido fórmico e a

desorganização do ciclo do ácido tricarboxílico também produzem

acidose grave.

O metanol é usado como um solvente industrial e também para adulterar

o etanol industrial para torná-lo impossível de beber. Envenenamento