Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 647 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Estado atual da resistência aos antibióticos em bactérias

A última avaliação da OMS (2016) afirma que a resistência a antibióticos é

agora observada em todos os países. Sem antibióticos eficazes, muitos

procedimentos cirúrgicos de rotina e outras intervenções médicas são

impossíveis. Considerando o Reino Unido e os EUA em conjunto, as

mortes por infecção por cepas resistentes estão na faixa de 23.000 a 25.000

por ano, mas em países em desenvolvimento os números da mortalidade são

pelo menos o dobro destes.

Também evidencia os seguintes casos como tendo especial significado:

 

• Klebsiella pneumoniae. A resistência desse organismo a antibióticos de

“última linha” como os carbapenêmicos disseminou-se pelo mundo e,

em muitos países, o tratamento falha em cerca de metade dos casos

• Escherichia coli. Em muitos países, este organismo tornou-se resistente

às fluoroquinolonas e, mais uma vez, o tratamento falha em cerca de

metade dos pacientes em algumas partes do mundo

• Neisseria gonorrhoeae. É agora resistente aos antibióticos

cefalosporínicos de “última linha” em cerca de 10 países

• Staphylococcus aureus. Existe agora resistência disseminada aos

fármacos de primeira linha, e os pacientes com Staphylococcus aureus

meticilinorresistentes (MRSA) têm duas vezes mais probabilidade de

morrer de infecção. As taxas de mortalidade estão diminuindo na

América do Norte e na Europa, mas aumentando nos países em

desenvolvimento

• Enterobacteriaceae spp. Estes organismos podem causar infecções

potencialmente fatais, e foi recentemente relatada resistência ao fármaco

de “última linha”, colistina

Mycobacterium tuberculosis. Cepas multirresistentes (MDR-TB) e

• cepas extensivamente multirresistentes (XMDR-TB) estão aumentando,

e a mortalidade dessa doença até agora tratável está aumentando.

 

Então qual é o caminho a seguir? Alguns autores (p. ex., Chaudhary, 2016)

defenderam abordar o problema no momento do diagnóstico e prescrição,

sugerindo que os testes de suscetibilidade bacteriana deveriam ser

mandatórios antes de o fármaco ser ministrado. Prescrição desnecessária (p.

ex., para infecções virais), dosagem inadequada ou duração inapropriada do

tratamento (que leva frequentemente à resistência) devem todos ser

escrupulosamente evitados, e adesão mais rigorosa dos pacientes aos

regimes antibióticos ajudaria. A terapia com uso de múltiplos antibióticos

atuando por intermédio de diferentes mecanismos pode ser uma estratégia

útil em alguns casos. As medidas de saúde pública como procedimentos de

controle de infecção também têm um papel-chave.

Os prescritores e consumidores também têm responsabilidade pelo

florescente problema da resistência. O uso indiscriminado de antibióticos

em agricultura, medicina humana e veterinária, bem como o seu uso nos

alimentos para animais, certamente estimulou a disseminação de cepas

resistentes. A maior parte dos membros do público em geral têm apenas

uma vaga noção das causas do problema, de suas prováveis implicações e

de seu próprio papel no desenvolvimento deste (McCullough et al., 2016).

De forma mais preocupante, muitos clínicos, embora compreendam o

problema, também parecem não estar atentos ao seu papel crucial na

disseminação do mesmo (McCullough et al., 2015). Alguns corpos

governamentais e reguladores (p. ex., a União Europeia) conceberam

medidas sociais e políticas para colmatar esses excessos, e estes foram pelo

menos parcialmente bem-sucedidos. Esperemos que eles continuem sendo.

Resistência multifarmacológica

 

Algumas bactérias patogênicas desenvolveram resistência a muitos antibióticos ou aos usados

com mais frequência. Exemplos incluem os seguintes:

• Algumas cepas de esta lococos e enterococos que são resistentes a, praticamente, todos

os antibióticos atuais, sendo a resistência transferida por transpósons e/ou plasmídios;

esses organismos podem causar infecções adquiridas no hospital graves e virtualmente

intratáveis (chamadas nosocomiais)

• Algumas cepas de Mycobacterium tuberculosis que se tornaram resistentes à maior parte

dos agentes antituberculosos

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Amyes, S.G.B., 2001. Magic Bullets, Lost Horizons: The Rise and Fall of Antibiotics. Taylor &

Francis, London. (Livro instigante de um bacteriologista com vasta experiência em resistência

bacteriana e genética; ele opina que, a menos que o problema da resistência aos antibióticos seja

resolvido em 5 anos, “vamos cair ainda mais fundo no abismo da infecção incontrolável”)

Arias, C.A., Murray, B.E., 2012. The rise of the Enterococcus: beyond vancomycin resistance. Nat.

Rev. Microbiol. 10, 266–278. (Uma revisão abrangente que trata de muitos aspectos da

resistência à vancomicina em enterococos e outras espécies. Altamente recomendado)

Barrett, C.T., Barrett, J.F., 2003. Antibacterials: are the new entries enough to deal with the emerging

resistance problem? Curr. Opin. Biotechnol. 14, 621–626. (Boa revisão geral, com alguns

exemplos convincentes e um resumo dos novos candidatos a fármacos)

Bax, R., Mullan, N., Verhoef, J., 2000. The millennium bugs – the need for and development of new

antibacterials. Int. J. Antimicrob. Agents 16, 51–59. (Excelente revisão do problema da

resistência e alguns potenciais novos antibióticos)

Bhullar, K., Waglechner, N., Pawlowski, A., et al., 2012. Antibiotic resistance is prevalent in an

isolated cave microbiome. PLoS ONE 7, e34953. (A extraordinária descoberta das bactérias

resistentes aos antibióticos em cavernas que ficaram isoladas desde antes de os hominídios

andarem na Terra mudou a nossa compreensão sobre a natureza desse importante mecanismo.

Ver também Pawlowski et al. adiante)

Chaudhary, A.S., 2016. A review of global initiatives to fight antibiotic resistance and recent

antibiotics discovery. Acta. Pharm. Sin. B 6, 552–556. (Relato curto, porém sucinto, da luta

contra a resistência aos antibióticos. Fácil de ler)

Cox, G., Wright, G.D., 2013. Intrinsic antibiotic resistance: mechanisms, origins, challenges and

solutions. Int. J. Med. Microbiol. 303, 287–292. (Este artigo faz uma revisão dos mecanismos

gerais de resistência bacteriana com base na noção de que a resistência é uma defesa de

ocorrência natural nas bactérias. Recomendado)

de Lencastre, H., Oliveira, D., Tomasz, A., 2007. Antibiotic resistant Staphylococcus aureus: a

paradigm of adaptive power. Curr. Opin. Microbiol. 10, 428–435. (Uma leitura um pouco

especializada, mas que vale a pena ler. Concentra-se na extraordinária capacidade deste

organismo de sobreviver ao ataque de praticamente todos os fármacos no nosso arsenal de

antibióticos)

Giedraitiene, A., Vitkauskiene, A., Naginiene, R., Pavilonis, A., 2011. Antibiotic resistance

mechanisms of clinically important bacteria. Medicina 47, 137–146. (Boa revisão dos

mecanismos de resistência)

Hawkey, P.M., 1998. The origins and molecular basis of antibiotic resistance. Br. Med. J. 7159, 657–

659. (Visão geral sucinta da resistência; diagramas simples e úteis; este é um de 12 artigos sobre

a resistência nesta edição da revista)

Knodler, L.A., Celli, J., Finlay, B.B., 2001. Pathogenic trickery: deception of host cell processes.

Mol. Cell. Biol. 2, 578–588. (Discute os estratagemas bacterianos para subverter ou bloquear

processos celulares normais do hospedeiro: mimetizando os ligantes para os receptores das

células do hospedeiro ou vias de sinalização. Lista útil de exemplos)

Lambert, P.A., 2005. Bacterial resistance to antibiotics: modified target sites. Adv. Drug Deliv. Rev.

57, 1471–1485. (Excelente revisão que trata deste importante tópico. Numerosos exemplos

tirados de estudos com muitas diferentes espécies de bactérias)

Levy, S.B., 1998. The challenge of antibiotic resistance. Sci. Am. March, 32–39. (Revisão simples e

inteligente por um perito na área; excelentes diagramas)

McCullough, A.R., Rathbone, J., Parekh, S., Hoffmann, T.C., Del Mar, C.B., 2015. Not in my

backyard: a systematic review of clinicians’ knowledge and beliefs about antibiotic resistance. J.

Antimicrob. Chemother. 70, 2465–2473.

McCullough, A.R., Parekh, S., Rathbone, J., Del Mar, C.B., Hoffmann, T.C., 2016. A systematic

review of the public’s knowledge and beliefs about antibiotic resistance. J. Antimicrob.

Chemother. 71, 27–33.

Nesme, J., Simonet, P., 2015. The soil resistome: a critical review on antibiotic resistance origins,

ecology and dissemination potential in telluric bacteria. Environ. Microbiol. 17, 913–930.

(Excelente revisão, que trata da importância das bactérias do solo como fonte de genes de

resistência. Muito informativa e fácil de ler. Altamente recomendada)

Pawlowski, A.C., Wang, W., Koteva, K., Barton, H.A., McArthur, A.G., Wright, G.D., 2016. A

diverse intrinsic antibiotic resistome from a cave bacterium. Nat. Commun. 7, 13803. (Analisa os

genes de resistência em uma bactéria particular isolada de cavernas profundas e compara-os

com as espécies da superfície, encontrando cinco novos mecanismos de resistência. Ler em

conjunto com Bhullar et al. 2012, anteriormente)

Sandegren, L., Andersson, D.I., 2009. Bacterial gene amplification: implications for the evolution of

antibiotic resistance. Nat. Rev. Microbiol. 7, 578–588.

Shlaes, D.M., 2003. The abandonment of antibacterials: why and wherefore? Curr. Opin. Pharmacol.

3, 470–473. (Boa revisão que explica as razões subjacentes ao problema da resistência e os

obstáculos regulamentares e outros que devem ser ultrapassados antes de novos antibacterianos

aparecerem no mercado; tom quase apocalíptico)

St Georgiev, V., 2000. Membrane transporters and antifungal drug resistance. Curr. Drug Targets 1,

184–261. (Discute vários aspectos da resistência multifarmacológica em fungos causadores de

doença no contexto do desenvolvimento de fármacos com alvo terapêutico)

Van Bambeke, F., Pages, J.M., Lee, V.J., 2006. Inhibitors of bacterial efflux pumps as adjuvants in

antibiotic treatments and diagnostic tools for detection of resistance by efflux. Recent. Pat.

Antiinfect. Drug Discov. 1, 157–175.

van Belkum, A., 2000. Molecular epidemiology of methicillin-resistant Staphylococcus aureus

strains: state of affairs and tomorrow’s possibilities. Microb. Drug Resist. 6, 173–187.

Volpato, J.P., Pelletier, J.N., 2009. Mutational ‘hot-spots’ in mammalian, bacterial and protozoal

dihydrofolate reductases associated with antifolate resistance: sequence and structural

comparison. Drug Resist. Updat. 12, 28–41.

Walsh, C., 2000. Molecular mechanisms that confer antibacterial drug resistance. Nature 406, 775–

781. (Excelente revisão delineando os mecanismos de ação dos antibióticos e os estratagemas de

resistência das bactérias; diagramas muito bons)

Woodford, N., 2005. Biological counterstrike: antibiotic resistance mechanisms of Gram-positive

cocci. Clin. Microbiol. Infect. 3, 2–21. (Referência útil que classifica a resistência a antibióticos

como uma das principais preocupações de saúde pública do século XXI e discute o tratamento

farmacológico para cepas resistentes)

Wright, G.D., 2005. Bacterial resistance to antibiotics: enzymatic degradation and modification. Adv.

Drug Deliv. Rev. 57, 1451–1470. (Esta abrangente revisão fornece detalhes sobre as várias vias

que se desenvolveram nas bactérias para destruir antibióticos. Uma leitura um pouco complexa,

mas fascinante)

Zasloff, M., 2002. Antimicrobial peptides of multicellular organisms. Nature 415, 389–395. (Artigo

instigante sobre os potentes peptídios antimicrobianos de amplo espectro que tanto animais

quanto plantas possuem, os quais são usados para repelir uma grande variedade de micróbios;

sugere-se que explorá-los pode ser uma resposta para o problema da resistência a antibióticos) Recursos úteis na web

Global Antibiotic Resistance Partnership(GARP) ver https://www.cddep.org/garp/home. (Esta

organização principalmente beneficente compreende muitos grupos de trabalho nacionais que

procuram compreender o uso de antibióticos em países de todo o mundo e fazer recomendações

para o uso racional e sustentável com base no conhecimento das condições locais)

Organização Mundial da Saúde(OMS) tem páginas na web que lidam com o problema global dos

antibióticos, e a Folha de Fatos sobre Resistência aos Antibióticos (Antibiotic Resistance Fact

Sheet) (ver http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs194/en), atualizada regularmente,

contém informação definitiva sobre a situação atual em todo o mundo.

____________

1 Compostos contendo mercúrio também foram outrora usados com

frequência para tratar a sífilis. “Uma noite com Vênus, uma vida com

Mercúrio” era um dizer anterior ao advento da era dos antibióticos.

2 Os seres humanos têm cerca de 2 kg de bactérias no intestino,

compreendendo um grande “órgão esquecido” no corpo que tem funções

metabólicas importantes e que, juntamente com os comensais que vivem na

pele e outros órgãos, são coletivamente conhecidos como microbioma.

3 Questione se 30S + 50S = 70S? Sim, porque falamos de unidades de

Svedberg, que medem a taxa de sedimentação, que é apenas parcialmente

dependente da massa.

4 As bactérias não contêm mitocôndrias, de modo que os fármacos como a

atovaquina (ver Capítulo 55), que têm como alvo essas organelas nos

parasitas, são ineficazes em bactérias. No entanto, eles podem lesionar as

mitocôndrias do hospedeiro (que se originaram das bactérias durante a

evolução dos eucariontes) e contribuir para a toxicidade encontrada durante

o seu uso.

5 O “quorum sensing” é um mecanismo pelo qual as colônias de bactérias

podem regular a sua expressão gênica (e outra atividade metabólica) de

acordo com a sua densidade populacional.

6 De acordo com uma escola de pensamento, os vírus podem ter surgido

como transpósons que escaparam das células e continuaram exercendo a

sua atividade de modo independente.

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