Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 694 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Ciclo de vida do parasito da malária

Os sintomas da malária incluem febre, calafrios, dores nas articulações,

cefaleia, vômito repetitivo, convulsões generalizadas e coma. Os sintomas

tornam-se aparentes apenas 7 a 9 dias depois da picada pelo mosquito

infectado. De longe, o parasito mais perigoso é o P. falciparum.

 

CICLO DE VIDA DO PARASITO DA MALÁRIA

O ciclo de vida do parasito consiste em um ciclo sexual, que tem lugar na

fêmea do mosquito Anopheles, e em um ciclo assexuado, que ocorre em

seres humanos (Figura 55.1 e boxe “Malária”). Portanto, o mosquito, e não

o homem, é o hospedeiro definitivo para o plasmódio. Na verdade, tem sido

afirmado que a única função dos seres humanos é permitir ao parasito

infectar mais mosquitos, para que possa ocorrer maior recombinação

sexual.

Figura 55.1 Ciclo de vida do parasito da malária e local de ação de fármacos

antimaláricos. A infecção é iniciada pela picada de um mosquito Anopheles fêmea infectado, que introduz o parasito no sangue. Este, então, entra em um ciclo pré- ou exoeritrocítico no fígado e um ciclo eritrocítico no sangue: (1a) a partir da corrente sanguínea, o esporozoíto entra nos hepatócitos (o parasito é mostrado como um pequeno círculo contendo pontos, e o núcleo dos hepatócitos, como um oval azul); (2a e 3a) o esquizonte se desenvolve nos hepatócitos; (4) esses eventualmente se rompem, liberando merozoítos (alguns podem infectar mais hepatócitos e se tornar formas latentes do parasito, hipnozoítos). (5) Os merozoítos entram nos eritrócitos e formam trofozoítos móveis (6); após divisão e multiplicação (7 e 8), os esquizontes que se desenvolvem no eritrócito eventualmente (9) rompem-se, com a liberação de mais merozoítos, cuja maioria parasita outros eritrócitos. Por vezes (10 a 12), os merozoítos se diferenciam em gametócitos masculinos e femininos nos eritrócitos. Esses podem constituir uma nova fonte de material infeccioso se o sangue for ingerido por outro mosquito. (1b) Forma latente do parasito no fígado (hipnozoítos). (2b e 3b) Crescimento e multiplicação de hipnozoítos. Os locais de ação dos fármacos são os seguintes. A. Fármacos usados para tratar a crise aguda (também chamados de “agentes esquizonticidas sanguíneos” ou “fármacos para a cura supressiva ou clínica”). B. Fármacos que afetam os hipnozoítos exoeritrocíticos e resultam em uma cura “radical” de P. vivax e P. ovale. C. Fármacos que bloqueiam a ligação entre a fase exoeritrocítica e a fase eritrocítica; são utilizados para a quimioprofilaxia (também denominados profiláticos causais) e previnem o desenvolvimento de crises de malária. D. Fármacos que previnem a transmissão e, assim, impedem o aumento de reservatório humano da doença.

 

▼ O ciclo sexual no mosquito envolve a fertilização do gametócito

feminino pelo gametócito masculino, com a formação de um zigoto, que

se desenvolve em um oocisto (esporocisto). Então, ocorre um estágio

adicional de divisão e de multiplicação, levando à ruptura do

esporocisto, com a liberação dos esporozoítos, que então migram para

as glândulas salivares do mosquito e assim entram em um hospedeiro

humano após a picada do mosquito.

Quando os esporozoítos penetram no hospedeiro humano, desaparecem

da corrente sanguínea no prazo de 30 minutos e entram nas células

parenquimatosas do fígado, onde, nos próximos 10 a 14 dias, passam

por uma fase pré-eritrocítica de desenvolvimento e de multiplicação.

Em seguida, as células hepáticas com o parasito rompem-se, e uma série

de novos merozoítos é liberada. Esses se ligam e entram nos eritrócitos,

formando os parasitos intracelulares móveis denominados trofozoítos.

Na fase eritrocítica, o parasito remodela a célula hospedeira, com a

inserção de proteínas e fosfolipídios do parasito na membrana celular do

eritrócito. A hemoglobina do hospedeiro é transportada para o vacúolo

alimentar do parasito, onde é digerida e oferece uma fonte de

aminoácidos. A porção heme livre, que seria tóxica para o plasmódio, é

tornada inofensiva por polimerização para hemozoína. Alguns fármacos

antimaláricos agem pela inibição da enzima heme-polimerase

responsável por esse passo.

▼ Em seguida à replicação mitótica, o parasito no eritrócito é

denominado um esquizonte, e seu rápido crescimento e divisão,

esquizogonia. Outra fase de multiplicação resulta na produção de

merozoítos adicionais, que são liberados quando o eritrócito se rompe.

Esses merozoítos, então, ligam-se e entram nos eritrócitos novos, e o

ciclo eritrocítico começa novamente. Em algumas formas de malária,

alguns esporozoítos que entram nas células hepáticas formam os

hipnozoítos, ou formas “dormentes” do parasito, as quais podem ser

reativadas meses ou anos mais tarde para continuar um ciclo

exoeritrocítico de multiplicação.

Os parasitos da malária podem multiplicar-se no corpo a uma taxa

fenomenal – um único parasito P. vivax pode dar origem a 250 milhões de

merozoítos em 14 dias. Para apreciar a ação necessária de um fármaco

antimalárico, observe que a destruição de 94% dos parasitos a cada 48 horas

serve apenas para manter o equilíbrio e não vai reduzir adicionalmente seu

número ou sua propensão à proliferação. Alguns merozoítos, ao entrarem nos eritrócitos, diferenciam-se nas formas masculina e feminina de

gametócitos. Estes podem completar seu ciclo somente quando absorvidos

de novo pelo mosquito, quando ele suga o sangue do hospedeiro infectado.

Os episódios periódicos de febre que caracterizam a malária resultam da

ruptura sincronizada dos eritrócitos, com a liberação dos merozoítos e de

resíduos celulares. O aumento na temperatura está associado ao aumento na

concentração plasmática do TNF-α. As recidivas da malária acontecem

provavelmente naquelas formas de malária que têm um ciclo

exoeritrocítico, porque a forma hipnozoítica dormente no fígado pode

emergir depois de intervalos de semanas ou meses para começar a infecção

novamente.

▼ As apresentações clínicas características das diferentes formas da

malária humana são as seguintes (ver Figura 55.1, para detalhes).

• O P. falciparum, que tem um ciclo eritrocítico de 48 horas nos seres humanos, produz a

malária terçã maligna – “terçã” porque se acreditava que a febre recorria a cada terceiro dia (na verdade, ela varia); “maligna” porque é a forma mais grave de malária e é responsável pela maioria das mortes por malária. O plasmódio induz a adesão de moléculas nas células infectadas, que, então, aderem aos eritrócitos não infectados, formando aglomerados (rosetas), e também aderem e se acumulam nos vasos da microcirculação, interferindo no fluxo sanguíneo tecidual e causando disfunção orgânica, incluindo insuficiência renal e encefalopatia (malária cerebral). O P. falciparum não apresenta um estágio exoeritrocítico; assim, se o estágio eritrocítico for erradicado, não ocorrem recidivas

• O P. vivax produz a malária terçã benigna, menos grave que a malária falcípara e raramente

fatal. As formas exoeritrocíticas podem persistir por anos e causar recidivas

• O P. ovale, que tem um ciclo de 48 horas e um estágio exoeritrocítico, é a causa de uma forma

rara de malária

• O P. malariae apresenta um ciclo de 72 horas, causa malária quartã e não apresenta um ciclo

exoeritrocítico.

Os indivíduos que vivem em áreas em que a malária é endêmica podem

adquirir imunidade natural, mas isso pode ser perdido se o indivíduo estiver

ausente da área por mais de 6 meses. A melhor forma de prevenir a malária é evitar as picadas de mosquito por meio de vestuário adequado, repelentes