Rang e Dale: Farmacologia
Sistema nervoso autônomo
inequívoca o fenômeno da transmissão química nas terminações
nervosas simpáticas. Por meio de experimentos in vivo, eles
demonstraram que tecidos que se tornavam supersensíveis à epinefrina
como resultado de desnervação simpática prévia respondiam, após
algum tempo, ao transmissor liberado pela estimulação de nervos
simpáticos de outras partes do corpo. A identidade química do
transmissor, que se apresentava tentadoramente semelhante à epinefrina,
mas não era idêntico a ela, causou confusão durante muitos anos. Em
1946, enfim, von Euler mostrou que se tratava de seu derivado não
metilado, a norepinefrina.
SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO
O sistema nervoso autônomo, por longo tempo, ocupou a posição central na
farmacologia da transmissão química.
BASES ANATÔMICAS E FISIOLÓGICAS
O sistema nervoso autônomo (Robertson et al., 2012) é composto de três
divisões anatômicas principais: a simpática, a parassimpática e o sistema
nervoso entérico. Os sistemas simpático e parassimpático (Figura 13.1)
estabelecem um vínculo entre o SNC e os órgãos periféricos. O sistema
nervoso entérico compreende os plexos nervosos intrínsecos do trato
gastrintestinal, que estão intimamente interconectados com os sistemas
simpático e parassimpático.
O sistema nervoso autônomo conduz todas as informações provenientes
do SNC para o restante do organismo, exceto para a inervação motora dos
músculos esqueléticos. O sistema nervoso entérico dispõe de recursos
integrativos suficientes que possibilitam o seu funcionamento de modo
independente do SNC; no entanto, os sistemas simpático e parassimpático são agentes do SNC e não são capazes de funcionar sem ele. O sistema
nervoso autônomo está em grande parte fora da influência do controle
voluntário. Os principais processos que ele regula, em maior ou menor
extensão, são:
• A contração e o relaxamento da musculatura lisa de vasos e vísceras
• Todas as secreções exócrinas e algumas endócrinas
• Os batimentos cardíacos
• O metabolismo energético, particularmente no fígado e nos músculos
esqueléticos.
Certo grau de controle autonômico também afeta muitos outros sistemas,
que incluem os rins, o sistema imunológico e o sistema somatossensorial. A
via eferente autônoma consiste em dois neurônios dispostos em série,
enquanto, no sistema motor somático, um único neurônio motor conecta o
SNC à fibra muscular esquelética (Figura 13.2). Os dois neurônios da via
autônoma são conhecidos, respectivamente, como pré-ganglionar e pós-
ganglionar. No sistema nervoso simpático, as sinapses estão localizadas em
gânglios autônomos, que se localizam fora do SNC e contêm as
terminações nervosas das fibras pré-ganglionares e os corpos celulares dos
neurônios pós-ganglionares. Nas vias parassimpáticas, as células pós-
ganglionares são encontradas principalmente nos órgãos-alvo, e gânglios
parassimpáticos isolados (p. ex., gânglio ciliar) são encontrados apenas na
cabeça e no pescoço.
Figura 13.1 Esquema básico do sistema nervoso autônomo de mamíferos. C,
cervical; GI, gastrintestinal; L, lombar; S, sacral; T, torácico.
Figura 13.2 Acetilcolina e norepinefrina como transmissores no sistema nervoso
periférico. Estão indicados os dois tipos principais de receptor para a acetilcolina (ACh), o
nicotínico (nic) e o muscarínico (mus) (ver Capítulo 14) e dois tipos de receptores
adrenérgicos, α e β (ver Capítulo 15). NE, norepinefrina.
Os corpos celulares dos neurônios simpáticos pré-ganglionares
localizam-se no corno lateral da substância cinzenta dos segmentos
torácicos e lombares da medula espinal, e as fibras deixam a medula espinal
em nervos espinais como emergência simpaticotoracolombar. As fibras
pré-ganglionares fazem sinapse nas cadeias paravertebrais de gânglios
simpáticos, localizadas em ambos os lados da coluna vertebral. Esses
gânglios contêm os corpos celulares dos neurônios simpáticos pós-
ganglionares, cujos axônios se reúnem no nervo espinal. Muitas das fibras
simpáticas pós-ganglionares alcançam seus destinos periféricos por meio de
ramos dos nervos espinais. Outras, cujos destinos são as vísceras
abdominais e pélvicas, têm seus corpos celulares em um grupo de gânglios pré-vertebrais desprovidos de par e localizados na cavidade abdominal. A
única exceção a essa estrutura formada por dois neurônios é a inervação da
medula da glândula suprarrenal. As células secretoras de catecolaminas da
medula suprarrenal são, na realidade, neurônios simpáticos pós-
ganglionares modificados, e os nervos que inervam a glândula são
equivalentes às fibras pré-ganglionares.
Os nervos parassimpáticos emergem de duas regiões diferentes do SNC.
A emergência craniana consiste em fibras pré-ganglionares de certos
nervos cranianos, ou seja, do nervo oculomotor (que transporta fibras
parassimpáticas destinadas aos olhos), dos nervos facial e glossofaríngeo
(que transportam fibras para as glândulas salivares e para a nasofaringe) e
do nervo vago (que transporta fibras para as vísceras torácicas e
abdominais). Os gânglios encontram-se espalhados e em íntima relação
com os órgãos-alvo; os axônios pós-ganglionares são muito curtos quando
comparados aos do sistema simpático. As fibras parassimpáticas cujos
destinos são as vísceras abdominais e pélvicas saem da medula espinal
como emergência sacral. Trata-se de um feixe de nervos conhecido como
nervos eretores (porque sua estimulação provoca ereção genital – um fato
de certa importância para os responsáveis pela inseminação artificial do
gado). Essas fibras fazem sinapse em um grupo de gânglios pélvicos
dispersos, de onde as fibras pós-ganglionares curtas saem e rumam para
tecidos-alvo como a bexiga, o reto e os órgãos genitais. Os gânglios
pélvicos transportam tanto fibras simpáticas quanto parassimpáticas, e as
duas divisões não são anatomicamente distintas nessa região.
O sistema nervoso entérico (revisado por Furness et al., 2014) consiste
em neurônios cujos corpos celulares estão localizados nos plexos
intramurais da parede do intestino. Estima-se que haja mais células nesse
sistema que na medula espinal e, em termos funcionais, tais células não se encaixam de forma simples na classificação simpático/parassimpático. Os
nervos provenientes dos sistemas simpático e parassimpático terminam em
neurônios entéricos e também seguem diretamente para músculos lisos,
glândulas e vasos sanguíneos. Alguns neurônios entéricos atuam como
mecanorreceptores ou quimiorreceptores, constituindo vias reflexas locais
capazes de controlar a função gastrintestinal sem estímulos externos. O
sistema nervoso entérico é farmacologicamente mais complexo que os
sistemas simpático e parassimpático, e envolve muitos neuropeptídios e
outros transmissores (como 5-hidroxitriptamina, óxido nítrico e ATP; ver
Capítulo 31).
Em alguns locais (p. ex., no músculo liso visceral do intestino e da
bexiga, e no coração), os sistemas simpático e parassimpático produzem
efeitos opostos; há, contudo, outros locais em que apenas uma divisão do
sistema autônomo opera. As glândulas sudoríparas e a maioria dos vasos
sanguíneos, por exemplo, têm apenas inervação simpática; ao passo que o
músculo ciliar do olho tem apenas inervação parassimpática. A
musculatura lisa dos brônquios tem apenas inervação parassimpática
(constritora) (embora seu tônus seja altamente sensível à epinefrina
circulante). As artérias de resistência (ver Capítulo 23) têm inervação
simpática vasoconstritora, mas não apresentam inervação parassimpática;
em vez disso, o tônus constritor é contrabalançado por uma liberação basal
de óxido nítrico proveniente das células endoteliais (ver Capítulo 21).
Existem outros exemplos, como as glândulas salivares, em que os dois
sistemas produzem efeitos semelhantes, e não opostos.
Assim, é um erro considerar os sistemas simpático e parassimpático
simplesmente como oponentes fisiológicos. Cada um cumpre sua própria
função fisiológica e pode estar mais ou menos ativo em determinado órgão
ou tecido de acordo com a necessidade do momento. Cannon enfatizou de modo apropriado o papel geral do sistema simpático no desencadeamento