Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos que agem sobre a transmissão noradrenérgica
No SNC (ver Capítulo 40), a MAO é mais importante como mecanismo
de término da ação do transmissor do que na periferia; de fato,
camundongos “nocaute” de MAO apresentam maior aumento na
transmissão noradrenérgica cerebral do que camundongos “nocaute” de
NET, nos quais os estoques neuronais de norepinefrina estão sensivelmente
depletados (Gainetdinov e Caron, 2003). O principal produto de eliminação
da norepinefrina liberada no cérebro é o MHPG.
FÁRMACOS QUE AGEM SOBRE A TRANSMISSÃO NORADRENÉRGICA
Os efeitos de muitos fármacos clinicamente importantes, particularmente
aqueles usados no tratamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e
psiquiátricas (ver Capítulos 22, 23, 29, 48 e 49), decorrem da interferência
na função de neurônios noradrenérgicos ou atuação em receptores
adrenérgicos, transportadores, ou enzimas metabolizadoras de
catecolaminas. As propriedades dos mais importantes fármacos dessa
categoria estão resumidas nas Tabelas 15.4 a 15.6.
FÁRMACOS QUE AGEM EM RECEPTORES ADRENÉRGICOS
A atividade geral desses fármacos é ditada por sua afinidade, eficácia e
seletividade com relação aos diferentes tipos de receptores adrenérgicos, e
intensa atividade de pesquisa é aplicada ao desenvolvimento de fármacos
com propriedades direcionadas para indicações clínicas específicas. Como
resultado, a farmacopeia é rica em ligantes de receptores adrenérgicos. Com
efeito, muitas necessidades clínicas são contempladas por fármacos que
relaxam a musculatura lisa em diferentes órgãos do corpo4 e aqueles que
bloqueiam os efeitos estimulantes cardíacos do sistema nervoso simpático; por outro lado, a estimulação cardíaca é, em geral, um fenômeno
indesejável na doença crônica.
Figura 15.3 Principais vias do metabolismo da norepinefrina. O ramo oxidativo (catalisado por aldeído desidrogenase [ADH]) predomina, produzindo ácido vanililmandélico (VMA) como o principal metabólito urinário. O ramo redutor (catalisado por aldeído redutase [AR]) produz o metabólito menos abundante, 3-metoxi-4-hidroxifenilglicol (MHPG), que é conjugado ao sulfato de MHPG antes de ser eliminado; a excreção de sulfato de MHPG reflete a liberação de norepinefrina (NE) no cérebro. COMT, catecol-O-metiltransferase; DHMA, ácido 3,4-di-hidroximandélico; DHPG, 3,4-di-hidroxifenilglicol; MAO, monoamina oxidase; NE, norepinefrina; NM, normetanefrina.
Transmissão noradrenérgica
• A síntese do transmissor envolve o seguinte:
– A L-tirosina é convertida em di-hidroxifenilalanina (dopa) pela tirosina hidroxilase
(etapa limitante). A tirosina hidroxilase ocorre apenas em neurônios
catecolaminérgicos
– A dopa é convertida em dopamina pela dopa descarboxilase
– A dopamina é convertida em norepinefrina pela dopamina β-hidroxilase (DBH),
localizada nas vesículas sinápticas
– Na medula da suprarrenal, a norepinefrina é convertida em epinefrina pela
feniletanolamina N-metiltransferase
• Armazenamento do transmissor: a norepinefrina é armazenada em alta concentração nas
vesículas sinápticas, juntamente com ATP, cromogranina e DBH, os quais são coliberados
por exocitose. O transporte de norepinefrina para o interior das vesículas ocorre por um
transportador sensível a reserpina, transportador vesicular de monoaminas (VMAT). O
conteúdo de norepinefrina no citosol é geralmente baixo, pela presença de monoamina
oxidase nas terminações nervosas
• 2+ A liberação do transmissor geralmente ocorre por exocitose mediada pelo Ca a partir de
varicosidades presentes na rede terminal. Ocorre liberação não exocitótica em resposta a
agentes simpatomiméticos de ação indireta (p. ex., tiramina e anfetamina), que
deslocam a norepinefrina das vesículas. A norepinefrina sai da fenda pela ação do
transportador norepinefrina (NET; transporte reverso)
• A ação do transmissor é nalizada principalmente pela captura da norepinefrina nas
terminações nervosas, mediada pelo transportador NET, o qual é bloqueado por fármacos
antidepressivos tricíclicos e cocaína
• A liberação de norepinefrina é regulada por retroalimentação autoinibitória mediada por
receptores α2-adrenérgicos.
• Ocorre cotransmissão em muitas terminações nervosas noradrenérgicas, sendo o ATP e o
neuropeptídio Y frequentemente coliberados com NE. O ATP medeia a fase inicial da
contração da musculatura lisa em resposta à atividade nervosa simpática.
De modo geral, os agonistas de receptores β2-adrenérgicos são úteis como relaxantes da musculatura lisa (especialmente nas vias respiratórias),
enquanto os antagonistas β1-adrenérgicos (geralmente denominados β-bloqueadores) são usados principalmente em função de seus efeitos
cardiodepressores. Os antagonistas de receptores α1-adrenérgicos são usados principalmente em indicações cardiovasculares, em virtude de seus
efeitos vasodilatadores, e também para o tratamento de hiperplasia
prostática. A epinefrina, com o seu conjunto de ações na estimulação
cardíaca, vasodilatadora e vasoconstritora, tem uma importância única no
tratamento da parada cardíaca (ver Capítulo 22). Os agonistas dos
receptores α1-adrenérgicos são amplamente usados por via intranasal como descongestionantes.
Tabela 15.4 Agonistas dos adrenorreceptores.
Efeitos Aspectos
Fármaco Ação principal Utilização/função Notas
adversos farmacocinéticos
Utilizada por vezes na Mal absorvida VO Hipertensão,
cuidados intensivos Rápida remoção taquicardia (ou pelos tecidos hipotensão nos vasoconstrição,
Norepinefrina Agonista α/β bradicardia –
Transmissor nos
neurônios pós- re exa), Metabolizado por ganglionares arritmias MAO e COMT t1/2 simpáticos e no SNC ventriculares plasmática ~2 min
Epinefrina Agonista α/β Choque ana lático, Iguais aos da Iguais aos da
parada cardíaca norepinefrina norepinefrina
Administrada IM
Adicionado a soluções
anestésicas locais ou SC
Principal hormônio da (IV em ambiente de medula da cuidados intensivos) suprarrenal
Alguma captação Substituída pelo
Isoprenalina Agonista β (não tecidual seguida de salbutamol no Taquicardia, Asma (obsoleto) tratamento da inativação (COMT) seletivo) arritmias asma (ver
t plasmática ~2 h 1/2 Capítulo 29)
Agonista β1
(também t1/2 plasmática ~2
min
Dobutamina apresenta fraca Choque cardiogênico Arritmias Ver Capítulo 22
atividade β 2 e Administrada IV α1)
Administrado VO ou
aerossol
Taquicardia,
Asma, trabalho de arritmias, Excretado
Salbutamol Agonista β Ver Capítulo 29 2
parto prematuro vasodilatação majoritariamente
periférica inalterado
t1/2 plasmática ~4 h
Administrado por
Salmeterol Iguais aos do Formoterol é aerossol Agonista β 2 Asma salbutamol semelhante
Ação prolongada
Terbutalina Agonista β2 Asma Iguais aos do Mal absorvida VO Ver Capítulo 29
salbutamol
Prevenção de partos Administrada por prematuros aerossol
Excretada
majoritariamente
inalterada
t1/2 plasmática ~4 h
Clembuterol Ação “anabólica” para De uso ilícito no Ativa oralmente Iguais aos do Agonista β 2 aumentar a força esporte, ver salbutamol Ação prolongada muscular Capítulo 59
Sintomas de bexiga Ativa oralmente,
Mirabegrona Agonista β3 Taquicardia Ver Capítulo 30
hiperativa dose única diária
Administrada por
via intranasal
Hipertensão,
Descongestionamento Metabolizada por
Fenilefrina Agonista α bradicardia – 1
nasal MAO
re exa
t1/2 plasmática curta
Administrada por
Metoxamina Agonista α (não Descongestionamento Iguais aos da via intranasal – seletivo) nasal fenilefrina
t1/2 plasmática ~1 h
Clonidina, Agonista parcial Hipertensão, Sonolência, Bem absorvidas –
lofexidina α2 pro laxia de hipotensão, oralmente
enxaqueca, edema e
Excretadas
instabilidade aumento de
inalteradas e como
vasomotora (“ondas peso,
conjugado
de calor”); hipertensão
a lofexidina é usada resistente t plasmática ~12 1/2
h
para reduzir os
sintomas durante a
abstinência de
opiáceos
SNC, sistema nervoso central; COMT, catecol-O-metiltransferase; MAO, monoamina oxidase.
Tabela 15.5 Antagonistas dos adrenorreceptores.
Efeitos Aspectos
Fármaco Ação principal Utilização/função Notas
adversos farmacocinéticos
Antagonistas dos adrenorreceptores α
A ação persiste
Fenoxibenzamina Antagonista α para além da Hipotensão Absorvida presença do (não seletivo, postural, oralmente fármaco no irreversível) Feocromocitoma taquicardia, plasma devido à t plasmática ~12 congestão nasal, 1/2 Inibidor da ligação h impotência recaptação covalente ao
receptor
Geralmente
administrada por
Antagonista α via intravenosa
Iguais aos da
Fentolamina (não seletivo), Raramente usada
fenoxibenzamina Metabolizada pelo
vasodilatador
fígado
t plasmática ~2 h 1/2
Absorvida Doxazosina,
oralmente terazosina são
Prazosina Antagonista α Hipertensão Metabolizada pelo 1 mas de ação fenoxibenzamina fígado mais prolongada Iguais aos da semelhantes,
t plasmática ~4 h 1/2 Ver Capítulo 23
Tansulosina Antagonista α Hiperplasia da Di culdade na Absorvida Seletiva para o 1A
(“urosseletivo”) próstata ejaculação oralmente adrenorreceptor-
t α1A plasmática ~5 h 1/2
Absorvida
Não é utilizada oralmente clinicamente
Excitação,
Ioimbina Antagonista α Metabolizada pelo 2 Tida como hipertensão fígado
afrodisíaco
t plasmática ~4 h 1/2
Antagonistas dos adrenorreceptores β
Absorvido
Broncoconstrição, O timolol é oralmente
Angina, insu ciência Extenso semelhante e
hipertensão, cardíaca, metabolismo pré- utilizado
Propranolol Antagonista β extremidades sistêmico principalmente arritmias cardíacas, (não seletivo) corporais frias, no tratamento ansiedade, Cerca de 90% fadiga e do glaucoma tremores, glaucoma ligam-se a proteínas depressão,
hipoglicemia plasmáticas Ver Capítulo 22
t plasmática ~4 h 1/2
Absorvido
oralmente O oxprenolol e o
Alprenolol Antagonista β pindolol são Iguais às do Iguais às do (não seletivo) Metabolizado pelo semelhantes propranolol propranolol (agonista parcial) fígado
Ver Capítulo 22
t plasmática ~4 h 1/2
Metoprolol Antagonista β Angina, Iguais às do Absorvido O atenolol é 1
hipertensão, propranolol, oralmente semelhante, mas arritmias menor risco de com meia-vida
Metabolizado
broncoconstrição maior
majoritariamente
no fígado Ver Capítulo 22
t1/2 plasmática ~3 h
Antagonista β1
Absorvido
Nebivolol Aumenta a Fadiga, dores de oralmente Hipertensão – cabeça síntese de óxido t ~10 h 1/2 nítrico
Antagonista β2
Butoxamina seletivo Sem usos clínicos – – –
Agonista α fraco
Antagonistas dos adrenorreceptores α e β
Absorvido
oralmente
Hipotensão
Hipertensão na Ver Capítulos 22
Labetalol Antagonista α/β postural, Conjugado no
gravidez e 23
broncoconstrição fígado
t plasmática ~4 h 1/2
Iguais aos outros
bloqueadores β
Ações adicionais
Agravamento Absorvido podem ter
Carvedilol Insu ciência inicial da oralmente benefícios Antagonista β/α 1 cardíaca insu ciência clínicos.
cardíaca t ~10 h 1/2
Ver Capítulo 22
Insu ciência
renal
Tabela 15.6 Fármacos que alteram a síntese, a liberação ou
a recaptação da norepinefrina.
Fármaco Ação principal Utilização/função Efeitos adversos Aspectos Notas
farmacocinéticos
Fármacos que afetam a síntese de NE
Ocasionalmente
Inibe a tirosina Hipotensão,
α-Metil-p-tirosina utilizada no – –
hidroxilase sedação
feocromocitoma
Utilizada como Absorvida
Carbidopa Inibe a dopa- coadjuvante da oralmente Ver Capítulo levodopa na – descarboxilase 41 Não penetra no prevenção de efeitos
periféricos cérebro
Absorvida
lentamente pela
Hipotensão, boca sonolência,
Precursor de falso Hipertensão na Excretada na forma Ver Capítulo
Metildopa diarreia, disfunção
transmissor gravidez inalterada ou como 23
erétil,
conjugado
hipersensibilidade
t1/2 plasmática ~6 h
Convertido em NE
por meio da dopa- Absorvida
Droxidopa (L-di- descarboxilase; Hipotensão oralmente Aprovada hidroxifenilserina, consequentemente, ortostática Não conhecidos pela FDA Duração da ação L-DOPS) aumenta a neurogênica
liberação e a síntese ~6 h da NE
Fármacos que liberam NE (aminas simpaticomiméticas de ação indireta)
Tiramina Liberação de NE Sem uso clínico Iguais aos da Geralmente Ver Capítulo
norepinefrina destruída nos 48 para
Presente em vários
intestinos pela interação
alimentos
MAO com
inibidores da
Não penetra no
MAO
cérebro
Ver Capítulo
Bem absorvida
Utilizada como 49 oralmente estimulante do SNC Hipertensão, na narcolepsia e Penetra livremente Metilfenidato taquicardia,
Anfetamina inibidor da MAO, (paradoxalmente) em Excretada são Psicose aguda em crianças hiperativas inibidor da NET, inalterada na urina semelhantes caso de estimulante do SNC (utilizados Liberação de NE, insônia atomoxetina também no cérebro e
Supressora do apetite superdosagem t1/2 plasmática para os
Fármaco com efeito ~12 h, Dependência efeitos no aditivo dependendo de SNC; ver
uxo e pH urinários
Capítulo 49)
Liberacao de NE, Iguais aos da Interage com agonista β, acao Descongestionamento anfetamina, mas Semelhantes aos os inibidores
Efedrina
estimuladora fraca nasal menos da anfetamina da MAO, ver
do SNC pronunciados Capítulo 48
Fármacos que inibem a liberação de NE
Efeito anti-
Mal absorvida
Iguais aos da oralmente desenvolve-hipertensivo, metildopa Metabolizada se
Reserpina Esgota os níveis de Hipertensão lentamente e lentamente Além de
NE ao inibir o VMAT (obsoleto) persiste depressão,
parkinsonismo, t1/2 plasmática mesmo
ginecomastia ~100 h quando o
fármaco é
Excretada no leite
suspenso
Guanetidina Inibe a liberação de Hipertensão Iguais aos da Mal absorvida Ação evitada
NE metildopa oralmente pelos
inibidores do
Também provoca (obsoleto) Hipertensão na Majoritariamente
NET
depleção da NE e primeira excretada pode dani car administração inalterada na urina irreversivelmente
os neurônios de NE t1/2 plasmática
~100 h
Fármacos que alteram a recaptação de NE
Bem absorvida
oralmente 95% A
Bloqueia o ligam-se às desipramina
Efeitos iguais aos
transportador proteínas e a
da atropina
neuronal (NET) plasmáticas amitriptilina
Imipramina Depressão são Arritmias
Também apresenta Convertida em
cardíacas no caso semelhantes
ação semelhante à metabó-lito ativo
de superdosagem
da atropina (desmetilimipra- Ver Capítulo
mina) t1/2 48 plasmática ~4 h
Cocaína Anestésico local; Bem absorvida VO como anestésico local excitação, Ver Capítulos bloqueia o NET Raramente utilizado Hipertensão,
ou por via
estimulante do SNC Fármaco altamente convulsões, 44 e 50 intranasal
dependência
aditivo
MAO, monoamina oxidase; NE, norepinefrina; NET, transportador de norepinefrina; SNC, sistema nervoso central; VMAT,
transportador de monoamina vesicular.
Agonistas de receptores adrenérgicos
Exemplos de agonistas de receptores adrenérgicos (também conhecidos
como fármacos simpatomiméticos de ação direta) são mostrados na Tabela
15.2, e as características dos fármacos individuais estão resumidas na
Tabela 15.4.
■ Efeitos
Os principais efeitos fisiológicos mediados pelos diferentes tipos de
receptores adrenérgicos estão resumidos na Tabela 15.1.
■ Musculatura lisa
Todos os tipos de músculo liso, exceto do trato gastrintestinal, contraem-se
em resposta à estimulação dos receptores α 1-adrenérgicos, mediante ativação do mecanismo de transdução de sinal, conduzindo à liberação
intracelular de Ca2+ descrita no Capítulo 4. Embora o músculo liso vascular
tenha tanto receptores α1 quanto α2, parece que os receptores α1 se encontram perto dos locais de liberação de norepinefrina (e são os
principais responsáveis pela vasoconstrição neuralmente mediada),
enquanto os receptores α2 estão em outra parte da superfície da fibra muscular.
Quando agonistas α1-adrenérgicos são administrados por via sistêmica a animais experimentais ou humanos, a ação mais importante é no músculo
liso vascular, particularmente nas pequenas artérias e arteríolas nos leitos
vasculares da pele e esplâncnicos, que são fortemente constringidos,
aumentando a resistência vascular periférica total. As células musculares
lisas das paredes das grandes artérias e veias também se contraem,
resultando em diminuição da complacência arterial e aumento da pressão
venosa central, o que contribui para o aumento da pressão arterial e venosa
e aumento do trabalho cardíaco. Alguns leitos vasculares (p. ex., cerebral,
coronariano e pulmonar) são relativamente pouco afetados.
No animal inteiro, os reflexos barorreceptores são ativados pelo
aumento na pressão arterial produzido por agonistas α 1-adrenérgicos, causando bradicardia reflexa e inibição da respiração.
Os agonistas α1-adrenérgicos estimulam também a mus-culatura lisa dos canais deferentes, da cápsula esplênica e dos músculos levantadores da
pálpebra (ou membrana nictitante, em algumas espécies), e, anteriormente,
esses órgãos foram muito utilizados em estudos farmacológicos.
A estimulação dos receptores β causa relaxamento da maioria dos tipos
de musculatura lisa, por aumento da formação de cAMP (ver Capítulo 4).
Além disso, a ativação dos receptores β aumenta a extrusão de Ca2+ e a
ligação intracelular do Ca2+, e ambos os efeitos atuam no sentido de reduzir
a concentração intracelular de Ca2+. No sistema vascular, a vasodilatação
mediada por receptores β 2 é (em particular, na espécie humana) principalmente dependente de endotélio e mediada pela liberação de óxido
nítrico (ver Capítulo 21). Ocorre em muitos leitos vasculares e é
especialmente acentuada no músculo esquelético.
O potente efeito inibitório do sistema simpático sobre a musculatura lisa
gastrintestinal é produzido por ambos os receptores, α e β-adrenérgicos.
Esse tecido é incomum, dado o fato de os receptores α causarem
relaxamento na maioria das localizações. Parte do efeito é devido à
estimulação de receptores α2 pré-sinápticos (ver adiante), que inibem a liberação de transmissores excitatórios (p. ex., acetilcolina) de neurônios
intramurais, mas há também receptores α1 e α2 nas células musculares, cuja estimulação hiperpolariza a célula (pelo aumento da permeabilidade da
membrana ao K+) e inibe o disparo de potenciais de ação. A ativação dos
receptores α-adrenérgicos causa contração dos esfíncteres do trato
gastrintestinal.
A musculatura lisa brônquica é relaxada pela ativação dos receptores β2-
adrenérgicos, e agonistas seletivos dos receptores β2 são importantes no
tratamento da asma (ver Capítulo 29). O músculo liso uterino responde de
modo semelhante, e esses fármacos também são usados para retardar o
trabalho de parto prematuro (ver Capítulo 36). O relaxamento do músculo
detrusor da bexiga é conseguido por meio da ativação dos
adrenorreceptores β 3; os agonistas seletivos β3 são utilizados no tratamento da bexiga hiperativa (Sacco e Bientinesi, 2012).
Os receptores α 1-adrenérgicos têm efeitos tróficos de longa duração, estimulando a proliferação da musculatura lisa em vários tecidos, como, por
exemplo, nos vasos sanguíneos e na próstata, fato que é de importância em
patologia. A hiperplasia prostática benigna (ver Capítulo 36) é comumente
tratada com antagonistas α1-adrenérgicos. O “cruzamento de informação”
entre os adrenorreceptores α1 e os fatores de crescimento das vias de
sinalização (ver Capítulo 3) provavelmente contribui para o efeito clínico e
também para a melhora sintomática imediata, que é possivelmente mediada
pelo relaxamento do músculo liso.
■ Terminações nervosas
Receptores adrenérgicos pré-sinápticos estão presentes tanto em
terminações nervosas colinérgicas como noradrenérgicas (ver Capítulos 4 e
13). Como mencionado anteriormente, o efeito principal (mediado por α2) é inibitório, mas também tem sido descrita uma ação facilitadora mais fraca
dos β-receptores nas terminações nervosas adrenérgicas.
■ Coração
Por meio de sua ação em receptores β 1-adrenérgicos, as catecolaminas
exercem um potente efeito estimulante sobre o coração (ver Capítulo 22).
Tanto a frequência cardíaca (efeito cronotrópico) quanto a força de
contração (efeito inotrópico) são aumentadas, resultando em expressivo
aumento do débito cardíaco e do consumo de oxigênio pelo coração. A
eficiência cardíaca (ver Capítulo 22) é reduzida. As catecolaminas podem também causar distúrbios no ritmo cardíaco, culminando em fibrilação
ventricular. (Embora seja paradoxal, o uso de epinefrina é também
importante para o tratamento de parada por fibrilação ventricular, assim
como outras formas de parada cardíaca; ver Capítulo 22.) A Figura 15.4
mostra o padrão geral das respostas cardiovasculares a infusões de
catecolaminas nos humanos, refletindo suas ações conjuntas no coração e
no sistema vascular.
A ativação dos receptores β 1 e α1 causa hipertrofia cardíaca, provavelmente por um mecanismo similar ao da hipertrofia da musculatura
lisa vascular e prostática. Esse fato pode ser importante na fisiopatologia da
hipertensão e da insuficiência cardíaca (condições associadas a excesso de
atividade simpática); ver Capítulos 22 e 23.
■ Metabolismo
As catecolaminas favorecem a conversão dos estoques energéticos
(glicogênio e gordura) em combustíveis facilmente disponíveis (glicose e
ácidos graxos livres) e causam aumento na concentração plasmática destes
últimos. Os pormenores dos mecanismos bioquímicos (revisão de
Nonogaki, 2000) variam conforme a espécie; no entanto, na maioria dos
casos, os efeitos sobre o metabolismo de carboidratos no fígado e músculo
(Figura 15.5) são mediados por receptores β1, e a estimulação de lipólise e
termogênese é produzida por receptores β 3 (ver Tabela 15.1). A ativação de
receptores α2 inibe a secreção de insulina, efeito este que contribui adicionalmente para a hiperglicemia. Além disso, a produção de leptina
pelo tecido adiposo (ver Capítulo 33) é também inibida. A hiperglicemia
induzida pela epinefrina em humanos é bloqueada completamente por uma
combinação de antagonistas α e β, mas não por qualquer um deles
separadamente.
Figura 15.4 Representação esquemática dos efeitos cardiovasculares de infusões
intravenosas de epinefrina, norepinefrina e isoprenalina em humanos. A norepinefrina (agonista predominantemente α) causa vasoconstrição e pressão sistólica e diastólica aumentadas, com uma bradicardia reflexa. A isoprenalina (agonista β) é um vasodilatador, mas produz expressivo aumento de força e frequência cardíacas. A pressão arterial média cai. A epinefrina combina ambas as ações.
Figura 15.5 Regulação do metabolismo energético pelas catecolaminas. As
principais etapas enzimáticas que são afetadas pela ativação dos receptores β-adrenérgicos estão indicadas pelos sinais + e –, representando estimulação e inibição, respectivamente. O efeito global consiste em mobilização dos estoques de glicogênio e de gordura para suprir as demandas energéticas. ATC, ácidos tricarboxílicos.
■ Outros efeitos
O músculo esquelético é afetado pela epinefrina, agindo nos receptores β2-adrenérgicos, embora o efeito seja muito menos dramático do que sobre o
coração. A força de contração das fibras de contração rápida (músculo
branco) é aumentada pela epinefrina, particularmente se o músculo estiver fatigado, enquanto a do músculo lento (vermelho) é reduzida. Esses efeitos
dependem de ação sobre as proteínas contráteis, mais do que sobre a
membrana, mas o mecanismo é pouco compreendido. Em humanos, a
epinefrina e outros agonistas β 2 causam um tremor intenso, cujos exemplos incluem o tremor que acompanha o medo, a excitação, a suspensão do
álcool (ver Capítulo 49) ou o uso excessivo de agonistas β2 (p. ex., salbutamol) no tratamento da asma. O efeito provavelmente decorre de
aumento da taxa de disparo dos fusos musculares, acoplado a um efeito
sobre a cinética de contração das fibras; esses efeitos combinados produzem
instabilidade no controle reflexo do comprimento do músculo. Antagonistas
de receptores β-adrenérgicos são eventualmente usados para controlar o
tremor patológico. Suspeita-se de que o aumento da suscetibilidade ao
desenvolvimento de arritmias cardíacas associadas aos agonistas β 2 seja decorrente, em parte, da hipopotassemia causada por aumento da captação
de K+ pela musculatura esquelética. Os agonistas β2 também causam alterações de longa duração na expressão de proteínas do retículo
sarcoplasmático que controlam a cinética da contração, e assim aumentam a
velocidade e a força de contração do músculo esquelético. O clembuterol,
um fármaco “anabólico” usado ilicitamente por atletas para melhorar o
desempenho físico (ver Capítulo 59), é um agonista β2 que age desse modo.
Aparentemente por atuação em receptores β2, as catecolaminas inibem a liberação de histamina pelo tecido pulmonar de cobaias e de humanos em
resposta a um desafio anafilático (ver Capítulo 18).
Os linfócitos e outras células do sistema imunológico também
expressam receptores adrenérgicos (principalmente receptores β). A
proliferação de linfócitos, a destruição celular mediada por linfócitos e a
produção de muitas citocinas são inibidas por agonistas β-adrenérgicos. A
importância fisiológica e clínica desses efeitos ainda não foi estabelecida. Para uma revisão dos efeitos do sistema nervoso simpático sobre a função
imunológica, consulte Elenkov et al., 2000.
Agonistas de receptores adrenérgicos
• A norepinefrina e a epinefrina mostram relativamente pouca seletividade de receptor
• Agonistas α seletivos incluem fenilefrina e oximetazolina 1
• Agonistas α seletivos incluem clonidina e α-metilnorepinefrina. Esses agentes 2
causam queda da pressão sanguínea, em parte por inibição da liberação de norepinefrina
e em parte por uma ação central. A metildopa, desenvolvida como um fármaco
hipotensor (nos dias atuais, praticamente obsoleto, exceto durante a gravidez), dá origem
à formação do falso mediador metilnorepinefrina
• Agonistas β seletivos incluem a dobutamina. O aumento da contratilidade cardíaca 1
pode ser útil clinicamente, mas todos os agonistas β1 podem causar arritmias cardíacas
• Agonistas β2 seletivos incluem salbutamol, terbutalina e salmeterol, usados
principalmente na asma por sua ação broncodilatadora
• Um agonista β3 seletivo, mirabegrona, é utilizado no tratamento da bexiga hiperativa.
Os agonistas β promovem a lipólise e apresentam um potencial de tratamento na 3
obesidade.
■ Usos clínicos
Os principais usos clínicos dos agonistas de receptores adrenérgicos estão
resumidos no boxe clínico (a seguir) e na Tabela 15.4; dentre eles, o mais
importante é o uso de agonistas β-adrenérgicos no tratamento da asma (ver
Capítulo 29).
Usos clínicos dos agonistas de receptores adrenérgicos
• Sistema cardiovascular:
– Parada cardíaca: epinefrina
– Choque cardiogênico (ver Capítulos 22 e 23): dobutamina (agonista β 1)
• Ana laxia (hipersensibilidade aguda; ver Capítulos 18 e 29): epinefrina
• Sistema respiratório:
– Asma (ver Capítulo 29): agonistas seletivos de receptores β2 (salbutamol,
terbutalina, salmeterol, formoterol)
– Descongestionamento nasal: gotas contendo xilometazolina ou efedrina para
curta duração de uso
• Outras indicações:
– Epinefrina: em associação a anestésicos locais para prolongar sua ação (ver Capítulo
44)
– Trabalho de parto prematuro (salbutamol; ver Capítulo 36)
– Agonistas α2 (p. ex., clonidina, lofexidina): para baixar a pressão sanguínea, mas
são agora raramente prescritos para esta situação, a não ser em situações especiais
(ver Capítulo 23) e intraoculares; a lofexidina é usada como adjuvante durante a
abstinência de opioides, para reduzir os “calores” na menopausa, especialmente
quando o estrogênio é contraindicado, como em pacientes com câncer de mama; e
para reduzir a frequência das crises de enxaqueca (ver Capítulo 16). Não tem
autorização para o tratamento da síndrome de Tourette, caracterizada por tiques
múltiplos e surtos de linguagem imprópria
– Agonista β 3, mirabegrona: tratamento de micções cada vez mais frequentes e
urgentes e incontinência (sintomas da bexiga hiperativa).
Antagonistas de receptores adrenérgicos
Os principais fármacos estão relacionados na Tabela 15.2, e outras
informações são mostradas na Tabela 15.5. A maioria dos fármacos é
seletiva para os receptores α ou β, e muitos também são seletivos para os
subtipos.
■ Antagonistas de receptores α-adrenérgicos
Os principais grupos de antagonistas de receptores α-adrenérgicos são:
• Não seletivos entre os subtipos (p. ex., fenoxibenzamina, fentolamina)
• α1 seletivos (p. ex., prazosina, doxazosina, terazosina)
• α2 seletivos (p. ex., ioimbina, idazoxano).
Além destes, os derivados do ergot (p. ex., ergotamina, di-
hidroergotamina) bloqueiam os receptores α, assim como apresentam
muitas outras ações, principalmente em receptores 5-HT. Esse grupo é
discutido no Capítulo 16. Suas ações sobre receptores α-adrenérgicos são de
interesse farmacológico, mas não usadas em terapia.
Antagonistas α-adrenérgicos não seletivos
A fenoxibenzamina não é específica para os receptores α, pois também
antagoniza as ações da acetilcolina, histamina e 5-HT. Ela é de longa
duração de ação porque se liga covalentemente ao receptor. A fentolamina
é mais seletiva, mas sua ligação ao receptor é reversível e seus efeitos são
de curta duração. Em humanos, esses fármacos causam queda na pressão
arterial (por causa do bloqueio da vasoconstrição mediada pelos receptores
α) e hipotensão postural. O débito cardíaco e a frequência cardíaca são
aumentados. Essa é uma resposta reflexa à queda da pressão arterial,
mediada pelos receptores β. O bloqueio concomitante dos receptores α 2 tende a aumentar a liberação de norepinefrina, fato este que potencializa a taquicardia reflexa por efeito de qualquer agente redutor da pressão
sanguínea. A fenoxibenzamina conserva um uso restrito no preparo pré-
cirúrgico de pacientes com feocromocitoma (ver Capítulo 23 e adiante).
O labetalol e o carvedilol5 são fármacos mistos que bloqueiam
receptores α 1 e β-adrenérgicos, mas em doses usadas clinicamente, agem predominantemente nos receptores β. O carvedilol é usado principalmente
no tratamento da hipertensão e da insuficiência cardíaca (ver Capítulos 21 e
22); o labetalol é usado no tratamento da hipertensão durante a gravidez.
Antagonistas α seletivos 1
A prazosina foi o primeiro antagonista seletivo/agonista inverso α ; atua 1
em todos os três subtipos de receptores α (Alexander et al., 2016). 1 Atualmente, são preferíveis fármacos similares com meias-vidas mais
longas (p. ex., doxazosina, terazosina), que têm a vantagem de tornar
possível administração em dose diária única. Eles são altamente seletivos
para receptores α-adrenérgicos e causam vasodilatação e queda da pressão 1
arterial, mas com menos taquicardia do que os antagonistas α não seletivos,
presumivelmente, porque não aumentam a liberação de norepinefrina pelas
terminações nervosas simpáticas. A hipotensão postural leve é comum, mas
é menos problemática do que com a utilização da prazosina, um fármaco de
curta duração.
Os antagonistas de receptores α causam relaxamento da musculatura 1 lisa do colo da bexiga e da cápsula prostática e inibem a hipertrofia desses
tecidos; por isso, são úteis no tratamento da retenção urinária associada à
hipertrofia prostática benigna. A tansulosina, um antagonista dos
receptores α-adrenérgicos, mostra certa seletividade para a bexiga e causa 1A
menos hipotensão do que os antagonistas dos receptores α , menos 1 seletivos.
Acredita-se que os receptores α 1A participem da hipertrofia patológica não apenas na musculatura lisa vascular e prostática, mas também na
hipertrofia cardíaca que ocorre na hipertensão e na insuficiência cardíaca
(Papay et al., 2013). O uso de antagonistas seletivos α 1A para tratar essas condições crônicas está sob investigação.
Antagonistas α seletivos 2
A ioimbina é um alcaloide de ocorrência natural; vários análogos sintéticos
foram produzidos, como o idazoxano. Esses fármacos são usados
experimentalmente para análise de subtipos de receptores α, e a ioimbina,
provavelmente em virtude de seu efeito vasodilatador, ganhou notoriedade
como afrodisíaca, mas nenhum deles é usado terapeuticamente.
Usos clínicos e efeitos adversos dos antagonistas de receptores α-adrenérgicos
Os principais usos clínicos dos antagonistas de receptores α-adrenérgicos
estão relacionados com as suas ações cardiovasculares e estão resumidos no
boxe clínico (a seguir). As aplicações clínicas desses fármacos são
limitadas. No tratamento da hipertensão, os fármacos bloqueadores não
seletivos de receptores α-adrenérgicos são insatisfatórios, por causa de sua
tendência para produzir taquicardia, hipotensão postural e sintomas
gastrintestinais. Contudo, os antagonistas α seletivos (especialmente os 1 compostos com duração de ação mais prolongada, como a doxazosina e a
terazosina) são úteis. Eles não afetam diretamente a função cardíaca de
modo apreciável, e a hipotensão postural é menos problemática do que com
prazosina ou antagonistas α não seletivos. Têm relevância no tratamento da
hipertensão grave, em que são adicionados ao tratamento com fármacos de
primeira e segunda linhas, mas não são usados como agentes de primeira
escolha (ver Capítulo 23). Ao contrário de outros fármacos anti-
hipertensivos, esses agentes causam discreta diminuição do colesterol de lipoproteínas de baixa densidade e aumento no de lipoproteínas de alta
densidade (ver Capítulo 24); no entanto, é incerta a importância clínica
desses efeitos potencialmente benéficos. Eles são também usados no
controle dos sintomas obstrutivos em pacientes com hipertrofia prostática
benigna.
Antagonistas de receptores α-adrenérgicos
• Antagonistas seletivos α (p. ex., prazosina, doxazosina, terazosina) são utilizados no 1
tratamento da hipertensão e da hipertro a benigna da próstata. Os efeitos adversos
incluem hipotensão postural, incontinência de estresse e disfunção erétil
• A tansulosina é α1A seletiva e age principalmente no trato urogenital. É utilizada no
tratamento da hipertro a benigna da próstata e pode causar hipotensão postural, menor
do que com outros agonistas α1
• A ioimbina é um antagonista seletivo α ; não é usada clinicamente. 2
O feocromocitoma é um tumor do tecido cromafim secretante de
catecolaminas que causa hipertensão grave e inicialmente episódica. A
maneira mais efetiva de controlar a pressão arterial nesses casos é uma
combinação de antagonistas α e adrenérgicos. O tumor pode ser removido
cirurgicamente, sendo essencial bloquear os receptores α e β antes do início
da cirurgia, para evitar os efeitos de uma liberação súbita de catecolaminas
quando o tumor é manipulado. A fenoxibenzamina, um antagonista α
irreversível que reduz o máximo da curva dose-resposta agonista (ver
Capítulo 2, Figura 2.4B), é combinada com um antagonista β-adrenérgico
para esse fim.
Usos clínicos dos antagonistas de receptores α-adrenergicos
• Hipertensão grave (ver Capítulo 23): antagonistas seletivos de receptores dddddα1 (p. ex.,
doxazosina) em combinação com outros fármacos
• Hipertro a prostática benigna (p. ex., tansulosina, um antagonista seletivo de
receptores α1A)
• Feocromocitoma: fenoxibenzamina (antagonista irreversível) no preparo pre-cirurgico.
■ Antagonistas de receptores β-adrenérgicos
Os antagonistas de receptores β-adrenérgicos são importantes em nível
terapêutico. Eles foram descobertos em 1958, 10 anos após Ahlquist ter
postulado a existência dos receptores β-adrenérgicos. O primeiro composto,
dicloroisoprenalina, era um agonista parcial. Avanços posteriores
conduziram ao propranolol, que é um antagonista muito mais potente e
puro, que bloqueia igualmente os receptores β1 e β2. As vantagens clínicas potenciais de fármacos que exibem alguma atividade agonista parcial e/ou
seletividade para o receptor β1 levaram ao desenvolvimento de practolol
(seletivo para receptores β1, mas retirado do mercado devido à sua toxicidade), oxprenolol e alprenolol (não seletivos e com considerável
atividade agonista parcial) e atenolol (β1 seletivo sem atividade agonista). Dois fármacos mais recentes são o carvedilol (um antagonista β não
seletivo que apresenta, adicionalmente, atividade bloqueadora sobre
receptores α 1) e nebivolol (um antagonista seletivo para β1 com atividade
mediada por óxido nítrico vasodilatador; ver Capítulo 21). Esses dois
últimos fármacos mostraram-se mais eficazes que os agonistas β-
adrenérgicos convencionais para o tratamento da insuficiência cardíaca (ver
Capítulos 22 e 23). As características dos compostos mais importantes estão
relatadas na Tabela 15.5. Os antagonistas β-adrenérgicos clinicamente mais
disponíveis são inativos sobre os receptores β3, de modo que eles não afetam a lipólise.
Efeitos
Os principais efeitos farmacológicos dos antagonistas β-adrenérgicos
podem ser deduzidos pela Tabela 15.1. Os efeitos graves produzidos em
humanos dependem do grau de atividade simpática e são discretos nos
indivíduos em repouso. Os efeitos mais importantes são no sistema
cardiovascular e na musculatura lisa brônquica (ver Capítulos 22, 23 e 29).
Em um paciente saudável em descanso, o propranolol provoca ligeiras
mudanças no batimento e débito cardíacos e na pressão arterial, mas o β-
bloqueio reduz de forma acentuada o efeito do exercício ou da excitação
nessas mesmas variáveis (Figura 15.6). Os fármacos com atividade agonista
parcial, como o oxprenolol, aumentam a frequência de repouso, mas a
reduzem durante o exercício. A tolerância máxima ao exercício é
consideravelmente reduzida em indivíduos normais, em parte por causa da
limitação da resposta cardíaca e em parte porque a vasodilatação mediada
pelos receptores β no músculo esquelético é reduzida. O fluxo coronariano
é reduzido, mas relativamente menos do que o consumo de oxigênio do
miocárdio, de tal modo que a oxigenação do miocárdio é melhorada; este
efeito é importante no tratamento da angina pectoris (ver Capítulo 22). Em
indivíduos saudáveis, a redução da força de contração do coração não é
importante, em contraste com pacientes com doença cardíaca (ver mais
adiante neste capítulo).
Um efeito importante, mas de certo modo inesperado, dos antagonistas
de receptores β é sua ação anti-hipertensiva (ver Capítulo 23). Os pacientes
com hipertensão mostram queda gradual da pressão arterial, que leva alguns dias para se desenvolver plenamente. O mecanismo é complexo e consiste
em:
• Redução do débito cardíaco
• Redução da liberação de renina pelas células justaglomerulares do rim
• Ação central, reduzindo a atividade simpática.
A vasodilatação pode contribuir para a ação anti-hipertensiva dos fármacos
(p. ex., carvedilol e nebivolol, ver anteriormente) com tais propriedades.
O bloqueio do efeito facilitador dos receptores β pré-sinápticos sobre a
liberação de norepinefrina (ver Tabela 15.1) também pode contribuir para o
efeito anti-hipertensivo. Tal efeito dos β-bloqueadores é útil clinicamente.
Em razão de a vasoconstrição reflexa estar preservada, a hipotensão
induzida por exercício e a postural são menos problemáticas do que com
muitos outros fármacos anti-hipertensivos.
Muitos antagonistas β apresentam um efeito antiarrítmico importante no
coração (ver Capítulo 22).
A resistência das vias respiratórias em indivíduos normais é apenas
discretamente aumentada pelos β-bloqueadores, e isso não causa
consequência alguma. Contudo, em pessoas asmáticas, os antagonistas β
não seletivos (tais como propranolol) podem causar broncoconstrição grave,
a qual obviamente não responde às doses usuais de fármacos como
salbutamol ou epinefrina. Esse risco é menor com antagonistas β 1 seletivos, mas nenhum é tão seletivo a ponto de permitir que esse risco seja ignorado.
Figura 15.6 Registro contínuo da frequência cardíaca em um espectador de partida
de futebol ao vivo, mostrando o efeito do β-bloqueador oxprenolol. (De Taylor, S.H., Meeran, M.K., 1973. In: Burley et al. (Eds) New Perspectives in Beta-Blockade. CIBA Laboratories, Horsham.)
Apesar do envolvimento dos receptores β-adrenérgicos nas ações
hiperglicêmicas da epinefrina, os β-bloqueadores somente causam
alterações metabólicas mínimas em pessoas normais. Eles não afetam o
início da hipoglicemia após uma injeção de insulina, mas causam certo
retardo da recuperação da glicemia. Em pacientes diabéticos, o uso de
antagonistas β aumenta a probabilidade de hipoglicemia induzida por
exercício, pois a liberação normal de glicose pelo fígado induzida pela
epinefrina é diminuída. Além disso, os antagonistas dos receptores β podem
alterar a percepção da hipoglicemia ao atenuar os seus sintomas (ver
Capítulo 32 e adiante, p. 213).
Antagonistas de receptores β-adrenergicos
• Não seletivos entre receptores oooooβ1 e eeeeeβ2-adrenergicos: propranolol,
alprenolol, oxprenolol
• Seletivos para β 1: atenolol, nebivolol
• O alprenolol e o oxprenolol têm atividade agonista parcial
• Muitos usos clínicos (ver boxe clínico adiante)
• Riscos importantes são broncoconstrição e bradicardia com insu ciência cardíaca (quando
administrado a pacientes instáveis, com deterioração da função cardíaca)
• Os efeitos adversos incluem extremidades frias, insônia, depressão, fadiga
• Alguns (p. ex., propranolol) mostram eliminação pre-sistemica rápida e, portanto,
reduzida biodisponibilidade
• Alguns fármacos (p. ex., labetalol, carvedilol) bloqueiam tanto receptores a como b.
Usos clínicos
Os principais usos clínicos dos antagonistas de receptores β-adrenérgicos
estão relacionados com seus efeitos no sistema cardiovascular e são
discutidos nos Capítulos 22 e 23. Eles estão resumidos no boxe clínico a
seguir.
O uso de antagonistas de receptores β na insuficiência cardíaca merece
atenção especial, visto que a opinião clínica sobre esse assunto foi
completamente modificada. Os pacientes com doenças cardíacas podem
depender de certo grau de atividade simpática sobre o coração para manter
um débito adequado; assim, o impedimento dessa atividade pelo bloqueio
dos receptores β pode exacerbar a insuficiência cardíaca, razão pela qual o
uso desse tipo de fármacos em tais pacientes era considerado inadequado.
Fármacos com atividade agonista parcial (p. ex., oxprenolol, alprenolol) seriam teoricamente vantajosos, visto que eles podem, por sua própria ação,
manter certo grau de ativação do receptor β 1-adrenérgico e, ao mesmo tempo, atenuar a resposta cardíaca a um aumento da atividade nervosa
simpática ou à epinefrina circulante. Contudo, ensaios clínicos não
mostraram clara vantagem desses fármacos em termos de redução da
incidência de insuficiência cardíaca, e um fármaco específico (o xamoterol,
já retirado do mercado), com acentuada ação agonista, piorou claramente a
situação.
Paradoxalmente, os antagonistas dos receptores β são utilizados em
dosagens baixas no tratamento da insuficiência cardíaca compensada, e
existem provas de que melhorem a probabilidade de sobrevivência em
pacientes cuidadosamente selecionados (ver Capítulo 23), embora exista o
perigo de exacerbar o problema no início (Bristow, 2011). O carvedilol é
geralmente utilizado com esse propósito.
O hemangioma infantil é o tumor de tecidos moles mais comum em
crianças, ocorrendo em 3 a 10% dos bebês e geralmente regredindo sem
tratamento. Cerca de 12% são complicados, por exemplo, por impacto em
órgãos vitais, como o olho, e requerem intervenção. Em 2008, uma
observação casual de que o tratamento da insuficiência cardíaca com
propranolol em duas crianças pequenas, com hemangiomas graves, estava
associado à sua regressão levou a ensaios clínicos que confirmaram a
eficácia do propranolol para essa indicação. Tal uso foi aprovado pela FDA,
assim como na Europa, e o propranolol é agora uma terapia-padrão para o
hemangioma infantil grave. A evidência dessa dita eficácia acentuada
(Léauté-Labrèze et al., 2015) destaca a provável importância das ações
tróficas mediadas por β-adrenérgicos, pelo menos nesse tumor endotelial
pediátrico. Formas mais leves e sem complicações de hemangioma infantil
são, às vezes, tratadas com timolol ou propranolol tópicos.
Usos clínicos dos antagonistas de receptores β-adrenergicos
• Cardiovasculares (ver Capítulos 22 e 23):
– Angina pectoris
– Infarto agudo do miocárdio e infartos subsequentes
– Prevenção de arritmias recorrentes (principalmente se induzidas por ativação
simpática)
– Insu ciência cardíaca (em pacientes bem compensados)
– Hipertensão (não são mais de primeira escolha; ver Capítulo 23).
• Outros usos:
– Hemangioma infantil grave/complicado
– Glaucoma (p. ex., timolol em colírio)
– Tireotoxicose (ver Capítulo 35), como adjuvante do tratamento de nitivo (p. ex., pre-
operatorio e durante o início do tratamento com carbimazol)
– Ansiedade (ver Capítulo 45), no controle dos sintomas somáticos (p. ex., palpitações,
tremor)
– Pro laxia da enxaqueca (ver Capítulo 16)
– Tremor essencial benigno (distúrbio familiar).
Efeitos indesejados
Os principais efeitos indesejados dos antagonistas de receptores β-
adrenérgicos no uso terapêutico resultam de sua ação principal (bloquear
esses receptores).
Broncoconstrição. É pouco importante quando há ausência de doença
das vias respiratórias; no entanto, em pacientes asmáticos, o efeito pode
ameaçar a vida. É também clinicamente importante em pacientes com outros tipos de doença pulmonar obstrutiva (p. ex., bronquite crônica,
enfisema), embora a relação risco/benefício possa favorecer o tratamento
cauteloso de determinados pacientes e, tal como mencionado anteriormente,
colocou-se a hipótese de utilizar os antagonistas dos receptores β no
tratamento de pacientes com asma estável.
Depressão cardíaca. Pode ocorrer depressão cardíaca, levando a sinais
de insuficiência cardíaca, particularmente em idosos. Pacientes insuficientes
tratados com betabloqueadores (ver anteriormente) com frequência pioram
sintomaticamente nas primeiras semanas antes que o efeito benéfico se
manifeste.
Bradicardia. A bradicardia sinusal pode progredir para bloqueio
cardíaco que ameace a vida, em particular se os antagonistas β-adrenérgicos
forem coadministrados com outros fármacos antiarrítmicos que
prejudiquem a condução cardíaca (ver Capítulo 22).
Hipoglicemia. A liberação de glicose em resposta à epinefrina é um
recurso de segurança que pode ser importante em pacientes diabéticos e em
outros indivíduos propensos a crises hipoglicêmicas. A resposta simpática à
hipoglicemia produz sintomas (especialmente taquicardia) que alertam os
pacientes da necessidade urgente de carboidratos (em geral, na forma de
uma bebida açucarada). Os β-bloqueadores reduzem esses sintomas, de
modo que a hipoglicemia incipiente tem mais probabilidade de não ser
percebida pelo paciente. Há uma vantagem teórica de usar agentes β1 seletivos, porque a liberação de glicose pelo fígado é controlada pelos
receptores β2.
Fadiga. Provavelmente é decorrente da redução do débito cardíaco e da
diminuição da perfusão muscular durante o exercício. Trata-se de uma
queixa frequente dos pacientes que usam fármacos β-bloqueadores.