Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 286 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Introdução

Neste capítulo, é feito um resumo do processo patológico da aterogênese e

as estratégias para a prevenção da doença aterosclerótica. O transporte de

lipoproteínas forma a base para a compreensão dos fármacos utilizados para

o tratamento de dislipidemia. Especial ênfase é dada às estatinas, as quais

apresentam uma história de sucesso, não somente na redução do colesterol

plasmático, mas também diminuindo os eventos cardiovasculares em

aproximadamente 25 a 50% e prolongando a vida em pessoas com risco

aumentado de doença vascular. Entretanto, alguns pacientes não as toleram,

enquanto outros não respondem ao tratamento. A evidência de que outros

fármacos que influenciam a dislipidemia melhoram os resultados clínicos é

menos segura do que para as estatinas, e tem havido contratempos, descritos

a seguir, que questionam a confiabilidade universal das alterações nas

concentrações de lipídios circulantes em resposta aos fármacos como

substitutos que predizem a melhora clínica. Na ausência de evidências

concretas de melhora clínica, outra classe de fármacos redutores de lipídios

permanece como a segunda linha às estatinas, havendo muitas “letras

miúdas” nesta seção.

 

ATEROGÊNESE

O ateroma é uma doença focal da íntima das artérias de tamanhos médio e

grande. As lesões evoluem durante décadas e, durante a maior parte desse

tempo, são clinicamente silenciosas; a ocorrência de sintomas sinaliza

doença avançada. As lesões pré-sintomáticas costumam ser difíceis de

detectar de maneira não invasiva, embora a ultrassonografia seja útil em

artérias acessíveis (p. ex., as carótidas). Alterações correlatadas, como

redução da complacência aórtica e a deposição de cálcio arterial, podem ser

detectadas determinando-se, respectivamente, a velocidade da onda do pulso aórtico e a calcificação das artérias coronárias. Não existiam bons

modelos animais até os camundongos transgênicos (ver Capítulo 8)

deficientes em apolipoproteínas ou receptores que desempenham papéis-

chave no metabolismo das lipoproteínas transformarem este cenário.

Contudo, a maior parte de nossos conhecimentos atuais sobre aterogênese

vem de epidemiologia e patologia humanas e de investigações clínicas.

Estudos epidemiológicos identificaram numerosos fatores de risco para

a doença ateromatosa. Alguns deles não podem ser alterados (p. ex., uma

história familiar de cardiopatia isquêmica),3 mas outros são modificáveis

(Tabela 24.1) e constituem alvos potenciais para medicamentos. Os ensaios

clínicos têm mostrado que a melhora dos fatores de risco pode reduzir as

consequências da doença ateromatosa. Muitos fatores de risco (p. ex.,

diabetes do tipo 2, dislipidemia, tabagismo) causam disfunção endotelial

(ver Capítulo 23), o que é evidenciado pela redução das respostas

vasodilatadoras à acetilcolina ou pelo aumento do fluxo sanguíneo (a

chamada dilatação mediada pelo fluxo), respostas que são inibidas por

fármacos que bloqueiam a síntese de óxido nítrico (NO) (ver Capítulo 20).

O endotélio sadio produz NO e outros mediadores que protegem contra

ateroma, de modo que é provável que os fatores metabólicos de risco

cardiovascular atuem causando disfunção epitelial.

A aterogênese envolve:

 

1. A disfunção endotelial, com alteração na biossíntese de NO (ver

Capítulo 21), predispõe à aterosclerose.

2. A lesão do endotélio disfuncional leva à expressão de moléculas de

adesão. Isso promove a fixação e a migração de monócitos do lúmen

para a íntima. As lesões têm predileção por regiões com distúrbios de

fluxo, como os pontos de origem dos ramos aórticos.

3. O colesterol com lipoproteína de baixa densidade (LDL) é transportado

para a parede do vaso. As células endoteliais e monócitos/macrófagos

geram radicais livres que oxidam o LDL (oxLDL), resultando em

peroxidação lipídica.

4. O oxLDL é captado por macrófagos por meio de receptores

“depuradores” (scavenger). Tais macrófagos são chamados de células

espumosas em virtude de seu aspecto histológico “espumoso”,

decorrente do acúmulo de lipídios no citoplasma, e são característicos

de ateroma. A captação de oxLDL ativa os macrófagos que liberam

citocinas pró-inflamatórias.

5. Acumulação subendotelial de células espumosas e de linfócitos T

formam estrias gordurosas.

6. Mecanismos protetores, por exemplo, a mobilização do colesterol da

parede da artéria e o seu transporte no plasma sob a forma de colesterol

com lipoproteína de alta densidade (HDL), denominado “transporte

reverso de colesterol”.

7. Liberação de citocinas e fator de crescimento por plaquetas ativadas,

macrófagos e células endoteliais, causando proliferação da musculatura

lisa e deposição de componentes do tecido conjuntivo. Essa resposta

inflamatória fibroproliferativa leva a uma densa capa fibrosa sobre um

centro rico em lipídios, e essa estrutura inteira compõe a placa

ateromatosa.

8. Ruptura da placa, formando um substrato para a trombose (ver Capítulo

25, Figuras 25.1 e 25.10). A presença de grande número de macrófagos

predispõe à ruptura da placa, enquanto o músculo liso vascular e as

proteínas da matriz estabilizam a placa.

 

Tabela 24.1 Fatores de risco modificáveis para doença