Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 607 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Lítio

agentes antiepilépticos são geralmente referidos como fármacos de

estabilização do humor.

Outros agentes que podem apresentar algum efeito benéfico para o

tratamento do transtorno bipolar são os benzodiazepínicos (para acalmar,

induzir solonência e reduzir a ansiedade), memantina, amantadina e

cetamina. A utilização de fármacos antidepressivos é controversa. É

recomendada sua administração em conjunto com um agente antimania,

pois, em alguns pacientes, esses fármacos podem induzir ou aumentar a

mania.

Usados profilaticamente no transtorno bipolar, os fármacos impedem as

oscilações de humor e, desse modo, podem reduzir as fases depressiva e

maníaca da doença. São administrados durante longos períodos, e seus

efeitos benéficos levam 3 a 4 semanas para se desenvolver. Administrados

em crise aguda, são eficazes somente para reduzir a fase de mania, mas não

a fase depressiva (embora o lítio, algumas vezes, seja usado como adjunto

dos antidepressivos em casos graves de depressão unipolar).

 

LÍTIO

O efeito psicotrópico do lítio foi descoberto em 1949 por Cade, que previu

que os sais de urato deveriam impedir a indução pela uremia de um estado

de hiperexcitabilidade em cobaias. Ele verificou que o urato de lítio

produzia um efeito, rapidamente visto que se devia ao lítio, e não ao urato, e

prosseguiu mostrando que o lítio produzia melhora rápida em um grupo de

pacientes maníacos.

Os fármacos antiepilépticos atípicos (ver adiante) são igualmente

eficazes em tratar a mania aguda; atuam mais rapidamente e são

consideravelmente mais seguros, de modo que o uso clínico do lítio é confinado principalmente ao controle profilático do transtorno maníaco-

depressivo. A utilização do lítio vem declinando.5 Seu uso é relativamente

difícil, visto que necessita de monitoramento constante da concentração

plasmática e existe potencial para problemas no caso de pacientes com

lesão renal e de interações medicamentosas, como, por exemplo, com

diuréticos (ver Capítulo 58). O lítio pode apresentar efeitos benéficos em

doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer (ver Capítulo

41).

 

■ Efeitos farmacológicos e mecanismo de ação

O lítio é clinicamente eficaz em concentração plasmática de 0,5 a 1 mmol/l,

e acima de 1,5 mmol/l produz vários efeitos tóxicos, de modo que a janela

terapêutica é estreita. Em indivíduos normais, 1 mmol/l de lítio no plasma

não apresenta efeitos psicotrópicos apreciáveis. Produz, contudo, muitas

alterações bioquímicas detectáveis, e ainda não está claro como elas podem

estar relacionadas com o seu efeito terapêutico.

O lítio é um cátion monovalente que pode simular o papel do Na+ em

tecidos excitáveis, sendo capaz de permear os canais de Na+ controlados por

voltagem que são responsáveis pela geração de potenciais de ação (ver

Capítulo 4). Não é, contudo, bombeado para fora pela Na+/K+-ATPase e,

portanto, tende a acumular-se dentro de células excitáveis, levando à perda

parcial do K+ intracelular e à despolarização da célula.

Os efeitos bioquímicos do lítio são complexos e inibem muitas enzimas

que participam das vias de transdução de sinais. Acredita-se que os

seguintes efeitos bioquímicos sejam relevantes para suas ações terapêuticas:

 

• Inibição da inositol monofosfatase, que bloqueia a via fosfatidilinositol

(PI) (ver Capítulo 3) no ponto em que o fosfato de inositol é hidrolisado

a inositol livre, resultando em depleção de PI. Isso impede a formação

de trisfosfato de inositol estimulada por agonistas por intermédio de

vários receptores ligados ao PI e, portanto, bloqueia muitos efeitos

mediados pelos receptores

• Inibição das isoformas de glicogênio sintase quinase 3 (GSK3),

possivelmente por competir com o magnésio por sua associação com

essas quinases. As isoformas GSK3 fosforilam algumas enzimas-chave

envolvidas nas vias que levam à apoptose e à formação de amiloide

(Phiel e Klein, 2001). O lítio pode afetar também as isoformas GSK3

indiretamente por meio da interferência em sua regulação por Akt, uma

serina/treoninoquinase muito semelhante regulada por sinalização

mediada por PI e arrestinas (ver Capítulo 3; Beaulieu et al., 2009).

 

O lítio inibe a função da proteína G, reduzindo, assim, a ativação do canal

de K+ e a produção de cAMP induzida por hormônios. Também bloqueia

outras respostas celulares (p. ex., a resposta das células tubulares renais ao

hormônio antidiurético e da tireoide ao hormônio tireostimulante; Capítulos

30 e 35, respectivamente). Esse não é, contudo, um efeito acentuado no

cérebro.

A seletividade celular do lítio parece depender de sua recaptação

seletiva, refletindo a atividade dos canais de sódio em diferentes células.

Isso poderia explicar sua ação relativamente seletiva no cérebro e no rim,

embora muitos outros tecidos usem os mesmos segundos mensageiros.

Mesmo com tais esclarecimentos, nossa ignorância sobre a natureza do

transtorno subjacente às oscilações de humor no transtorno bipolar nos

deixa tatear em busca de ligações entre os efeitos bioquímicos e profiláticos

do lítio.

 

■ Aspectos farmacocinéticos e toxicidade O lítio é administrado por via oral, como sal de carbonato, e é eliminado

pelo rim. Cerca de metade de uma dose oral é eliminada em

aproximadamente 12 horas – o restante, que presumivelmente representa o

lítio captado pelas células, é eliminado durante as próximas 1 a 2 semanas.

Essa fase muito lenta significa que, com dosagem regular, o lítio acumula-

se lentamente durante 2 semanas ou mais, antes de o estado de equilíbrio

ser alcançado. O limite terapêutico estreito para a concentração plasmática

significa que o monitoramento da concentração no plasma é essencial. A

depleção de Na+ reduz a taxa de eliminação pelo aumento da reabsorção do

lítio pelo túbulo proximal e, desse modo, aumenta a probabilidade de

toxicidade. Os diuréticos que atuam distalmente ao túbulo proximal (ver

Capítulo 30) também têm esse efeito, e a doença renal também predispõe à

toxicidade pelo lítio.

Os principais efeitos tóxicos que podem ocorrer durante o tratamento

são os seguintes:

 

• Náuseas, vômitos e diarreia

• Tremor

• Efeitos renais: poliúria (com sede resultante), decorrente de inibição da

ação do hormônio antidiurético. Ao mesmo tempo, há certa retenção de

Na+ associada ao aumento da secreção de aldosterona. Com o

tratamento prolongado, pode ocorrer lesão tubular renal grave, tornando

essencial monitorar a função renal regularmente em pacientes tratados

com lítio

• Aumento de volume da tireoide, algumas vezes associado a

hipotireoidismo

• Ganho de peso

• Perda de cabelo.