Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 702 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Desenvolvimentos futuros

Reconhecido inicialmente em 1909, o Pneumocystis carinii (agora

conhecido como P. jirovecii; ver também Capítulo 54) compartilha

características estruturais com protozoários e fungos, deixando sua

classificação precisa incerta. Previamente considerado um microrganismo

amplamente distribuído, agora é reconhecido como importante causa de

infecções oportunistas em pacientes imunocomprometidos. É comum na

AIDS, em que a pneumonia por P. jirovecii é frequentemente o sintoma de

apresentação, bem como a causa predominante de morte.

O cotrimoxazol de dosagem elevada (ver Capítulos 51 e 52) é o

fármaco de escolha nos casos graves, com a pentamidina parenteral como

alternativa. O tratamento de formas mais brandas da doença (ou profilaxia)

pode ter efeito com atovaquona, trimetoprima-dapsona ou com a

combinação clindamicina-primaquina.

 

DESENVOLVIMENTOS FUTUROS

A farmacologia antiprotozoária é um enorme desafio global, com cada

espécie apresentando seus próprios e distintos problemas para o

investigador de novos fármacos antiprotozoários. No entanto, o problema

não é simplesmente a falta de novos fármacos: por motivos econômicos,

com frequência os países e as populações mais afetados não contam com

infraestrutura eficiente para a distribuição e a administração segura dos

fármacos que já possuímos. Comportamento cultural, guerras civis, fome e

circulação de fármacos falsos ou com falhas, seca e catástrofes naturais

também exacerbam esse problema.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

 

Interações hospedeiro-parasito Brenier-Pinchart, M.P., Pelloux, H., Derouich-Guergour, D., et al., 2001. Chemokines in host–

parasite interactions. Trends Parasitol. 17, 292–296. (Boa revisão do papel do sistema

imunológico)

Langhorne, J., Duffy, P.E., 2016. Expanding the antimalarial toolkit: targeting host-parasite

interactions. J. Exp. Med. 213, 143–153. (Artigo instigante que explora as oportunidades de

descoberta de fármacos antimaláricos por informações sobre as interações hospedeiro-parasito.

Um pouco técnico)

 

Malária

Achieng, A.O., Rawat, M., Ogutu, B., et al., 2017. Antimalarials: molecular drug targets and

mechanism of action. Curr. Top. Med. Chem. 17, 2114–2128. (Revisão abrangente que trata

principalmente da identificação de novos compostos químicos-alvo para o desenvolvimento de

fármacos)

Baird, J.K., 2005. Effectiveness of antimalarial drugs. N. Engl. J. Med. 352, 1565–1577. (Excelente

visão geral que aborda muitos aspectos da terapia farmacológica, a resistência aos fármacos e

os fatores socioeconômicos que afetam o tratamento dessa doença – muito recomendado)

Basore, K., Cheng, Y., Kushwaha, A.K., Nguyen, S.T., Desai, S.A., 2015. How do antimalarial drugs

reach their intracellular targets? Front. Pharmacol. 6, 91.

Blasco, B., Leroy, D., Fidock, D.A., 2017. Antimalarial drug resistance: linking Plasmodium

falciparum parasite biology to the clinic. Nat. Med. 23, 917–928.

Butler, A.R., Khan, S., Ferguson, E., 2010. A brief history of malaria chemotherapy. J. R. Coll.

Physicians Edinb. 40, 172–177. (Aborda o tema por um ponto de vista histórico que começa com

a descoberta da quinina e inclui os recentes desenvolvimentos na síntese de artemisinina. Boa

visão geral)

Deu, E., 2017. Proteases as antimalarial targets: strategies for genetic, chemical, and therapeutic

validation. FEBS J. 284 (16), 2604–2628. (O parasito da malária necessita digerir a

hemoglobina, e certamente as proteases são importantes para isso. O autor revisa novas

abordagens dirigidas às proteases para desenvolver novos fármacos. Alguns bons diagramas)

Ezzet, F., Mull, R., Karbwang, J., 1998. Population pharmacokinetics and therapeutic response of

CGP 56697 (artemether + benflumetol) in malaria patients. Br. J. Clin. Pharmacol. 46, 553–561.

(Lida com a farmacocinética dessa combinação terapêutica cada vez mais importante)

Fidock, D.A., Rosenthal, P.J., Croft, S.L., et al., 2004. Antimalarial drug discovery: efficacy models

for compound screening. Nat. Rev. Drug Discov. 3, 509–520. (Revisão útil sobre os mecanismos

de ação dos fármacos antimaláricos e novos conceitos para a avaliação de futuros candidatos)

Foley, M., Tilley, L., 1997. Quinoline antimalarials: mechanisms of action and resistance. Int. J.

Parasitol. 27, 231–240. (Revisão curta e boa; figuras úteis)

Greenwood, B.M., Fidock, D.A., Kyle, D.E., et al., 2008. Malaria: progress, perils, and prospects for

eradication. J. Clin. Invest. 118, 1266–1276. (Boa visão geral da doença, seu tratamento atual e

futuro)

Gorobets, N.Y., Sedash, Y.V., Singh, B.K., et al., 2017. An overview of currently available

antimalarials. Curr. Top. Med. Chem. 17, 2143–2157.

Held, J., Jeyaraj, S., Kreidenweiss, A., 2015. Antimalarial compounds in Phase II clinical

development. Expert Opin. Investig. Drugs 24, 363–382.

Hoffman, S.L., Vekemans, J., Richie, T.L., Duffy, P.E., 2015. The march toward malaria vaccines.

Am. J. Prev. Med. 49, S319–S333. (Trata do desenvolvimento de vacinas da malária. Algumas

informações úteis e bons diagramas, mas por vezes um pouco técnico)

Lanteri, C.A., Johnson, J.D., Waters, N.C., 2007. Recent advances in malaria drug discovery. Recent.

Pat. Antiinfect. Drug Discov. 2, 95–114. (Esta revisão abrangente foca principalmente nos

processos químicos, mas também conta com uma boa seção sobre alvos para fármacos e

maneiras de otimizar as terapias já existentes)

Matuschewski, K., 2017. Vaccines against malaria-still a long way to go. FEBS J. 284 (16), 2560–

2568. (Atualização excelente e objetiva sobre o assunto das vacinas. Leitura direta)

Mishra, M., Mishra, V.K., Kashaw, V., et al., 2017. Comprehensive review on various strategies for

antimalarial drug discovery. Eur. J. Med. Chem. 125, 1300–1320. (Boa revisão sobre vários

aspectos da malária e seu tratamento. Recomendada)

Muregi, F.W., Wamakima, H.N., Kimani, F.T., 2012. Novel drug targets in malaria parasite with

potential to yield antimalarial drugs with long useful therapeutic lives. Curr. Pharm. Des. 18,

3505–3521. (Boa estimativa da farmacologia antimalária e de como seu uso pode ser

melhorado)

Na-Bangchang, K., Karbwang, J., 2009. Current status of malaria chemotherapy and the role of

pharmacology in antimalarial drug research and development. Fundam. Clin. Pharmacol. 23,

387–409. (Excelente visão geral de toda a área, salientando a contribuição da farmacologia

para o desenvolvimento de novos medicamentos. Altamente recomendada)

O’Brien, C., 1997. Beating the malaria parasite at its own game. Lancet 350, 192. (Abordagem

sucinta e clara dos mecanismos de ação e da resistência dos atuais fármacos antimaláricos e de

potenciais fármacos novos; diagrama útil)

Paddon, C.J., Westfall, P.J., Pitera, D.J., et al., 2013. High-level semi-synthetic production of the

potent antimalarial artemisinin. Nature 25, 528–532. (O emprego de técnicas de biologia sintética

para produzir ácido artemesínico em leveduras, de modo que a oferta global de artemisinina

possa ser aumentada. Um verdadeiro pilar no tratamento)

Shanks, G.D., Kain, K.C., Keystone, J.S., 2001. Malaria chemoprophylaxis in the age of drug

resistance. II. Drugs that may be available in the future. Clin. Infect. Dis. 33, 381–385. (Um olhar

útil para o futuro dos novos fármacos)

Thota, S., Yerra, R., 2016. Drug discovery and development of antimalarial agents: recent advances.

Curr. Protein Pept. Sci. 17, 275–279. (Excelente revisão do realmente alarmante desenvolvimento

de resistência aos antimaláricos. Também inclui bastante informação útil sobre como esses

fármacos atuam. Alguns excelentes diagramas. Altamente recomendada)

 

Amebíase

Haque, R., Huston, C.D., Hughes, M., et al., 2003. Amebiasis. N. Engl. J. Med. 348, 1565–1573.

(Boa revisão; concentra-se na patogênese da doença e traz uma tabela útil de fármacos e seus

efeitos colaterais)

Stanley, S.L., 2001. Pathophysiology of amoebiasis. Trends Parasitol. 17, 280–285. (Bom relato da

doença humana que incorpora alguns resultados obtidos com modelos animais, também de fácil

leitura)

Stanley, S.L., 2003. Amoebiasis. Lancet 361, 1025–1034. (Registro abrangente e de fácil leitura que

aborda todos os aspectos da doença, desde o diagnóstico até o tratamento. Excelente)

 

Tripanossomíase

Aksoy, S., Gibson, W.C., Lehane, M.J., 2003. Interactions between tsetse and trypanosomes with

implications for the control of trypanosomiasis. Adv. Parasitol. 53, 1–83. (Artigo abrangente e

substancial que aborda a biologia da mosca-tsé-tsé e também discute métodos alternativos para

o controle da população de insetos. Não é tão bom quando se refere ao tratamento

farmacológico, mas, se está interessado na biologia do inseto vetor da tripanossomíase, então

este artigo é para você)

Barrett, M.P., 2010. Potential new drugs for human African trypanosomiasis: some progress at last.

Curr. Opin. Infect. Dis. 23, 603–608. (Relato da farmacologia dos tripanocidas atuais e formas

como sua utilização pode ser melhorada. Discute como novos agentes poderiam ser

desenvolvidos usando [por exemplo] uma abordagem de biologia de sistemas)

Brun, R., Don, R., Jacobs, R.T., Wang, M.Z., Barrett, M.P., 2011. Development of novel drugs for

human African trypanosomiasis. Future Microbiol. 6, 677–691.

Burchmore, R.J., Ogbunude, P.O., Enanga, B., Barrett, M.P., 2002. Chemotherapy of human African

trypanosomiasis. Curr. Pharm. Des. 8, 256–267. (Artigo conciso muito bom; discussão

interessante das futuras possibilidades terapêuticas)

Burri, C., Brun, R., 2003. Eflornithine for the treatment of human African trypanosomiasis. Parasitol.

Res. 90 (Suppl. 1), S49–S52. (O título é autoexplicativo)

Denise, H., Barrett, M.P., 2001. Uptake and mode of action of drugs used against sleeping sickness.

Biochem. Pharmacol. 61, 1–5. (Boa abordagem da terapia farmacológica) Gehrig, S., Efferth, T., 2008. Development of drug resistance in Trypanosoma brucei rhodesiense and

Trypanosoma brucei gambiense. Treatment of human African trypanosomiasis with natural

products (Review). Int. J. Mol. Med. 22, 411–419. (Boa visão geral do tratamento

farmacológico, incluindo seções sobre os mecanismos de resistência aos medicamentos)

Keiser, J., Stich, A., Burri, C., 2001. New drugs for the treatment of human African trypanosomiasis:

research and development. Trends Parasitol. 17, 42–49. (Excelente revisão sobre uma doença

devastadora)

 

Leishmaniose

Handman, E., Bullen, D.V.R., 2002. Interaction of Leishmania with the host macrophage. Trends

Parasitol. 18, 332–334. (Artigo muito bom que descreve como esse parasito coloniza os

macrófagos e escapa da morte intracelular; fácil leitura)

Mishra, J., Saxena, A., Singh, S., 2007. Chemotherapy of leishmaniasis: past, present and future.

Curr. Med. Chem. 14, 1153–1169. (O título é autoexplicativo!)

Singh, N., Kumar, M., Singh, R.K., 2012. Leishmaniasis: current status of available drugs and new

potential drug targets. Asian Pac. J. Trop. Med. 5, 485–497. (Excelente artigo que aborda o uso

de fármacos para o combate da leishmaniose. Também expõe mecanismos de resistência com

alguns detalhes. Altamente recomendado)

 

Pneumonia por Pneumocystis

Warren, E., George, S., You, J., Kazanjian, P., 1997. Advances in the treatment and prophylaxis of

Pneumocystis carinii pneumonia. Pharmacotherapy 17, 900–916.

 

Recursos úteis na web

http://malaria.who.int/ (A página da OMS contém as principais informações sobre malária – um

ponto de partida fantástico para uma investigação mais aprofundada. Outros sites úteis cobrem

tripanossomíase, leishmaniose e outras doenças protozoárias importantes)

http://www.mmv.org/ (Página da Medicines for Malaria Venture, parceria entre o setor privado e o

setor público estabelecida para levarem fundos e a experiência de várias fontes para combater a

malária)

____________

1 Considerou-se, em certa época, que a malária surgia da terra pantanosa (daí o nome “malária” – ar ruim ou venenoso).

2 A “malária do aeroporto” é causada por mosquitos infectados em aviões que chegam de áreas onde a doença é endêmica; a “malária da bagagem” é causada pela sua presença na bagagem que chega dessas áreas; e a “malária da pista” foi contraída por passageiros sem sorte que fizeram escala em áreas endêmicas, mas nem sequer saíram do avião.

3 Daí a invenção das bebidas palatáveis contendo o fármaco, incluindo, é claro, a famosa “água tônica” consumida em conjunto com gim, vodca e outras bebidas.

4 Os extratos de Artemisia têm sido usados durante milhares de anos na China para o tratamento das “febres”. Artemisia era a mulher e irmã do rei de Halicarnassus no século IV. Ela ficou tão arrasada com a morte dele, que passou a misturar as cinzas do falecido marido com o que quer que estivesse bebendo, de modo que o líquido ficasse amargo. Uma vez que o absinto doce é notável pela sua amargura extrema, este foi apelidado em sua honra. O composto biologicamente ativo artemisina foi isolado por químicos chineses em 1972. Isso foi ignorado no Ocidente por mais de 10 anos, até que a OMS reconheceu a sua importância e, em 2002, colocou-a na lista dos seus “fármacos essenciais” para o tratamento da malária. Em 2015, a farmacologista chinesa Yoyou Tu ganhou o Prêmio Nobel pelo seu papel no desenvolvimento deste fármaco.

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