Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 634 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Consumo e uso abusivo de substâncias

Uma série de termos é usada, por vezes com intercâmbios e de forma

incorreta, para descrever o uso de substâncias e as consequências da

autoadministração. Os termos que devem ser evitados estão descritos na

Tabela 50.1. Outros termos, mais úteis, estão definidos ao longo do texto.

Um vasto e crescente conjunto de substâncias é usado para alterar o

humor e a percepção.1 Este inclui aquelas que também são usadas como

medicamentos, por exemplo, ansiolíticos (ver Capítulo 45), opioides (ver

Capítulo 43) e anestésicos gerais (ver Capítulo 42), tais como canabinoides

(ver Capítulo 20), e as sem indicações clínicas descritas no Capítulo 49.

Solventes orgânicos voláteis (presentes em colas e aerossóis), consumidos

por inalação, também são classificados como drogas de uso abusivo. A

popularidade de cada uma varia entre diferentes sociedades por todo o

mundo, e dentro da mesma sociedade a popularidade difere entre grupos

distintos de indivíduos.2 Com frequência, os utilizadores irão tomar mais de

uma droga de modo concomitante (p. ex., utilizadores de heroína irão

injetar cocaína e heroína juntas, uma atividade conhecida como

speedballing) ou sequencialmente. O uso sequencial é muitas vezes

realizado com o objetivo de diminuir os efeitos adversos quando este

diminui o efeito da primeira substância (p. ex., uso de benzodiazepínicos

quando diminui o efeito de estimulantes). O policonsumo de substâncias é

uma área muito pouco pesquisada quanto ao motivo de isso ser feito, à

forma como as diferentes substâncias interagem e ao potencial malefício

que daí possa surgir. Por exemplo, o etanol altera o metabolismo da

cocaína, resultando na produção de cocaetileno, que é mais potente que a

cocaína e tem uma toxicidade cardiovascular potencialmente mais elevada.

As substâncias de uso abusivo consistem em um grupo farmacológico

extremamente heterogêneo; podemos encontrar pouco em comum em nível molecular e celular entre, por exemplo, morfina, cocaína e LSD

(dietilamida do ácido lisérgico). O que as liga é o fato de as pessoas

considerarem os seus efeitos prazerosos (hedônicos), tendendo a querer

repetir a experiência. A experiência da substância pode tomar a forma de

euforia intensa, elevação de humor, alucinações, estimulação, sedação ou

calma, dependendo da substância específica consumida. Nesse sentido, o

uso de substâncias pode ser descrito como procura de emoção. A maior

parte desses consumidores, no entanto, tem problemas de saúde mental em

curso e, para eles, o consumo é uma forma de escapar da realidade, o que

pode ser descrito como automedicação.

A popularidade e a disponibilidade das substâncias têm mudado com o

tempo. Por exemplo, ao longo dos últimos 20 anos, a epidemia de opioides

nos EUA foi alimentada inicialmente pela facilidade de obtenção de

prescrição de opioides como a oxicodona, e mais recentemente pela

disponibilidade de fentanila de produção ilícita, de modo que, em 2016,

nos EUA, de mais de 50.000 mortes decorrentes de superdosagem, cerca de

38% deveram-se à fentanila e a fármacos relacionados, 27% a opioides

prescritos e apenas 29% à heroína (nome oficial, diamorfina). A situação é

diferente em outros países, como o Reino Unido, onde o uso abusivo de

oxicodona e fentanila é ainda relativamente incomum.

O uso de substâncias envolve efeitos no cérebro que podem ser tanto

agudos quanto crônicos (Figura 50.1). O efeito agudo imediato no humor é

o motivo pelo qual a substância é consumida. Para algumas substâncias (p.

ex., anfetaminas, ver Capítulo 49), isso pode ser seguido de uma fase

rebote ou deprimida. O uso persistente de uma substância pode levar ao uso

compulsivo (adicção – um estado complexo que envolve dependência

psicológica e fisiológica) e ao desenvolvimento de tolerância. A dependência psicológica pode dar origem a desejo intenso de consumo