Rang e Dale: Farmacologia
Canabinoides derivados de plantas e seus efeitos farmacológicos
A Cannabis sativa, ou cânhamo, tem sido utilizada por suas propriedades
psicoativas por milhares de anos (ver Capítulo 49). Seu uso medicinal era
defendido na antiguidade, mas o interesse somente voltou à tona em 1964,
com a identificação do △9-tetra-hidrocanabinol (THC, Figura 20.1) como o
principal componente psicoativo. Os extratos de cannabis contêm
numerosos compostos relacionados, denominados canabinoides, a maioria
dos quais insolúvel em água. Os canabinoides mais abundantes são o THC,
seu precursor canabidiol e o canabinol, um produto de decomposição
formado espontaneamente a partir do THC. O canabidiol e o canabinol não
contêm as propriedades psicoativas do THC, mas podem apresentar
atividade anticonvulsivante (ver Capítulo 46) e induzir o metabolismo
hepático de fármacos (ver Capítulo 10).
EFEITOS FARMACOLÓGICOS
O THC atua principalmente no SNC, produzindo uma mescla de efeitos
psicotomiméticos e depressores, juntamente com vários efeitos
autonômicos mediados centralmente. Os principais efeitos subjetivos em
seres humanos consistem em:
• Sensações de relaxamento e bem-estar, similares ao efeito do etanol,
mas sem a imprudência e a agressividade associadas. (A insensibilidade
ao risco é uma característica importante da intoxicação pelo álcool e é
frequentemente um fator nos acidentes automobilísticos. Os usuários de
cannabis são, em geral, menos propensos a acidentes (apesar de seu
desempenho motor ficar prejudicado de maneira semelhante), embora a
cannabis contribua para um número significante de mortes na estrada a
cada ano)
• Impressões de consciência sensorial aguçada, com sons e visões
parecendo mais intensos e fantasiosos
• Esses efeitos são similares, mas geralmente menos pronunciados que
aqueles produzidos por substâncias psicotomiméticas, como a
dietilamida do ácido lisérgico (LSD; ver Capítulo 49). Os indivíduos
relatam que o tempo passa de maneira extremamente lenta. As
sensações alarmantes e ilusões paranoides sérias que muitas vezes
ocorrem com o LSD raramente são experimentadas com a cannabis,
exceto em altas doses. No entanto, estudos epidemiológicos apoiam
uma associação entre o uso “pesado” da cannabis na adolescência e o
subsequente transtorno psiquiátrico (Rubino et al., 2012).
Os efeitos centrais que podem ser diretamente mensurados nos estudos em
seres humanos e animais incluem:
• Comprometimento da memória a curto prazo e de tarefas de
aprendizagem simples – as percepções subjetivas de autoconfiança e
criatividade aumentada não se refletem no desempenho real
• Prejuízo da coordenação motora (p. ex., desempenho na direção de
veículos)
• Catalepsia – adoção de posturas fixas não naturais
• Hipotermia
• Analgesia
• Ação antiemética (ver Capítulo 31)
• Aumento do apetite (ver Capítulo 33).
Os principais efeitos periféricos da cannabis são:
• Taquicardia, que pode ser evitada por fármacos que bloqueiem a
transmissão simpática • Vasodilatação, que é particularmente marcante nos vasos do olho (vasos