Rang e Dale: Farmacologia
Seção 1 Princípios Gerais
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Este capítulo introdutório explica como a farmacologia surgiu e evoluiu
como disciplina científica, descrevendo a estrutura atual do tema e suas
associações com outras ciências biomédicas. Sua configuração constitui a
base da organização do restante deste livro. Os leitores ansiosos para se
atualizarem sobre farmacologia podem, sem receio, pular este capítulo.
O QUE É UM FÁRMACO?
Para os propósitos deste livro, um fármaco pode ser definido como uma
substância química de estrutura conhecida, que não seja um nutriente ou
um ingrediente1 essencial da dieta, o qual, quando administrado a um
organismo vivo, produz um efeito biológico.
Alguns pontos merecem ser observados. Fármacos podem ser
substâncias químicas sintéticas, substâncias químicas obtidas a partir de
plantas ou animais ou produtos de biotecnologia (biofármacos). Um
medicamento é uma preparação química que, em geral – mas não
necessariamente –, contém um ou mais fármacos, administrado com a
intenção de produzir determinado efeito terapêutico. Em geral, os medicamentos contêm outras substâncias (excipientes, conservantes,
solventes etc.) ao lado do fármaco ativo, a fim de tornar seu uso mais
conveniente. Para que a substância seja considerada um fármaco, deve ser
administrada como tal, em vez de ser liberada por mecanismos fisiológicos.
Várias substâncias, como insulina ou tiroxina, são hormônios endógenos,
mas também são fármacos quando intencionalmente administradas. Muitos
fármacos não são usados normalmente em medicina, mas se revelam úteis
ferramentas de pesquisa. A definição de fármacos também inclui as toxinas,
que, da mesma forma, não são geralmente administradas na prática clínica,
mas ainda assim são ferramentas farmacológicas fundamentais. Na
linguagem comum, a palavra droga está frequentemente associada a
substâncias psicoativas e à dependência – infelizmente, conotações
negativas que tendem a influenciar a opinião desinformada contra qualquer
forma de terapia química. Neste livro, nos concentramos principalmente nos
fármacos usados para fins terapêuticos, mas também descrevemos fármacos
psicoativos e fornecemos exemplos importantes de substâncias usadas
como ferramentas experimentais. Os venenos caem estritamente dentro da
definição de drogas, e na verdade, “todos os fármacos são venenos (…)
apenas a dose diferencia veneno de um fármaco” (um aforismo creditado a
Paracelso, um médico suíço do século XVI). Por outro lado, os venenos
podem ser agentes terapêuticos eficazes quando administrados em doses
subtóxicas. A toxina botulínica (ver Capítulo 14) fornece um exemplo
notável: é o veneno mais potente conhecido em relação à sua dose letal,
mas é amplamente utilizada tanto como medicamento quanto como
cosmético. Aspectos gerais dos efeitos nocivos dos fármacos são
considerados no Capítulo 58. A toxicologia é o estudo dos efeitos tóxicos
das substâncias químicas (incluindo fármacos), e os testes toxicológicos são
realizados em novas entidades químicas durante o seu desenvolvimento