Rang e Dale: Farmacologia
Consumo e uso abusivo de substâncias
Uma série de termos é usada, por vezes com intercâmbios e de forma
incorreta, para descrever o uso de substâncias e as consequências da
autoadministração. Os termos que devem ser evitados estão descritos na
Tabela 50.1. Outros termos, mais úteis, estão definidos ao longo do texto.
Um vasto e crescente conjunto de substâncias é usado para alterar o
humor e a percepção.1 Este inclui aquelas que também são usadas como
medicamentos, por exemplo, ansiolíticos (ver Capítulo 45), opioides (ver
Capítulo 43) e anestésicos gerais (ver Capítulo 42), tais como canabinoides
(ver Capítulo 20), e as sem indicações clínicas descritas no Capítulo 49.
Solventes orgânicos voláteis (presentes em colas e aerossóis), consumidos
por inalação, também são classificados como drogas de uso abusivo. A
popularidade de cada uma varia entre diferentes sociedades por todo o
mundo, e dentro da mesma sociedade a popularidade difere entre grupos
distintos de indivíduos.2 Com frequência, os utilizadores irão tomar mais de
uma droga de modo concomitante (p. ex., utilizadores de heroína irão
injetar cocaína e heroína juntas, uma atividade conhecida como
speedballing) ou sequencialmente. O uso sequencial é muitas vezes
realizado com o objetivo de diminuir os efeitos adversos quando este
diminui o efeito da primeira substância (p. ex., uso de benzodiazepínicos
quando diminui o efeito de estimulantes). O policonsumo de substâncias é
uma área muito pouco pesquisada quanto ao motivo de isso ser feito, à
forma como as diferentes substâncias interagem e ao potencial malefício
que daí possa surgir. Por exemplo, o etanol altera o metabolismo da
cocaína, resultando na produção de cocaetileno, que é mais potente que a
cocaína e tem uma toxicidade cardiovascular potencialmente mais elevada.
As substâncias de uso abusivo consistem em um grupo farmacológico
extremamente heterogêneo; podemos encontrar pouco em comum em nível molecular e celular entre, por exemplo, morfina, cocaína e LSD
(dietilamida do ácido lisérgico). O que as liga é o fato de as pessoas
considerarem os seus efeitos prazerosos (hedônicos), tendendo a querer
repetir a experiência. A experiência da substância pode tomar a forma de
euforia intensa, elevação de humor, alucinações, estimulação, sedação ou
calma, dependendo da substância específica consumida. Nesse sentido, o
uso de substâncias pode ser descrito como procura de emoção. A maior
parte desses consumidores, no entanto, tem problemas de saúde mental em
curso e, para eles, o consumo é uma forma de escapar da realidade, o que
pode ser descrito como automedicação.
A popularidade e a disponibilidade das substâncias têm mudado com o
tempo. Por exemplo, ao longo dos últimos 20 anos, a epidemia de opioides
nos EUA foi alimentada inicialmente pela facilidade de obtenção de
prescrição de opioides como a oxicodona, e mais recentemente pela
disponibilidade de fentanila de produção ilícita, de modo que, em 2016,
nos EUA, de mais de 50.000 mortes decorrentes de superdosagem, cerca de
38% deveram-se à fentanila e a fármacos relacionados, 27% a opioides
prescritos e apenas 29% à heroína (nome oficial, diamorfina). A situação é
diferente em outros países, como o Reino Unido, onde o uso abusivo de
oxicodona e fentanila é ainda relativamente incomum.
O uso de substâncias envolve efeitos no cérebro que podem ser tanto
agudos quanto crônicos (Figura 50.1). O efeito agudo imediato no humor é
o motivo pelo qual a substância é consumida. Para algumas substâncias (p.
ex., anfetaminas, ver Capítulo 49), isso pode ser seguido de uma fase
rebote ou deprimida. O uso persistente de uma substância pode levar ao uso
compulsivo (adicção – um estado complexo que envolve dependência
psicológica e fisiológica) e ao desenvolvimento de tolerância. A dependência psicológica pode dar origem a desejo intenso de consumo