Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos que afetam os gânglios autônomos
usos clínicos (p. 186).
FÁRMACOS QUE AFETAM OS GÂNGLIOS AUTÔNOMOS
Estimulantes ganglionares
A maioria dos agonistas do nAChR atua ou nos nAChR neuronais
(ganglionares e do SNC) ou nos receptores musculares estriados (placa
motora), mas não em ambos, exceto no caso de nicotina e de ACh (Tabela
14.6).
A nicotina e a lobelina são aminas terciárias encontradas nas folhas do
tabaco e da lobélia, respectivamente. A nicotina faz parte do folclore da
farmacologia, pois era a substância presente na ponta do pincel de Langley
que estimulava as fibras musculares quando aplicada na região da placa
motora terminal e que levou esse pesquisador a postular, em 1905, a
existência de uma “substância receptiva” situada na superfície das fibras
(ver Capítulo 13). A epibatina, encontrada na pele de sapos venenosos, é
um agonista nicotínico muito potente, seletivo para receptores ganglionares
e neuronais. Verificou-se, um tanto inesperadamente, que esse composto é
um potente analgésico (ver Capítulo 43), embora seus efeitos autônomos
adversos tenham impedido sua utilização clínica. A vareniclina, um
agonista sintético relativamente seletivo para os receptores neuronais, é
utilizada (assim como a própria nicotina) para o tratamento da dependência
de nicotina (ver Capítulo 50). Por outro lado, esses fármacos são usados
apenas como ferramentas experimentais.
Eles desencadeiam respostas periféricas complexas associadas à
estimulação generalizada dos gânglios autônomos. Os efeitos da nicotina
sobre o trato gastrintestinal e as glândulas sudoríparas são familiares para os
fumantes neófitos (ver Capítulo 50), embora geralmente insuficientes para
agir como desestimulantes eficazes.
Usos clínicos dos antagonistas muscarínicos
Cardiovascular
• No tratamento da bradicardia sinusal (p. ex., após infarto agudo do miocárdio; ver
Capítulo 22): por exemplo, atropina.
Oftálmico
• Na dilatação da pupila: por exemplo, colírio de tropicamida ou ciclopentolato.
Neurológico
• Na prevenção da cinetose: por exemplo, hioscina
• No parkinsonismo (ver Capítulo 41), principalmente para neutralizar os distúrbios de
movimento causados por fármacos antipsicóticos (ver Capítulo 47): por exemplo,
benzexol, benztropina.
Respiratório
• Na asma e na doença pulmonar obstrutiva crônica (ver Capítulo 29): ipratrópio ou
tiotrópio por inalação.
Cuidados paliativos
• Cólicas intestinais e secreções respiratórias/salivação excessivas: hioscina ou glicopirrônio.
Pré-medicação anestésica
• Para reduzir secreções: por exemplo, atropina e hioscina (os atuais anestésicos são
pouco irritantes [ver Capítulo 42]; por essa razão, isso é menos importante do que no
passado).
Gastrintestinal
Para facilitar a endoscopia e a radiologia gastrintestinal ao relaxar a musculatura lisa
•
gastrintestinal (ação antiespasmódica; ver Capítulo 31); por exemplo, butilbrometo de
hioscina
• Como antiespasmódico na síndrome do cólon irritável ou na doença diverticular do cólon;
por exemplo, dicicloverina (diciclomina).
Trato urinário
• Para alívio de sintomas de bexiga hiperativa: por exemplo, oxibutinina, tolterodina,
darifenacina.
Fármacos bloqueadores ganglionares
Os fármacos bloqueadores ganglionares são utilizados de forma
experimental para estudar a função autônoma, mas a sua utilização clínica
está ultrapassada. O bloqueio ganglionar pode ocorrer por meio de vários
mecanismos:
• Pela interferência na liberação da ACh, como ocorre na junção
neuromuscular (ver Capítulo 13)
• Pela despolarização prolongada. Após uma estimulação inicial, a
nicotina (Figura 14.4) é capaz de bloquear os gânglios dessa forma,
assim como a própria ACh quando a colinesterase está inibida,
prolongando assim a sua ação sobre a membrana pós-sináptica
• Pela interferência na ação pós-sináptica da ACh bloqueando os
receptores nicotínicos neuronais ou os canais iônicos a eles associados.
▼ Em meados do século passado, Paton e Zaimis investigaram um
grupo de compostos biquaternários lineares. Compostos com cinco ou
seis átomos de carbono (o hexametônio é clinicamente obsoleto, mas é
conhecido como tendo sido o primeiro agente anti-hipertensor eficaz) na
cadeia metileno ligando dois grupos quaternários produziam bloqueio
ganglionar.3
■ Efeitos dos fármacos bloqueadores ganglionares
Os efeitos dos fármacos bloqueadores ganglionares são variados, pois
ambas as divisões do sistema nervoso autônomo são bloqueadas de modo
indiscriminado. A descrição do “homem de hexametônio” feita por Paton é
perfeita:
▼ É um homem de cútis rosada, exceto quando permanece em pé em
uma fila por longo tempo. Nessa situação, pode ficar pálido e desmaiar.
Seu aperto de mão é quente e seco. É uma companhia calma e
descontraída: por exemplo, é capaz de rir, mas não consegue chorar,
porque não tem lágrimas. A história mais despudorada não o fará corar,
e a pior das circunstâncias não o fará empalidecer. Seu colarinho e suas
meias estão sempre limpos e com odor adocicado. Veste cinta, e quando
encontrado na rua, pode estar um tanto inquieto (a cinta comprime o
reservatório vascular visceral, e sua inquietude está relacionada com a
manutenção do retorno venoso das pernas). Não gosta de falar muito, a
não ser que tenha algo para umedecer a boca e a garganta secas. É
hipermétrope e fica facilmente cego diante de uma luz brilhante. A
vermelhidão de seus olhos pode sugerir hábitos irregulares e, de fato,
sua cabeça é um tanto fraca. No entanto, sempre se comporta como um
cavalheiro e nunca arrota ou soluça. Costuma sentir frio e está sempre
bem agasalhado. Mas sua saúde é boa: não tem frieiras, e as doenças da
civilização moderna, a hipertensão e a úlcera péptica, não o afetam. É
magro, porque tem pouco apetite, nunca sente fome, e seu estômago não
ronca. Costuma ter prisão de ventre, por isso consome muita parafina
líquida. Quando envelhecer, sofrerá de retenção urinária e disfunção
erétil, mas não terá frequência, urgência nem estrangúria (i. e., micção
lenta e dolorosa). Não se sabe ao certo como será seu fim, mas, talvez,
se não se cuidar, se comer cada vez menos e ficar cada vez mais frio,
venha a afundar em um coma hipoglicêmico assintomático e morrerá,
como foi proposto para o universo: um tipo de morte por entropia.
(De Paton, W.D.M., 1954. The principles of ganglion block. Lectures on
the Scientific Basis of Medicine, Vol. 2.)
Na prática, o efeito principal é uma queda acentuada da pressão arterial, o
que resulta principalmente no bloqueio dos gânglios simpáticos, que causa
vasodilatação arteriolar e o bloqueio dos reflexos cardiovasculares. A
venoconstrição, que ocorre geralmente quando uma pessoa fica em pé e
impede a queda da pressão venosa central e do débido cardíado, está
reduzida. O ato de ficar em pé, portanto, causa queda súbita da pressão
arterial (hipotensão postural), que pode causar desmaios. A vasodilatação
dos vasos da musculatura esquelética que ocorre durante o exercício físico
costuma ser acompanhada de vasoconstrição em outros locais (p. ex., na
área esplâncnica) produzida pela atividade simpática. Os bloqueadores
ganglionares previnem esse ajuste, de modo que a resistência periférica
global cai, levando à hipotensão pós-exercício.
Fármacos bloqueadores neuromusculares
Os fármacos capazes de bloquear a transmissão neuromuscular agem na
região pré-sináptica, inibindo a síntese ou a liberação de ACh, ou na região
pós-sináptica.
O bloqueio neuromuscular é um complemento importante à anestesia
geral (ver Capítulo 42). Todos os fármacos utilizados para este fim têm ação
pós-sináptica, seja (a) bloqueando os receptores de ACh (em alguns casos, o
canal iônico), ou (b) ativando receptores de ACh, e assim causando uma despolarização persistente na placa motora terminal. O suxametônio (pp.
189-190) é o único bloqueador de despolarização na prática clínica, ao
passo que todos os outros fármacos utilizados são agentes não
despolarizantes.
Agentes bloqueadores não despolarizantes
Em um experimento que ficou famoso, Claude Bernard mostrou, em 1856,
que o “curare” causa paralisia por bloqueio da transmissão neuromuscular, e
não por abolir a condução nervosa ou a contratilidade muscular. O curare é
uma mistura de alcaloides de ocorrência natural encontrados em várias
plantas da América do Sul e utilizados como veneno de flechas por índios
sul-americanos. O componente mais importante é a tubocurarina, que é
muito pouco utilizada na medicina clínica, pois foi substituída por fármacos
sintéticos com melhores propriedades. Os mais importantes são o
pancurônio, o vecurônio, o cisatracúrio e o mivacúrio (Tabela 14.7), que
diferem essencialmente na duração da sua ação. Todas essas substâncias são
compostas de amônio quaternário e, por isso, são mal absorvidas4 (são
administradas por via intravenosa) e normalmente são bem excretadas pelos
rins. Não atravessam a placenta, o que é importante para a utilização na
anestesia obstétrica.
Tabela 14.6 Agonistas e antagonistas dos receptores
nicotínicos.
Fármaco(s) Local principal Tipo de ação Observações
Agonistas
Nicotina Estimulação seguida de Ver Capítulo 50
Gânglios autônomos
bloqueio
SNC Estimulação
Gânglios autônomos
Estimulação –
Lobelina
Terminações nervosas
Estimulação
sensitivas
Isolada da pele de rã
Epibatidina Gânglios autônomos, SNC Estimulação Altamente potente
Sem uso clínico
SNC Usada para a dependência de nicotina (ver
Vareniclina Estimulação
Capítulo 50)
Gânglios autônomos
Empregado na clínica como relaxante
Suxametônio Junção neuromuscular Bloqueio por despolarização
muscular
Decametônio Junção neuromuscular Bloqueio por despolarização Sem uso clínico
Antagonistas
Hexametônio Gânglios autônomos Bloqueio da transmissão Sem uso clínico
Redução da pressão arterial em cirurgia
Trimetafana Gânglios autônomos Bloqueio da transmissão
(uso raro)
Tubocurarina Junção neuromuscular Bloqueio da transmissão Atualmente, seu uso é raro
Pancurônio
Amplamente utilizados como relaxantes
Atracúrio Junção neuromuscular Bloqueio da transmissão
musculares em anestesia
Vecurônio
SNC, sistema nervoso central.
Fármacos que atuam sobre os gânglios autônomos
Estimulantes ganglionares
• Esses compostos englobam nicotina, dimetilfenil-piperazínio (DMPP)
• Tanto os gânglios simpáticos quanto os parassimpáticos são estimulados e, por isso, os
efeitos são complexos e incluem taquicardia e aumento da pressão arterial; efeitos
variáveis sobre a motilidade e as secreções gastrintestinais; aumento das secreções
brônquica, salivar e sudorípara. Há efeitos resultantes da estimulação de outras estruturas
neuronais, que incluem as terminações nervosas sensitivas e noradrenérgicas
• A estimulação dos gânglios pode ser seguida de bloqueio por despolarização
• A nicotina também causa efeitos importantes sobre o sistema nervoso central
• A utilização terapêutica é limitada à cessação do tabagismo (nicotina e vareniclina).
Bloqueadores ganglionares
• Esses compostos englobam hexametônio e tubocurarina (e também nicotina; p. 185)
• Bloqueiam todos os gânglios autônomos e entéricos. Principais efeitos: hipotensão e
perda dos re exos cardiovasculares, inibição de secreções, paralisia gastrintestinal,
comprometimento da micção
• São clinicamente obsoletos (historicamente: o primeiro fármaco no tratamento da
hipertensão arterial).
■ Mecanismo de ação
Os agentes bloqueadores não despolarizantes atuam como antagonistas
competitivos (ver Capítulo 2) dos receptores da ACh situados na placa
terminal.
▼ A quantidade de ACh liberada por um impulso nervoso geralmente
excede em várias vezes o número de moléculas necessário para
desencadear um potencial de ação na fibra muscular. Portanto, é
necessário bloquear de 70 a 80% dos receptores para que a transmissão
seja, de fato, interrompida. Em cada fibra muscular, a transmissão é do
tipo “tudo ou nada”, de modo que diferentes graus de bloqueio
correspondem a porcentagens diferentes de fibras musculares não
responsivas. Nessa situação, quando a amplitude do ppt em todas as
fibras está próxima do limiar (um pouco acima em algumas e um pouco
abaixo em outras), pequenas variações na quantidade do transmissor
liberado, ou na velocidade com que ele é destruído, terão grande efeito
sobre a porcentagem de fibras que se contraem. Consequentemente, o
grau do bloqueio varia de acordo com diversas circunstâncias
fisiológicas (p. ex., frequência da estimulação, temperatura e atividade
da colinesterase), que de outra forma têm efeito pequeno sobre a
eficiência da transmissão.
Tabela 14.7 Características dos fármacos bloqueadores
neuromusculares.a
Velocidade de Duração da Principais efeitos
Fármaco Observações
início ação colaterais
Hipotensão (bloqueio Alcaloide vegetal. Atualmente, seu uso é
ganglionar + liberação de raro
Tubocurarina Lenta (> 5 histamina) Longa (1 a 2 h) O alcurônio é um derivado semissintético min)
Broncoconstrição (liberação com propriedades similares, mas com
de histamina) menos efeitos colaterais
Pancurônio Intermediária Longa (1 a 2 h) Taquicardia modesta Primeiro composto com base esteroide
(2 a 3 min)
Hipertensão Melhor per l de efeitos colaterais que a
tubocurarina
Amplamente utilizado
O pipecurônio é similar
Amplamente utilizado
Eventualmente, causa paralisia
Intermediária prolongada, provavelmente graças a um
Vecurônio Intermediária Poucos efeitos colaterais
(30 a 40 min) metabólito ativo
O rocurônio é similar, com início mais
rápido
Mecanismo de eliminação incomum
(degradação química não enzimática
espontânea no plasma); degradação
retardada pela acidose
Amplamente utilizado
Intermediária Hipotensão transitória
Atracúrio Intermediária (< 30 min) O doxacúrio é quimicamente similar, mas (liberação de histamina)
estável no plasma, o que lhe dá uma
duração de ação prolongada
O cisatracúrio é o isômero ativo puro do
atracúrio, mais potente, mas com menor
liberação de histamina
Fármaco novo, quimicamente similar ao
atracúrio, mas inativado rapidamente
pela colinesterase plasmática (por isso,
Rápida (~ 2 Curta (~ 15 Hipotensão transitória
Mivacúrio tem ação mais prolongada em pacientes
min) min) (liberação de histamina)
com doença hepática ou de ciência
genética de colinesterase [p. 189 e ver
Capítulo 12])
Suxametônio Rápida Curta (~ 10 Bradicardia (efeito agonista Atua despolarizando a placa terminal
min) muscarínico) (efeito agonista nicotínico) – o único
fármaco desse tipo ainda em uso
Arritmias cardíacas
(aumento da concentração A paralisia é precedida de fasciculações
de K+ do plasma – evitar musculares transitórias em pacientes com
Duração da ação curta por causa da
queimaduras ou
hidrólise pela colinesterase plasmática
traumatismos graves)
(ação prolongada em pacientes com
Aumento da pressão doença hepática ou de ciência genética
intraocular (efeito agonista de colinesterase plasmática) nicotínico sobre os músculos
Utilizado em procedimentos curtos (p.
extraoculares)
ex., intubação traqueal,
Dor muscular no pós- eletroconvulsoterapia) operatório
O rocurônio tem início e recuperação
similares e menos efeitos indesejáveis
a Ver as estruturas químicas em Hardman, J.G., Limbird, L.E., Gilman, A.G., Goodman-Gilman A. et al., 2001. Goodman and
Gilman’s Pharmacological Basis of Therapeutics, 10th ed. McGraw-Hill, New York.
Os agentes bloqueadores não despolarizantes também bloqueiam
autorreceptores pré-sinápticos facilitadores, inibindo, assim, a liberação da
ACh durante a estimulação repetitiva do nervo motor, resultando no
fenômeno da “fadiga tetânica”, usada por anestesistas para monitorar a
recuperação pós-operatória da transmissão neuromuscular.
■ Efeitos dos fármacos bloqueadores não despolarizantes
Os efeitos dos agentes bloqueadores neuromusculares não despolarizantes
são principalmente resultantes da paralisia motora, embora alguns deles
também produzam efeitos autônomos clinicamente significativos.
▼ Os primeiros músculos a serem afetados são os músculos
extrínsecos do olho (provocando visão dupla), característico da
miastenia gravis, que é causada por autoanticorpos contra os nAChR
(pp. 195-196), e os pequenos músculos da face, dos membros e da
faringe (causando dificuldade para deglutir). Os músculos da respiração
são os últimos a serem afetados e os primeiros a se recuperarem. Um
experimento realizado em 1947, no qual um heroico voluntário foi
completamente curarizado enquanto consciente sob ventilação artificial,
estabeleceu essa sequência ordenada da paralisia e mostrou que a
consciência e a percepção da dor permaneceram totalmente normais,
mesmo quando a paralisia era completa.5
Efeitos adversos
Um efeito indesejado importante da tubocurarina é a queda da pressão
arterial, resultante, sobretudo, (a) do bloqueio simpático ganglionar e (b) da
liberação de histamina dos mastócitos (ver Capítulo 18), que também pode
provocar broncospasmo em indivíduos sensíveis. A liberação de histamina
não está associada aos receptores nicotínicos, mas também ocorre com o
atracúrio e o mivacúrio (bem como com alguns fármacos não
relacionados farmacologicamente com os bloqueadores não despolarizantes,
como a morfina; ver Capítulo 43). Outros fármacos bloqueadores não
despolarizantes não apresentam esses efeitos adversos. O pancurônio
também bloqueia os receptores muscarínicos, particularmente no coração, o
que acarreta taquicardia.
Figura 14.6 Velocidade de recuperação de vários fármacos bloqueadores
neuromusculares não despolarizantes em humanos. Os fármacos foram administrados por via intravenosa a pacientes prestes a entrar em cirurgia. As doses foram exatamente suficientes para provocar um bloqueio de 100% da tensão tetânica do músculo adutor do polegar estimulado de modo indireto. A recuperação da tensão foi então acompanhada em função do tempo. (De Payne, J.P., Hughes, R., 1981. Br. J. Anaesth. 53, 45.)
■ Aspectos farmacocinéticos
Os fármacos bloqueadores neuromusculares são administrados por via
intravenosa. Apresentam diferenças com relação à velocidade de início da
ação e de recuperação (Figura 14.6 e Tabela 14.7).
A maioria dos agentes bloqueadores não despolarizantes é metabolizada
pelo fígado ou eliminada de forma inalterada pela urina, com exceção do
atracúrio, que sofre hidrólise espontânea no plasma, e do mivacúrio, que,
assim como o suxametônio (ver adiante), é hidrolisado pela colinesterase
do plasma. A duração da ação varia de 15 min a 1 a 2 h (ver Tabela 14.7) e,
após esse período, o paciente recupera força suficiente para tossir e respirar
de modo adequado. A via de eliminação é importante, pois muitos pacientes
que se submetem a uma anestesia apresentam algum comprometimento da
função renal ou hepática, que pode intensificar ou prolongar a paralisia de
modo significativo.
O atracúrio foi desenvolvido para ser quimicamente instável em pH
fisiológico (dividindo-se em dois fragmentos inativos por clivagem em um
dos átomos de nitrogênio quaternário), apesar de permanecer estável
quando armazenado em pH ácido. A duração de sua ação é curta, não sendo
afetada pela função renal ou hepática. Contudo, como sua degradação
depende muito do pH, sua ação torna-se consideravelmente mais curta
durante a alcalose respiratória causada por hiperventilação.
Para minimizar as complicações respiratórias, é importante que a
recuperação pós-operatória da força muscular seja rápida. Para reverter a
ação de fármacos não despolarizantes no pós-operatório, em geral,
emprega-se o inibidor de colinesterases neostigmina (Tabela 14.8); sendo
necessária a administração conjunta de atropina para evitar efeitos
parassimpatomiméticos indesejáveis.
▼ Os fármacos anticolinesterásicos ultrapassam a ação inibitória dos
agentes não despolarizantes porque a liberação de ACh, protegida da
hidrólise, pode difundir-se ainda mais dentro da fenda sináptica e
acessar maior área da membrana pós-sináptica. Assim, a chance de uma ■ Efeitos indesejados e perigos do suxametônio
molécula de ACh encontrar um receptor não ocupado, antes de ser
hidrolisada, é aumentada. Esse feito de difusão parece ser mais
importante do que uma verdadeira interação de competição, uma vez
que é improvável que ocorra dissociação apreciável do antagonista no
curto espaço de tempo em que a ACh está presente. Em contraste, o
bloqueio despolarizante não é afetado pelos fármacos
anticolinesterásicos, nem mesmo aumentado por meio da potenciação
da ação despolarizante da ACh endógena.
Uma abordagem alternativa para a reversão do bloqueio neuromuscular
induzido pelo rocurônio ou vecurônio é a utilização de ciclodextrina
sintética, sugamadex, uma macromolécula que liga de forma seletiva os
fármacos esteroides bloqueadores neuromusculares, resultando em um
complexo inativo no plasma (Nicholson et al., 2007). Esse complexo é
então eliminado inalterado na urina. O sugamadex reverte rapidamente o
bloqueio, com poucos efeitos secundários.
Agentes bloqueadores despolarizantes
O suxametônio é o único agente despolarizante utilizado na clínica. Existem
várias diferenças no padrão de bloqueio neuromuscular produzido por
mecanismos despolarizantes e não despolarizantes:
• A fasciculação, observada com o suxametônio (ver Tabela 14.7) como
um prelúdio para a paralisia, não ocorre com os fármacos não
despolarizantes. A gravidade está ligada à dor muscular pós-operatória
experienciada após a administração de suxametônio
• Desvanecimento tetânico (ver anteriormente) ocorre com os fármacos
bloqueadores não despolarizantes, mas não com o suxametônio, que não
bloqueia os nAChR pré-sinápticos.
O suxametônio apresenta vários efeitos adversos (ver Tabela 14.7), mas
continua sendo utilizado para procedimentos de curta duração, devido à
recuperação rápida que se segue à administração intravenosa.
Bradicardia. Pode ser evitada pelo uso de atropina e é resultante de
ação muscarínica direta.
Liberação de potássio. O aumento da permeabilidade das placas
terminais motoras a cátions faz com que o músculo perca K+ e, como
consequência, ocorra pequena elevação na concentração plasmática de K+.
Normalmente isso não é importante, mas pode ser um problema após
traumatismo, queimaduras ou lesões que provoquem desnervação muscular
(Figura 14.7). A desnervação aumenta a elevação na concentração
plasmática de K+ causada pelo suxametônio, porque leva a uma proliferação
dos receptores da ACh até regiões da fibra muscular distantes das placas
terminais (ver Capítulo 13), de modo que uma área muito maior da
membrana se torna sensível ao suxametônio. A hiperpotassemia resultante
pode ser suficiente para causar arritmia ventricular ou parada cardíaca.
Tabela 14.8 Fármacos anticolinesterásicos.
Principal local de
Fármaco Estrutura Duração da ação Observações
ação
Utilizado principalmente no
diagnóstico da miastenia gravis
Edrofônio Curta JNM
Ação muito curta para ter uso
terapêutico
Neostigmina Média JNM Utilizada IV para reverter o
bloqueio neuromuscular
competitivo
Utilizada VO no tratamento da
miastenia gravis
Efeitos colaterais viscerais
Utilizada em forma de colírio no
Fisostigmina Média P
tratamento do glaucoma
Utilizada VO no tratamento da
miastenia gravis
Piridostigmina Média JNM
Mais bem absorvida que a
neostigmina e tem duração de
ação mais prolongada
Organofosforado altamente
tóxico, com ação muito
Di os prolongada Longa P
Tem sido utilizado em forma de
colírio em casos de glaucoma
Utilizado em forma de colírio no
tratamento do glaucoma
Ecotiopato Longa P
Ação prolongada; pode causar
efeitos sistêmicos
Convertido em metabólito ativo
pela substituição do enxofre por
oxigênio
Paration Longa –
Utilizado como inseticida, mas
também causa envenenamento
em humanos
Outros fármacos anticolinesterásicos desenvolvidos para o tratamento de demência são descritos no Capítulo 41.
JNM, junção neuromuscular; P, junção pós-ganglionar parassimpática.
Aumento da pressão intraocular. Não é usual que os músculos
extraoculares apresentem uma população de fibras com nAChR distribuídos
ao longo do seu comprimento, em vez de estarem localizados na placa
terminal motora. Estes respondem ao suxametônio com uma contração
sustentada, aplicando pressão ao globo ocular. É particularmente importante
evitar esse aumento da pressão quando houver alguma lesão no globo
ocular.
Paralisia prolongada. A ação do suxametônio, administrado como
bolus intravenoso para produzir relaxamento durante a intubação traqueal,
costuma durar apenas 2 a 6 min, pois o fármaco é hidrolisado pela
colinesterase plasmática. Sua ação é prolongada por vários fatores que
reduzem a atividade dessa enzima:
• Variantes genéticas, nas quais a colinesterase plasmática é anômala (ver
Capítulo 12). Uma deficiência grave o bastante para aumentar a duração
da ação para 2 h ou mais ocorre aproximadamente em 1 em 3.500
indivíduos. Raramente, a enzima está completamente ausente, e a
paralisia persiste por muitas horas. Os testes bioquímicos da atividade
enzimática no plasma e a sua sensibilidade aos inibidores são utilizados
clinicamente no diagnóstico deste problema; a determinação de
genótipos é possível, mas ainda não é exequível no rastreamento de
rotina, de modo a evitar o problema
• Fármacos anticolinesterásicos. O uso de organofosforados para
tratamento de glaucoma (ver Tabela 14.4) pode inibir a colinesterase
plasmática e prolongar a ação do suxametônio. Os substratos que
competem com a colinesterase plasmática (p. ex., procaína e
propanidida) também podem apresentar esse efeito • Recém-nascidos podem apresentar colinesterase plasmática com baixa
atividade e experimentar paralisia prolongada se forem tratados com
suxametônio.
Hiperpirexia maligna. Trata-se de uma condição hereditária rara,
resultante de mutação do canal para liberação de Ca2+ do retículo
endoplasmático (o receptor para rianodina, ver Capítulo 4), que produz
espasmo muscular intenso e elevação surpreendente da temperatura
corporal quando certos fármacos são administrados (ver Capítulo 12). O
suxametônio é atualmente o responsável mais comum, embora um episódio
de hiperpirexia maligna também possa ser precipitado por uma variedade de
outros fármacos. A hiperpirexia maligna está associada a mortalidade
elevada (em torno de 65%), e é tratada com a administração de dantroleno,
um fármaco que inibe a contração muscular ao impedir a liberação de Ca2+
do retículo endoplasmático.