Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos antirreumáticos
A artrite reumatoide é uma das afecções inflamatórias crônicas mais
comuns nos países desenvolvidos, e uma causa comum de incapacidade.7
As articulações afetadas se tornam edemaciadas, doloridas, deformadas e
imóveis. É provável que um em cada três pacientes com artrite reumatoide
fique gravemente incapacitado. Além disso, a doença tem, entre outras,
manifestações sistêmicas cardiovasculares e risco aumentado de
mortalidade. As alterações articulares degenerativas, causadas por uma
reação autoimune, são caracterizadas por inflamação, proliferação da
sinóvia e erosão da cartilagem e do osso. As citocinas inflamatórias
primárias, IL-1 e (especialmente) TNF-α, têm papel importante na doença
(ver Capítulo 19). A Figura 27.3 consiste em um esquema simplificado
mostrando o desenvolvimento da artrite reumatoide e os locais de ação dos
fármacos terapêuticos. Davis e Matteson (2012) reviram a classificação e o
tratamento desta patologia sofrida e incapacitante.
Fármacos antirreumáticos modificadores da doença
Os fármacos mais usados na terapia inicial são os “antirreumáticos
modificadores da doença”8 (ARMD – em especial o metotrexato) e os
AINE. Ao contrário dos AINE, que apenas reduzem os sintomas, os ARMD
visam suspender ou reverter a própria doença subjacente. Apesar do fato de
muitas dessas alegações errarem no lado otimista, esses fármacos são ainda
úteis no tratamento de certos grupos de pacientes, e Rau (2005) argumenta a
favor de sua utilização contínua, apesar da disponibilidade de agentes
anticitocinas mais recentes (ver adiante). O termo “ARMD” é um conceito
elástico que tem sido estendido para abarcar um grupo heterogêneo de
agentes com diferentes estruturas químicas e mecanismos de ação. Estão
incluídos nessa categoria metotrexato, sulfassalazina, compostos de ouro,
penicilamina, cloroquina e outros antimaláricos (Tabela 27.2), assim como
vários fármacos imunossupressores.
Tabela 27.2 Comparação de alguns fármacos
“modificadores de doença” comuns e
imunossupressores usados no tratamento de
artrites.
Tipo Fármaco Indicação Comentários
Muitos efeitos adversos. Ação com
Complexos de ouro Aurotiomalato de sódio AR progressiva
latência prolongada
Cloroquina AR, LES moderados Usado quando outras terapias falham
Antimaláricos
Também é útil para algumas doenças
Sulfato de hidroxicloroquina AR, LES moderados
cutâneas
Um fármaco de “primeira escolha”.
Também usado para tratamento da
AR, PS, ARJ moderadas a
Metotrexato doença de Crohn e câncer.
graves
Frequentemente usado em combinação
com outros fármacos
Usado quando outras terapias falham.
Azatoprina AR, DII Também usado na rejeição de
Imunomoduladores
transplantes, DII e eczema
Usado quando outras terapias falham,
Ciclosporina AR, DA, AP graves em algumas doenças cutâneas e rejeição
de transplantes
Ciclofosfamida AR grave Usado quando outras terapias falham
Le unomida AR, AP moderadas a graves Também usado em artrite psoriática
AINE Sulfassalazina AR, AP, ARJ Um fármaco de “primeira escolha”.
Também usado em colite ulcerosa
Metabólito da Muitos efeitos adversos. Ação com
Penicilamina AR grave
penicilina latência prolongada
AINE, fármacos anti-in amatórios não esteroides; AP, artrite psoriática; AR, artrite reumatoide; ARJ, artrite reumatoide juvenil;
DA, dermatite atópica; DII, doença in amatória intestinal; LES, lúpus eritematoso sistêmico; PS, psoríase.
(Dados de diversas fontes, incluindo o British National Formulary, 2017.)
▼ A ação antirreumática da maioria desses agentes foi descoberta por
meio de uma mistura de acaso com intuição clínica. Quando os
fármacos foram introduzidos, nada se sabia sobre seu mecanismo de
ação, e décadas de experimentos in vitro resultaram mais em
perplexidade do que em conhecimento. Quando bem-sucedidos, os
ARMD em geral melhoram os sintomas e podem reduzir a atividade da
doença na artrite reumatoide, conforme deduzido pela redução do
número de articulações com edema e dor, pela pontuação de dor, pela
pontuação de incapacidade, pela imagem radiográfica e pela
concentração sanguínea de proteínas de fase aguda e de fator
reumatoide (um anticorpo do tipo imunoglobulina IgM contra a IgG do
hospedeiro).
Às vezes, os ARMD são denominados fármacos de segunda linha, com a
implicação de que se recorre a eles somente quando outras terapias (p. ex.,
AINE) falharam; contudo, a terapia com ARMD pode ser iniciada assim
que se chegar a um diagnóstico definido. Seus efeitos clínicos em geral têm
início lento (meses), sendo habitual fornecer “cobertura” com AINE
durante a fase de indução. Se a terapia tiver sucesso (e a taxa de sucesso é
variável), a terapia concomitante com AINE (ou glicocorticoide) pode ser
reduzida. Alguns ARMD (p. ex., o metotrexato) têm valor no tratamento de
outras doenças inflamatórias crônicas; em contraposição, não se acredita que outros (p. ex., a penicilamina) tenham ação anti-inflamatória geral. Os
prováveis mecanismos de ação dos ARMD foram revistos por Cutolo
(2002) e Chandrashekara (2013).
■ Metotrexato
O metotrexato é um antagonista do ácido fólico que tem atividade
citotóxica e imunossupressora (ver Capítulo 57). Ele tem ação
antirreumática útil e confiável e é comumente um fármaco de primeira
escolha. Apresenta início de ação mais rápido que outros ARMD, mas o
tratamento deve ser monitorado de perto por causa da depressão da medula
óssea, causando uma queda na contagem de leucócitos e de plaquetas
(potencialmente fatal), bem como cirrose hepática. É, no entanto, superior a
muitos outros ARMD em termos de eficácia e tolerância do paciente, sendo
frequentemente administrado em conjunto com fármacos anticitocinas.
O seu mecanismo de ação não está relacionado com o seu efeito no
ácido fólico (que é rotineiramente coadministrado para prevenir doenças
hemorrágicas), mas pode estar conectado com a sua capacidade para
bloquear a captura de adenosina (ver Capítulo 17 e Chan e Cronstein,
2010).
■ Sulfassalazina
A sulfassalazina, outro ARMD comum de primeira escolha no Reino
Unido, produz remissão na artrite reumatoide ativa e é usada para doença
inflamatória intestinal crônica (ver Capítulo 31). Provavelmente atua, em
parte, inibindo as vias da COX e da lipo-oxigenase ou eliminando os
radicais livres tóxicos, embora também reduza a liberação de IL-8 dos
miofibroblastos do cólon, sugerindo um mecanismo imunossupressor
adicional (Lodowska et al., 2015). Tal fármaco é um complexo de sulfonamida (sulfapiridina) e salicilato, separado em suas partes
componentes por bactérias no cólon. É mal absorvida após a administração
oral.
▼ A sulfassalazina é geralmente bem tolerada, mas os efeitos adversos
comuns incluem distúrbios GI, mal-estar e cefaleia. Reações cutâneas e
leucopenia podem ocorrer, mas são reversíveis com a suspensão do
fármaco. A absorção de ácido fólico algumas vezes é comprometida;
isso pode ser contraposto fornecendo-se suplementos de ácido fólico.
Também foi relatada uma diminuição reversível da contagem de
espermatozoides. A exemplo de outras sulfonamidas, podem ocorrer
depressão da medula óssea e reações de tipo anafilático em alguns
pacientes. Pode ser necessário o monitoramento hematológico.
■ Penicilamina
A penicilamina é a dimetilcisteína; é uma das substâncias produzidas por
hidrólise da penicilina e aparece na urina depois do tratamento com esse
fármaco. O isômero D é usado na terapia da doença reumática. Cerca de
75% dos pacientes com artrite reumatoide respondem à penicilamina. Os
efeitos terapêuticos são observados em questão de semanas, mas não
alcançam um platô por vários meses. Admite-se que a penicilamina
modifique a doença reumática em parte por diminuir a resposta
imunológica e a geração de IL-1 e/ou, em parte, impedindo a maturação do
colágeno recém-sintetizado. No entanto, o mecanismo de ação exato ainda é
motivo de discussão. O fármaco tem um grupo tiol altamente reativo e
também tem a propriedade de quelar metais, que é aproveitada no
tratamento da doença de Wilson (deposição patológica de cobre, causando
neurodegeneração e doença hepática) e na intoxicação por metais pesados.
▼ A penicilamina é administrada por via oral, e somente cerca de
metade da dose é absorvida. Alcança concentrações plasmáticas
máximas em 1 a 2 h e é eliminada na urina. O tratamento é iniciado com
dose baixa, que é aumentada aos poucos, visando minimizar os efeitos
indesejáveis que ocorrem em cerca de 40% dos pacientes e determinar a
suspensão do tratamento. Rashes e estomatites são os efeitos
indesejáveis mais comuns e podem desaparecer se a dosagem for
reduzida. Observam-se anorexia, febre, náuseas e vômitos, além de
distúrbios da gustação (os últimos relacionados à quelação de zinco),
que costumam desaparecer com a continuação do tratamento. Ocorre
proteinúria em 20% dos pacientes e deve ser monitorada. O
monitoramento hematológico também é necessário no início do
tratamento. Em caso de trombocitopenia, pode ser preciso reduzir a
dose. Leucopenia ou anemia falciforme são contraindicações absolutas,
assim como as condições autoimunes (p. ex., tireoidite, miastenia
gravis). Como a penicilamina é um quelante de metais, não deverá ser
empregada concomitantemente com compostos de ouro (ver adiante).
■ Ouro
O ouro é administrado sob a forma de um complexo orgânico, o
aurotiomalato de sódio. O efeito anti-inflamatório se desenvolve
lentamente por 3 a 4 meses. A dor e o edema articular diminuem, assim
como a progressão das lesões ósseas e articulares. O mecanismo de ação
não está esclarecido. O aurotiomalato de sódio é administrado por injeção
intramuscular profunda. Os complexos de ouro gradualmente se acumulam
nas células sinoviais nas articulações, mas também em outros tecidos, como
células hepáticas, túbulos renais, córtex da suprarrenal e em macrófagos,
permanecendo por algum tempo depois da suspensão do tratamento. A eliminação é sobretudo renal, mas uma parte é eliminada no trato GI. A
meia-vida inicial é de 7 dias, mas aumenta no decorrer do tratamento, de
modo que o fármaco é geralmente administrado em um primeiro momento
em intervalos semanais e, a seguir, mensais.
▼ Os efeitos indesejáveis com o aurotiomalato são observados em cerca
de um terço dos pacientes tratados, havendo efeitos tóxicos sérios em
cerca de um paciente a cada dez. Os efeitos indesejáveis importantes
incluem rashes cutâneos (que podem ser graves), úlceras bucais,
sintomas de resfriado inespecífico, proteinúria, trombocitopenia e
discrasias sanguíneas. Podem ocorrer reações anafiláticas. Se a terapia
for suspensa quando aparecerem os primeiros sintomas, a incidência de
efeitos tóxicos graves é relativamente baixa.
■ Fármacos antimaláricos
A hidroxicloroquina e a cloroquina são fármacos 4-aminoquinolínicos
usados, sobretudo, em prevenção e tratamento de malária (ver Capítulo 55),
mas também são usados como ARMD. A cloroquina geralmente fica
reservada para casos em que outros tratamentos tenham falhado. Além
disso, elas são usadas para tratar outra doença autoimune, o lúpus
eritematoso sistêmico (LES), mas são contraindicadas para pacientes com
artropatia psoriática, uma vez que pioram as lesões de pele. O antimalárico
relacionado, mepacrina, também é eventualmente usado no lúpus (cutâneo)
discoide. Os efeitos antirreumáticos não aparecem antes de 1 mês ou mais
após o início do tratamento, e somente metade dos pacientes tratados
responde ao fármaco. A administração, os aspectos farmacocinéticos e os
efeitos indesejáveis da cloroquina são abordados no Capítulo 55; o
monitoramento da toxicidade ocular é particularmente importante. Fármacos imunossupressores
Os imunossupressores são usados na terapia de doenças autoimunes e com
o objetivo de prevenir e/ou tratar rejeição de transplantes. Como
comprometem as respostas imunológicas, trazem o risco de uma diminuição
da resposta a infecções e podem facilitar a emergência de linhagens
celulares malignas. No entanto, a relação entre esses efeitos adversos e a
potência para prevenir rejeição de enxertos varia com os diferentes
fármacos. O uso clínico dos imunossupressores está resumido no boxe
clínico a seguir.
Usos clínicos dos fármacos imunossupressores
Os fármacos imunossupressores são utilizados por especialistas, geralmente em combinação
com glicocorticoides e/ou fármacos citotóxicos:
• Para retardar o progresso de doença reumática e outros tipos de artrite, incluindo artrite
psoriática, espondilite anquilosante, artrite juvenil: fármacos ARMD, entre eles,
metotrexato, le unomida, ciclosporina; os moduladores de citocinas (p. ex.,
adalimumabe, etanercepte, in iximabe) são utilizados quando a resposta ao
metotrexato ou a outro ARMD tiver sido inadequada
• Para suprimir a rejeição de órgãos transplantados, por exemplo, ciclosporina, tacrolimo,
sirolimo
• Para suprimir a doença enxerto-versus-hospedeiro após transplante de medula óssea (p.
ex., ciclosporina)
• Em condições autoimunes incluindo a púrpura trombocitopênica idiopática, algumas
formas de anemia hemolítica e de glomerulonefrite e miastenia gravis
• Em caso de doença in amatória intestinal grave (p. ex., ciclosporina na colite ulcerativa,
in iximabe na doença de Crohn)
Em caso de doença cutânea grave (p. ex., pimecrolimo, tacrolimo aplicado topicamente
•
para eczema atópico não controlado por glicocorticoides tópicos; etanercepte,
in iximabe para psoríase em placas muito grave não responsiva ao metotrexato ou à
ciclosporina).
A maioria desses fármacos atua durante a fase de indução da resposta
imunológica, reduzindo a proliferação de linfócitos (Capítulo 7), embora
outros também inibam aspectos da fase efetora. Há três grupos principais:
• Fármacos que inibem a produção ou a ação da IL-2 (p. ex.,
ciclosporina, tacrolimo e fármacos relacionados)
• Fármacos que inibem a expressão de genes de citocinas (p. ex.,
corticosteroides)
• Fármacos que inibem a síntese de purinas ou pirimidinas (p. ex.,
azatioprina, micofenolato de mofetila, leflunomida).
■ Ciclosporina
A ciclosporina é um composto de ocorrência natural e foi identificado
primeiramente em fungos. É um peptídio cíclico de 11 resíduos de
aminoácidos (incluindo alguns não encontrados em animais) com potente
atividade imunossupressora, mas sem efeito sobre a reação inflamatória
aguda em si. Sua atividade incomum, que, diferentemente dos
imunossupressores mais antigos, não implica citotoxicidade, foi descoberta
em 1972 e foi crucial para o desenvolvimento da cirurgia de transplantes
(para uma revisão detalhada, ver Borel et al., 1996). O fármaco tem
numerosas ações, mas aquelas relevantes para a imunossupressão são:
• Diminuição da proliferação clonal de linfócitos T, primariamente por
inibição da síntese de IL-2 e possivelmente também por diminuição da
expressão dos receptores para IL-2
• Redução da indução e da proliferação clonal de linfócitos T citotóxicos
a partir de linfócitos T precursores CD8+
• Redução da função de linfócitos T efetores responsáveis por respostas
mediadas por células (p. ex., diminuição da hipersensibilidade tardia)
• Certa redução das respostas de linfócitos B dependentes de linfócitos T.
Imunossupressores
• A proliferação clonal dos linfócitos T-helper (Th) pode diminuir por meio da inibição da
transcrição da IL-2; a ciclosporina, o tacrolimo, o sirolimo, o pimecrolimo e os
glicocorticoides atuam desse modo
– Os fármacos do tipo ciclosporina ligam-se a proteínas citosólicas (imuno linas) que
inibem a calcineurina, desencadeando alterações na transcrição gênica
– São administrados por via oral ou intravenosa; um efeito adverso comum é a
nefrotoxicidade
• A proliferação de linfócitos também é bloqueada por inibidores da síntese de DNA, tais
como:
– Azatioprina, por meio de seu metabólito ativo mercaptopurina
– Micofenolato de mofetila, por meio da inibição da síntese de novo de purinas
– Le unomida, por meio da inibição por um metabólito da síntese de pirimidina.
A principal ação é um efeito inibitório relativamente seletivo sobre a
transcrição do gene da IL-2, embora também tenha sido relatado um efeito
semelhante sobre a interferona-γ (IFN-γ) e a IL-3. Em geral, a interação do
antígeno com um receptor de linfócitos T-helper (Th) resulta em aumento
de Ca2+ intracelular (ver Capítulos 2 e 7), o que, por sua vez, estimula a
calcineurina, uma fosfatase. Isso ativa vários fatores de transcrição que
iniciam a expressão de IL-2. A ciclosporina liga-se à ciclofilina, um
membro proteico citosólico da família das imunofilinas (grupo de proteínas
que atua como receptores intracelulares para tais fármacos). O complexo
fármaco-imunofilina liga-se à calcineurina, que atua de forma oposta às
muitas proteinoquinases envolvidas em transdução de sinais (ver Capítulo
3), e a inibe, impedindo, assim, a ativação dos linfócitos Th e a produção de
IL-2 (ver Capítulo 7).
A ciclosporina em si é mal absorvida VO, mas pode ser administrada
por esta via em uma formulação mais facilmente absorvida, ou por infusão
intravenosa. Após administração oral, as concentrações plasmáticas
máximas são em geral atingidas em cerca de 3 a 4 h. A meia-vida
plasmática é de aproximadamente 24 h. Ocorre metabolismo no fígado e a
maioria dos metabólitos é eliminada na bile. A ciclosporina se acumula na
maioria dos tecidos em concentrações três a quatro vezes maiores que as
observadas no plasma. Uma parte do fármaco permanece no tecido
linfomieloide e em depósitos de gordura por algum tempo depois de
suspensa a administração.
O efeito adverso mais comum e mais grave da ciclosporina é a
nefrotoxicidade, que não se acredita estar ligada à inibição da calcineurina.
Esse efeito pode constituir um fator limitante para o uso do fármaco em
alguns pacientes (ver também Capítulo 58). Também podem ocorrer
hepatotoxicidade e hipertensão. Efeitos adversos menos importantes
incluem anorexia, letargia, hirsutismo, tremores, parestesias
(formigamento), hipertrofia gengival (em especial quando prescrita
juntamente com antagonistas do cálcio como anti-hipertensivos; Capítulo
23) e distúrbios GI. A ciclosporina não tem efeito depressor sobre a medula
óssea.
■ Tacrolimo
O tacrolimo é um antimicrobiano macrolídio de origem fúngica que tem um
mecanismo de ação muito semelhante ao da ciclosporina, mas potência
maior. A principal diferença é que o receptor interno para esse fármaco não
é a ciclofilina, mas uma imunofilina distinta denominada FKBP (FK-binding protein – proteína de ligação a FK, assim chamada porque o
tacrolimo foi, em um primeiro momento, denominado FK506). O complexo
tacrolimo-FKBP inibe a calcineurina com os efeitos descritos
anteriormente. Não é usado na artrite, mas sobretudo em transplante de
órgãos e eczema atópico grave. O pimecrolimo (usado topicamente no
tratamento de eczema atópico) age da mesma maneira. O sirolimo (usado
para prevenir rejeição de órgãos após transplante e no revestimento de
stents cardíacos para prevenir reestenose; ver Capítulo 22) também é
combinado com uma imunofilina, porém ativa uma proteinoquinase para
produzir seu efeito imunossupressor.
▼ O tacrolimo pode ser administrado por via oral ou intravenosa, ou em
pomada para uso tópico em caso de doença inflamatória cutânea. É
metabolizado em 99% pelo fígado e tem meia-vida de aproximadamente
7 h. Os efeitos adversos do tacrolimo são semelhantes aos da
ciclosporina, porém mais pronunciados. A incidência de nefrotoxicidade
e neurotoxicidade é mais alta, mas a de hirsutismo é mais baixa. Podem
ocorrer distúrbios GI e metabólicos (hiperglicemia). Embora
trombocitopenia e hiperlipidemia sejam relatadas, elas respondem à
redução da dosagem.
■ Azatioprina
A azatioprina interfere na síntese de purinas e é citotóxica. É usada de
forma ampla para imunossupressão, em particular para o controle de
doenças autoimunes, como a artrite reumatoide, e para prevenção da
rejeição de tecidos em cirurgias de transplante. Esse fármaco é
metabolizado gerando mercaptopurina, um análogo que inibe a síntese de
DNA (ver Capítulo 57). As reações imunológicas mediadas por células e
anticorpos são deprimidas por este fármaco, pois ele inibe a proliferação
clonal durante a fase de indução da resposta imunológica (ver Capítulo 7)
por ação citotóxica sobre as células em divisão. Como ocorre com a própria
mercaptopurina, o principal efeito indesejável é a depressão da medula
óssea. Outros efeitos tóxicos são náuseas e vômitos, erupções cutâneas e
hepatotoxicidade de grau leve.
■ Ciclofosfamida
A ciclofosfamida é um imunossupressor potente usado majoritariamente no
tratamento do câncer. O seu mecanismo de ação é explicado no Capítulo 57.
Ela apresenta toxicidade substancial e, por isso, é geralmente reservada para
casos graves de artrite reumatoide em que todas as outras terapias falharam.
■ Micofenolato de mofetila
O micofenolato de mofetila é um derivado semissintético de um antibiótico
fúngico usado para evitar a rejeição do órgão. É convertido no organismo
em ácido micofenólico, que restringe a proliferação de linfócitos T e B e
reduz a produção de linfócitos T citotóxicos por inibição da inosina
monofosfato desidrogenase. Essa enzima é crucial para a biossíntese de
novo de purinas nos linfócitos T e B (outras células podem gerar purinas
por outra via), de modo que o fármaco tem uma ação razoavelmente
seletiva.
▼ O micofenolato de mofetila é administrado por via oral e é bem
absorvido. Hidróxidos de magnésio e de alumínio comprometem a
absorção, e a colestiramina reduz as concentrações plasmáticas. O
metabólito ácido micofenólico passa pelo ciclo êntero-hepático e é
eliminado pelos rins na forma de glicuronídio inativo. São comuns os
efeitos adversos GI.
■ Leflunomida A leflunomida, usada em especial para tratar artrite reumatoide e às vezes