Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 466 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Sinalização química no sistema nervoso

induzidos pela doença podem contribuir para os sintomas comportamentais,

e, na dor crônica, o estado afetivo (humor) dos portadores pode ser alterado

e exacerbado pelo quadro de dor. Muito esforço está sendo despendido para

apontar a base biológica das alterações psiquiátricas – passo necessário para

melhorar o desenho de melhores fármacos para uso clínico, porém a tarefa é

amedrontadora e o progresso é lento.

Neste capítulo, delineamos os princípios gerais que governam a ação

dos fármacos no SNC. A maioria dos fármacos neuroativos atua

interferindo nos sinais químicos subjacentes à função cerebral, e os

próximos dois capítulos discutem os principais sistemas transmissores do

SNC e as maneiras pelas quais os fármacos os afetam. No Capítulo 41,

focalizamos as doenças neurodegenerativas, e os capítulos seguintes desta

seção tratam das principais classes de fármacos neuroativos atualmente em

uso.

Informações adicionais encontram-se nos livros-textos de neurobiologia

e neurofarmacologia, tais como o de Iversen et al. (2009), Kandel et al.

(2013) e Nestler et al. (2015).

 

SINALIZAÇÃO QUÍMICA NO SISTEMA NERVOSO

O cérebro (como qualquer outro órgão do corpo) é basicamente uma

máquina química; ele controla as principais funções de um animal superior

em escalas de tempo que variam de milissegundos (p. ex., devolver um

saque de 160 km/h em um jogo de tênis) até anos (p. ex., lembrar como se

anda de bicicleta).2 Os mecanismos de sinalização química cobrem uma

faixa dinâmica correspondentemente ampla, como resumido, de maneira

muito geral, na Figura 38.1. Atualmente, compreende-se muito sobre os

efeitos dos fármacos nos eventos da extremidade distal do espectro – transmissão sináptica e neuromodulação –, porém muito menos sobre os

processos adaptativos a longo prazo, embora esteja bastante evidente que

estes últimos são de grande importância nas alterações neurológicas e

psiquiátricas suscetíveis a tratamento medicamentoso.

O conceito original da neurotransmissão concebia uma substância

liberada pelo neurônio que atua rápida e brevemente e a curta distância da

membrana do neurônio (pós-sináptico) adjacente, causando excitação ou

inibição. Os princípios delineados no Capítulo 13 aplicam-se tanto ao SNC

quanto ao periférico. Atualmente, está esclarecido que os mediadores

químicos no cérebro podem produzir efeitos de curta e de longa duração;

que eles podem atuar de maneira muito difusa, em distância considerável do

local de liberação (p. ex., GABA que atua nos receptores extrassinápticos

GABAA, ver Capítulo 39); e que também podem produzir outros efeitos diversos, por exemplo, na síntese do transmissor, na expressão dos

receptores do neurotransmissor e na morfologia neuronal, além de afetarem

a condução iônica da membrana celular pós-sináptica. O termo

neuromodulador é frequentemente utilizado para se referir a determinado

mediador cujas ações não se adaptam ao conceito original de

neurotransmissor. O termo não está claramente definido e cobre não apenas

os mediadores neuropeptídicos de ação difusa, como também mediadores,

tais como o óxido nítrico (NO, ver Capítulo 21) e os metabólitos do ácido

araquidônico (ver Capítulo 18), que não são armazenados e liberados como

os neurotransmissores convencionais e podem vir de células não neuronais,

particularmente da glia, bem como de neurônios. Em geral, a

neuromodulação relaciona-se com a plasticidade sináptica, incluindo os

eventos fisiológicos a curto prazo, tais como a regulação da liberação do

transmissor pré-sináptico ou da excitabilidade pós-sináptica. Os efeitos

neurotróficos a longo prazo estão envolvidos na regulação do crescimento e da morfologia dos neurônios, bem como em suas propriedades funcionais.

A Tabela 38.1 resume os tipos de mediadores químicos que operam no

SNC.

 

Figura 38.1 Sinalização química no sistema nervoso. O conhecimento dos mediadores e dos mecanismos torna-se mais esparso à medida que se passa dos eventos rápidos da transmissão sináptica para os mais lentos, envolvendo remodelação e alterações da expressão dos genes. ACh, acetilcolina; SNC, sistema nervoso central; NO, óxido nítrico.

 

As células gliais, particularmente os astrócitos, que são as principais

células não neuronais no SNC, excedendo em número os neurônios em 10

para 1, também desempenham importante papel sinalizador. Se antes eram

consideradas principalmente como células de manutenção, cuja função era

meramente cuidar dos neurônios exigentes, hoje elas estão cada vez mais sendo vistas como “neurônios inexcitáveis”, desempenhando relevante

papel na comunicação (Matsas e Tsacopolous, 2013; Vasile et al., 2017),

embora em escala de tempo mais lenta que a da comunicação neuronal.

Essas células expressam determinada gama de receptores e transportadores

e também liberam ampla variedade de mediadores, incluindo glutamato, D-

serina, ATP, mediadores lipídicos e fatores de crescimento. Elas respondem

a sinais químicos dos neurônios e também dos astrócitos vizinhos e das

células microgliais (as equivalentes aos macrófagos no SNC, que

funcionam de modo muito parecido com as células inflamatórias nos

tecidos periféricos). O acoplamento elétrico entre os astrócitos faz com que

eles respondam em conjunto com uma região cerebral em particular,

controlando, assim, o ambiente químico no qual os neurônios operam.

Embora não conduzam potenciais de ação e não enviem sinais para outras

partes do corpo, os astrócitos são, em outros aspectos, muito similares aos

neurônios e desempenham papel crucial na comunicação dentro do cérebro.

Trata-se de uma área de investigação e desenvolvimento de fármacos em

rápida expansão, para se observar mais de perto.

 

Tabela 38.1 Tipos de mediadores químicos no sistema

nervoso central.

 

Tipo de mediadora Exemplos Alvos Função principal

Canais iônicos controlados

Glutamato, GABA, Neurotransmissão sináptica

Mediadores convencionais de por voltagem

acetilcolina, dopamina, 5- rápida e lenta

pequenas moléculas Receptores acoplados à

hidroxitriptamina etc. Neuromodulação

proteína G

Neuropeptídios Substância P, neuropeptídio Y, Receptores acoplados à Neuromodulação

endor nas, orexinas, fator de proteína G

liberação de corticotro na

etc.

Prostaglandinas, Receptores acoplados à

Mediadores lipídicos Neuromodulação

endocanabinoides proteína G

Óxido nítrico, monóxido de

Mediadores “gasosos” carbono, sulfeto de Guanilato ciclase Neuromodulação

hidrogênio etc.

Fator de crescimento

Crescimento neuronal,

neuronal, fator neurotrópico

Neurotro nas, citocinas Receptores ligados à quinase sobrevivência e plasticidade

derivado do cérebro,

funcional

interleucina-1

Receptores nucleares e

Esteroides Andrógenos, estrógenos Plasticidade funcional

receptores de membrana

a A maior parte da farmacologia do SNC tem se centrado nos mediadores de pequenas moléculas e, menos comumente, nos

neuropeptídios. Outros tipos de mediadores estão sendo estudados para ns terapêuticos.

Transmissão química no sistema nervoso central

 

• Os processos básicos da transmissão sináptica no SNC são essencialmente similares aos

que operam na periferia (ver Capítulo 13)

• As células gliais, particularmente os astrócitos, participam de modo ativo da sinalização

química, funcionando essencialmente como “neurônios inexcitáveis”

• Os termos neurotransmissor, neuromodulador e fator neurotró co referem-se a mediadores

químicos que operam em diferentes escalas de tempo. Em geral:

– Os neurotransmissores são liberados pelos terminais pré-sinápticos e produzem

respostas excitatórias ou inibitórias rápidas nos neurônios pós-sinápticos

– Os neurotransmissores rápidos (p. ex., glutamato, GABA) operam por meio de canais

iônicos por voltagem

– Os neurotransmissores lentos e os neuromoduladores (p. ex., dopamina,

neuropeptídios, prostanoides) operam principalmente por intermédio dos receptores

acoplados à proteína G

– Os neuromoduladores são liberados pelos neurônios e pelos astrócitos e produzem

respostas pré ou pós-sinápticas mais lentas

– Os fatores neurotró cos são liberados principalmente por células não neuronais e

agem sobre receptores acoplados à tirosinoquinase, os quais regulam a expressão

gênica e controlam o crescimento neuronal e as características fenotípicas

• O mesmo agente (p. ex., glutamato, 5-hidroxitriptamina, acetilcolina) pode agir tanto por

meio dos canais controlados por voltagem quanto dos receptores acoplados à proteína G e

funcionar como neurotransmissor e também como neuromodulador

• Muitos mediadores químicos, incluindo o glutamato, o NO e os metabólitos do ácido

araquidônico, são produzidos tanto pela glia quanto pelos neurônios

• Muitos mediadores (p. ex., citocinas, quimiocinas, fatores do crescimento e esteroides)

controlam alterações a longo prazo no cérebro (p. ex., plasticidade sináptica e