Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 568 de 751

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Mecanismos neurais e modelos animais de epilepsia

característica durante o período da crise (ver Figura 46.1C). A ritmicidade parece ser causada por retroalimentação (feedback) oscilatória entre o córtex e

o tálamo, sendo as propriedades especiais dos neurônios talâmicos dependentes dos canais de cálcio tipo T que eles expressam (Shin, 2006). O padrão difere

daquele das crises parciais, em que a despolarização assíncrona de alta frequência propaga-se de um foco local. Assim, os fármacos usados

especificamente para tratar crises de ausência atuam principalmente por bloqueio dos canais de cálcio tipo T, enquanto os fármacos eficazes contra outros tipos de epilepsia atuam principalmente por bloqueio dos canais de

sódio ou potencialização da inibição mediada pelo GABA.

Tipo particularmente grave de epilepsia, a síndrome de Lennox-Gastaut, ocorre em crianças e associa-se a retardardamento mental progressivo,

possivelmente reflexo de neurodegeneração excitotóxica (ver Capítulo 41).

Cerca de um terço dos casos de epilepsia é familiar e envolve mutações genéticas. Enquanto algumas ocorrem devido a uma única mutação, a maioria

resulta de mutações poligenéticas (Pandolfo, 2011). A maioria dos genes associados a epilepsias familiares codifica canais iônicos neuronais

estreitamente envolvidos no controle da geração de potenciais de ação (ver

Capítulo 4), como os canais de sódio e potássio controlados por voltagem,

receptores GABA e receptores nicotínicos da acetilcolina. Alguns outros genes codificam proteínas que interagem com os canais iônicos.

O estado de mal epiléptico refere-se a crises contínuas ininterruptas, exigindo tratamento clínico de emergência.

 

MECANISMOS NEURAIS E MODELOS ANIMAIS DE EPILEPSIA

▼ A anormalidade neuronal subjacente na epilepsia é mal compreendida.

Em geral, a excitação naturalmente tenderá a propagar-se por toda a rede

de neurônios interconectados, mas é normalmente impedida de fazê-lo por

mecanismos inibitórios. Desse modo, pode originar-se a epileptogênese se

a transmissão excitatória for facilitada ou se a transmissão inibitória for

reduzida (exemplificada pelo antagonista do receptor GABAA causando

convulsões; ver Capítulo 39). Sob certos aspectos, a epileptogênese

assemelha-se à potencialização a longo prazo (ver Capítulo 39), e podem

estar envolvidos tipos semelhantes de plasticidade sináptica dependente do

uso. Os neurônios, dos quais se origina a descarga epiléptica, demonstram

um tipo incomum de comportamento elétrico denominado desvio

despolarizante paroxístico (DDP), durante o qual o potencial de membrana

subitamente diminuiu cerca de 30 mV e permanece despolarizado por até

alguns segundos, antes de regressar ao normal. Uma salva de potenciais de

ação acompanha frequentemente essa despolarização (Figura 46.3). Esse

evento provavelmente resulta de uma ação anormalmente prolongada e

exagerada de uma transmissão excitatória. A ativação dos receptores

NMDA (ver Capítulo 39) produz respostas despolarizantes em “forma de

platô” muito semelhantes ao DPP.

 

Figura 46.3 “Desvio despolarizante paroxístico” (DDP) comparado à ativação

experimental dos receptores de glutamato do tipo NMDA. A. DDP registrado com microeletrodo intracelular de neurônios corticais de gatos anestesiados. A atividade convulsivante foi induzida por aplicação tópica de penicilina. B. Registro intracelular do núcleo caudado de gato anestesiado. O análogo do glutamato NMDA foi aplicado por iontoforese por intermédio de uma micropipeta adjacente. Observe as ondas periódicas de despolarização associadas a uma salva de potenciais de ação, o que se assemelha muito ao DDP. (Painel A, de Matsumoto, H., Marsan, C.A., 1964. Exp. Neurol. 9, 286; Painel B, de Herrling, P.L. et al., 1983. J. Physiol. 339, 207.)

 

Como os estudos detalhados são difíceis de serem executados em pacientes

epilépticos, foram investigados muitos modelos animais de epilepsia

(Bialer e White, 2010; Grone e Baraban, 2015). Para cepas de

camundongos transgênicos, têm sido relatados desenvolvimento de crises

espontâneas. Neste grupo incluem-se cepas com mutações nocaute de

vários canais iônicos, receptores e outras proteínas sinápticas. A aplicação

local de cristais de penicilina ao córtex cerebral resulta em crises focais,

provavelmente por interferência na transmissão sináptica inibitória. São

frequentemente utilizados fármacos convulsivantes (p. ex.,

pentilenotetrazol [PTZ]), bem como crises provocadas por estimulação

elétrica de todo o cérebro. No modelo do cainato, uma injeção única de

ácido caínico, um agonista dos receptores do glutamato, no núcleo

amidaloide de um rato, pode produzir crises espontâneas, 2 a 4 semanas

mais tarde, que continuam indefinidamente. Acredita-se que isso seja o

resultado do dano excitotóxico nos neurônios inibitórios.

No modelo de Kindling, breves estímulos elétricos de baixa intensidade em

certas regiões do sistema límbico, como as amígdalas, normalmente não

produzem resposta convulsiva, mas se repetidos diariamente durante vários

dias, a resposta aumenta gradualmente até que níveis baixos de estimulação

provoquem crises completas e, eventualmente, as crises começarão a

ocorrer espontaneamente. Esse estado excitado pode persistir

indefinidamente, sendo prevenido pela ação dos antagonistas dos

receptores NMDA ou pela eliminação do receptor de neurotrofinas, TrKb.

Nas epilepsias focais humanas, a remoção cirúrgica de uma região do

córtex danificada pode falhar em curar essa condição, como se a descarga

anômala da região da lesão primária tivesse, de alguma forma, produzido

hiperexcitabilidade secundária em outra parte do cérebro. Além disso, após

lesão grave da cabeça, o tratamento profilático com fármacos

antiepilépticos reduz a incidência de epilepsia pós-traumática, o que sugere

que um fenômeno similar ao da excitação pode estar subjacente a essa

forma de epilepsia.

Mais recentemente, os peixes-zebra foram usados para estudar fenótipos de

epilepsia resultantes de manipulação genética, tanto a eliminação quanto a

adição do gene de mutações específicas. Esta abordagem parece

promissora na triagem de fármacos com atividade contra formas

específicas de epilepsias genéticas (Grone e Baraban, 2015).