Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 323 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos usados na gota

ac, anticorpo; EA, espondilite anquilosante; DC, doença de Crohn; G, gota grave; IL, interleucina; mAb, anticorpo monoclonal: AP,

artrite psoriática; PP, psoríase em placas (p. ex., pele); PS, psoríase; AR, artrite reumatoide; LES, lúpus eritematoso sistêmico;

TNF, fator de necrose tumoral.

(Dados de diversas fontes, incluindo o British National Formulary, 2017.)

 

FÁRMACOS USADOS NA GOTA

A gota é uma doença metabólica na qual os cristais de urato são depositados

nos tecidos, em geral porque a concentração de urato está aumentada no

plasma. Por vezes ela está relacionada à indulgência com bebidas

alcoólicas, em especial cerveja, ou alimentos ricos em purinas, como as

vísceras animais (o urato é um produto do metabolismo das purinas). Outras

causas são o aumento da renovação (turnover) celular, como nas doenças

hematológicas malignas, particularmente após tratamento com citotóxicos

(ver Capítulo 57), ou por comprometimento da eliminação de ácido úrico

por fármacos como o ácido acetilsalicílico em doses terapêuticas comuns

(ver anteriormente). Caracteriza-se por crises intermitentes muito dolorosas

de artrite aguda, produzidas pela deposição de cristais no tecido sinovial das

articulações distais, como o primeiro dedo do pé e a orelha externa – pois

ambos são geralmente frios, favorecendo a deposição dos cristais. O

processo desencadeia uma resposta inflamatória envolvendo a ativação dos

sistemas de cininas, do complemento e da plasmina (ver Capítulos 19 e 7,

Figura 7.1), a geração de prostaglandinas, produtos da lipo-oxigenase como

o leucotrieno B4 (ver Capítulo 18, Figura 18.1), e o acúmulo local de

granulócitos neutrófilos. Estes englobam os cristais por fagocitose,

liberando metabólitos tóxicos do oxigênio que lesam os tecidos e,

subsequentemente, causam lise das células com liberação de enzimas

proteolíticas. Os cristais de urato induzem também a produção de IL-1 e,

possivelmente, de outras citocinas.

Os fármacos usados no tratamento da gota podem atuar das seguintes

maneiras:

 

• Diminuindo a síntese de ácido úrico (alopurinol, o principal fármaco

profilático) ou febuxostate

• Aumentando a eliminação de ácido úrico (agentes uricosúricos:

probenecida, sulfimpirazona, ver Capítulo 30)

• Inibindo a migração de leucócitos para a articulação (colchicina)

• Como uma doença “dependente de IL-1”, biofármacos como anacinra

podem ser úteis

• Por efeito anti-inflamatório e analgésico geral (AINE e, ocasionalmente,

glicocorticoides).

 

Os usos clínicos estão resumidos no boxe clínico (ver adiante).

Figura 27.4 Efeito dos biofármacos anticitocinas na artrite reumatoide. Nesta figura, o adalimumabe (um anticorpo monoclonal humanizado que neutraliza o fator de necrose tumoral [TNF]) e o etanercepte (uma proteína de fusão do receptor-armadilha que se liga ao TNF) foram usados para tratar pacientes com artrite reumatoide ativa. O eixo Y mede um composto de escalas de atividade da doença obtido da avaliação clínica de 28 articulações (DAS28: quanto menor o valor, menores o edema e a dor das articulações). (De Jobanputra et al., 2012.)

Usos clínicos dos fármacos usados em gota e hiperuricemia

 

Tratamento da crise aguda de gota:

• Um AINE, por exemplo, ibuprofeno, naproxeno

• A colchicina é útil quando os AINE são contraindicados

• Um glicocorticoide, por exemplo, hidrocortisona (oral, intramuscular ou intra-articular)

é uma alternativa a um AINE

• Para pro laxia (não deve ser iniciada até que o paciente esteja assintomático):

alopurinol; um fármaco uricosúrico (p. ex., probenecida, sul mpirazona), para

pacientes alérgicos ao alopurinol

• Rasburicase por infusão intravenosa para a prevenção e tratamento de hiperuricemia

aguda, em pacientes com malignidade hematológica e risco de lise rápida.

 

■ Alopurinol

O alopurinol é um análogo de hipoxantina que reduz a síntese de ácido

úrico por inibição competitiva da xantina oxidase (Figura 27.5). O fármaco

é convertido primeiramente em aloxantina pela xantina oxidase, que

persiste no tecido por um tempo considerável, e é um eficaz inibidor não

competitivo da enzima. Também ocorre certa inibição da síntese de novo de

purinas.

O alopurinol reduz a concentração dos uratos e do ácido úrico

relativamente insolúveis nos tecidos, no plasma e na urina, e, ao mesmo

tempo, aumenta a concentração de seus precursores mais solúveis, as

xantinas e hipoxantinas. A deposição de cristais de urato nos tecidos (tofos)

é revertida, e a formação de cálculos renais de urato é inibida. O alopurinol

é o fármaco de escolha no tratamento da gota a longo prazo, mas, de fato, exacerba a inflamação e a dor em crises agudas (ver adiante). O

febuxostate tem mecanismo de ação e farmacologia semelhantes.

 

Figura 27.5 Inibição da síntese de ácido úrico pelo alopurinol. Ver detalhes no texto.

 

Administrado VO, o alopurinol é bem absorvido e possui meia-vida de

2 a 3 h; é convertido em aloxantina (ver Figura 27.5), cuja meia-vida é de

18 a 30 h. A eliminação renal é o resultado do balanço entre filtração

glomerular e reabsorção tubular sensível à probenecida.

É comum ocorrerem crises agudas de gota durante os primeiros estágios

da terapia (possivelmente em decorrência de alterações físico-químicas nas

superfícies dos cristais de urato quando estes começam a se redissolver), de

modo que o tratamento nunca é iniciado durante uma crise aguda, mas, em

geral, em associação com um AINE. Seus efeitos adversos são poucos,

podendo ocorrer distúrbios GI, reações alérgicas (sobretudo rashes) e alguns problemas sanguíneos, que em geral desaparecem com a suspensão

do fármaco. Doenças de pele potencialmente fatais como necrólise

epidérmica tóxica e síndrome de Stevens-Johnson são raras, mas

devastadoras.

▼ O alopurinol aumenta o efeito da mercaptopurina, um

antimetabólito usado na quimioterapia do câncer, que é inativado pela

xantina oxidase (Capítulo 57), e também da azatioprina (ver Tabela

27.2), que é metabolizada em mercaptopurina. O alopurinol também

aumenta o efeito de outro fármaco antineoplásico, a ciclofosfamida (ver

Capítulo 57). O efeito da varfarina aumenta porque seu metabolismo é

inibido.

 

■ Agentes uricosúricos

Os uricosúricos aumentam a eliminação de ácido úrico por ação direta sobre

o túbulo renal (ver Capítulo 30). Tais fármacos seguem sendo úteis como

agentes profiláticos para pacientes com gota recorrente grave que tenham

reações adversas intensas ao alopurinol. Os fármacos comuns incluem a

probenecida e a sulfimpirazona (que também tem atividade de AINE). A

benzbromarona também está disponível para o tratamento de pacientes

selecionados com comprometimento renal. O tratamento com fármacos

uricosúricos inicia-se juntamente com um AINE, como no caso do

alopurinol. No entanto, o ácido acetilsalicílico e os salicilatos antagonizam

a ação dos fármacos uricosúricos e não devem ser usados ao mesmo tempo.

 

Tabela 27.4 Comparação de alguns anti-histamínicos

sistêmicos normalmente usados (antagonistas

H 1).

Tipo Fármaco Usos antialérgicos Comentários

comuns

Ação sedativa forte. Às vezes usado para pré-medicação

Alimemazina U

anestésica

Clorfeniramina EA, F, U –

Também usado no tratamento de náuseas, êmese e

Cinarizina –

cinetose

Clemastina F, U –

Sedativos Também usado no tratamento de náuseas, êmese e

Ciclizina –

cinetose

Cipro-heptadina F, U Também usado na enxaqueca

Hidroxizina U Pode causar prolongamento do intervalo QT

Cetotifeno F Propriedades “estabilizadoras” dos mastócitos

Ação sedativa forte. Também usado no controle de

Prometazina F, U, EA

náuseas e êmese

Acrivastina F, U –

Bilastina F, U –

Cetirizina F, U –

Desloratadina F, U Metabólito da loratadina. Ação duradoura

Não sedativos Fexofenadina F, U Metabólito da terfenadina “seguro para o coração”

Levocetirizina F, U Isômero da cetirizina

Loratadina F, U –

Mizolastina F, U Pode causar prolongamento do intervalo QT

Rupatadina F, U Também antagoniza o PAF (ver Capítulo 18)

EA, emergência alérgica (p. ex., choque ana lático); F, febre do feno; PAF, fator ativador de plaquetas; S, sedação; U, urticária

e/ou prurido.

(Dados de diversas fontes, incluindo o British National Formulary, 2017.)

 

Embora não pertença estritamente a este grupo, a rasburicase é uma

preparação que contém a enzima ácido úrico oxidase, algumas vezes

utilizada para tratamento agressivo da gota. A substância oxida o ácido

úrico no sangue em alantoína, que é mais solúvel e, portanto, mais

facilmente eliminada.

 

■ Colchicina

A colchicina é um alcaloide extraído do açafrão-do-prado (Colchicum

autumnale). Ela tem efeito benéfico na artrite gotosa e pode ser usada tanto

para prevenir como para aliviar as crises agudas. Além disso, impede a

migração de neutrófilos para a articulação, aparentemente por ligação à

tubulina, resultando em despolimerização dos microtúbulos e redução da

motilidade celular. Os neutrófilos tratados com colchicina exibem uma

locomoção errática, muitas vezes comparada a uma “caminhada bêbada”. A

colchicina também pode impedir a produção de uma suposta glicoproteína

inflamatória pelos neutrófilos que tenham fagocitado cristais de urato.

Outros mecanismos também podem ser importantes para explicar seus

efeitos. Em doses mais elevadas que as usadas para tratar a gota, a

colchicina inibe a mitose, tendo um risco de depressão grave da medula

óssea.

A colchicina é usada VO, sendo eliminada em parte no trato GI e em

parte na urina.

Os efeitos adversos agudos da colchicina durante o tratamento são

amplamente GI e incluem náuseas, vômitos e dor abdominal. A diarreia

grave9 pode ser problemática e, em doses elevadas ou tratamento prolongado, a sua ação antimitótica pode causar graves efeitos adversos que