Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 322 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos anticitocinas e outros biofármacos

para prevenir a rejeição de transplantes, tem efeito inibitório relativamente

específico sobre linfócitos T ativados. Ela dá origem a um metabólito que

inibe a síntese de novo das pirimidinas por inibição da di-hidro-orotato

desidrogenase. Ativa VO e bem absorvida do trato GI, apresenta, ainda,

meia-vida plasmática prolongada e o metabólito ativo sofre circulação

êntero-hepática. Os efeitos indesejáveis incluem diarreia, alopecia, elevação

das enzimas hepáticas e risco de insuficiência hepática. A prolongada meia-

vida aumenta o risco de toxicidade cumulativa.

 

■ Glicocorticoides

A ação terapêutica dos glicocorticoides envolve os seus efeitos inibitórios

da resposta imunológica e suas ações anti-inflamatórias. Esses efeitos são

descritos no Capítulo 34, e seus locais de ação sobre as reações de

imunidade celular estão indicados na Figura 27.3. Os glicocorticoides são

imunossupressores principalmente porque, como a ciclosporina, restringem

a proliferação clonal das células Th por meio da diminuição da transcrição

do gene para IL-2. No entanto, eles também diminuem a transcrição de

muitos outros genes de citocinas (incluindo os para TNF-α, IFN-γ, IL-1 e

muitas outras interleucinas) tanto na fase de indução como na efetora da

resposta imunológica. A síntese e a liberação de proteínas anti-inflamatórias

(p. ex., anexina 1, inibidores de protease) também aumentam. Esses efeitos

são mediados pela inibição da ação de fatores de transcrição, tais como a

proteína-1 ativadora e o NFκB, bem como pela ação do receptor de

glicocorticoides ligante no citosol das células-alvo (Capítulo 3).

 

FÁRMACOS ANTICITOCINAS E OUTROS BIOFÁRMACOS

Os biofármacos neste tópico representam o maior avanço conceitual e

tecnológico que houve no tratamento de inflamação crônica grave em

décadas (Maini, 2005). Esses fármacos são anticorpos frutos de engenharia

recombinante e outras proteínas (ver Capítulo 5). Como tais, sua produção é

difícil e cara, limitando seu uso. No Reino Unido, sua utilização (no

National Health Service) fica em geral restrita aos pacientes que não

respondem adequadamente a outras terapias com ARMD, e eles são

fornecidos sob supervisão de um especialista. Alguns são administrados em

combinação com o metotrexato, que aparentemente tem uma ação sinérgica

anti-inflamatória.

As características e indicações de alguns biofármacos disponíveis são

expostas na Tabela 27.3. O efeito de dois desses agentes na artrite

reumatoide é ilustrado na Figura 27.4. Muitos neutralizam citocinas

solúveis. Adalimumabe, certolizumabe pegol, golimumabe, etanercepte

e infliximabe têm como alvo o TNF-α; anacinra, secuquinumabe e

canaquinumabe têm como alvo a IL-1; tocilizumabe, a IL-6; e

ustequinumabe, as IL-12 e 23. O abatacepte, o alentuzumabe, o

basiliximabe, o belatacepte, o daclizumabe e natalizumabe têm como

alvo as células T, interferindo em ativação, proliferação ou migração. O

rituximabe e o belimumabe têm como alvo as células B. Apesar de esses

não serem utilizados no tratamento de artrite, basiliximabe, belatacepe e

daclizumabe estão incluídos na tabela, pois previnem a rejeição de órgãos

transplantados de forma semelhante – por meio da supressão da

proliferação das células T.

Existe algum debate sobre a natureza do alvo preciso dos agentes anti-

TNF. Alguns têm como alvo tanto a forma solúvel quanto a forma insolúvel

do TNF, enquanto outros são mais seletivos. Os anticorpos que têm como

alvo o TNF ligado à membrana (p. ex., infliximabe e adalimumabe) podem matar a célula hospedeira por meio da lise induzida pelo sistema

complemento. Isso produz uma qualidade diferente de efeito do simples

sequestro do mediador solúvel (p. ex., pelo etanercepte). Provavelmente,

esse fato é a razão pela qual alguns desses fármacos exibem um perfil

farmacológico levemente diferente, apesar de ostensivamente agirem por

intermédio do mesmo mecanismo de ação (para outros detalhes, ver Arora

et al., 2009).

▼ Sendo proteínas, nenhum desses fármacos pode ser administrado por

via oral. A administração em geral é por injeção subcutânea ou infusão

intravenosa, e seus perfis farmacocinéticos são enormemente variados.

Os esquemas de dosagens diferem, porém (p. ex.) o anacinra é em geral

administrado diariamente; o efalizumabe e o etanercepte 1 ou 2

vezes/semana; o adalimumabe, o certolizumabe pegol, o infliximabe e o

rituximabe, a cada 2 semanas; e o abatacepte, o belimumabe, o

golimumabe, o natalizumabe e o tocilizumabe, todos os meses. Por

vezes, administra-se uma dose de ataque como preliminar antes da

administração regular.

Em geral, esses produtos biofarmacêuticos só são administrados a

pacientes gravemente afetados ou àqueles em quem outras terapias

falharam. Por motivos que não são totalmente claros, uma proporção desses

pacientes (cerca de 30%) não responde, e a terapia costuma ser

descontinuada se nenhum benefício terapêutico for evidente em 2 a 4

semanas. Alguns estudos sugerem que, se o tratamento for iniciado usando

fármacos como o infliximabe em combinação com o metotrexato, essa taxa

de falha é reduzida, sendo alcançado um resultado terapêutico final superior

(van der Kooij et al., 2009).

As citocinas são cruciais para a regulação dos sistemas de defesa do

hospedeiro (ver Capítulo 19), e os leucócitos são os principais elementos para seu funcionamento bem-sucedido. Seria possível, portanto, predizer

que a terapia com anticitocinas e antileucócitos – como qualquer tratamento

que interfira na função imunológica – pode precipitar infecções latentes (p.

ex., tuberculose ou hepatite B) ou encorajar as infecções oportunistas. Os

relatórios sugerem que este é um problema com alguns desses agentes (p.

ex., adalimumabe, etanercepte, infliximabe, natalizumabe e rituximabe).

Esse campo foi revisado por Bongartz et al. (2006). Outro efeito inesperado

visto, porém felizmente raro, é o desenvolvimento de síndrome psoríase-

símile (Fiorino et al., 2009). Hipersensibilidade, reações no local da injeção

ou sintomas GI leves podem ser observados com qualquer desses fármacos.

 

Tabela 27.3 Agentes biológicos utilizados no tratamento de

doenças inflamatórias.

 

Alvo Fármaco Tipo Modo de ação Indicação

mAb AR (moderada a grave), AP, EA, PP,

Adalimumabe Imunoneutralização

humanizado DC

 

Certolizumabe Fragmento de a Imunoneutralização AR (moderada a grave) pegol ac peguilado

mAb

Golimumabe Imunoneutralização AR (moderada a grave), AP, PS

humanizado

TNF solúvel

 

In iximabe Ac quimérico a Imunoneutralização AR (moderada a grave), AP, EA, PP neutralizante

Proteína de

 

Etanercepte fusão do a Neutralização AR (moderada a grave), AP, EA, PP receptor-

armadilha

IL-1 solúvel a Anacinra Versão Neutralização AR (moderada a grave)

recombinante

da IL-1

mAb

Secuquinumabe Imunoneutralização AS, PA

humanizado

mAb

Canaquinumabe Imunoneutralização G

humanizado

 

IL-6 solúvel mAb a Tocilizumabe Imunoneutralização AR (moderada a grave) humanizado

IL-12 e 23 mAb

Ustequinumabe Imunoneutralização PA, PP (grave)

solúveis humanizado

 

Abatacepte Proteina de Previne a coestimulação das a AR (moderada a grave) fusão células T

mAb Liga-se ao CD 52 causando

Alentuzumabe Esclerose múltipla

humanizado lise celular

Antagonistas do receptor de

Basiliximabe mAb quimérico

IL-2

Células T

Proteina de Previne a ativação das celulas Imunossupressão para cirurgia de

Balatacepte

fusão T transplante

mAb Antagonista do receptor de

Daclizumabe

humanizado IL-2

mAb VLA-4 em linfócitos

Natalizumabe Esclerose múltipla grave

humanizado (neutraliza)

mAb Imunoneutraliza o fator de

Belimumabe LES

humanizado ativação das células B

Células B

AR a (moderada a grave), algumas

Rituximabe mAb quimérico Causa lise das células B

doenças malignas

aUsado em conjunto com o metotrexato.