Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 140 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Cinética de saturação

Figura 11.7 Cinética da eliminação do diazepam em seres humanos após uma dose

oral única. O gráfico é uma representação semilogarítmica da concentração plasmática versus tempo. Os dados experimentais (símbolos pretos) seguem uma curva que se torna linear após cerca de 8 h (fase lenta). Ao colocar o desvio dos pontos iniciais (área sombreada em salmão) dessa linha nas mesmas coordenadas (símbolos vermelhos), obtém-se a fase rápida. Esse tipo de decaimento com dois componentes é consistente com

o modelo de dois compartimentos (ver Figura 11.6), sendo obtido com muitos fármacos. (Dados de Curry, S.H., 1980. Drug Disposition and Pharmacokinetics. Blackwell, Oxford.)

 

CINÉTICA DE SATURAÇÃO

No caso de alguns fármacos, incluindo etanol, fenitoína e salicilato, o

tempo de desaparecimento do fármaco do plasma não segue os padrões

exponenciais ou biexponenciais apresentados nas Figuras 11.3 e 11.7, mas é

inicialmente linear (i. e., o fármaco é removido a uma taxa constante, que é

independente da concentração plasmática). Isso é frequentemente

denominado cinética de ordem zero para ser diferenciada da cinética normal

de primeira ordem e que temos analisado até agora (tais termos têm origem

na teoria cinética química). Cinética de saturação é um termo mais

apropriado porque expressa o mecanismo subjacente; ou seja, a saturação

de um transportador ou enzima e, por isso, à medida que a concentração do

substrato do fármaco aumenta a taxa de eliminação, aproxima-se de um

valor constante. A Figura 11.8 mostra o exemplo do etanol. Pode-se

observar que a taxa de desaparecimento do etanol do plasma é constante a

aproximadamente 4 mmol/ ℓ por hora, independentemente da dose ou da

concentração plasmática de etanol. A explicação para isso é que a taxa de

oxidação pela enzima álcool desidrogenase alcança o seu máximo a baixas

concentrações de etanol, devido a uma limitada disponibilidade do cofator

NAD+ (ver Capítulo 49, Figura 49.6).

A cinética de saturação acarreta várias consequências importantes

(Figura 11.9). Uma é que a duração da ação depende mais fortemente da dose que outros fármacos que não apresentam saturação metabólica. Outra

consequência é que a relação entre a dose e a concentração plasmática no

estado de equilíbrio resulta em uma linha com inclinação muito íngreme e

imprevisível, e ela não obedece à regra de proporcionalidade implícita na

Equação 11.3 para fármacos não saturáveis (ver Figura 49.6 – outro

exemplo relacionado com etanol). A taxa máxima de metabolismo

estabelece um limite à velocidade de administração do fármaco; se essa taxa

for excedida, a quantidade de fármaco no organismo irá, a princípio,

aumentar indefinidamente e nunca alcançar um estado de equilíbrio (ver

Figura 11.9). Na realidade, isso não acontece, pois a concentração

plasmática sempre depende, em alguma extensão, da taxa de eliminação

(geralmente porque outras vias metabólicas não saturáveis ou a excreção

renal contribuem significativamente em concentrações elevadas). Apesar

disso, as concentrações plasmáticas no estado de equilíbrio de fármacos

desse tipo variam bastante e de maneira imprevisível com a dose. Da

mesma maneira, variações na taxa de metabolismo (p. ex., por indução

enzimática) causam alterações desproporcionais na concentração

plasmática. Esses problemas são bem conhecidos para fármacos como a

fenitoína, um anticonvulsivante que precisa ter as concentrações

plasmáticas monitoradas com atenção para que seja obtido um efeito clínico

ótimo (ver Capítulo 46, Figura 46.4). Os fármacos que apresentam cinética

de saturação têm o uso clínico menos previsível que outros que apresentam

cinética de primeira ordem; logo, podem ser rejeitados durante a fase de

desenvolvimento caso exista disponível um candidato similar com uma

cinética de primeira ordem (ver Capítulo 60).