Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 686 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

54 Fármacos Antifúngicos

CONSIDERAÇÕES GERAIS

As infecções fúngicas (micoses) estão difundidas entre a população. Nos

climas temperados, como, por exemplo, no Reino Unido, estão geralmente

associadas à pele (p. ex., “pé de atleta”) ou às membranas mucocutâneas (p.

ex., “sapinhos”).1 Em pessoas saudáveis, são principalmente infecções

menores, representando mais um incômodo do que uma ameaça. No

entanto, tornam-se um problema mais grave quando o sistema imunológico

é comprometido ou quando o organismo ganha acesso à circulação

sistêmica. Quando isso ocorre, a infecção pode ser fatal. Neste capítulo,

revisaremos de maneira sucinta os principais tipos de infecções fúngicas e

discutiremos os fármacos que podem ser usados em seu tratamento.

 

FUNGOS E INFECÇÕES FÚNGICAS

Os fungos são células eucarióticas sem mobilidade. Diferentemente das

plantas verdes, não podem realizar fotossíntese e muitos são parasitos ou

saprófitos na natureza. Das milhares espécies já caracterizadas, muitas têm importância econômica porque são comestíveis (p. ex., cogumelos), são

úteis na manufatura de outros produtos (p. ex., fermentação na fabricação

de bebidas e na produção de antibióticos) ou em razão do dano que causam

a outros animais, às colheitas ou aos gêneros alimentícios.

Aproximadamente 50 tipos são patogênicos aos seres humanos. Esses

organismos estão presentes no meio ambiente ou podem coexistir com os

seres humanos como comensais, sem causar qualquer risco evidente à

saúde. Contudo, desde os anos 1970, tem havido aumento estável na

incidência das infecções fúngicas sistêmicas secundárias graves, causando

cerca de 2 milhões de mortes por ano, em geral em indivíduos

imunologicamente vulneráveis. Um dos fatores contribuintes foi o uso

generalizado de antibióticos de amplo espectro, que erradicam as

populações bacterianas não patogênicas, as quais, em geral, competem com

os fungos pelos recursos nutricionais. Outras causas incluem a

disseminação da AIDS e o uso de imunossupressores e agentes

quimioterápicos para o câncer. O resultado foi um aumento da prevalência

de infecções oportunistas, isto é, infecções que se aproveitam das

vulnerabilidades no sistema imune dos hospedeiros. Pessoas idosas ou

diabéticas, gestantes e vítimas de queimadura estão particularmente em

risco quanto às infecções fúngicas, como, por exemplo, candidíase.

Infecções sistêmicas fúngicas primárias, antes raras em locais de clima

temperado, agora são encontradas com mais frequência devido ao aumento

das viagens internacionais.

Os fungos clinicamente importantes podem ser classificados em quatro

tipos principais, com base em suas características morfológicas e outras. É

de particular significância taxonômica a presença de hifas – projeções

filamentosas que podem entrelaçar-se para formar um micélio complexo,

uma estrutura em forma de esteira que confere a aparência característica do mofo. Os fungos são notavelmente específicos na escolha de sua

localização preferida. Os principais grupos são:

 

• Leveduras (p. ex., Cryptococcus neoformans)

• Fungos semelhantes à levedura, que produzem estrutura similar ao

micélio (p. ex., Candida albicans)

• Fungos filamentosos com micélio verdadeiro (p. ex., Aspergillus

fumigatus)

• Fungos “dimórficos”, que, dependendo das limitações nutricionais,

podem crescer tanto como leveduras quanto como fungos filamentosos

(p. ex., Histoplasma capsulatum).2

 

Como regra geral, a maior parte dos fungos causa apenas infecções

sistêmicas em indivíduos imunocomprometidos, mas os fungos dimórficos

podem infectar indivíduos saudáveis.

Outro organismo, o Pneumocystis carinii (atualmente conhecido como

P. jirovecii), descrito no Capítulo 55, partilha características tanto de

protozoários quanto de fungos; trata-se de um importante patógeno

oportunista em pacientes com o sistema imunológico comprometido (p. ex.,

aqueles com AIDS), mas não é suscetível aos fármacos antifúngicos.

A eficácia dos fármacos varia entre os diferentes grupos fúngicos. A

Tabela 54.1 traz exemplos de cada tipo de microrganismo e lista algumas

das doenças causadas por eles e as opções mais comuns de fármacos.

As infecções fúngicas superficiais podem ser classificadas em

dermatomicoses e candidíase. As dermatomicoses incluem as infecções de

pele, cabelo e unhas (onicomicose). São frequentemente causadas pelo

Trichophyton, Microsporum ou Epidermophyton, originando eritemas

circulares conhecidos como “impingem” ou, genericamente, tinha (não

confundir com infecções helmínticas genuínas; ver Capítulo 56). A Tinea capitis afeta o couro cabeludo; a Tinea cruris, a virilha (“coceira de

jóquei”); a Tinea pedis, os pés (“pé de atleta”); e a Tinea corporis, o corpo.

A candidíase superficial, causada por um organismo semelhante à levedura,

pode infectar as membranas mucosas da boca (“sapinho”) ou da vagina, ou,

ainda, a pele. As infecções bacterianas secundárias podem complicar a

evolução e o tratamento dessas manifestações.

Doenças fúngicas sistêmicas (ou “disseminadas”) são muito mais graves

que as infecções superficiais. No Reino Unido, a mais comum é a

candidíase. Outras situações graves incluem meningite criptocócica,

endocardite (particularmente de válvulas artificiais), aspergilose pulmonar e

mucormicose rinocerebral. Atualmente, a aspergilose pulmonar invasiva é

uma causa importante de morte entre os receptores de transplante de medula

óssea ou indivíduos com neutropenia. A colonização pelo Aspergillus nos

pulmões do paciente com asma ou com fibrose cística pode levar a uma

situação similar, denominada aspergilose broncopulmonar alérgica.

 

Tabela 54.1 Algumas infecções fúngicas clinicamente

significativas e uma escolha típica primária de

terapia medicamentosa antifúngica.

 

Tratamentos medicamentosos

Organismo(s) responsável(eis) Doença(s) principal(ais)

comuns

Leveduras Cryptococcus neoformans Meningite Anfotericina, ucitosina, uconazol

Sapinhos (e outras infecções

Fungos super ciais) Fluconazol, itraconazol

semelhantes Candida albicans

 

a leveduras Equinocandinas, anfotericina, Candidíase sistêmica uconazol, outros azóis

Fungos Trichophyton spp. Todos esses organismos causam Itraconazol, terbina na,