Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 614 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Cocaína

seletivo da recaptação de 5-HT, ou venlafaxina, um inibidor da recaptação

de 5-HT e NE (ver Capítulo 48). O oxibato de sódio, o sal de sódio do γ-

hidroxibutirato (também conhecido como GHB e frequentemente de uso

abusivo, ver Capítulo 39), é um depressor do SNC que, paradoxalmente, é

usado para prevenir a cataplexia.

 

Usos clínicos dos estimulantes do SNC

 

• Os estimulantes do sistema nervoso central (SNC) apresentam poucas indicações

terapêuticas legítimas. Em geral, são iniciados por especialistas, quando apropriado

• Transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade (TDAH): metilfenidato, atomoxetina

(ver Capítulo 48). Dexanfetamina é uma alternativa em crianças que não respondem

• Narcolepsia: moda nila para a sonolência excessiva; oxibato para reduzir a cataplexia (que

pode estar associada à narcolepsia)

• Apneia da prematuridade: alcaloides da xantina (sob supervisão de especialista em

hospital) são e cazes; cafeína é preferível à teo lina.

 

COCAÍNA

A cocaína é encontrada nas folhas do arbusto de coca sul-americano. Estas

folhas são usadas pelas suas propriedades estimulantes pelos nativos da

América do Sul, particularmente por aqueles das regiões montanhosas, que

as usam para reduzir a fadiga durante o trabalho em altitudes elevadas.

Um significado místico importante foi associado aos poderes da cocaína

em energizar o espírito humano debilitado, e Freud a testou exaustivamente

em seus pacientes e sua família, publicando uma monografia influente em

1884, defendendo o seu uso como psicoestimulante.2 Um colega oftalmologista de Freud, Köller, obteve suprimentos da susbtância e

descobriu a sua ação como anestésico local (ver Capítulo 44), mas não foi

provado que os efeitos psicoestimulantes da cocaína fossem clinicamente

úteis. Por outro lado, estes o tornaram uma substância de uso abusivo

generalizado em países do ocidente. Os mecanismos e tratamento do uso

abusivo de cocaína são discutidos no Capítulo 50.

 

■ Efeitos farmacológicos

A cocaína liga-se aos transportadores NET, DAT e SERT e os inibe (ver

Capítulos 15, 16 e 40), produzindo, assim, um efeito psicomotor

estimulante e aumentando os efeitos periféricos da atividade nervosa

simpática.

Em seres humanos, a cocaína produz euforia, tagarelice, aumento da

atividade motora e magnificação do prazer. Os usuários sentem-se alertas,

energizados e fisicamente fortes, e acreditam que apresentam melhores

capacidades mentais. Seus efeitos lembram aqueles das anfetaminas, apesar

de ter menor tendência para produzir comportamento estereotipado,

delírios, alucinações e paranoia. Evidências de camundongos nocaute

transgênicos indicam que os efeitos eufóricos da cocaína envolvem a

inibição da recaptação da DA e de 5-HT. As ações simpaticomiméticas

periféricas levam a taquicardia, vasoconstrição e aumento na pressão

arterial. A temperatura corporal pode aumentar por conta do aumento da

atividade motora associada à redução da perda de calor. Com doses

excessivas, podem ocorrer tremores e convulsões, seguidos de depressão

respiratória e vasomotora.

Animais de laboratório rapidamente aprendem a pressionar a alavanca

para a autoadministração de cocaína e consumirão quantidades tóxicas do

fármaco se o acesso não for limitado. Em camundongos transgênicos que não contêm o receptor D2, a exacerbação dos efeitos locomotores da cocaína é reduzida mas, surpreendentemente, a autoadministração de

cocaína está aumentada, ao contrário do que é encontrado com outros

fármacos autoadministrados como o etanol e a morfina.

 

■ Uso crônico, dependência e tolerância

Sem dúvida, a cocaína causa forte dependência psicológica (ver Capítulo

50), mas existe uma polêmica sobre se o uso continuado induz tolerância e

dependência física. Os usuários podem aumentar a ingestão da substância,

mas isso pode refletir o desejo por um efeito aumentado e não o

desenvolvimento de tolerância. Em animais de laboratório, pode ser

observada sensibilização (o oposto de tolerância), mas a relevância disso

para a situação em seres humanos é incerta. A cocaína não produz uma

síndrome de abstinência óbvia, mas podem ocorrer depressão, disforia e

fadiga após o efeito estimulante inicial. A cocaína induz dependência

psicológica, em que os usuários anseiam pelos efeitos eufóricos e

estimulantes da substância. Os mecanismos celulares responsáveis pela

fissura e as abordagens farmacológicas para reduzi-la são discutidos no

Capítulo 50. O padrão de dependência a partir do uso eventual por meio do

aumento da dose até o uso excessivo é semelhante ao visto com as

anfetaminas.

 

■ Aspectos farmacocinéticos

A cocaína é prontamente absorvida por diversas vias. Por muitos anos,

estoques ilícitos eram compostos pelo sal cloridrato, que poderia ser usado

por inalação nasal ou intravenosamente. Esta última produz euforia

imediata e intensa, enquanto a inalação nasal produz uma sensação menos dramática e também tende a causar atrofia e necrose da mucosa nasal e do

septo.

O uso de cocaína aumentou drasticamente quando a forma de base livre

(crack) se tornou disponível como uma droga ilícita de rua. Quando uma

solução aquosa de cloridrato de cocaína é aquecida com bicarbonato de

sódio, são produzidos cocaína de base livre, água, CO 2 e NaCl. A cocaína conjugada é insolúvel em água, precipita para fora e pode, então, ser

transformada em “pedras” de crack. A cocaína conjugada vaporiza por

volta de 90°C, muito abaixo do ponto de derretimento do cloridrato de

cocaína (190°C), que queima e não vaporiza. Por isso, o crack pode ser

fumado, com o conjugado descarregado sendo rapidamente absorvido ao

longo da grande área de superfície dos alvéolos, originando maior efeito no

SNC do que o obtido ao inalar cocaína. Sem dúvida, o efeito é quase tão

rápido quanto o da administração intravenosa. As consequências sociais,

econômicas e até mesmo políticas desta pequena mudança na formulação

são de longo alcance.

A duração de cerca de 30 minutos do seu efeito estimulante é muito

mais curta do que a da anfetamina. É rapidamente metabolizada pelo

fígado. Usuários de heroína podem injetar cocaína e heroína intravenosas ao

mesmo tempo (conhecido como speedball ou cocktail) para obter o efeito

rápido da cocaína antes que o efeito prolongado da heroína apareça.

Um metabólito da cocaína deposita-se no cabelo, e a análise do seu

conteúdo ao longo do fio de cabelo permite o monitoramento do padrão de

consumo de cocaína, uma técnica que revelou incidência muito maior de

uso de cocaína do que o que era relatado voluntariamente. A exposição à

cocaína in utero pode ser estimada pela análise do cabelo dos recém-

nascidos.

A cocaína ainda é, por vezes, usada topicamente como anestésico local,

principalmente em cirurgia oftalmológica e pequenas cirurgias do nariz e

garganta, em que a sua ação de vasoconstrição local é vantajosa, mas não

apresenta outros usos clínicos.

 

■ Efeitos adversos

Efeitos tóxicos ocorrem com frequência em quem faz uso abusivo de

cocaína. Os principais perigos agudos são eventos cardiovasculares graves

(arritmias cardíacas, dissecção aórtica e infarto ou hemorragia do miocárdio

ou cerebral). Dano miocárdico progressivo pode levar à insuficiência

cardíaca, mesmo na ausência de histórico de efeitos cardíacos agudos.

A cocaína pode prejudicar gravemente o desenvolvimento cerebral in

utero. O tamanho do cérebro fica significativamente reduzido em bebês

expostos à cocaína durante a gravidez, e há aumento de malformações

neurológicas e dos membros. A incidência de lesões cerebrais isquêmicas e

hemorrágicas e a de morte súbita infantil também é maior em bebês

expostos à cocaína. A interpretação dos dados é difícil porque muitas

consumidoras abusivas de cocaína também fazem uso de outras drogas

ilícitas que podem afetar o desenvolvimento fetal, mas é provável que a

cocaína seja altamente prejudicial.

A dependência, o principal efeito adverso psicológico das anfetaminas e

da cocaína, tem efeitos potencialmente graves na qualidade de vida (ver

Capítulo 50).