Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 132 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Introdução | Definição e aplicações da farmacocinética

A farmacocinética é o ramo da farmacologia dedicado à determinação do

destino das substâncias químicas administradas a um organismo vivo (“o

que o corpo faz ao fármaco”). Na prática, ela envolve a medição e a

interpretação formal das alterações, em função do tempo, da concentração

do fármaco e dos seus metabólitos no plasma, na urina e, por vezes, em

outras localizações acessíveis do corpo em relação à dose administrada. A

farmacocinética fornece matriz para se compreender o que ocorre a um

fármaco quando este é administrado a um animal ou a um humano, para

onde vai no corpo e a que velocidade, permitindo perceber os efeitos

produzidos. Por outro lado, a farmacodinâmica (“o que o fármaco faz ao

corpo”) descreve os eventos secundários da interação do fármaco com o seu

receptor ou outro local de ação primário. Essa distinção é útil, embora as

palavras causem descontentamento aos puristas etimológicos.

A palavra “farmacodinâmica” teve sua primeira citação em um

dicionário em 1890 (“relacionada com os poderes ou efeitos dos

fármacos”), enquanto os estudos farmacocinéticos somente se tornaram

possíveis na segunda metade do século XX, com o desenvolvimento de

técnicas analíticas físico-químicas sensíveis, específicas e acuradas,

especialmente a cromatografia de alta eficiência e a espectrometria de

massa, para a medida das concentrações do fármaco nos líquidos

biológicos. A evolução temporal da concentração de um fármaco após a sua

administração depende dos processos de absorção, distribuição,

metabolismo e excreção (ADME), que foram considerados de maneira

qualitativa nos Capítulos 9 e 10.

Na prática, a farmacocinética geralmente tem como foco as

concentrações do fármaco no plasma sanguíneo, que é facilmente obtido por venopunção, pois assume-se que as concentrações plasmáticas

apresentem relação clara com as concentrações do fármaco no líquido

extracelular que envolve as células que expressam receptores e outros alvos

com os quais as moléculas do fármaco interagem. Isso baseia o que é

denominado a estratégia de concentração-alvo. A variação individual em

resposta a uma determinada dose de um fármaco é frequentemente maior

que a variabilidade da concentração plasmática àquela dose. Assim, as

concentrações plasmáticas (Cp) são úteis nos estágios iniciais do desenvolvimento de um fármaco (ver adiante). No caso de alguns fármacos,

as concentrações plasmáticas também são utilizadas na prática clínica de

rotina para individualizar a dose, para obter o efeito terapêutico desejado,

ao mesmo tempo que os efeitos adversos são minimizados em cada

paciente, uma abordagem denominada monitoramento terapêutico do

fármaco, frequentemente abreviada como MTF. A Tabela 11.1 mostra

exemplos de alguns fármacos para os quais foi estabelecida uma faixa

terapêutica de concentração plasmática, permitindo o MTF. As

concentrações do fármaco em outros líquidos corporais (p. ex., urina,1

saliva, líquido cefalorraquidiano, leite) podem trazer informações adicionais

e úteis.

A interpretação formal dos dados farmacocinéticos consiste em colocar

em gráfico os dados de concentração versus tempo em um modelo (abstrato

ou com base em termos fisiológicos, o que se torna mais útil) e determinar

os parâmetros que descrevem o comportamento observado. Esses

parâmetros podem, então, ser usados para ajustar o esquema posológico

para alcançar uma concentração plasmática-alvo. O intervalo de

concentração farmacologicamente ativo é estimado a partir de experimentos

em células, tecidos ou animais de laboratório, sendo posteriormente

modificado à medida que surgem dados dos primeiros ensaios farmacológicos em humanos, que muitas vezes testam doses únicas do novo

fármaco administrado a grupos sucessivos de voluntários em doses

progressivamente maiores – estudos de dose única ascendente (DUA) (ver

Capítulo 8). Algumas características farmacocinéticas descritivas podem ser

estimadas diretamente ao se inspecionar a evolução temporal da

concentração do fármaco no plasma após a sua administração – exemplos

importantes,2 apresentados adiante com mais detalhes, compreendem a

concentração plasmática máxima após a administração de uma determinada

dose de um fármaco de maneira definida (Cmáx) e o tempo (Tmáx) decorrido

entre a administração do fármaco e a obtenção de Cmáx. Outros parâmetros farmacocinéticos são estimados matematicamente a partir de dados

experimentais; exemplos incluem o volume de distribuição (V d) e a taxa de depuração ou clearance (CL), conceitos que foram introduzidos nos

Capítulos 9 e 10, respectivamente, e que serão tratados novamente a seguir.

Essa abordagem aplica-se tanto aos fármacos clássicos de baixo peso

molecular quanto aos biofármacos macromoleculares (ver Capítulo 5),

embora os aspectos qualitativos da absorção, distribuição e eliminação

sejam, como seria de esperado, muito diferentes e os parâmetros

farmacocinéticos difiram acentuadamente – por exemplo, os anticorpos

evoluíram para persistir por longos períodos após a exposição aos antígenos

e os anticorpos terapêuticos apresentam, com frequência, taxas de

depuração baixas e, consequentemente, tempos de meia-vida prolongados.

 

Tabela 11.1 Exemplos de fármacos para os quais é

empregado clinicamente o monitoramento

terapêutico do fármaco (MTF).

 

Categoria Exemplo(s) Capítulo(s)