Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 104 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tamanho da amostra

fazer relatos influenciados por esse conhecimento.9 No entanto, o

procedimento duplo-cego, em geral, com as devidas precauções para

disfarçar as pistas, como, por exemplo, o gosto ou a aparência dos dois

fármacos, é realizado sempre que possível.10 Caso a técnica do duplo-cego

não seja possível, uma solução viável será a utilização de assessores para

monitorar os resultados que desconheçam os tratamentos utilizados.

Os ensaios clínicos de elevada qualidade apresentam intervalos de

tempo pré-especificados de seguimento, durante os quais os resultados são

mensurados de uma forma definida. Caso ocorra desistência do estudo pelos

pacientes (drop out) ou se estes faltarem ao seguimento por acharem que a

intervenção não melhorou os seus sintomas, os resultados do estudo podem

continuar incompletos ou ser potencialmente enviesados. O seguimento

inadequado ou dados ausentes podem ter como consequência a não

detecção de resultados importantes (como efeitos adversos graves).

 

TAMANHO DA AMOSTRA

Considerações éticas e financeiras determinam que o ensaio envolva um

número mínimo necessário de indivíduos, e muito raciocínio estatístico tem

sido empregado na decisão de quantos pacientes são necessários para

produzir um resultado útil, com significado estatístico (cálculo da potência).

Os resultados de um ensaio não podem ser absolutamente conclusivos,

porque se baseiam em uma amostra de pacientes (selecionada com base em

critérios específicos de elegibilidade), existindo sempre a possibilidade de a

amostra da população escolhida ser atípica. Assim, os resultados do ensaio

podem não ser generalizados à prática clínica usual.

A decisão do tamanho adequado da amostra deve ser baseada no tipo de

objetivo pretendido, isto é, demonstrar que dois tratamentos são

equivalentes (p. ex., um novo tratamento não é inferior ao que atualmente já é utilizado) ou demonstrar que existe uma diferença significativa entre

intervenções. Dois tipos de conclusões errôneas são possíveis, chamadas de

erros do tipo I e do tipo II. Um erro do tipo I ocorre se os resultados

mostram uma diferença entre A e B quando, na realidade, não existe (falso-

positivo). Um erro do tipo II ocorre quando não se encontra qualquer

diferença entre A e B, embora, na verdade, sejam diferentes (falso-

negativo). Um fator essencial que determina o tamanho da amostra

necessária é o grau de certeza que o pesquisador deseja ter para evitar a

ocorrência de um desses dois tipos de erro. A probabilidade de cometer um

erro do tipo I é expressa como a significância do resultado. Afirmar que A e

B são diferentes em um nível de significância de p < 0,05 implica que a

probabilidade de se obter um resultado falso-positivo (ou seja, de se

incorrer em um erro do tipo I) é menor do que 1 em 20. Para a maioria dos

propósitos, esse nível de significância é considerado aceitável como base

para tirar conclusões.

A probabilidade de detectar uma diferença genuína existente entre

intervenções e evitar um erro tipo II é designada como potência de ensaio.

Existe uma tendência de tolerar mais os erros do tipo II do que os erros do

tipo I, sendo em geral aceitável desenhar ensaios com um poder de 0,8 a

0,9, o que significa que a hipótese de se detectar um efeito verdadeiro é de

80 a 90%. Uma amostra maior aumenta o poder, bem como a capacidade

para detectar potenciais diferenças existentes.

O segundo fator que determina o tamanho da amostra é a magnitude da

diferença entre A e B que é considerada clinicamente importante. Por

exemplo, para detectar que um tratamento reduz a mortalidade de

determinada condição em pelo menos 10 pontos porcentuais, digamos de

50% (no grupo-controle) para 40% (no grupo tratado), seriam necessários

850 indivíduos se quiséssemos obter um nível de significância de p < 0,05 e uma potência de 0,9. Se estivéssemos satisfeitos em detectar apenas um

efeito significativo do tratamento na redução de 20% na mortalidade (e

provavelmente deixar de detectar uma redução de 10 pontos), seriam

necessários somente 210 pacientes. Nesse exemplo, deixar de detectar uma

redução real de 10 pontos porcentuais na mortalidade poderia resultar no

abandono de um tratamento que salvaria 100 vidas para cada 1.000

pacientes tratados – um erro extremamente sério do ponto de vista da

sociedade. Esse exemplo simples enfatiza a necessidade de se avaliarem os

benefícios clínicos (cuja quantificação, em geral, é difícil) em paralelo com

as considerações estatísticas (que são friamente objetivas) no planejamento

dos ensaios.

 

▼ Um ensaio pode apresentar um resultado significativo (de benefício

ou risco) antes de atingir o número planejado de pacientes; por isso, é

comum fazer análises em intervalos no transcurso do ensaio (por uma

equipe independente de monitoramento dos dados, para que o grupo do

ensaio não tenha conhecimento dos resultados). Se essa análise fornecer

um resultado conclusivo ou se mostrar que a continuação não fornecerá

um resultado conclusivo (i. e., futilidade), o ensaio poderá ser

encerrado, reduzindo o número de pacientes testados. Em um ensaio de

grande escala (Betablocker Heart Attack Trial Research Group, 1982)

sobre o valor do tratamento a longo prazo com propranolol, um β-

bloqueador adrenérgico (ver Capítulo 15) usado após crises cardíacas,

os resultados intermediários mostraram significativa redução da

mortalidade, o que levou ao encerramento precoce do ensaio. Outro

ensaio, o Cardiac Arrhythmia Suppression Trial (CAST, Echt et al.,

1991), foi interrompido porque o grupo de tratamento mostrou

mortalidade aumentada em relação ao grupo placebo, ao contrário das

expectativas.