Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 632 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Canabinoides sintéticos

Capítulo 50). A síndrome de abstinência física geralmente se resolve após

alguns dias, mas a fissura pelo etanol e a tendência à recaída duram muito

mais tempo. O tratamento da dependência ao álcool está descrito no

Capítulo 50.

A síndrome da abstinência física em seres humanos, na sua forma grave,

se desenvolve após cerca de 8 horas. No primeiro estágio, os principais

sintomas são tremor, náuseas, suores, febre e, algumas vezes, alucinações.

Estas duram cerca de 24 horas. Esta fase pode ser seguida por convulsões

(“convulsões de rum”). Ao longo dos dias seguintes, desenvolve-se a

condição de delirium tremens, na qual o paciente se torna confuso, agitado e

geralmente agressivo, podendo sofrer alucinações muito mais graves. O

tratamento dessa emergência médica é com sedação com altas doses de

benzodiazepínicos como o clordiazepóxido (ver Capítulo 45) associado a

altas doses de tiamina.

 

CANABINOIDES SINTÉTICOS

O sistema canabinoide endógeno e os canabinoides presentes na planta

Cannabis sativa (fitocanabinoides) são descritos em detalhes no Capítulo

20. Aqui, vamos focar nos canabinoides sintéticos, que têm nomes como

Spice, K2 ou Black Mamba. As estruturas químicas dos canabinoides

sintéticos são variadas, com mais de 10 famílias químicas tendo sido

descritas (Davidson et al., 2017). Alguns se originaram de tentativas

legítimas de indústrias farmacêuticas para desenvolver novos compostos

analgésicos, porém, mais recentemente, outros vêm sendo desenvolvidos

por motivos puramente não medicinais. Os canabinoides sintéticos são

comumente pulverizados em material fitoterápico e fumados, mas também

estão disponíveis na forma de cristal e pó. Eles são agonistas no receptor canabinoide CB1, o alvo por meio do qual o Δ9-tetra-hidrocanabinol (THC), o principal ingrediente psicoativo na Cannabis, exerce os seus

efeitos. Diz-se que os canabinoides sintéticos exercem uma ativação “mais

forçada” do receptor CB 1, de modo que os usuários com frequência ficam parecidos com zumbis ou catapléticos. Isso pode explicar a sua

popularidade entre os desabrigados e os prisioneiros na prisão, permitindo a

eles um tempo para fugir das suas vidas cotidianas.

Diferentemente da Cannabis em si, os canabinoides sintéticos são

bastante perigosos e podem levar a alucinações, episódios psicóticos,

convulsões e morte. As razões exatas para tais efeitos tóxicos não são

conhecidas. Eles podem ter efeitos “fora do alvo”, não relacionados às suas

ações nos receptores CB 1. Além disso, quando fumados, os compostos originais estão sujeitos à pirólise, dando origem a derivados inesperados,

que podem ser responsáveis por alguns dos efeitos prejudiciais. O controle

de qualidade não é uma prioridade para os produtores desses agentes,

podendo haver contaminantes tóxicos em lotes eventuais de produtos

químicos.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Referência geral

Miller, R.J., 2015. Drugged: The Science and Culture Behind Psychotropic Drugs. Oxford University

Press. (Um conto divertido sobre o uso de fármacos psicoativos)

Estimulantes

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abrangente de revisão cobrindo os aspectos farmacológicos, comportamentais e sociais) Green, A.R., King, M.V., Shortall, S.E., Fone, K.C., 2012. Lost in translation: preclinical studies on

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farmacologia dos fármacos usados para tratar TDAH)

Nicotina

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dois cientistas de destaque com visões diferentes sobre o tema)

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com foco nos receptores 5-HT como alvo dos fármacos psicotomiméticos) 2A

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Harper, C., Matsumoto, I., 2005. Ethanol and brain damage. Curr. Opin. Pharmacol. 5, 73–78.

(Descreve os efeitos deletérios na função cerebral do uso abusivo de álcool a longo prazo)

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revisão das possíveis ações moleculares do álcool relevantes para seus efeitos no cérebro)

Lieber, C.S., 1995. Medical disorders of alcoholism. N. Engl. J. Med. 333, 1058–1065. (Revisão com

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behaviour. Physiol. Rev. 89, 649–705. (Artigo de revisão abrangente, muito útil para referência)

Tyndale, R.F., 2003. Genetics of alcohol and tobacco use in humans. Ann. Med. 35, 94–121. (Revisão

detalhada dos vários fatores genéticos implicados nos hábitos de consumo de álcool e nicotina)

Substâncias dissociativas

Morgan, C.J., Curran, H.V., 2012. Ketamine use: a review. Addiction 107, 27–38. (Revisão extensa

do uso atual de cetamina e dos perigos associados ao seu uso)

Morris, B.J., Cochran, S.M., Pratt, J.A., 2005. PCP: from pharmacology to modelling schizophrenia.

Curr. Opin. Pharmacol. 5, 101–106. (Revisão defendendo que o bloqueio do canal NMDA pela

fenciclidina assemelha-se à esquizofrenia humana)

Canabinoides sintéticos

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químicas dos canabinoides sintéticos e descreve seus efeitos adversos)

____________

1 Como discutido no Prefácio deste livro, nos Capítulos 49 e 50, em que se

descreve principalmente o uso de drogas ilícitas, usamos nomes e grafias

comuns (p. ex., heroína) em vez de sua denominação comum internacional

recomendada (3,6-diacetil morfina).

2 Nos anos 1860, um farmacêutico de Córsega, Mariani, inventou bebidas

que continham cocaína, Vin Mariani e Thé Mariani, que eram vendidas com

grande sucesso como tônicos. Imitadores rapidamente o seguiram, e o Thé

Mariani se tornou o precursor da Coca-Cola. Em 1903, a cocaína foi

retirada da Coca-Cola devido à sua crescente associação com o vício e a

criminalidade.

3 Os sintomas de abstinência da cafeína são uma causa bem reconhecida de

efeitos adversos (cefaleia, irritabilidade) em unidades residenciais de

ensaios clínicos de fase I, onde bebidas contendo cafeína são rotineiramente

proibidas.

4 Da planta Nicotiana, em homenagem a Jean Nicot, embaixador francês em

Portugal que apresentou sementes ao rei francês em 1560, tendo sido

persuadido pelos nativos da América do Sul sobre os valores medicinais do

fumo das folhas de tabaco. Acreditava-se que o tabagismo protegesse de

doenças, especialmente da peste.

5 No entanto, os tabagistas se adaptam fumando mais cigarros com baixo

teor de alcatrão e inalando mais profundamente para manter o seu consumo

de nicotina.

6 Isso também pode explicar a razão por que, no passado, homens fumavam

charutos enquanto conversavam e bebiam após o jantar.

7 A nicotina vinda da fumaça do charuto é absorvida através da mucosa

oral, mas os charutos proporcionam uma dose muito maior por tragada do que os cigarros, de forma que uma quantidade substancial entra apesar da

pequena fração absorvida.

8 Um novo fenômeno é a “microdosagem”, com quantidades muito

pequenas de substâncias psicodélicas como LSD, psilocibina ou mescalina

(p. 634), com espaço de poucos dias, com o intuito de melhorar a

concentração, a criatividade e a solução de problemas. Com doses tão

baixas, os usuários não vivenciam efeitos psicodélicos. Estudos científicos

adequadamente controlados são necessários para determinar se essa forma

de ingestão é realmente eficaz.

9 Uma das tentativas mais bizarras envolve aranhas, cujas teias

elegantemente simétricas se tornam emaranhadas e erráticas se os animais

forem tratados com LSD. Procure na rede (da internet, não a aracnídea) por

“aranhas LSD” para ver imagens.

10 Em ensaios clínicos de fase I sobre agonistas sintéticos do receptor

opioide como potenciais agentes analgésicos, houve relatos de que as

substâncias induziram a um sentimento de disforia. Talvez os voluntários

“normais” naqueles ensaios tenham ficado perturbados com as alucinações

que provavelmente tiveram. Interessante que um agonista de ocorrência

natural tenha agora se tornado fármaco de uso abusivo.

11 Em alguns países, o etanol é classificado como alimento e não substância

farmacologicamente ativa! Isso reflete o poder da influência da indústria do

álcool. O etanol preenche os critérios para “O que é um fármaco?”,

mostrados no Capítulo 1.

12 Foi pedido a motoristas de ônibus para dirigirem por um espaço que eles

selecionaram como o mínimo para que o seu ônibus passasse; o etanol não

só fez com que eles batessem em barreiras com mais frequência em

qualquer seleção de espaço, como também os fez selecionar espaços mais

estreitos, com frequência mais estreitos que o ônibus.

13 A inacreditável imagem de um grande cão são-bernardo carregando um

pequeno barril de conhaque ao redor do pescoço para reanimar vítimas de

avalanche foi criada pelo pintor inglês Edwin Landseer, que, em 1820,

produziu uma pintura chamada “Mastim Alpino Reanimando um Viajante

Aflito”. Com o seu senso de olfato apurado, tais cachorros eram úteis para

procurar pessoas enterradas debaixo da neve, mas beber um golinho de

conhaque somente teria aumentado a perda de calor da vítima.

14 Em hamsters (que consomem álcool espontaneamente em quantidades

que iriam derrotar mesmo o bebedor de duas pernas mais durão, mas

continuam, pelo que se pode dizer em se tratando de um hamster,

completamente sóbrios), a daidzina inibe o consumo de álcool de forma

marcante.

15 Ao se deparar com uma emergência de um cachorro com envenenamento

por etilenoglicol no meio da noite, um colega veterinário conhecido de um

dos autores correu ao supermercado local e comprou uma garrafa de vodka

– o cachorro sobreviveu!

Capítulo 49

 

49.1 TEMA

A cocaína tem sido utilizada durante muitos anos pelas suas propriedades

estimulantes por nativos da América do Sul, particularmente para reduzir a

fadiga em altitudes elevadas. Entretanto, as propriedades psicoestimulantes

da substância levaram a seu uso disseminado como substância de uso abusivo.

Qual das seguintes a rmativas sobre as propriedades farmacológicas da

cocaína é correta?

A. A cocaína exerce efeito estimulante psicomotor, aumentando a liberação de monoaminas

das terminações nervosas

 

B. Pode ocorrer hipotermia com altas doses

 

C. O uso continuado de cocaína induz tolerância

 

D. A forma de base livre da cocaína é mais rapidamente absorvida do que o sal cloridrato

 

E. O principal efeito adverso é a depressão respiratória

 

Resposta A A cocaína bloqueia a recaptação de várias monoaminas diferentes,

aumentando a transmissão pós-sináptica.

Alternativa B incorreta: A cocaína aumenta a temperatura corporal (hipertermia),

em decorrência de aumento da atividade motora acoplado a diminuição da perda de

calor.

Alternativa C incorreta: A cocaína provoca forte dependência psicológica, porém não

há evidências fortes de tolerância, mas necessidade de aumento da dose em virtude do

desejo de um efeito aumentado.

Alternativa D incorreta: A forma de base livre da cocaína é mais rapidamente

absorvida do que o sal cloridrato.

A base livre da cocaína vaporiza em torno de 90°C, e a base livre sem carga é

rapidamente absorvida através dos alvéolos, produzindo maior efeito no SNC.

Alternativa E incorreta: Os principais efeitos adversos consistem em eventos

cardiovasculares. A cocaína aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio e arritmias

cardíacas.

 

Concluir questão

 

49.2 TEMA

A expectativa de vida dos fumantes é menor que a de não fumantes. Embora

uma porcentagem signi cativa de mortes seja decorrente de doença pulmonar

e câncer, o tabagismo também pode aumentar o risco de várias outras

condições.

Qual das seguintes condições não representa um risco aumentado em

tabagistas?

 

A. Atraso do desenvolvimento na infância

 

B. Trombose coronária

 

C. Placenta prévia

 

D. Doença de Parkinson

E. Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)

 

Resposta A Há evidências de que as crianças nascidas de mães fumantes apresentem

redução do desenvolvimento físico e mental nos primeiros 7 anos de vida.

Alternativa B incorreta: O risco de trombose coronária é signi cativamente

aumentado em fumantes, embora o mecanismo exato, que pode estar relacionado com

o monóxido de carbono, ainda não seja conhecido.

Alternativa C incorreta: A nicotina exerce vários efeitos potencialmente prejudiciais

sobre o feto em desenvolvimento, mas também aumenta o risco de obstrução

placentária no parto (placenta prévia).

Alternativa D incorreta: Doença de Parkinson.

A doença de Parkinson é quase duas vezes mais comum em não fumantes do que em

fumantes, indicando um efeito protetor da nicotina.

Alternativa E incorreta: O fumo de cigarros constitui a principal causa de DPOC e o

abandono do tabagismo diminui a progressão da doença.

 

Concluir questão

 

49.3 TEMA

O etanol apresenta efeitos semelhantes aos anestésicos gerais, causando

depressão da excitabilidade neuronal.

Qual dos seguintes efeitos não é um efeito farmacológico do etanol?

 

A. Aumento da inibição neuronal mediada por GABAA

 

B. Aumento da liberação de glicina das terminações nervosas

C. Aumento da captação de adenosina pelo transportador de adenosina

 

D. + Ativação dos canais de K

 

E. Inibição dos canais de cálcio operados por voltagem

 

Resposta A O etanol aumenta a inibição neuronal mediada por GABA e pela glicina.

Alternativa B incorreta: O etanol potencializa os efeitos da glicina por meio de

interações com o receptor e aumento da liberação de glicina.

Alternativa C incorreta: Aumento da captação de adenosina pelo transportador de

adenosina.

O etanol pode exercer alguns de seus efeitos depressores aumentando a ativação dos

receptores A1 por meio da inibição da captação de adenosina.

Alternativa D incorreta: O etanol diminui a excitabilidade neuronal por meio de

ativação dos canais de potássio reti cadores de in uxo acoplados à proteína G (GIRK).

Alternativa E incorreta: O etanol reduz a liberação de transmissores pela inibição dos

canais de cálcio operados por voltagem (VOCC).

 

Concluir questão

 

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