Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 17 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Antagonismo competitivo

receptores de reserva. A existência de tais receptores não implica

subdivisão funcional do pool de receptores, mas apenas que o pool é

maior que o número necessário para evocar uma resposta completa.

Esse excesso de receptores em relação ao realmente necessário pode

parecer um desperdício de mecanismos biológicos. No entanto, é de fato

altamente eficiente, uma vez que um dado número de complexos do tipo

agonista-receptor, a que corresponde determinado nível de resposta

biológica, pode ser alcançado com uma concentração inferior de

hormônios ou de neurotransmissores do que se houvesse

disponibilidade de menos receptores. Assim, é possível uma economia

na secreção de hormônios ou transmissores, à custa da disponibilização

de mais receptores.

 

ANTAGONISMO COMPETITIVO

Embora um fármaco possa inibir a resposta de outro por diversos

mecanismos (p. 16), a competição em nível do receptor é particularmente

importante, tanto no laboratório quanto na clínica, em virtude das grandes

potência e especificidade que podem ser alcançadas.

Na presença de um antagonista competitivo, a ocupação do agonista

(proporção de receptores aos quais o agonista está ligado) em dada

concentração deste é reduzida, pois o receptor só é capaz de receber uma

molécula de cada vez. No entanto, como os dois competem entre si, o

aumento da concentração do agonista é capaz de restabelecer sua ocupação

(e, portanto, a resposta do tecido). Nesse caso, diz-se que o antagonismo é

reversível (superável), em contraste com outros tipos de antagonismo (ver

adiante), em que o aumento da concentração do agonista não é capaz de

superar o efeito bloqueador. Uma análise teórica simples (p. 20) prevê que,

na presença de uma concentração fixa do antagonista, a curva log da concentração-efeito para o agonista desloca-se para a direita, sem nenhuma

mudança na inclinação ou no efeito máximo – que é a principal

característica do antagonismo competitivo (Figura 2.4A). O deslocamento é

expresso em termos de uma razão de dose, r (que é a razão pela qual a

concentração do agonista deve ser aumentada para restaurar dado grau de

resposta). A teoria prevê que a razão de dose aumenta linearmente com a

concentração do antagonista (p. 20). Essas previsões são frequentemente

corroboradas na prática (Figura 2.5A), fornecendo um método

relativamente simples para a determinação da constante de dissociação de

equilíbrio do antagonista (KB; Figura 2.5B). Exemplos de antagonismo competitivo são muito comuns em farmacologia. A superabilidade do

bloqueio do antagonista pode ser importante na prática, pois permite que o

efeito funcional do agonista seja restabelecido com o aumento em sua

concentração. Em outros tipos de antagonismo (como detalhado a seguir), o

bloqueio é geralmente insuperável.

As características marcantes do antagonismo competitivo são:

 

• Deslocamento da curva log da concentração-efeito do agonista para a

direita, sem alteração na inclinação ou no efeito máximo (o

antagonismo pode ser ultrapassado se a concentração do agonista for

aumentada)

• Relação linear entre razão de dose do agonista e concentração do

antagonista

• Evidências de competição provenientes de estudos de ligação (binding).

Figura 2.4 Curvas hipotéticas de concentração-ocupação na presença de

antagonistas competitivos reversível (A) e irreversível (B). As concentrações estão normalizadas em relação às constantes de dissociação de equilíbrio, K (i. e., 1,0 corresponde a uma concentração igual a K e resulta em 50%). Observe que em (A) o aumento da concentração do agonista supera o efeito do antagonista reversível (i. e., o bloqueio é superável), de modo que a resposta máxima não se altera, enquanto em (B) o efeito de um antagonista irreversível é insuperável, e a ocupação total pelo agonista não pode ser atingida.

 

O antagonismo competitivo é o mecanismo mais direto por meio do qual

um fármaco pode reduzir o efeito de outro (ou de um mediador endógeno).

 

▼ As características do antagonismo competitivo reversível descritas

refletem o fato de as moléculas agonistas e antagonistas competitivas

não ficarem ligadas ao receptor, mas sim dissociarem-se e ligarem-se de

novo continuamente. A taxa de dissociação da molécula antagonista é

suficientemente elevada, de tal modo que, quando o agonista é

adicionado, rapidamente estabiliza-se um novo equilíbrio. Com efeito,

as moléculas agonistas são capazes de substituir as moléculas

antagonistas nos receptores quando o antagonista se desliga, embora

eles não possam, é claro, expulsar as moléculas antagonistas ligadas. O

deslocamento ocorre porque, ao ocupar uma proporção dos receptores

livres, o agonista reduz, de forma eficaz, a taxa de associação das

moléculas de antagonista; em consequência, a taxa de dissociação

temporariamente excede a de associação, e a ocupação total do

antagonista é reduzida.

 

Antagonismo competitivo irreversível

▼ Antagonismo competitivo irreversível (ou de não equilíbrio) ocorre

quando o antagonista se liga ao receptor na mesma posição do agonista,

mas se dissocia dos receptores muito lentamente, ou não se dissocia, o

que resulta no fato de não ocorrer alteração na ocupação do antagonista

quando o agonista é adicionado.4

Os efeitos previstos para os antagonistas reversíveis e irreversíveis são

comparados na Figura 2.4.

Em alguns casos (Figura 2.6A), o efeito teórico é reproduzido com

precisão com o antagonista reduzindo a resposta máxima. No entanto, a

distinção entre o antagonismo competitivo reversível e o irreversível (ou

mesmo o antagonismo não competitivo) nem sempre é tão clara. Isso se

deve ao fenômeno dos receptores de reserva (p. 10); se a ocupação pelo

agonista necessária para produzir a resposta biológica máxima for muito

pequena (digamos, 1% do total de receptores), então é possível

bloquear, de modo irreversível, quase 99% dos receptores sem reduzir a

resposta máxima. O efeito da menor ocupação dos receptores pelo

antagonista será o de produzir um deslocamento paralelo da curva log

da concentração-efeito, que é indistinguível do observado no que diz

respeito ao antagonismo competitivo reversível (Figura 2.6B). Somente

quando a ocupação do antagonista exceder 99% a resposta máxima será

reduzida.

O antagonismo competitivo irreversível ocorre com fármacos que

contêm grupos reativos que formam ligações covalentes com o receptor.

Tais compostos são utilizados principalmente como ferramentas de

pesquisa para estudar a função dos receptores, e poucos são usados

clinicamente. Inibidores enzimáticos irreversíveis que agem de forma

semelhante são, no entanto, utilizados clinicamente e incluem fármacos

como ácido acetilsalicílico (ver Capítulo 27), omeprazol (ver Capítulo

31) e inibidores da monoamina oxidase (ver Capítulo 48).