Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 164 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Término da ação dos transmissores

pós-sinápticos. A Figura 13.5 mostra um exemplo de cotransmissão

realizada pelo par norepinefrina/ATP nas terminações nervosas simpáticas,

e os exemplos e mecanismos mais bem estudados aparecem resumidos na

Tabela 13.2 e nas Figuras 13.6 e 13.7.

Alguém poderia perguntar: qual é a vantagem funcional da

cotransmissão quando comparada com a transmissão realizada por apenas

um transmissor que age sobre vários receptores diferentes? As possíveis

vantagens são:

 

• Um constituinte do coquetel (p. ex., um peptídio) pode ser removido ou

inativado mais lentamente que outro (p. ex., uma monoamina) e, como

consequência, pode atingir alvos mais distantes do local de liberação e

produzir efeitos mais duradouros. Este parece ser o caso, por exemplo,

da acetilcolina e do hormônio liberador de gonadotrofinas em gânglios

simpáticos

• O equilíbrio entre os transmissores liberados pode variar sob diferentes

condições. Em terminações nervosas simpáticas, por exemplo, em que a

norepinefrina e o NPY são armazenados em vesículas separadas, o NPY

é liberado preferencialmente em frequências de estimulação altas, de

modo que a liberação distinta de um ou outro mediador pode resultar de

uma variação no padrão de descarga. Também são possíveis efeitos

diferenciais dos moduladores pré-sinápticos; por exemplo, a ativação de

receptores β-adrenérgicos inibe a liberação de ATP, ao mesmo tempo

que aumenta a liberação de norepinefrina das terminações nervosas

simpáticas.

 

TÉRMINO DA AÇÃO DOS TRANSMISSORES

Além da variedade peptidérgica (ver Capítulo 19), as sinapses de

transmissão química invariavelmente incorporam um mecanismo para o rápido processamento do transmissor liberado, de modo que sua ação seja

breve e localizada. Nas sinapses colinérgicas (ver Capítulo 14), a

acetilcolina liberada é rapidamente inativada na fenda sináptica pela

acetilcolinesterase. Na maioria dos demais casos (Figura 13.8), a ação do

transmissor é finalizada pela sua captura ativa realizada pelo neurônio pré-

sináptico ou por células de suporte, como a glia. Tal captura depende de

proteínas transportadoras (ver Capítulo 4), sendo cada uma específica para

determinado transmissor. A principal classe (cotransportadores Na+-Cl−),

em que tanto sua estrutura molecular quanto sua função são bem conhecidas

(Torres et al., 2003; Gether et al., 2006), consiste em uma família de

proteínas de membrana, cada uma com 12 hélices transmembrana.

Diferentes membros da família apresentam seletividade para um dos

principais transmissores monoaminados (p. ex., o transportador de

norepinefrina, NET; o transportador de serotonina, SERT, que transporta 5-

hidroxitriptamina; e o transportador de dopamina, DAT) (Manepalli et al.,

2012). Esses transportadores são importantes alvos para fármacos

psicoativos, especialmente os antidepressivos (ver Capítulo 48), fármacos

ansiolíticos (ver Capítulo 45) e estimulantes (ver Capítulo 49). Os

transportadores de glicina e GABA pertencem à mesma família.

Os transportadores vesiculares (ver Capítulo 4), que preenchem

vesículas sinápticas com moléculas de transmissor, estão intimamente

relacionados com os transportadores da membrana plasmática. Estes

últimos, em geral, agem como cotransportadores de Na+, Cl− e moléculas de

transmissores, e é o movimento do Na+ para dentro da célula, a favor de seu

gradiente, que fornece a energia necessária para o movimento do

transmissor para dentro da célula, contra o gradiente. O transporte

simultâneo de íons e transmissores indica que o processo produz uma

corrente resultante através da membrana, que pode ser medida diretamente e utilizada para monitorar o processo de transporte. Mecanismos muito

semelhantes são responsáveis por outros processos fisiológicos de

transporte, tais como a captação da glicose (ver Capítulo 32) e o transporte

de aminoácidos nos túbulos renais. Pelo fato de o gradiente eletroquímico

do sódio determinar o transporte das moléculas do transmissor para dentro

da célula, uma redução desse gradiente pode diminuir ou até mesmo

inverter o fluxo do transmissor. Em condições fisiológicas, esse fato

provavelmente não é importante; no entanto, quando as terminações

nervosas estão despolarizadas ou anormalmente sobrecarregadas com sódio

(p. ex., em condições isquêmicas) a liberação não vesicular de transmissor

resultante (e a inibição do mecanismo normal de captura sináptica) pode

desempenhar papel significativo nos efeitos da isquemia sobre tecidos como

coração e cérebro (ver Capítulos 22 e 41). Estudos com camundongos

transgênicos “nocautes” (Torres et al., 2003) mostram que as reservas de

transmissor disponível para liberação encontram-se substancialmente

depletadas nos animais desprovidos do transportador de membrana,

evidenciando que a síntese do transmissor é incapaz de manter o

armazenamento quando o mecanismo de captura está desativado. Tal como

para os receptores (ver Capítulo 3), nos humanos existem muitos

polimorfismos genéticos dos genes de transportadores, estando associados a

várias doenças neurológicas, cardiovasculares e psiquiátricas, fornecendo

informação sobre as suas etiologias e explicando a diferente resposta aos

fármacos (Reynolds et al., 2014).

Figura 13.5 ATP e óxido nítrico como neurotransmissores. A. A norepinefrina e o ATP são cotransmissores liberados pelos mesmos nervos no canal deferente do porquinho-da-índia. A figura mostra as contrações do tecido em resposta a um estímulo elétrico isolado que provoca a excitação de terminações nervosas simpáticas. Na ausência de fármacos bloqueadores, é produzida uma resposta com dois picos (C). O primeiro pico é abolido de modo seletivo pelo antagonista do ATP, a suramina (S), enquanto o segundo é bloqueado pelo antagonista do receptor α1-adrenérgico, prazosina (P). A resposta é totalmente eliminada quando os dois fármacos estão presentes. B. A norepinefrina e o óxido nítrico são neurotransmissores no músculo anococcígeo do rato e provavelmente são liberados por nervos diferentes. Os nervos que inervam o músculo foram estimulados com breves impulsos sequenciais. Inicialmente, a estimulação nervosa evocou contrações rápidas por meio da liberação de norepinefrina. A aplicação de guanetidina bloqueou a liberação de norepinefrina evocada pelo estímulo e elevou a preparação, revelando relaxamentos evocados pelo nervo que foram bloqueados pelo L-NAME, um inibidor da síntese de óxido nítrico. (Painel [A] reproduzido com a permissão de von Kugelglen, I., Starke, K., 1991. Trends Pharmacol. Sci. 12, 319–324; os dados do painel [B] são de uma aula prática dos estudantes da Glasgow Caledonian University, cortesia de A. Corbett.)