Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 569 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos antiepilépticos

Natureza da epilepsia

 

• A epilepsia afeta cerca de 0,5% da população

• O evento característico é a crise em si que pode associar-se a convulsões, mas muitas vezes

assume outras formas

• A crise é causada por uma despolarização assíncrona com alta frequência de um grupo de

neurônios, iniciando-se localmente e propagando-se em extensão variável, afetando outras partes do cérebro. Nas crises de ausência, a despolarização é regular e oscilatória

• As crises parciais afetam regiões cerebrais localizadas, e a crise generalizada pode envolver

principalmente fenômenos motores, sensitivos ou comportamentais. Ocorre perda da

consciência quando a formação reticular está envolvida

• As crises generalizadas afetam o cérebro inteiro. As duas formas comuns de epilepsia são a

crise tonico-clonica e a de ausência. O estado de mal epiléptico é uma afecção que coloca a vida em risco e na qual a atividade epiléptica é ininterrupta

• As crises parciais podem secundariamente tornar-se generalizadas se a localização da

atividade neuronal anormal se espalhar por todo o cérebro

• Foram elaborados muitos modelos com animais, incluindo crises generalizadas induzidas

elétrica e quimicamente, produção de lesão química local e excitação extensa. Eles oferecem

boa previsão dos efeitos dos antiepilépticos nos seres humanos

• A base neuroquímica da despolarização anômala não está bem compreendida. Pode associar-

se a aumento da transmissão de aminoácidos excitatórios, comprometimento da transmissão inibitória ou propriedades elétricas anômalas das células afetadas. Foram identi cados vários

genes de suscetibilidade, principalmente codi cando os canais iônicos neuronais

• A despolarização epiléptica repetida pode causar morte neuronal (excitotoxicidade)

• A terapia medicamentosa atual é e caz em 70 a 80% dos pacientes.

 

FÁRMACOS ANTIEPILÉPTICOS

Os fármacos antiepilépticos (às vezes conhecidos como anticonvulsivantes) são usados para tratar a epilepsia, bem como alterações convulsivas não epileptiformes.

Com a otimização da terapia com fármacos, a epilepsia é completamente controlada em aproximadamente 75% dos pacientes; no entanto, cerca de 10%

(50.000 pessoas na Inglaterra) continuam a ter crises com intervalos de 1 mês ou menos, o que interrompe gravemente sua vida e trabalho. Portanto, há

necessidade de melhorar a eficácia terapêutica.

Os pacientes com epilepsia geralmente precisam usar medicamentos

continuamente por muitos anos e, portanto, é particularmente importante evitar os efeitos adversos. Contudo, alguns fármacos com efeitos adversos

consideráveis ainda são amplamente usados, embora não sejam fármacos de

escolha para pacientes recém-diagnosticados.2 Há a necessidade de fármacos

mais específicos e eficazes, e vários fármacos novos foram recém-introduzidos para uso clínico ou encontram-se no estágio final dos testes clínicos. Os

fármacos antiepilépticos estabelecidos há muito tempo encontram-se listados

na Tabela 46.1. Novos fármacos (Tabela 46.2) com mecanismos de ação semelhantes aos fármacos mais antigos, ou com novos mecanismos de ação,

podem oferecer vantagens em termos de eficácia nas epilepsias resistentes a medicamentos, melhores perfis de farmacocinética, melhor tolerabilidade,

baixo potencial de interação com outros fármacos (ver Capítulo 58) e menos efeitos adversos. O uso apropriado dos fármacos, desse grande cardápio

disponível, depende de muitos fatores clínicos (Shih et al., 2017).

 

Mecanismo de ação

Os fármacos antiepilépticos têm como objetivo inibir a despolarização neuronal anômala, em vez de corrigir a causa do fenômeno. Três mecanismos

de ação principais parecem ser importantes:

1. Potencialização da ação do GABA.

2. Inibição da função dos canais de sódio.

3. Inibição da função dos canais de cálcio.

Mais recentemente foram desenvolvidos novos fármacos, com novos

mecanismos de ação.

Os fármacos antiepilépticos podem exercer mais de uma ação benéfica, os

principais exemplos sendo o valproato e o topiramato (ver Tabelas 46.1 e

46.2). A importância relativa e a de cada uma dessas ações para o efeito

terapêutico ainda são incertas.

Assim como com os fármacos usados para tratar arritmias cardíacas (ver

Capítulo 22), o intuito é impedir a despolarização paroxística sem afetar a transmissão normal. Está claro que propriedades como dependência do uso e

dependência da voltagem dos bloqueadores de canais (Capítulo 4) são importantes para obter essa seletividade, mas nossos conhecimentos continuam

fragmentários.

 

■ Potencialização da ação do GABA

Vários antiepilépticos (p. ex., fenobarbital e benzodiazepínicos)

potencializam a ativação dos receptores GABAA, assim facilitando a abertura

dos canais de cloreto mediados pelo GABA (ver Capítulos 3 e 45).3 A vigabatrina atua inibindo irreversivelmente a enzima GABA transaminase,

responsável pela inativação do GABA (ver Capítulo 39), nos astrócitos e terminais nervosos GABAérgicos. A tiagabina é um inibidor do transportador

GABA “neuronal” GAT1, que é expresso nos terminais nervosos GABAérgicos e, em menor grau, nos astrócitos vizinhos, inibindo, assim, a remoção do GABA da sinapse. Eleva a concentração extracelular do GABA,

conforme demonstrado em experimentos de microdiálise, potencializando e prolongando, ainda, as respostas sinápticas mediadas pelo GABA no cérebro.

 

■ Inibição da função dos canais de sódio Muitos fármacos antiepilépticos (p. ex., carbamazepina, fenitoína e

lamotrigina; ver Tabelas 46.1 e 46.2) afetam a excitabilidade da membrana

por ação sobre os canais de sódio dependentes de voltagem (ver Capítulos 4 e

44), que contêm a corrente de entrada necessária para a geração de um potencial de ação. Sua ação bloqueadora mostra a propriedade de dependência

do uso; em outras palavras, bloqueiam, preferencialmente, a excitação das células que estão disparando repetitivamente, e quanto mais alta a frequência

dos disparos, maior o bloqueio produzido. Tal característica, relevante para a capacidade dos fármacos de bloquearem a despolarização de alta frequência

que ocorre na crise epiléptica, sem interferir indevidamente nos disparos de baixa frequência dos neurônios no estado normal, origina-se da capacidade dos fármacos bloqueadores de discriminarem canais de sódio em seus estados de

repouso, aberto e inativado (ver Capítulos 4 e 44). A despolarização de um neurônio (como ocorre no DDP descrito anteriormente) aumenta a proporção

de canais de sódio no estado inativado. Os antiepilépticos ligam-se preferencialmente aos canais neste estado, impedindo-os de retornar ao estado

de repouso e, desse modo, reduzindo o número de canais funcionais disponíveis para gerar potenciais de ação subsequentes. A lacosamida

potencializa a inativação dos canais de sódio, mas, ao contrário de outros fármacos antiepilépticos, parece afetar os processos de inativação lentos em

vez dos rápidos.

 

Tabela 46.1 Propriedades dos fármacos antiepilépticos

estabelecidos há muito tempo.

Local de ação

Canal Canal Principal(ais)

Receptor

Fármaco de de Outro Usos principais efeito(s) Farmacocinética sódio GABA A cálcio

adverso(s)

+ — — — Todos os tipos, Sedação, ataxia, Meia-vida de 12 a

Carbamazepina exceto crises de visão embaçada, 18 horas (mais

ausência retenção hídrica, longa Especialmente reações de inicialmente) Forte crises focais como hipersensibilidade, indução de epilepsia do lobo leucopenia, enzimas temporal insu ciência microssômicas, Também usada hepática (raras) portanto, risco de em neuralgia do interações trigêmeo medicamentosas

Meia-vida de

Ataxia, vertigem, aproximadamente

hipertro a 24 horas Cinética

gengival, de saturação,

Todos os tipos, hirsutismo, portanto, níveis

Fenitoínab + — — — exceto crises de anemia plasmáticos

ausência megaloblástica, imprevisíveis

malformação fetal, Costuma ser

reações de necessário o

hipersensibilidade monitoramento

plasmático

Em geral, menos

que com outros

Inibição da Maioria dos tipos, fármacos Náuseas,

Meia-vida de 12 a

Valproato + ?+ + GABA inclusive crises de perda de cabelos,

15 horas

transaminase ausência ganho de peso,

malformações

fetais

Crises de ausência Meia-vida

Náuseas, anorexia,

c Pode exacerbar plasmática longa

Etossuximida — — + — alterações do

crises tônico- (aproximadamente

humor, cefaleia

clônicas 60 horas)

Fenobarbitald ?+ + — — Todos os tipos, Sedação, Meia-vida

exceto crises de depressão plasmática longa ausência (> 60 h) Forte

indução de

enzimas hepáticas,

portanto, risco de

interações

medicamentosas

(p. ex., com

fenitoína)

Benzodiazepínicos Lorazepam é

(p. ex., usado

Sedação Síndrome

clonazepam, intravenosamente

— + — — de abstinência (ver Ver Capítulo 45

clobazam, para controlar

Capítulo 45)

lorazepam, estado de mal

diazepam) epiléptico

a b Oxcarbazepina e eslicarbazepina, recém-introduzidas, são semelhantes; alega-se que tenham menos efeitos adversos. A fosfenitoína é

um profármaco de fenitoína hidrossolúvel que é mais seguro do que a fenitoína quando administrada por injeção. cTrimetadiona é

semelhante à etossuximida, pois atua seletivamente em crises de ausência, mas apresenta maior toxicidade (especialmente o risco de

reações de hipersensibilidade intensas e teratogenicidade). dPrimidona é farmacologicamente semelhante ao fenobarbital e é

convertida em fenobarbital no organismo. Não tem vantagens claras e é mais passível de produzir reações de hipersensibilidade e,

portanto, é usada raramente nos dias atuais.

 

Tabela 46.2 Propriedades dos novos fármacos

antiepilépticos.a

Local de ação

Canal Canal Principal(ais)

Receptor

Fármaco de de Outro Usos principais efeito(s) Farmacocinética sódio GABA A adverso(s) cálcio

Sedação, alterações

Todos os tipos Meia-vida

comportamentais e

Inibição da Parece ser e caz plasmática curta,

do humor

Vigabatrina — — — GABA em pacientes mas inibição

(ocasionalmente

transaminase resistentes a enzimática

psicose) Falhas no

outros fármacos prolongada

campo visual

Lamotrigina + — ?+ Inibe Todos os tipos Tontura, sedação, Meia-vida

liberação de erupções cutâneas plasmática de 24 a glutamato 36 horas

Poucos efeitos

Meia-vida

Gabapentina, adversos,

— — + — Crises parciais plasmática de 6 a 9

pregabalina principalmente

horas

sedação

Usado

geralmente para Poucos efeitos Meia-vida casos graves adversos agudos, plasmática de

Bloqueio do

(síndrome de mas pode causar aproximadamente

Felbamato + + ?+ receptor

Lennox-Gastaut) anemia aplásica e 20 horas Eliminado

NMDA?

em virtude do lesão hepática (rara, em forma risco de reação mas grave) inalterada adversa

Meia-vida

plasmática de

Inibe Sedação Tontura

aproximadamente

Tiagabina — — — captação de Crises parciais Sensação de cabeça

7 horas

GABA vazia

Metabolismo

hepático

Meia-vida

Crises parciais e Sedação Menos

plasmática de

Bloqueador generalizadas interações

aproximadamente

Topiramato + ?+ ?+ do receptor tônico-clônicas farmacocinéticas

20 horas Eliminado

AMPA Síndrome que a fenitoína

em forma

Lennox-Gastaut Malformação fetal

inalterada

Meia-vida

plasmática de

Liga-se à Crises parciais e

a aproximadamente

Levetiracetam — — — proteína tônico-clônicas Sedação (discreta)

7 horas Eliminado

SV2A generalizadas

em forma

inalterada

Zonisamida + ?+ + — Crises parciais Sedação (discreta) Meia-vida

Supressão do plasmática de apetite e perda de aproximadamente

peso 70 horas

Inibe Meia-vida

Cefaleia, tontura,

Ru namida + — — recaptura de Crises parciais plasmática 6 a 10

fadiga

GABA?+ horas

Náuseas e vômitos,

vertigens,

distúrbios visuais, Meia-vida

Lacosamida + — — — Crises parciais coordenação plasmática de 13

comprometida, horas mudanças do

humor

Vertigens, ganho de

peso, sedação,

Antagonista coordenação Meia-vida

Perampanel — — — AMPA não Crises parciais comprometida, plasmática de 70 a

competitivo alterações do 100 horas

humor e do

comportamento

aO brivaracetam é um análogo estrutural.

SV2A, proteína da vesícula sináptica 2A (do inglês, synaptic vesicle protein 2A).

 

■ Inibição dos canais de cálcio

Todos os fármacos que são usados para tratar crises de ausência (p. ex., etossuximida e valproato) compartilham a capacidade de bloquear os canais de cálcio ativados por baixa voltagem do tipo T. A atividade do canal do tipo T

é importante para a determinação da despolarização rítmica dos neurônios do tálamo associados às crises de ausência (Khosravani et al., 2004).

A gabapentina, embora desenhada como um simples análogo de GABA, que seria suficientemente lipossolúvel para penetrar a barreira hematencefálica, deve seu efeito antiepiléptico principalmente à ação sobre os canais de cálcio do tipo P/Q. Ao ligar-se a uma subunidade em particular do canal (α2δ1), a gabapentina e a pregalabina (um análogo relacionado)

reduzem o tráfego para a membrana plasmática dos canais de cálcio que contêm esse subunidade, diminuindo, assim, a entrada de cálcio nos terminais

nervosos e reduzindo a liberação de diferentes neurotransmissores e moduladores.

 

■ Outros mecanismos

Muitos dos novos fármacos antiepilépticos foram desenvolvidos

empiricamente com base na atividade em modelos animais. Seu mecanismo de ação em nível celular ainda não é totalmente compreendido.

Acredita-se que o levetiracetam interfira na liberação do neurotransmissor, por meio da ligação à proteína da vesícula sináptica 2A (SV2A; do inglês,

synaptic vesicle protein 2A) envolvida em acoplamento e fusão da vesícula sináptica. O brivaracetam, um agente antiepiléptico relacionado, também se

liga à SV2A com uma afinidade 10 vezes superior.

Enquanto um fármaco pode parecer trabalhar por meio de um dos

principais mecanismos descritos, a avaliação detalhada geralmente revela outras ações que também podem ser terapeuticamente relevantes. Por exemplo,

a fenitoína tem sido estudada com grandes detalhes. Não somente causa bloqueio dependente do uso nos canais de sódio (p. 583), mas também afeta

outros aspectos da função de membrana, incluindo os canais de cálcio e a potencialização pós-tetânica, bem como a fosforilação das proteínas intracelulares por quinases ativadas pela calmodulina, o que também poderia

interferir na excitabilidade da membrana e na função sináptica.

O antagonismo em receptores de aminoácidos excitatórios ionotrópicos tem sido um foco principal na pesquisa de novos fármacos antiepilépticos. Apesar de demonstrarem eficácia nos modelos animais, em geral não se demonstraram úteis na clínica, porque a margem entre o efeito anticonvulsivo desejado e os efeitos adversos inaceitáveis, como a perda da coordenação motora, era muito estreita. No entanto, o perampanel, um antagonista não