Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 261 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Contração cardíaca

artificial.

 

Arritmias cardíacas

 

• As arritmias originam-se em decorrência de:

– Retardo da pos-despolarizacao, que desencadeia batimentos ectópicos

– Reentrada, decorrente de bloqueio parcial de condução

– Atividade ectópica de marca-passo

– Bloqueio cardíaco

• 2+ O retardo da pos-despolarizacao é causado por uma corrente de entrada associada a Ca

intracelular anormalmente elevado

• A reentrada é facilitada quando partes do miocárdio são despolarizadas em decorrência de

uma doença

• A atividade ectópica de marca-passo é exacerbada pela atividade simpática

• O bloqueio cardíaco advém de doença no sistema de condução, especialmente do nó

atrioventricular

• Clinicamente, as arritmias estão divididas:

– De acordo com seu local de origem (supraventricular e ventricular)

– De acordo com aumento ou diminuição da frequência cardíaca (taquicardia ou

bradicardia).

 

CONTRAÇÃO CARDÍACA

O débito cardíaco é o produto da frequência cardíaca pelo volume sistólico

ventricular esquerdo médio (i. e., o volume de sangue ejetado do ventrículo

em cada batimento). A frequência cardíaca é controlada pela divisão

autônoma do sistema nervoso (ver Capítulos 13 a 15 e pp. 276-277). O

volume sistólico é determinado por uma combinação de fatores, inclusive

alguns intrínsecos ao próprio coração e outros fatores hemodinâmicos

extrínsecos. Os fatores intrínsecos regulam a contratilidade do miocárdio

por intermédio de [Ca2+]i e. ATP, e são sensíveis a vários fármacos e processos patológicos. Os fatores circulatórios extrínsecos incluem a

elasticidade e o estado contrátil das artérias e veias, além do volume e da

viscosidade do sangue, que determinam, em conjunto, a carga cardíaca (pré-

carga e pós-carga, ver adiante). Os fármacos que influenciam esses fatores

circulatórios são de fundamental importância no tratamento de pacientes

com insuficiência cardíaca. Eles são tratados no Capítulo 23.

 

Contratilidade e viabilidade do miocárdio

O maquinário contrátil do músculo estriado do miocárdio é basicamente o

mesmo que o do músculo estriado voluntário (ver Capítulo 4). Envolve a

ligação de Ca2+ à troponina C; isso muda a conformação do complexo da

troponina, permitindo formação de pontes cruzadas da miosina com a actina

e início da contração. A levosimendana (um fármaco utilizado em alguns

países para o tratamento de insuficiência cardíaca descompensada; ver

Capítulo 23) aumenta a força da contração cardíaca por ligação com a

troponina C e sensibilização desta última à ação do Ca2+.

▼ Muitos efeitos medicamentosos sobre a contratilidade cardíaca

podem ser explicados em termos de ações sobre a [Ca2+]i, por meio de

efeitos sobre os canais de cálcio na membrana plasmática ou no retículo

sarcoplasmático, ou sobre a bomba de Na+/K+, que influencia

indiretamente a bomba de Na+/Ca2+ (p. 283). Outros fatores que afetam

a força de contração são a disponibilidade de oxigênio e uma fonte de

energia metabólica, tal como os ácidos graxos livres. O atordoamento

do miocárdio – disfunção contrátil que persiste depois de isquemia e

reperfusão apesar da restauração do fluxo sanguíneo e ausência de

necrose cardíaca – ainda não foi completamente entendido, mas pode

ser clinicamente importante. Seu inverso é conhecido como pré-

condicionamento isquêmico; isso se refere a uma melhora da capacidade

de suportar isquemia após episódios isquêmicos prévios. Este estado

potencialmente benéfico também poderia ser clinicamente importante.

Há algumas evidências de que seja mediado por adenosina (ver

Capítulo 17), que se acumula quando há depleção de ATP. A adenosina

exógena propicia proteção semelhante à causada pelo pré-

condicionamento isquêmico, e o bloqueio dos receptores de adenosina

impede o efeito protetor do pré-condicionamento (Eltzschig et al.,

2012). Há considerável interesse em desenvolver estratégias para

minimizar os efeitos prejudiciais da isquemia enquanto se maximiza o

pré-condicionamento, mas os ensaios clínicos até agora têm sido

negativos, e a tradução para a terapêutica é repleta de dificuldades

(Heusch, 2017).

 

Curvas de função ventricular e insuficiência cardíaca

A força de contração do coração é determinada, em parte, por sua

contratilidade intrínseca (que, como descrito anteriormente, depende da

[Ca2+]i e da disponibilidade de ATP), e, em parte, por fatores hemodinâmicos extrínsecos que afetam o volume diastólico final e, por

isso, o comprimento das fibras musculares em repouso. O volume diastólico

final é determinado pela pressão diastólica final, e seu efeito sobre o

trabalho de batimento é expresso na lei de Frank-Starling do coração, que

reflete uma propriedade inerente do sistema contrátil. A lei de Frank-

Starling pode ser representada como uma curva de função ventricular

(Figura 22.4). A área dentro da curva pressão-volume durante o ciclo

cardíaco fornece uma medida do trabalho de batimento ventricular. É dada,

aproximadamente, pelo produto do volume sistólico e pressão arterial

média. Como Starling demonstrou, fatores extrínsecos ao coração afetam

seu desempenho de vários modos, sendo particularmente importantes para o

aumento de carga dois padrões de resposta:

 

1. Aumento da pressão de enchimento cardíaco (pré-carga), causado por

crescimento do volume sanguíneo ou por venoconstrição, eleva o

volume diastólico final ventricular. Isso aumenta o volume sistólico e,

portanto, o débito cardíaco e a pressão arterial média. Tanto o trabalho

cardíaco como o consumo cardíaco de oxigênio aumentam.

2. A constrição de vasos de resistência aumenta a pós-carga. O volume

diastólico final e, por isso, o trabalho para o batimento, ficam

inicialmente inalterados, mas o trabalho de batimento constante em face

da resistência vascular maior reduz o volume sistólico e, portanto,

aumenta o volume diastólico final. Isso, por sua vez, aumenta o trabalho

de batimento até que o estado de equilíbrio seja restabelecido com

elevação do volume diastólico final e o mesmo débito cardíaco anterior.

Como acontece com a pré-carga maior, o trabalho cardíaco e o consumo

cardíaco de oxigênio aumentam.

 

A pressão de enchimento ventricular normal é de apenas alguns centímetros

de água, na parte íngreme da curva de função ventricular, de modo que um

grande aumento do trabalho de batimento pode ser atingido com apenas um

reduzido aumento da pressão de enchimento. O mecanismo de Starling tem

um papel discreto no controle do débito cardíaco em indivíduos sadios (p.

ex., durante exercício), porque as alterações da contratilidade,

principalmente em decorrência de alterações da atividade nervosa simpática, atingem a regulação necessária sem qualquer aumento da pressão

de enchimento ventricular (ver Figura 22.4). Diferentemente, o coração

desnervado em pacientes que tenham recebido um transplante cardíaco

depende do mecanismo de Starling para aumentar o débito cardíaco durante

exercício.

 

Figura 22.4 Curvas de função ventricular no cão. A infusão de soro fisiológico aumenta o volume sanguíneo e, por isso, a pressão diastólica final. Isso aumenta o trabalho sistólico (controle “extrínseco”), aumentando a força de contração do coração. Essa relação é chamada curva de Starling. A norepinefrina tem uma ação direta sobre o coração (controle “intrínseco”), aumentando a inclinação da curva de Starling. (Redesenhada de Sarnoff, S.J. et al., 1960. Circ. Res. 8, 1108.)

 

Na insuficiência cardíaca, o débito não é suficiente para satisfazer as

necessidades do organismo. Nas fases iniciais isso ocorre somente quando a

demanda aumenta durante o exercício; mais tarde, no entanto, com o avanço da doença, a insuficiência de débito manifesta-se também no