Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 158 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Sistema nervoso autônomo

inequívoca o fenômeno da transmissão química nas terminações

nervosas simpáticas. Por meio de experimentos in vivo, eles

demonstraram que tecidos que se tornavam supersensíveis à epinefrina

como resultado de desnervação simpática prévia respondiam, após

algum tempo, ao transmissor liberado pela estimulação de nervos

simpáticos de outras partes do corpo. A identidade química do

transmissor, que se apresentava tentadoramente semelhante à epinefrina,

mas não era idêntico a ela, causou confusão durante muitos anos. Em

1946, enfim, von Euler mostrou que se tratava de seu derivado não

metilado, a norepinefrina.

 

SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO

O sistema nervoso autônomo, por longo tempo, ocupou a posição central na

farmacologia da transmissão química.

 

BASES ANATÔMICAS E FISIOLÓGICAS

O sistema nervoso autônomo (Robertson et al., 2012) é composto de três

divisões anatômicas principais: a simpática, a parassimpática e o sistema

nervoso entérico. Os sistemas simpático e parassimpático (Figura 13.1)

estabelecem um vínculo entre o SNC e os órgãos periféricos. O sistema

nervoso entérico compreende os plexos nervosos intrínsecos do trato

gastrintestinal, que estão intimamente interconectados com os sistemas

simpático e parassimpático.

O sistema nervoso autônomo conduz todas as informações provenientes

do SNC para o restante do organismo, exceto para a inervação motora dos

músculos esqueléticos. O sistema nervoso entérico dispõe de recursos

integrativos suficientes que possibilitam o seu funcionamento de modo

independente do SNC; no entanto, os sistemas simpático e parassimpático são agentes do SNC e não são capazes de funcionar sem ele. O sistema

nervoso autônomo está em grande parte fora da influência do controle

voluntário. Os principais processos que ele regula, em maior ou menor

extensão, são:

 

• A contração e o relaxamento da musculatura lisa de vasos e vísceras

• Todas as secreções exócrinas e algumas endócrinas

• Os batimentos cardíacos

• O metabolismo energético, particularmente no fígado e nos músculos

esqueléticos.

 

Certo grau de controle autonômico também afeta muitos outros sistemas,

que incluem os rins, o sistema imunológico e o sistema somatossensorial. A

via eferente autônoma consiste em dois neurônios dispostos em série,

enquanto, no sistema motor somático, um único neurônio motor conecta o

SNC à fibra muscular esquelética (Figura 13.2). Os dois neurônios da via

autônoma são conhecidos, respectivamente, como pré-ganglionar e pós-

ganglionar. No sistema nervoso simpático, as sinapses estão localizadas em

gânglios autônomos, que se localizam fora do SNC e contêm as

terminações nervosas das fibras pré-ganglionares e os corpos celulares dos

neurônios pós-ganglionares. Nas vias parassimpáticas, as células pós-

ganglionares são encontradas principalmente nos órgãos-alvo, e gânglios

parassimpáticos isolados (p. ex., gânglio ciliar) são encontrados apenas na

cabeça e no pescoço.

Figura 13.1 Esquema básico do sistema nervoso autônomo de mamíferos. C,

cervical; GI, gastrintestinal; L, lombar; S, sacral; T, torácico.

Figura 13.2 Acetilcolina e norepinefrina como transmissores no sistema nervoso

periférico. Estão indicados os dois tipos principais de receptor para a acetilcolina (ACh), o

nicotínico (nic) e o muscarínico (mus) (ver Capítulo 14) e dois tipos de receptores

adrenérgicos, α e β (ver Capítulo 15). NE, norepinefrina.

 

Os corpos celulares dos neurônios simpáticos pré-ganglionares

localizam-se no corno lateral da substância cinzenta dos segmentos

torácicos e lombares da medula espinal, e as fibras deixam a medula espinal

em nervos espinais como emergência simpaticotoracolombar. As fibras

pré-ganglionares fazem sinapse nas cadeias paravertebrais de gânglios

simpáticos, localizadas em ambos os lados da coluna vertebral. Esses

gânglios contêm os corpos celulares dos neurônios simpáticos pós-

ganglionares, cujos axônios se reúnem no nervo espinal. Muitas das fibras

simpáticas pós-ganglionares alcançam seus destinos periféricos por meio de

ramos dos nervos espinais. Outras, cujos destinos são as vísceras

abdominais e pélvicas, têm seus corpos celulares em um grupo de gânglios pré-vertebrais desprovidos de par e localizados na cavidade abdominal. A

única exceção a essa estrutura formada por dois neurônios é a inervação da

medula da glândula suprarrenal. As células secretoras de catecolaminas da

medula suprarrenal são, na realidade, neurônios simpáticos pós-

ganglionares modificados, e os nervos que inervam a glândula são

equivalentes às fibras pré-ganglionares.

Os nervos parassimpáticos emergem de duas regiões diferentes do SNC.

A emergência craniana consiste em fibras pré-ganglionares de certos

nervos cranianos, ou seja, do nervo oculomotor (que transporta fibras

parassimpáticas destinadas aos olhos), dos nervos facial e glossofaríngeo

(que transportam fibras para as glândulas salivares e para a nasofaringe) e

do nervo vago (que transporta fibras para as vísceras torácicas e

abdominais). Os gânglios encontram-se espalhados e em íntima relação

com os órgãos-alvo; os axônios pós-ganglionares são muito curtos quando

comparados aos do sistema simpático. As fibras parassimpáticas cujos

destinos são as vísceras abdominais e pélvicas saem da medula espinal

como emergência sacral. Trata-se de um feixe de nervos conhecido como

nervos eretores (porque sua estimulação provoca ereção genital – um fato

de certa importância para os responsáveis pela inseminação artificial do

gado). Essas fibras fazem sinapse em um grupo de gânglios pélvicos

dispersos, de onde as fibras pós-ganglionares curtas saem e rumam para

tecidos-alvo como a bexiga, o reto e os órgãos genitais. Os gânglios

pélvicos transportam tanto fibras simpáticas quanto parassimpáticas, e as

duas divisões não são anatomicamente distintas nessa região.

O sistema nervoso entérico (revisado por Furness et al., 2014) consiste

em neurônios cujos corpos celulares estão localizados nos plexos

intramurais da parede do intestino. Estima-se que haja mais células nesse

sistema que na medula espinal e, em termos funcionais, tais células não se encaixam de forma simples na classificação simpático/parassimpático. Os

nervos provenientes dos sistemas simpático e parassimpático terminam em

neurônios entéricos e também seguem diretamente para músculos lisos,

glândulas e vasos sanguíneos. Alguns neurônios entéricos atuam como

mecanorreceptores ou quimiorreceptores, constituindo vias reflexas locais

capazes de controlar a função gastrintestinal sem estímulos externos. O

sistema nervoso entérico é farmacologicamente mais complexo que os

sistemas simpático e parassimpático, e envolve muitos neuropeptídios e

outros transmissores (como 5-hidroxitriptamina, óxido nítrico e ATP; ver

Capítulo 31).

Em alguns locais (p. ex., no músculo liso visceral do intestino e da

bexiga, e no coração), os sistemas simpático e parassimpático produzem

efeitos opostos; há, contudo, outros locais em que apenas uma divisão do

sistema autônomo opera. As glândulas sudoríparas e a maioria dos vasos

sanguíneos, por exemplo, têm apenas inervação simpática; ao passo que o

músculo ciliar do olho tem apenas inervação parassimpática. A

musculatura lisa dos brônquios tem apenas inervação parassimpática

(constritora) (embora seu tônus seja altamente sensível à epinefrina

circulante). As artérias de resistência (ver Capítulo 23) têm inervação

simpática vasoconstritora, mas não apresentam inervação parassimpática;

em vez disso, o tônus constritor é contrabalançado por uma liberação basal

de óxido nítrico proveniente das células endoteliais (ver Capítulo 21).

Existem outros exemplos, como as glândulas salivares, em que os dois

sistemas produzem efeitos semelhantes, e não opostos.

Assim, é um erro considerar os sistemas simpático e parassimpático

simplesmente como oponentes fisiológicos. Cada um cumpre sua própria

função fisiológica e pode estar mais ou menos ativo em determinado órgão

ou tecido de acordo com a necessidade do momento. Cannon enfatizou de modo apropriado o papel geral do sistema simpático no desencadeamento