Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos vasodilatadores
adenililato ciclase nos ductos coletores renais. A vasoconstrição é mediada
pelos receptores V 1 (dois subtipos, ver Capítulo 34), exige concentrações
mais altas de ADH e envolve ativação da fosfolipase C (ver Capítulo 3). O
ADH causa vasoconstrição generalizada, incluindo os vasos cutâneos,
celíacos, mesentéricos e coronários. Afeta, também, outros músculos lisos
(p. ex., gastrintestinais e uterinos), e causa cólicas abdominais por essa
razão. A vasopressina ou seu análogo, a terlipressina, é comumente usada
para tratar pacientes com varizes esofágicas sangrantes e hipertensão portal
antes de um tratamento endoscópico mais definitivo, embora os
gastroenterologistas também tenham a opção de usar a octreotida
(indicação não regulamentada; ver Capítulo 34) para tal. Pode também ter
um papel no tratamento do choque vasodilatador (p. 307).
Endotelina
As endotelinas foram discutidas anteriormente no contexto de seus papéis
fisiológicos; como explicado, apresentam ações vasodilatadoras e
vasoconstritoras, mas predominando a vasoconstrição. A administração
intravenosa causa vasodilatação transitória seguida por vasoconstrição
profunda e de longa duração. As endotelinas são vasoconstritores ainda
mais potentes que a angiotensina II. Até agora, não têm usos clínicos, e os
antagonistas da endotelina foram liberados apenas para a hipertensão
pulmonar primária (p. 308).
FÁRMACOS VASODILATADORES
Os vasodilatadores têm papel importante no tratamento de problemas
comuns, incluindo hipertensão, insuficiência cardíaca e angina de peito, bem como certos distúrbios menos comuns, porém sérios, incluindo
hipertensão pulmonar e doença de Raynaud.
Vasodilatadores de ação direta
Os alvos sobre os quais estes fármacos agem para relaxar a musculatura lisa
vascular incluem os canais de cálcio dependentes de voltagem na
membrana plasmática, os canais do retículo sarcoplasmático (liberação ou
recaptação de Ca2+) e as enzimas que determinam a sensibilidade das
proteínas contráteis ao Ca2+ (ver Figura 4.10).
Substâncias vasoconstritoras
• Os principais grupos são as aminas simpatomiméticas (de ação direta e indireta, ver
Capítulo 15), certos eicosanoides (especialmente tromboxano A 2; ver Capítulo 18),
peptídios (angiotensina II, ADH e endotelina; ver Capítulo 19) e um grupo de fármacos
variados (p. ex., alcaloides do ergot, ver Capítulo 16)
• Os usos clínicos incluem aplicações locais (p. ex., descongestão nasal, coadministração
com anestésicos locais). As aminas simpatomiméticas e o ADH são usados no choque
circulatório. A epinefrina é salvadora no choque ana lático e na parada cardíaca. O ADH
ou a terlipressina (um análogo) têm sido usados como infusão intravenosa para cessar o
sangramento de varizes esofágicas antes da cirurgia em pacientes com hipertensão portal
causada por doença hepática.
■ Antagonistas do cálcio
Os antagonistas do cálcio do tipo L são discutidos no Capítulo 22.
■ Fármacos que ativam canais de potássio Alguns fármacos (p. ex., minoxidil e diazóxido) relaxam a musculatura lisa
por indução à abertura de canais K ATP (Figura 23.6). Essa ação hiperpolariza as células e “desliga” os canais de cálcio dependentes de voltagem. Os
ativadores dos canais de potássio trabalham pela ação antagonizante da ATP
intracelular nesses canais.
O minoxidil (atuando por meio de um metabólito ativo de sulfato) é um
vasodilatador especialmente potente e com duração de ação prolongada,
usado como fármaco de último recurso no tratamento de hipertensão grave
não responsiva a outros fármacos. Causa hirsutismo (de fato, o metabólito
ativo é usado como creme tópico para tratar calvície, ver Capítulo 28);
acentuada retenção de sal e água, por isso geralmente é prescrito em
combinação com um diurético de alça; e taquicardia reflexa, a qual pode ser
prevenida com o uso de um antagonista β-adrenérgico. O nicorandil (ver
Capítulo 22), usado na angina refratária, combina ativação de canais K ATP com atividade doadora de NO.
Figura 23.6 Canais de potássio sensíveis a ATP. Registro de patch clamp (ver Capítulo
3) de uma célula B pancreática secretora de insulina: a saponina permeabilizou a célula, com perda do ATP intracelular, causando abertura dos canais (deflexão para cima) até serem inibidos pelo ATP. A adição de diazóxido, um vasodilatador (que também inibe a secreção de insulina; ver texto) reabre os canais. Na musculatura lisa, isso causa hiperpolarização e relaxamento. (Redesenhada de Dunne et al., 1990. Br. J. Pharmacol. 99, 169.)
■ Fármacos que atuam por meio de nucleotídios cíclicos
Ativação da ciclase
Muitos fármacos relaxam a musculatura lisa vascular por aumento da
concentração celular de GMPc ou cAMP. Por exemplo, o NO, os nitratos e
os peptídios natriuréticos atuam por intermédio do GMPc (ver Capítulos 21
e 22); BAY41-2272, uma pirazolopiridina, ativa a guanililato ciclase
solúvel por meio de um ponto independente de NO (ver Capítulo 21). Os
β 2-agonistas, a adenosina e a PGI2 aumentam o cAMP citoplasmático (ver
Capítulos 15, 17 e 18). A dopamina tem ações mistas, vasodilatadoras e
vasoconstritoras. Dilata, seletivamente, os vasos renais, em que aumenta o
cAMP por ativação da adenililato ciclase. Quando administrada em infusão
intravenosa, a dopamina produz um misto de efeitos cardiovasculares
decorrentes de ações agonistas sobre os receptores α e β-adrenérgicos, bem
como sobre os receptores de dopamina. A pressão arterial aumenta
discretamente, mas os principais efeitos são a vasodilatação na circulação
renal e o aumento do débito cardíaco. A dopamina foi amplamente usada
em unidades de terapia intensiva (UTI) em pacientes nos quais parecia
iminente uma insuficiência renal associada à diminuição da perfusão renal;
apesar do seu efeito benéfico sobre a hemodinâmica renal, ensaios clínicos
demonstraram que não melhora a sobrevida nessas circunstâncias, e este
uso está obsoleto. A nesiritida, uma forma recombinante do peptídio
natriurético humano do tipo B (BNP) (ver Capítulo 22), foi amplamente
utilizada nos EUA para o tratamento de insuficiência cardíaca aguda
descompensada, mas os dados da eficácia não impressionaram (O’Connor
et al., 2011). Contudo, o sacubitril, profármaco de um metabólito ativo
sacubitilato, um inibidor da neprilisina (também conhecida como endopeptidase neutra [NEP]), aumenta os peptídios natriuréticos circulantes
(BNP e ANP) e, em combinação fixa com a valsartana, é eficaz no
tratamento da insuficiência cardíaca crônica (ver adiante, p. 305).
O nitroprussiato (nitroferricianeto) é um potente vasodilatador que
atua pela liberação de NO (ver Capítulo 21). Diferentemente dos nitratos
orgânicos, atua igualmente sobre a musculatura arterial e venosa. Sua
utilidade clínica é limitada porque precisa ser administrado IV. Sofre
hidrólise em solução (particularmente quando exposto à luz), com formação
de cianeto. A solução intravenosa, portanto, precisa ser preparada
recentemente a partir do pó seco e protegida da luz. O nitroprussiato é
rapidamente convertido em tiocianato no organismo, sendo sua meia-vida
plasmática de apenas alguns minutos, sendo necessário, então, ser
administrado em infusão contínua com cuidadoso monitoramento para
evitar hipotensão. O uso prolongado causa acúmulo de tiocianato e
toxicidade (fraqueza, náuseas e inibição da função tireoidiana);
consequentemente, o nitroprussiato é útil somente para tratamento a curto
prazo (geralmente até um máximo de 72 h). É usado em UTI para
emergências hipertensivas, para produzir hipotensão controlada durante
cirurgia e para reduzir o trabalho cardíaco durante disfunção cardíaca
reversível, que ocorre depois de cirurgia de revascularização do miocárdio.
Inibição de fosfodiesterases
As fosfodiesterases (PDE; do inglês, phosphodiesterases; ver Capítulo 3)
compreendem pelo menos 14 isoenzimas distintas. Ao lado de outras ações,
as metilxantinas (p. ex., teofilina) e a papaverina são inibidores não
seletivos das PDE. As metilxantinas exercem seus principais efeitos sobre a
musculatura lisa brônquica e sobre o SNC e são discutidas nos Capítulos 29
e 49. Além da inibição da PDE, algumas metilxantinas também são
antagonistas dos receptores de purinas (ver Capítulo 17). A papaverina,
produzida a partir dos frutos imaturos (cápsulas) da papoula (ver Capítulo
43), relaxa a musculatura lisa vascular. Não se conhece inteiramente seu
mecanismo de ação, que parece envolver uma combinação de inibição de
PDE com bloqueio de canais de cálcio. Os inibidores seletivos da PDE tipo
III (p. ex., milrinona) aumentam o cAMP no músculo cardíaco. Apresenta
efeito inotrópico positivo, mas, apesar da melhora hemodinâmica a curto
prazo, aumentam a mortalidade na insuficiência cardíaca, possivelmente
por causar arritmias. O dipiridamol, além de aumentar as ações da
adenosina (ver Capítulo 17), causa também vasodilatação por inibição de
PDE. Os inibidores seletivos da PDE tipo V (p. ex., sildenafila) inibem a
degradação do GMPc, potencializando, assim, a sinalização NO. O fármaco
revolucionou o tratamento da disfunção erétil (ver Capítulo 36) e tem
potencial terapêutico em outras situações, incluindo hipertensão pulmonar
(ver boxe clínico, p. 308).
Vasodilatadores
• Atuação dos vasodilatadores:
– Aumentar o uxo sanguíneo tecidual local
– Reduzir a pressão arterial
– Reduzir a pressão venosa central
• Reduzem o trabalho cardíaco ao diminuir a pre-carga (redução da pressão de enchimento)
e pos-carga (redução da resistência vascular) cardíacas
• Principais usos:
– Terapia anti-hipertensiva (p. ex., antagonistas da angiotensina II do tipo 1 [AT1],
antagonistas do cálcio e antagonistas α1-adrenérgicos)
– Tratamento/pro laxia de angina (p. ex., antagonistas do cálcio, nitratos)
Tratamento de insu ciência cardíaca (p. ex., inibidores da enzima conversora da
–
angiotensina, antagonistas AT 1)
– Tratamento de disfunção erétil.
Vasodilatadores com mecanismos de ação desconhecidos
■ Hidralazina
A hidralazina atua principalmente relaxando as artérias e arteríolas,
causando queda de pressão arterial acompanhada por taquicardia reflexa e
aumento do débito cardíaco. Interfere na ação do trifosfato de inositol sobre
a liberação de Ca2+ do retículo sarcoplasmático. Seu uso clínico original foi
na hipertensão e ainda é usada para tratamento a curto prazo de hipertensão
grave na gravidez, mas pode causar um distúrbio imunológico que se
assemelha ao lúpus eritematoso sistêmico (LES),7 de modo que, na
atualidade, dá-se preferência a outros agentes para o tratamento a longo prazo da hipertensão. Tem lugar no tratamento de insuficiência cardíaca em
pacientes de origem africana, em combinação com um nitrato orgânico de
ação prolongada (ver boxe clínico, p. 306).
■ Etanol
O etanol (ver Capítulo 50) dilata vasos cutâneos, causando o familiar rubor
da pessoa alcoolizada. Alguns anestésicos gerais (p. ex., propofol) causam
vasodilatação como efeito indesejável (ver Capítulo 42).
Vasodilatadores de ação indireta
Os fármacos vasodilatadores de ação indireta atuam inibindo os sistemas
vasoconstritores, ou seja, o sistema nervoso simpático (ver Capítulo 15) e
os sistemas renina-angiotensina-aldosterona e endotelina ou pela
potencialização de vasodilatadores endógenos, como os peptídios
natriuréticos (ver Capítulo 22 e mais adiante neste capítulo, p. 305).
Acredita-se que o controle central da vasoconstrição mediada pelo
simpático afete os receptores α 2-adrenérgicos e outra classe de receptores,
denominados receptores de imidazolina I1, presentes no tronco encefálico,
na parte rostral anterolateral do bulbo. A clonidina (agonista do receptor α2-adrenérgico, agora amplamente obsoleto como fármaco anti-hipertensivo) e
a moxonidina, agonista do receptor I 1, diminuem a pressão sanguínea mediante redução da atividade simpática no SNC. Além disso, muitos
vasodilatadores (p. ex., acetilcolina, bradicinina, substância P) exercem
alguns ou todos os seus efeitos por estimulação da biossíntese de
prostaglandinas vasodilatadoras ou de NO (ou de ambos) pelo endotélio
vascular (ver anteriormente e Capítulo 21), causando, assim, antagonismo
funcional do tônus constritor promovido pelos nervos simpáticos e pela
angiotensina II.
Muitos fármacos úteis bloqueiam o sistema renina-angiotensina-
aldosterona (SRAA – ver Tabela 23.4 para um resumo de antagonistas
seletivos) em um dos vários pontos:
• Liberação de renina: os antagonistas β-adrenérgicos inibem a liberação
de renina (ver Capítulo 15)
• Atividade da renina: inibidores da renina inibem a conversão de
angiotensinogênio em angiotensina I
• ECA: IECA (ver adiante) bloqueiam a conversão de angiotensina I em
angiotensina II
• Receptores tipo 1 da angiotensina II (AT1): antagonistas dos receptores
AT 1 (ver adiante)
• Receptores da aldosterona: antagonistas dos receptores da aldosterona
(ver adiante).
Tabela 23.4 Resumo dos fármacos que inibem o sistema
renina-angiotensina-aldosterona.
Classe Fármaco Farmacocinética Usos Observações b adversos a Efeitos
Tosse
Inibidores de Ação curta Hipertensão Os IECA são t 1/2 ~2 Hipotensão depurados h Insu ciência Captopril principalmente Proteinúria ECA cardíaca Doses 2 a 3 por eliminação
vezes/dia Distúrbios do renal Após IAM
paladar
Enalapril Profármaco – o Tosse Como o captopril Lisinopril,
metabólito ativo é perindopril,
Hipotensão
ramipril,
Comprometimento
o enalaprilate t renal reversível trandolapril são 1/2 ~11 h (em pacientes com semelhantes
estenose da artéria
Doses 1 a 2 Alguns estão
renal)
vezes/dia aprovados para
outros usos (p. ex.,
AVE, hipertro a
ventricular
esquerda)
Hipotensão
Dano renal Hipertensão Os BRA são
BRA reversível (em depurados por
Valsartana t ~6 h Insu ciência 1/2
pacientes com cardíaca metabolismo
hepático
estenose da artéria
renal)
Metabólito de ação A irbesartana é
Como a valsartana
Losartana prolongada t1/2 Como a valsartana similar, com t1/2
Nefropatia diabética
~8 h ~10 a 15 h
t1/2 5 a 10 h Administrado na
forma de
Ação prolongada,
Candesartana Como a valsartana Como a valsartana profármaco éster
pois o complexo
(candesartana
com o receptor é
cilexetila)
estável
A FDA alertou
contra a
Baixa
combinação com
biodisponibilidade
renina Alisquireno oral e diarreia Inibidor da Como a valsartana, Hipertensão IECA ou BRA em essencial pacientes com
t comprometimento 24 h 1/2
renal + diabetes
melito
Antagonistas Eplerenona t 3 a 5 h Como a valsartana, Insu ciência Precaução na 1/2
da especialmente cardíaca após IAM insu ciência renal;
aldosterona hiperpotassemia monitorar o
potássio
Náuseas, diarreia
plasmático
Como a Hiperaldosteronismo eplerenona, e primário
Profármaco
efeitos
convertido em Insu ciência
estrogênicos
Espironolactona canrenona, que cardíaca
(ginecomastia,
apresenta t1/2 ~24 h irregularidades Edema e ascite (p.
menstruais, ex., na cirrose disfunção erétil) hepática)
a Todos os fármacos listados são ativos por via oral.
bOs efeitos adversos comuns a todos esses fármacos incluem hiperpotassemia (especialmente em pacientes com função renal
comprometida) e teratogênese. BRA, bloqueador do receptor da angiotensina; AVE, acidente vascular encefálico; ECA, enzima
conversora da angiotensina; IECA, inibidor da enzima conversora de angiotensina; IAM, infarto agudo do miocárdio.
Figura 23.7 O ponto ativo da enzima conversora de angiotensina. A. Ligação da angiotensina I. B. Ligação do inibidor captopril, que é um análogo do dipeptídio terminal da angiotensina I.
■ Inibidores de renina
O alisquireno, um inibidor da renina, não peptídico, ativo por via oral, foi
desenvolvido e registrado como fármaco anti-hipertensivo. É um triunfo do
desenho de fármacos e diminui a pressão sanguínea, mas apresenta efeitos
adversos que incluem diarreia (comum), insuficiência renal aguda, eventos
cardiovasculares em pacientes com diabetes melito e, raramente,
angioedema e reações alérgicas graves.
■ Inibidores da enzima conversora de angiotensina
O primeiro IECA a ser comercializado foi o captopril (Figura 23.7), um
dos primeiros exemplos de projeto de fármaco bem-sucedido com base no
conhecimento químico da molécula-alvo. Verificou-se também que vários
peptídios pequenos eram inibidores fracos da enzima.8 O captopril foi
elaborado para combinar as propriedades estéricas de tais antagonistas
peptídicos em uma molécula não peptídica, que era ativa quando
administrada por via oral. Apresenta meia-vida plasmática curta (cerca de 2
h) e deve ser administrado 2 a 3 vezes/dia. Muitos dos IECA desenvolvidos
subsequentemente (Tabela 23.4), que são amplamente usados na clínica,
têm duração de ação mais longa e são administrados 1 vez/dia.
Efeitos farmacológicos
Os IECA causam apenas uma pequena queda da pressão arterial em
indivíduos saudáveis que estejam consumindo a quantidade de sal contida
em uma dieta ocidental normal, porém uma queda muito maior nos
hipertensos, particularmente naqueles em que a secreção de renina esteja
aumentada (p. ex., nos pacientes que recebem diuréticos). Os IECA afetam os vasos de capacitância e de resistência e reduzem a carga cardíaca, bem
como a pressão arterial. Atuam, preferencialmente, sobre os leitos
vasculares sensíveis à angiotensina, que incluem os rins, o coração e o
cérebro. Essa seletividade pode ser importante para sustentar a perfusão
adequada desses órgãos vitais em face da redução da pressão de perfusão. A
estenose crítica da artéria renal9 é uma exceção, caso em que a inibição da
ECA acarreta queda da taxa de filtração glomerular (ver adiante).
Os usos clínicos dos IECA estão resumidos no boxe clínico.
Usos clínicos dos inibidores da enzima conversora de angiotensina
• Hipertensão
• Insu ciência cardíaca
• No pos-infarto do miocárdio (especialmente quando houver disfunção ventricular)
• Em indivíduos com alto risco de cardiopatia isquêmica
• Nefropatia diabética
• Insu ciência renal crônica para prevenir a progressão.
Efeitos adversos
Os efeitos adversos (ver Tabela 23.4) diretamente relacionados com a
inibição da ECA são comuns a todos os fármacos dessa classe. Entre eles
está a hipotensão, especialmente após a primeira dose e particularmente em
pacientes com insuficiência cardíaca que tenham sido tratados com
diuréticos de alça, nos quais o sistema renina-angiotensina está ativado. O
efeito adverso persistente mais comum é a tosse seca, possivelmente
decorrente de acúmulo de bradicinina (ver Capítulo 19). O acúmulo de
cininas pode também explicar, em parte, o aparecimento de angioedema (edema doloroso em tecidos que pode ser letal se envolver as vias
respiratórias); esse efeito adverso cancelou a introdução de omapatrilate,
um inibidor combinado de IECA/NEP, e também pode ocorrer, embora com
menor frequência, durante o tratamento com sacubitril, um inibidor
seletivo de NEP usado para insuficiência cardíaca crônica (ver adiante). O
tratamento de pacientes com estenose bilateral grave da artéria renal com
inibidores da ECA acarreta desenvolvimento de insuficiência renal. Esse
efeito é previsível, porque a filtração glomerular é mantida em nível
normal, contra a baixa pressão arteriolar aferente ocasionada pela
angiotensina II, que causa constrição seletiva das arteríolas eferentes; a
hiperpotassemia pode ser grave, em razão da redução da secreção da
aldosterona. Tal insuficiência renal é reversível, uma vez reconhecida
prontamente e suspenso o tratamento com o IECA.
■ Antagonistas do receptor de angiotensina II
Losartana, candesartana, valsartana e irbesartana (as chamadas
sartanas) são antagonistas não peptídicos dos receptores AT1 (BRA), ativos
por via oral. Os BRA diferem farmacologicamente dos IECA (Figura 23.8),
mas se comportam de maneira semelhante a estes, com a exceção de não
causarem tosse – o que é compatível com a explicação da “acumulação de
bradicinina” desse efeito colateral, comentada anteriormente. Os IECA, no
entanto, têm uma base de evidência mais robusta que os BRA, reduzindo a
morbidade e a mortalidade cardiovascular na hipertensão (incluindo o
acidente vascular encefálico [AVE]) em comparação ao placebo. Por
questões éticas, não estão disponíveis dados de estudos controlados com
placebo para BRA usados como agente único, visto que foram introduzidos
depois de estar disponível evidência incontroversa da eficácia de outras classes de fármacos. A situação ficou nublada com a evidência de dados de
ensaios clínicos fabricados em vários estudos da valsartana.
A ECA não é a única enzima capaz de formar angiotensina II, pois a
quimase (que não é inibida pelos IECA) fornece uma via alternativa. Não se
sabe se as vias alternativas da formação de angiotensina II são importantes
in vivo, mas, se assim for, então os BRA poderiam ser mais eficazes que os
IECA quando essas vias alternativas estão ativas. Mais uma vez, não se
sabe se algum dos efeitos benéficos dos IECA é mediado por
bradicinina/NO. Portanto, não é prudente supor que os BRA
necessariamente compartilharão todas as propriedades terapêuticas dos
IECA, embora haja uma considerável sobreposição nas indicações clínicas
desses medicamentos (ver Tabela 23.4).
■ Inibição da endopeptidase neutra (NEP, neprilisina)
▼ A NEP (ver também Capítulo 22) é uma metaloprotease dependente
de zinco que inativa vários mediadores peptídicos, incluindo não apenas
os peptídios natriuréticos (ANP e BNP), mas também glucagon,
encefalinas, substância P, neurotensina, ocitocina e bradicinina.
Também degrada o peptídio beta-amiloide (um suspeito na patogênese
da doença de Alzheimer, ver Capítulo 41). Em pessoas saudáveis, é
expresso em muitos tecidos, incluindo rim e pulmão. Vários inibidores
da NEP foram desenvolvidos para possíveis indicações, incluindo
analgesia e hipertensão; como já mencionado, um desses medicamentos,
o omapatrilate, é um inibidor combinado de IECA/NEP que não foi
introduzido porque originou angioedema.
Figura 23.8 Comparação dos efeitos da inibição da enzima conversora de
angiotensina e do bloqueio do receptor da angiotensina na vasculatura do antebraço humano. A. Efeito da infusão de angiotensina II na artéria braquial sobre o fluxo sanguíneo do antebraço após administração oral de placebo, enalapril (10 mg) ou losartana (100 mg). B. Efeito da infusão de bradicinina na artéria braquial, como em A. (De Cockcroft, J.R. et al., 1993. J. Cardiovasc. Pharmacol. 22, 579-584.)