Rang e Dale: Farmacologia
Base molecular da quimioterapia
Todos os organismos vivos são vulneráveis a infecções. Os humanos não
são exceção e são suscetíveis a doenças causadas por certos vírus, bactérias,
protozoários, fungos e helmintos (coletivamente referidos como patógenos).
O uso de agentes quimioterápicos data do trabalho de Ehrlich e outros e do
desenvolvimento de fármacos arsênicos seletivamente tóxicos como o
salvarsan para o tratamento da sífilis.1 De fato, foi o próprio Ehrlich que
cunhou o termo quimioterapia para descrever o uso de substâncias químicas
sintéticas para destruir esses patógenos. Em anos recentes, a definição do
termo foi ampliada para incluir antibióticos – falando estritamente,
substâncias produzidas por microrganismos (embora no final também por
substâncias químicas farmacêuticas) que matam ou inibem o crescimento de
outros microrganismos. O desenvolvimento bem-sucedido desses agentes
durante os últimos 80 anos, particularmente durante a “idade de ouro” da
investigação dos antibióticos (anos 1940 a 1970), constitui um dos mais
importantes avanços terapêuticos na história da medicina.
Infelizmente, nosso sucesso no desenvolvimento de fármacos para
neutralizar esses invasores foi seguido pelo próprio sucesso em contrariar
os seus efeitos, resultando no surgimento de resistência aos fármacos. No
presente, os invasores – particularmente algumas bactérias – parecem perto
de ficar à nossa frente. Este é um problema muito importante e, por isso,
iremos dedicar algum espaço aos mecanismos de resistência e os meios
pelos quais eles se propagam.
BASE MOLECULAR DA QUIMIOTERAPIA
Os agentes quimioterápicos, portanto, são agentes que pretendem ser
tóxicos para o organismo patogênico, mas inócuos para o hospedeiro. É
importante lembrar que muitos microrganismos partilham os espaços
corporais (p. ex., intestino)2 sem causar doença (estes são chamados comensais), embora possam se tornar patogênicos sob circunstâncias