Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 648 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

52 Fármacos Antibacterianos

CONSIDERAÇÕES GERAIS

 

Neste capítulo, desenvolvemos as ideias apresentadas no capítulo anterior.

Uma discussão detalhada sobre a bacteriologia ultrapassa o âmbito deste

livro, mas, para contextualizar, são fornecidas informações sobre alguns

agentes patogênicos clinicamente. São descritas as principais categorias de

fármacos antibacterianos,1 bem como seu mecanismo de ação, propriedades

farmacocinéticas e efeitos secundários. Concluímos com um resumo das

novas pesquisas nessa área vital.

 

INTRODUÇÃO

Em 1928, Alexander Fleming, enquanto trabalhava no Hospital de St. Mary,

em Londres, descobriu que uma placa de colônias de estafilococos havia

sido contaminada por um fungo do gênero Penicillium. Sua observação de

que o crescimento bacteriano nas proximidades do fungo havia cessado

revelou-se crucial. Posteriormente, Fleming isolou o fungo em cultura pura

e demonstrou que produzia uma substância antibacteriana a que chamou de

penicilina. Essa substância foi depois preparada a granel, extraída, e seus efeitos antibacterianos foram analisados por Florey, Chain e colegas em

Oxford, em 1940. Sua experiência mostrou que esta não era tóxica para o

hospedeiro, mas matou os patógenos em camundongos infectados,

desencadeando, portanto, a “era antibiótica”. Desde então, muitos novos

tipos de antibióticos foram descobertos e a prática da medicina seria

impensável sem eles.

 

■ Técnica de Gram e estrutura da parede celular bacteriana

A maioria das bactérias é classificada como gram-positiva ou gram-

negativa, dependendo se mudarem de coloração quando sujeitas à técnica

de Gram. Essa coloração reflete as diferenças fundamentais na estrutura da

parede celular das bactérias e tem implicações importantes para a ação dos

antibióticos.

A parede celular dos microrganismos gram-positivos é uma estrutura

relativamente simples, com cerca de 15 a 50 nm de espessura, englobando

aproximadamente 50% de peptidoglicano (ver Capítulo 51), 40 a 45% de

polímero acídico, bem como 5 a 10% de proteínas e polissacarídios. A

superfície celular é altamente polarizada e tem carga elétrica negativa, e

isso influencia a penetração de alguns antibióticos.

A parede celular de microrganismos gram-negativos é muito mais

complexa e consiste no seguinte (a partir da membrana plasmática):

 

• Um espaço periplásmico que contém enzimas e outros compostos

• Uma camada de peptidoglicano com 2 nm de espessura, que representa

5% da massa da parede celular e que, com frequência, está ligada por

lipoproteínas que se projetam para fora

• Uma membrana externa constituída por uma camada dupla lipídica, em

alguns aspectos semelhante à membrana plasmática, que contém

proteínas e (no interior) lipoproteínas ligadas ao peptidoglicano. Outras

proteínas formam canais aquosos transmembrana, denominados

porinas, através dos quais alguns antibióticos hidrofílicos conseguem se

movimentar livremente (ver também Capítulo 9)

• Polissacarídios complexos que formam compostos importantes da

membrana externa. Diferem entre espécies de bactérias e são os

principais determinantes de seu potencial antigênico. Também são fonte

de endotoxinas, um lipopolissacarídio que, quando aplicado in vivo,

incita vários aspectos da resposta inflamatória ao ativar o complemento

e as citocinas, causando febre e outros sintomas (ver Capítulo 7).

 

A dificuldade em penetrar essa membrana exterior complexa explica o

porquê de alguns antibióticos serem menos ativos contra bactérias gram-

negativas do que em bactérias gram-positivas. É também uma razão para a

extraordinária resistência aos antibióticos, demonstrada pela Pseudomonas

aeruginosa, um patógeno que provoca infecções potencialmente fatais em

pacientes neutropênicos e também naqueles com queimaduras e feridas,

bem como infecção brônquica crônica em pacientes com fibrose cística. Os

lipopolissacarídios da membrana externa constituem uma barreira

importante para alguns antibióticos, incluindo benzilpenicilina, meticilina,

macrolídios, rifampicina, ácido fusídico e vancomicina.

Os antibióticos que interferem na síntese da parede celular bacteriana

(p. ex., penicilinas) ou inibem enzimas cruciais (como as quinolonas)

geralmente matam as bactérias (i. e., são bactericidas), enquanto aqueles

que inibem a síntese proteica, como as tetraciclinas, tendem a ser

bacteriostáticos, ou seja, previnem o crescimento e a replicação. A

distinção não é, no entanto, clinicamente relevante, porque o desfecho

depende criticamente da resposta do hospedeiro ao lidar com as populações

bacterianas comprometidas.