Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 157 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Seção 2 Mediadores Químicos

CONSIDERAÇÕES GERAIS

 

A rede de sinais químicos, juntamente com os receptores associados, por

meio da qual as células do organismo se comunicam umas com as outras,

oferece muitos alvos para a ação de fármacos e sempre tem sido um dos

focos de atenção dos farmacologistas. O foco deste capítulo é a transmissão

química no sistema nervoso autônomo periférico e as diversas maneiras

pelas quais o processo pode ser modificado farmacologicamente, embora os

mecanismos descritos também operem no sistema nervoso central (SNC).

Além da neurotransmissão, também discutiremos brevemente processos

menos claramente definidos e coletivamente denominados neuromodulação,

por meio da qual muitos mediadores e fármacos exercem controle sobre a

função do sistema nervoso. A relativa simplicidade anatômica e fisiológica

do sistema nervoso periférico tornou-o um campo de provas para muitas

descobertas importantes sobre transmissão química, e os mesmos princípios

gerais aplicam-se ao SNC (ver Capítulo 38). Para maior detalhamento,

consultar Robertson et al. (2012) e Iversen et al. (2009).

 

ASPECTOS HISTÓRICOS

▼ Os primeiros estudos realizados com o sistema nervoso periférico

foram fundamentais para a compreensão e a classificação de muitos

tipos importantes de ação farmacológica; por isso, vale a pena contar

um pouco dessa história. Bacq (1975), Valenstein (2005) e Burnstock

(2009) fornecem descrições excelentes.

A fisiologia experimental estabeleceu-se como forma de abordagem

para a compreensão da função dos organismos vivos em meados do

século XIX. O sistema nervoso periférico, e particularmente o sistema

nervoso autônomo, receberam muita atenção. O fato de que a

estimulação elétrica dos nervos era capaz de produzir grande variedade

de efeitos fisiológicos – desde palidez cutânea até parada cardíaca –

representou um verdadeiro desafio para a compreensão, em especial

quanto ao modo pelo qual o sinal passava do nervo para o tecido

efetuador. Em 1877, Du Bois-Reymond foi o primeiro a expor os

possíveis mecanismos envolvidos: “Dentre os processos naturais

conhecidos capazes de transmitir a excitação, apenas dois, na minha

opinião, são dignos de nota – ou existe no limite da substância contrátil

uma secreção estimuladora (…) ou o fenômeno é de natureza elétrica.”

De modo geral, houve uma preferência pelo segundo ponto de vista. Em

1869, foi demonstrado que uma substância exógena, a muscarina, era

capaz de imitar os efeitos da estimulação do nervo vago, e que a

atropina era capaz de inibir as ações tanto da muscarina quanto da

estimulação do nervo. Em 1905, Langley demonstrou o mesmo

processo utilizando nicotina e curare na junção neuromuscular. A

maioria dos fisiologistas interpretou esses fenômenos como sendo o

resultado, respectivamente, da estimulação e da inibição de terminações

nervosas, e não como evidências da transmissão química. Como

consequência, a sugestão de T. R. Elliott, feita em 1904, de que a

epinefrina (adrenalina) era capaz de agir como um transmissor

químico, mediando as ações do sistema nervoso simpático, foi recebida

com frieza; até que Langley, professor de fisiologia em Cambridge e

uma figura eminente da época, sugeriu, 1 ano depois, que a transmissão

para o músculo esquelético envolvia a secreção de uma substância

relacionada com a nicotina pelas terminações nervosas.

Uma das observações-chave feitas por Elliott foi de que a degeneração

das terminações nervosas simpáticas não abolia a sensibilidade das

preparações de músculo liso à epinefrina (conforme previa a teoria

elétrica), mas, na realidade, a acentuava. A hipótese de transmissão

química foi testada diretamente em 1907 por Dixon, que tentou mostrar

que a estimulação do nervo vago fazia com que o coração de um cão

liberasse para o sangue uma substância capaz de inibir outro coração. O

experimento fracassou e um clima de ceticismo prevaleceu.

Foi somente em 1921, na Alemanha, que Loewi mostrou que a

estimulação do tronco vagossimpático conectado ao coração isolado e

canulado de uma rã era capaz de provocar a liberação, na cânula, de

uma substância (Vagusstoff) que, caso fosse transferida do primeiro

coração para o segundo, inibia o segundo coração. Esse é um

experimento clássico e muito citado que revelou ser de difícil

reprodução, até mesmo para Loewi. Em um registro autobiográfico,

Loewi conta que a ideia da transmissão química surgiu em uma

discussão travada em 1903, mas que o modo de testá-la

experimentalmente somente lhe ocorreu após uma noite, em 1920,

quando sonhou com o experimento apropriado. Ele fez algumas

anotações sobre esse importante sonho no meio da noite, mas, pela

manhã, não conseguiu ler o que ele mesmo havia escrito. O sonho

gentilmente retornou na noite seguinte e, para não correr riscos, Loewi

foi para o laboratório às 3 h da madrugada e realizou o experimento

com sucesso. O experimento de Loewi pode ser (e foi) criticado por

diversas razões (poderia, por exemplo, ter sido o potássio, e não um

neurotransmissor, que estava agindo sobre o coração receptor), mas

vários experimentos posteriores provaram que ele estava certo. Suas

descobertas podem ser resumidas do seguinte modo:

• A estimulação do vago provocava o surgimento, no perfusato do coração de rã, de uma

substância capaz de produzir, no segundo coração, um efeito inibitório que se assemelhava à estimulação vagal

• A estimulação do sistema nervoso simpático provocava o surgimento de uma substância

capaz de acelerar o segundo coração. Por meio de medidas de fluorescência, Loewi concluiu, posteriormente, que essa substância era a epinefrina

• A atropina impedia a ação inibidora do vago sobre o coração, mas não impedia a liberação da

Vagusstoff. Portanto, a atropina impedia os efeitos, e não a liberação do transmissor

• Quando a Vagusstoff era incubada com um triturado de músculo cardíaco, tornava-se inativa.

Sabe-se hoje que esse efeito é decorrente da destruição enzimática da acetilcolina pela colinesterase

• A fisostigmina, que potencializava o efeito da estimulação do vago sobre o coração, impedia

a destruição da Vagusstoff pelo músculo cardíaco, fornecendo evidência de que a potencialização era resultante da inibição da colinesterase, que geralmente destrói a substância transmissora, a acetilcolina.

Alguns anos mais tarde, no início dos anos 1930, Dale mostrou de

maneira convincente que a acetilcolina também era a substância

transmissora que agia na junção neuromuscular do músculo estriado e

nos gânglios autônomos. Uma das chaves para o sucesso de Dale estava

no uso de bioensaios altamente sensíveis, em especial com o músculo

dorsal de sanguessuga, para medir a liberação de acetilcolina. A

transmissão química nas terminações nervosas simpáticas foi

demonstrada aproximadamente na mesma época que a transmissão

colinérgica e por métodos muito semelhantes. Cannon e seus

colaboradores, em Harvard, foram os primeiros a demonstrar de forma