Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 77 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Apoptose e remoção celular

Interações de células, fatores de crescimento e matriz

 

• A célula secreta os componentes da matriz extracelular (MEC) e permanece envolta nesse

tecido

• A MEC in uencia o crescimento e o comportamento das células. Esta também atua como

reservatório dos fatores de crescimento

• As integrinas são receptores celulares transmembrana que podem interagir com

elementos da MEC. Elas modulam as vias de sinalização do fator de crescimento e também

medeiam ajustes do citoesqueleto dentro da célula

• Os fatores de crescimento produzem a liberação de metaloproteinases que degradam a

matriz local, para que possa acomodar o aumento do número de células

• As metaloproteinases liberam os fatores de crescimento da MEC e podem ativar alguns

fatores que estão presentes em forma de precursores.

 

O bevacizumabe, um anticorpo monoclonal que neutraliza o VEGF, é

usado como tratamento adjunto em vários tipos de câncer (ver Capítulo 57),

e sua injeção no olho é usada no tratamento da degeneração macular

relacionada com a idade, uma condição em que os vasos da retina

proliferam excessivamente, causando cegueira.

 

APOPTOSE E REMOÇÃO CELULAR

A apoptose é o suicídio celular. É regulada por um mecanismo constitutivo

de autodestruição, geneticamente programado e formado por uma sequência

específica de eventos bioquímicos. É, por isso, diferente da necrose, que é

uma desintegração totalmente desorganizada das células lesadas que

liberam substâncias desencadeadoras da resposta inflamatória.8 • Infecções virais com erradicação ineficiente das células infectadas por

A apoptose desempenha papel essencial na embriogênese, ajudando a

moldar órgãos durante o desenvolvimento mediante eliminação de células

que se tornaram redundantes. É o mecanismo que remove diariamente, de

maneira discreta, cerca de dez bilhões de células do corpo humano. Está

envolvida em inúmeros eventos fisiológicos: descamação do revestimento

intestinal, morte dos neutrófilos envelhecidos e renovação (turnover) dos

tecidos pari passu da evolução do recém-nascido para a maturidade. É a

base para o desenvolvimento da autotolerância pelo sistema imunológico

(ver Capítulo 7) e atua como defesa de primeira linha contra as mutações

carcinogênicas, por meio do expurgo de células que poderiam vir a se tornar

malignas.

A fisiopatologia de muitas condições envolve distúrbios da apoptose,

incluindo:

 

• Doenças crônicas degenerativas, como doença de Alzheimer, doença de

Parkinson e esclerose múltipla (ver Capítulo 41)

• Condições com lesões teciduais agudas ou perda celular, como infarto

agudo do miocárdio (ver Capítulo 22), acidente vascular encefálico e

lesão da medula espinal (ver Capítulo 41)

• Esgotamento de células T na infecção pelo HIV (ver Capítulo 53)

• Osteoartrite (ver Capítulo 37)

• Doença hematológica como anemia aplásica (ver Capítulo 26)

• Escape da resposta imune por células cancerosas e resistência à

quimioterapia (ver Capítulo 57)

• Doenças autoimunes/inflamatórias, como miastenia gravis (ver Capítulo

14), artrite reumatoide (ver Capítulo 27) e asma brônquica (ver Capítulo

29)

vírus (ver Capítulo 53).

▼ A apoptose é particularmente importante para a regulação da resposta

imunológica e para as muitas condições em que é um componente

subjacente. Evidências mostram que as células T contêm uma via de

regulação negativa controlada por receptores de morte celular

programada de superfície (p. ex., receptor PD-1) e que, em geral, existe

certo equilíbrio entre as vias de estimulação ativada por antígenos e essa

via de regulação negativa indutora de apoptose. Tal equilíbrio é

importante para a manutenção da tolerância periférica. Eventual

distúrbio nesse equilíbrio pode ser visto nas doenças autoimunes, na

“exaustão” de células T nas doenças virais crônicas como HIV e,

possivelmente, no escape dos tumores da destruição imunológica (Zha

et al., 2004). De fato, a PD-1 em geral age inibindo a sinalização do

receptor de células T, e os inibidores da PD-1 (inibidores do ponto de

verificação) causam a ativação das células T, possibilitando que estas

reconheçam e ataquem o tumor mais uma vez (ver também Capítulo

57).

 

A apoptose é uma resposta-padrão, ou seja, a contínua sinalização ativa por

fatores tróficos tecido-específicos, citocinas e hormônios, assim como os

fatores de contato célula-célula (moléculas de adesão, integrinas etc.), são

necessários para a sobrevivência e a viabilidade celular. O mecanismo de

autodestruição é automaticamente ativado, a menos que seja inibido de

forma ativa e contínua por esses fatores antiapoptóticos. Diferentes tipos

celulares demandam distintos conjuntos de fatores de sobrevivência, os

quais funcionam apenas localmente. A célula morre caso se extravie ou seja

desalojada do território protegido por seus sinais de sobrevivência

parácrinos.