Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 727 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Desenvolvimentos futuros

concebidos para superar o problema incluem a remoção de parte da medula

óssea do próprio paciente antes do tratamento, eliminando as células

cancerosas (usando anticorpos monoclonais específicos) e repondo a

medula após concluída a terapia citotóxica. Atualmente, com frequência,

emprega-se um protocolo em que alíquotas de células-tronco, coletadas do

sangue após a administração do fator de crescimento molgramostim – que

aumenta sua quantidade no sangue –, são expandidas in vitro, utilizando-se

outros fatores de crescimento hematopoéticos (ver Capítulo 26). O uso de

tais fatores de crescimento após a substituição da medula óssea tem sido

bem-sucedido em alguns casos. Outra possibilidade é a introdução, na

medula óssea que foi retirada, do gene mutado que confere resistência a

múltiplos fármacos, de maneira que, quando substituídas, as células da

medula óssea (mas não as células cancerosas) se mostrarão resistentes à

ação citotóxica dos fármacos anticâncer. O ácido folínico pode ser

administrado como suplemento para prevenir anemia ou como um

“salvamento” após uma dose elevada de metotrexato.

 

DESENVOLVIMENTOS FUTUROS

Como o leitor já terá percebido, a esta altura nossa atual abordagem para

quimioterapia do câncer abrange uma mistura eclética de medicamentos –

alguns muito antigos e outros muito novos –, em uma tentativa de atingir

seletivamente as células cancerosas. Já se verificaram progressos

terapêuticos reais, embora o “câncer” como doença (na verdade, muitas

doenças diferentes, com resultado semelhante) continue a representar

enorme desafio para as futuras gerações de investigadores. Nessa área

terapêutica, provavelmente mais do que em qualquer outra, o debate sobre a

relação risco-benefício do tratamento e sobre a qualidade de vida do paciente assumiu um papel central, e continua a ser uma das principais

áreas de preocupação (Duric e Stockler, 2001; Klastersky e Paesmans,

2001).

Dos recentes avanços na terapia medicamentosa, os inibidores da

tirosinoquinase e os biofármacos têm sido indiscutivelmente os mais

inovadores. Outros fármacos do tipo inibidor das quinases estão sob

investigação ativa (Vargas et al., 2013), assim como substâncias

antiangiogênicas (semelhantes ao bevacizumabe; Ferrarotto e Hoff, 2013).

Novos medicamentos que têm por alvo o receptor HER2 no câncer de

mama foram revisados por Abramson e Arteaga (2011). Warner e

Gustafsson (2010) destacaram as oportunidades oferecidas pela descoberta

de uma nova isoforma do receptor de estrógeno para o tratamento de câncer

de mama dependente de hormônios e de outros cânceres. Adicionalmente,

avanços recentes nos inibidores BTK, que têm como alvo primário os

mecanismos de sinalização não citotóxicos, em conjunto com inibidores dos

checkpoints imunes para reiniciarem os sistemas imunes para que estes

possam novamente reconhecer e destruir as células de câncer, são

paradigmas interessantes para o futuro da concepção inteligente de

fármacos para o câncer. Além disso, o uso de células geneticamente

modificadas como terapias anticâncer de “fármacos vivos” está se tornando

uma realidade. Por exemplo, células T receptoras de antígeno quiméricas

(células CAR-T) foram aprovadas para o tratamento da leucemia

linfoblástica aguda, com ensaios em curso para outros tipos de câncer. Estas

células expressam antígenos modificados dirigidos e que matam células de

câncer. Avanços na tecnologia da edição de genes (p. ex., CRISPR-Cas9 e

TALENs) tornaram possível aos pacientes receber células T alteradas que

matam o câncer, geradas a partir das suas próprias células T ou de um

doador (Delhove e Qasim, 2017). Descobertas impressionantes têm sido observadas com esses “fármacos vivos” em pacientes com câncer, cujos

tratamentos prévios falharam usando quimioterapia-padrão.

▼ Durante anos, as evidências epidemiológicas e experimentais têm

sido acumuladas, o que sugere que o uso crônico de inibidores da ciclo-

oxigenase (COX) (ver Capítulo 27) protege contra o câncer do trato GI

e, possivelmente, de outros locais também. A isoforma COX-2 é

superexpressa em cerca de 85% dos cânceres, e prostanoides originados

a partir dessa fonte podem ativar as vias de sinalização que permitem

que as células escapem à morte por apoptose. A literatura tem se

mostrado controversa, mas, atualmente, o balanço das evidências

favorece a noção de que a COX-2 pode ser um alvo potencialmente

importante para o desenvolvimento de fármacos anticâncer (Khan et al.,

2011). Os inibidores da COX-2 podem, portanto, ser úteis no tratamento

de alguns cânceres, isolados ou em combinação com agentes

quimioterapêuticos convencionais (Ghosh et al., 2010; Kraus et al.,

2013). Ironicamente, alguns autores (Gurpinar et al., 2013) argumentam

que o mecanismo de ação desses inibidores em modelos de câncer não

está relacionado com a inibição da COX. Sem dúvida, esses aparentes

paradoxos serão resolvidos com o passar do tempo.

Boa parte do trabalho está sendo feita na genotipagem do tecido tumoral,

como um guia para selecionar a melhor combinação de fármacos a serem

usados no tratamento de um paciente individual, com base nas

anormalidades genéticas particulares presentes nas células do tumor (Patel

et al., 2013; Dagogo-Jack e Shaw, 2018, para revisões). Essa abordagem,

ainda em seus estágios iniciais, é um exemplo de medicina personalizada

(ver Capítulo 12), e está começando a originar abordagens promissoras para

otimizar o tratamento, concebidas à medida de casos individuais de uma

variedade de cânceres, como o melanoma e o câncer de pulmão, e espera-se que evolua rapidamente. A análise do DNA tumoral circulante no sangue é

uma possibilidade, obviando a necessidade de biopsias.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

 

Geral

Airley, R., 2009. Anticancer Drugs. Wiley-Blackwell, Chichester. (Livro recente que cobre todos os

aspectos, desde a farmacologia básica até a utilização clínica)

 

Mecanismos da carcinogênese

Buys, C.H.C.M., 2000. Telomeres, telomerase and cancer. N. Engl. J. Med. 342, 1282–1283.

(Abordagem concisa e clara)

Chambers, A.F., Groom, A.C., MacDonald, I.C., 2002. Dissemination and growth of cancer cells in

metastatic sites-. Nat. Rev. Cancer 2, 563–567. (Revisão que ressalta a importância das

metástases na maioria das mortes por câncer, discute os mecanismos envolvidos na metástase e

levanta a possibilidade de transformar esses mecanismos em alvos para o desenvolvimento de

fármacos anticancerígenos)

Croce, C.M., 2008. Oncogenes and cancer. N. Engl. J. Med. 358, 502–511. (Boa revisão dos

oncogenes mais significativos envolvidos na carcinogênese)

Griffioen, A., Molema, G., 2000. Angiogenesis: potentials for pharmacologic intervention in the

treatment of cancer, cardiovascular diseases and chronic inflammation. Pharmacol. Rev. 52, 237–

268. (Revisão abrangente que aborda todos os aspectos da angiogênese e de potenciais métodos

para modificá-la a fim de produzir efeito antineoplásico)

Hanahan, D., Weinberg, R.A., 2011. Hallmarks of cancer: the next generation. Cell 144, 646–674.

(Excelente revisão dos mecanismos subjacentes a carcinogênese, desenvolvimento de câncer e

metástases)

Mimeault, M., Hauke, R., Batra, S.K., 2008. Recent advances on the molecular mechanisms involved

in the drug resistance of cancer cells and novel targeting therapies. Clin. Pharmacol. Ther. 83,

673–691. (Revisão abrangente que cobre todos os aspectos dessa área)

Weinberg, R.A., 1996. How cancer arises. Sci. Am. 275 (3), 62–70. (Visão geral, simples e clara, que

detalha os principais oncogenes, os genes supressores de tumor e o ciclo celular; excelentes

diagramas)

 

Terapia antineoplásica Gottesman, M.M., Fojo, T., Bates, S.E., 2002. Multidrug resistance in cancer: role of ATP-dependent

transporters. Nat. Rev. Cancer 2, 48–56. (Delineia os mecanismos celulares da resistência;

descreve os transportadores dependentes de ATP, enfatizando aqueles envolvidos no câncer

humano; cogita sobre as estratégias para a reversão da resistência)

Krause, D.S., Van Etten, R., 2005. Tyrosine kinases as targets for cancer therapy. N. Engl. J. Med.

353, 172–187. (Excelente revisão sobre as tirosinoquinases como alvos; bons diagramas e

tabelas, além de um estilo altamente legível)

Savage, D.G., Antman, K.H., 2002. Imatinib mesylate – a new oral targeted therapy. N. Engl. J. Med.

346, 683–693. (Revisão com uma abordagem detalhada desse fármaco relativamente novo para o

tratamento da leucemia mieloide crônica; diagramas muito bons)

 

Novas diretrizes e outros assuntos

Abramson, V., Arteaga, C.L., 2011. New strategies in HER2-overexpressing breast cancer: many

combinations of targeted drugs available. Clin. Cancer Res. 17, 952–958. (Trata principalmente

da forma como o uso dos agentes biológicos atuais pode ser otimizado, mas também discute

diversas novas opções terapêuticas)

Dagogo-Jack, I., Shaw, A.T., 2018. Tumour heterogeneity and resistance to cancer therapies. Nat.

Rev. Clin. Oncol. 15, 81–94. (Excelente revisão da heterogeneidade tumoral e personalização da

terapia)

Delhove, J.M.K.M., Qasim, W., 2017. 2017 genome-edited T Cell therapies. Curr. Stem Cell Rep. 3

(2), 124–136.

Duric, V., Stockler, M., 2001. Patients’ preferences for adjuvant chemotherapy in early breast cancer.

Lancet Oncol. 2, 691–697. (O título é autoexplicativo; relaciona os pacientes com suas

qualidades de vida)

Ferrarotto, R., Hoff, P.M., 2013. Antiangiogenic drugs for colorectal cancer: exploring new

possibilities. Clin. Colorectal Cancer 12, 1–7. (Boa revisão desse assunto, clínica em tom e

conteúdo)

Ghosh, N., Chaki, R., Mandal, V., Mandal, S.C., 2010. COX-2 as a target for cancer chemotherapy.

Pharmacol. Rep. 62, 233–244. (Excelente revisão dessa área, muitas vezes controversa)

Gurpinar, E., Grizzle, W.E., Piazza, G.A., 2013. COX-independent mechanisms of cancer

chemoprevention by anti-inflammatory drugs. Front. Oncol. 3, 1–81. (Um ponto de vista

contrário em relação ao alvo da ação dos inibidores da COX-2 no câncer. Leitura interessante)

Keith, W.N., Bilsland, A., Hardie, M., Evans, T.R., 2004. Drug insight: cancer cell immortality –

telomerase as a target for novel cancer gene therapies. Nat. Clin. Pract. Oncol. 1, 88–96.

Khan, Z., Khan, N., Tiwari, R.P., Sah, N.K., Prasad, G.B., Bisen, P.S., 2011. Biology of COX-2: an

application in cancer therapeutics. Curr. Drug Targets 12, 1082–1093.

Klastersky, J., Paesmans, M., 2001. Response to chemotherapy, quality of life benefits and survival in

advanced non-small lung cancer: review of literature results. Lung Cancer 34, S95–S101. (Outro

artigo que aborda questões sobre qualidade de vida que cercam a quimioterapia)

Kraus, S., Naumov, I., Arber, N., 2013. COX-2 active agents in the chemoprevention of colorectal

cancer. Recent Results Cancer Res. 191, 95–103.

Patel, L., Parker, B., Yang, D., Zhang, W., 2013. Translational genomics in cancer research:

converting profiles into personalized cancer medicine. Cancer Biol. Med. 10, 214–220. (Discute

perspectivas para a terapia personalizada do câncer com base na genotipagem)

Tookman, L., Roylance, R., 2010. New drugs for breast cancer. Br. Med. Bull. 96, 111–129. (Leitura

fácil, que leva em conta a utilização e a ação dos produtos biológicos no câncer de mama;

revisão de algumas das novas e promissoras pistas em investigação. Recomendado)

Vargas, L., Hamasy, A., Nore, B.F., Smith, C.I., 2013. Inhibitors of BTK and ITK: state of the new

drugs for cancer, autoimmunity and inflammatory diseases. Scand. J. Immunol. 78, 130–139.

(Excelente consideração nessa área, juntamente com uma discussão acerca das mutações com

“perda de função” nessas quinases que podem predispor ao desenvolvimento de câncer. Bons

diagramas)

Warner, M., Gustafsson, J.A., 2010. The role of estrogen receptor beta (ERbeta) in malignant

diseases – a new potential target for antiproliferative drugs in prevention and treatment of cancer.

Biochem. Biophys. Res. Commun. 396, 63–66. (O título é autoexplicativo. Artigo com raciocínio

provocativo se você tiver interesse em receptores de estrógeno e câncer)

 

Recursos úteis na web

http://www.cancer.org/ (Site americano equivalente ao site inglês apresentado a seguir. As melhores

seções para você são aquelas contidas no link Health Information Seekers and Professionals)

http://www.cancerresearchuk.org (Website do Cancer Research UK, a maior instituição beneficente

do Reino Unido que se dedica a pacientes com câncer. Contém valiosos dados sobre

epidemiologia e tratamento do câncer, inclusive links para ensaios clínicos. Excelente fonte de

informações).

____________

1 O câncer em geral é uma doença da idade avançada – você teria de estar vivo há tempo suficiente para que todas as mutações se acumulassem e criassem um fenótipo de câncer que escapasse ao sistema de vigilância imunológica do corpo. Os oncologistas clínicos estão melhorando gradualmente o seu tratamento. Seu objetivo é mantê-lo vivo tempo suficiente para que morra de outra coisa que não câncer: uma medida do seu sucesso.

2 Doenças malignas de células do sangue – linfomas e leucemias – são não formadoras de tumor, e por vezes não são referidas como câncer. Em conjunto com os mielomas, elas são geralmente classificadas como “cânceres do sangue”. Posto isso, o termo “câncer” é usado para cobrir todos os tipos de doença maligna.

3 Após estarem gastas, as terminações dos telômeros enviam sinais celulares para parar a replicação para sempre, o que justifica que nós, seres humanos, tenhamos um tempo de vida limitado. As células cancerosas, no entanto, expressam telomerases para construir constantemente a terminação do telômero e, portanto, perderam esses sinais de “terminar replicação” para limitar o seu tempo de vida – algumas linhagens de células de câncer têm se replicado no laboratório por muitas décadas. O peso total de uma linhagem tumoral individual cultivada em muitos laboratórios por todo o mundo significa que a única célula cancerosa original comporta agora muitas e muitas cópias de si mesma no total – muito mais pesado do que o tumor individual do qual derivou. O paciente pode ter se desintegrado no túmulo, mas as suas células cancerosas continuam a seguir em frente – teoricamente, para sempre!

4 Embora não amplamente aceito, existe uma escola de pensamento que diz que manter a integridade do tumor primário e inibir a sua metastização prolongaria a vida do indivíduo com câncer. Pode parecer uma abominação nutrir um tumor para o manter feliz e evitar induzir-lhe estresse, a fim de prevenir qualquer comportamento metastático.

5 O termo agente citotóxico aplica-se a qualquer fármaco que consiga destruir ou matar as células. Na prática, é usado de maneira mais restrita para se referir a fármacos que inibem a divisão celular e, portanto, são potencialmente úteis na quimioterapia do câncer.

6 Você deve ter percebido que muitos fármacos anticâncer são tóxicos. Um médico disse que, “para ser um oncologista, deve-se odiar o câncer mais do que se ama a vida”.

7 Foi a visão clínica de Alfred Goodman e Louis Gilman que levou ao teste da mustina (que se tornou a primeira substância anticâncer eficaz), uma versão modificada e estável de “gás mostarda”, para tratar linfomas. Eles também escreveram o que viria a se tornar um famoso livro de farmacologia.

8 Já havia sido descoberto de forma inesperada, enquanto usado como sedativo, que a talidomida

causa diminuição das tumefações cutâneas da hanseníase (ver Capítulo 52), estando aprovada para essa indicação bem como para o mieloma.

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