Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 129 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Eliminação biliar e circulação êntero-hepática

HEPÁTICA

As células hepáticas transferem diversas substâncias, inclusive fármacos, do

plasma para a bile por sistemas de transporte semelhantes aos do túbulo

renal, incluindo transportadores de cátions (OCT) e de ânions orgânicos

(OAT) e glicoproteínas P (P-gp) (ver Capítulo 9). Alguns compostos de

fármacos hidrofílicos (principalmente glicuronídios) ficam concentrados na

bile e são enviados para o intestino, em que o glicuronídio pode ser

hidrolisado, regenerando o fármaco ativo; o fármaco pode então ser

reabsorvido e o ciclo se repete, em um processo denominado circulação

êntero-hepática. O resultado é um “reservatório” de fármaco recirculante

que pode representar até cerca de 20% do total de fármaco presente no

organismo, prolongando sua ação. Exemplos em que isso é importante

incluem morfina (ver Capítulo 43) e etinilestradiol (ver Capítulo 36).

Diversos fármacos são eliminados pela bile em quantidades consideráveis.

O vecurônio (um relaxante muscular não despolarizante; ver Capítulo 14) é

um exemplo de fármaco que é eliminado inalterado na bile. A rifampicina

(ver Capítulo 52) é absorvida no intestino e desacetilada lentamente,

retendo sua atividade biológica. As duas formas são secretadas na bile, mas

a forma desacetilada não é reabsorvida e, assim, com o passar do tempo, a

maior parte do fármaco abandona o organismo nessa forma por meio das

fezes.

 

ELIMINAÇÃO RENAL DE FÁRMACOS E SEUS

METABÓLITOS

 

Depuração (clearance) renal A eliminação de fármacos pelos rins é mais bem quantificada pela

depuração (ou clearance) renal (CLren, ver Capítulos 11 e 30), definida como o volume de plasma que contém a quantidade da substância removida

pelos rins na unidade de tempo. Ela é calculada a partir da concentração

plasmática, Cp, da concentração urinária, Cu, e da velocidade do fluxo

urinário, Vu, por meio da seguinte equação:

 

O CL ren varia muito para os diversos fármacos, desde menos de 1 ml/min até o máximo teórico dado pelo fluxo plasmático renal, que é de

aproximadamente 700 ml/min, medido pela depuração do ácido p-amino-

hipúrico (PAH) (a eliminação renal de PAH é próxima de 100%).

Existe muita diferença na velocidade com que os fármacos são

eliminados pelos rins, variando desde a penicilina (ver Capítulo 52), que é

retirada quase completamente do sangue (como o PAH) em uma única

passagem pelos rins, até a amiodarona (ver Capítulo 22) e o risedronato

(ver Capítulo 37), que são depurados de modo extremamente lento. A

maioria dos fármacos encontra-se entre esses dois extremos. Três processos

fundamentais são responsáveis pela eliminação renal dos fármacos:

 

1. Filtração glomerular.

2. Secreção tubular ativa.

3. Reabsorção passiva (difusão pelo líquido tubular concentrado e

reabsorção pelo epitélio tubular).

 

Filtração glomerular

Os capilares glomerulares possibilitam que moléculas de fármacos com

peso molecular abaixo de 20 kDa se difundam para o filtrado glomerular. Esses capilares são quase completamente impermeáveis à albumina

plasmática (peso molecular de aproximadamente 68 kDa), mas a maioria

dos fármacos – com exceção de macromoléculas como a heparina (ver

Capítulo 25) ou biofármacos (ver Capítulo 5) – cruza a barreira livremente.

Se um fármaco se liga à albumina plasmática, apenas o fármaco livre é

filtrado. Se cerca de 98% de um fármaco, como a varfarina (ver Capítulo

25), estiver ligado à albumina, a concentração no filtrado é de apenas 2%

daquela do plasma e, consequentemente, a eliminação por filtração estará

correspondentemente diminuída.

 

Tabela 10.7 Fármacos importantes e substâncias

relacionadas secretados ativamente no túbulo

proximal renal por transportadores OAT ou

OCT.

 

OAT OCT

Ácido p-amino-hipúrico Amilorida

Furosemida Dopamina

Conjugados do ácido glicurônico Histamina

Conjugados de glicina Mepacrina

Indometacina Mor na

Metotrexato Petidina

Penicilina Compostos de amônio quaternário

Probenecida Quinina

Conjugados de sulfato 5-hidroxitriptamina (serotonina)

Diuréticos tiazídicos Triantereno

Ácido úrico

 

Secreção tubular

Até 20% do fluxo plasmático renal é filtrado pelo glomérulo, deixando pelo

menos 80% do fármaco que chega ao rim passar para os capilares

peritubulares do túbulo proximal. Aqui, as moléculas dos fármacos são

transferidas para o lúmen tubular por dois sistemas de transportadores

independentes e relativamente não seletivos (ver Capítulo 9). Um destes, o

OAT, transporta os fármacos ácidos na sua forma aniônica negativa (bem

como muitos outros ácidos endógenos, como o ácido úrico), enquanto o

OCT lida com bases orgânicas na forma protonada catiônica. A Tabela 10.7

apresenta alguns dos fármacos mais importantes transportados por esses

dois sistemas. Os transportadores OAT podem mover moléculas de

fármacos contra gradiente eletroquímico e, consequentemente, reduzir a

concentração plasmática praticamente a zero; enquanto os OCT facilitam o

transporte a favor do gradiente eletroquímico. Como pelo menos 80% do

fármaco que chega aos rins é apresentado ao transportador, a secreção

tubular é potencialmente o mecanismo mais efetivo de eliminação renal de

fármacos. Diferentemente da filtração glomerular, a transferência mediada

por transportadores pode efetuar a depuração máxima de um fármaco,

mesmo quando a maior parte dele está ligada a proteínas plasmáticas.2

Apesar de cerca de 80% da penicilina (ver Capítulo 52), por exemplo, estar

ligada a proteínas plasmáticas e, portanto, só ser depurada lentamente pela

filtração, o fármaco é removido quase completamente pela secreção tubular

proximal, e sua velocidade global de eliminação é bastante alta.

Muitos fármacos competem pelo mesmo sistema de transporte (Tabela

10.7), levando a interações medicamentosas. Como exemplo, a probenecida foi desenvolvida originariamente para potenciar a penicilina,

retardando sua secreção tubular (ver adiante).

 

Tabela 10.8 Exemplos de fármacos que são eliminados

praticamente inalterados na urina.

 

Porcentagem Fármacos eliminados

100 a 75 Furosemida, gentamicina, metotrexato, atenolol, digoxina

75 a 50 Benzilpenicilina, cimetidina, oxitetraciclina, neostigmina

Cerca de 50 Propantelina, tubocurarina

 

Difusão através do túbulo renal

A água é reabsorvida conforme o líquido atravessa o túbulo e, por isso, o

volume de urina produzida é de aproximadamente 1% do volume do

filtrado glomerular. Consequentemente, se o túbulo for livremente

permeável às moléculas do fármaco, aproximadamente 99% do fármaco

filtrado será reabsorvido passivamente a favor do gradiente de concentração

resultante. Assim, a eliminação dos fármacos lipossolúveis é mínima,

enquanto fármacos polares, cuja permeabilidade tubular é baixa,

permanecem no lúmen do túbulo, tornando-se progressivamente mais

concentrados à medida que a água é reabsorvida. Fármacos polares tratados

dessa forma incluem a digoxina e antibióticos aminoglicosídios,

constituindo um grupo relativamente pequeno, mas importante, de fármacos

(Tabela 10.8), que não são inativados pelo metabolismo, e a velocidade de

eliminação renal é o principal fator determinante da duração de sua ação.

Esses fármacos devem ser empregados com especial cautela em indivíduos cuja função renal esteja diminuída, incluindo idosos e pacientes com doença