Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 717 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Antibióticos citotóxicos

polimerase (Figura 57.7). Os principais efeitos adversos envolvem a medula

óssea e o trato GI.

A gencitabina, um análogo da citarabina, apresenta poucas ações

adversas: a principal é uma síndrome semelhante à influenza (gripe) e

mielotoxicidade branda. Costuma ser administrada em combinação com

outros fármacos, como a cisplatina. A azacitidina e a decitabina inibem a

DNA metilase.

 

■ Análogos da purina

Os principais análogos da purina anticâncer incluem cladribina,

clofarabina, fludarabina, pentostatina, nelarabina, mercaptopurina e

tioguanina.

A fludarabina é metabolizada para trisfosfato e inibe a síntese de DNA

por ações semelhantes às da citarabina. É mielossupressora. A pentostatina

apresenta um mecanismo de ação diferente. Inibe a adenosina desaminase, a

enzima que transforma adenosina em inosina. Tal ação interfere em vias

críticas no metabolismo da purina e pode ter efeitos significativos na

proliferação celular. A cladribina, a mercaptopurina e a tioguanina são

usadas principalmente no tratamento da leucemia.

 

ANTIBIÓTICOS CITOTÓXICOS

Trata-se de um grupo de fármacos amplamente empregados e que produz

seus efeitos basicamente pela ação direta no DNA. Como regra, não devem

ser administrados em conjunto com a radioterapia, visto que a carga

acumulada de toxicidade é muito elevada.

 

■ Doxorrubicina e antraciclinas Doxorrubicina, idarrubicina, daunorrubicina e epirrubicina são

antibióticos antraciclínicos amplamente utilizados; a mitoxantrona

(mitozantrona), por sua vez, é um derivado.

A doxorrubicina apresenta diversas ações citotóxicas. Liga-se ao DNA e

inibe tanto a síntese de DNA quanto a de RNA, mas sua principal ação

citotóxica parece ser mediada por efeito na topoisomerase II (uma DNA

girase; ver Capítulo 51), cuja atividade é bastante intensa nas células em

proliferação. Durante a replicação da hélice do DNA, é preciso haver

rotação reversível em torno da forquilha de replicação para evitar que a

molécula-filha de DNA fique inextricavelmente emaranhada durante a

segregação mitótica. O “giro” em torno do eixo é produzido pela

topoisomerase II, que corta ambos os filamentos do DNA e,

subsequentemente, volta a fechar as rupturas. A doxorrubicina intercala-se

no DNA, e seu efeito consiste, essencialmente, em estabilizar o complexo

DNA-topoisomerase II, depois de os filamentos terem sido cortados,

interrompendo, assim, o processo nesse ponto.

Figura 57.7 O mecanismo de ação da citarabina (citosina arabinosídeo). Para

detalhes da ação da DNA polimerase, ver a Figura 51.5. A citarabina é um análogo da citosina.

Fármacos anticâncer | Antimetabólitos

 

Os antimetabólitos bloqueiam ou subvertem as vias da síntese do DNA.

• Antagonistas do folato. O metotrexato inibe a di-hidrofolato redutase, evitando a

geração de tetra-hidrofolato, que interfere na síntese de timidilato

Análogos de pirimidina. A uoruracila é convertida em um nucleotídio “falso” e inibe a

•

síntese de timidilato. Em sua forma trisfosfato, a citarabina inibe a DNA polimerase. São

agentes mielossupressores potentes

• Análogos da purina. A mercaptopurina é convertida em nucleotídio falso. Em sua forma

trifosfato, a udarabina inibe a DNA polimerase e é mielossupressora. A pentostatina

inibe a adenosina desaminase – uma via crítica no metabolismo da purina.

 

A doxorrubicina é administrada por infusão intravenosa. O

extravasamento no local da injeção pode provocar necrose local. Além dos

efeitos adversos gerais, o fármaco pode causar dano cardíaco cumulativo

relacionado com a dose, levando a arritmias e insuficiência cardíaca. Tal

ação pode resultar da geração de radicais livres. Também ocorre

frequentemente perda pilosa acentuada.

 

■ Dactinomicina

A dactinomicina intercala-se no sulco menor do DNA, entre pares

adjacentes de guanina-citosina, interferindo no movimento da RNA-

polimerase ao longo do gene e, assim, evitando a transcrição. Há também

evidências de que esse agente tenha ação semelhante à das antraciclinas na

topoisomerase II. O fármaco produz a maioria dos efeitos adversos

anteriormente descritos, exceto cardiotoxicidade. É usada principalmente no

tratamento de cânceres pediátricos.

■ Bleomicinas

As bleomicinas são um grupo de antibióticos glicopeptídios quelantes de

metal que degradam o DNA pré-formado, causando fragmentação da cadeia

e liberação de bases livres. Considera-se que tal ação envolva quelação de

ferro ferroso e interação com oxigênio, o que resulta na oxidação do ferro e

na geração de radicais superóxido e/ou hidroxila. A bleomicina é mais

efetiva na fase G2 do ciclo celular e da mitose, mas também é ativa nas

células em não divisão (i. e., células na fase G0; ver Capítulo 6, Figura 6.4). Costuma ser usada para tratar câncer de células germinativas. Ao contrário

da maioria dos fármacos anticâncer, a bleomicina causa pouca

mielossupressão; seu efeito tóxico mais grave é a fibrose pulmonar, que

ocorre em 10% dos pacientes tratados, sendo relatada como evento fatal em

1% dos casos. Podem ocorrer também reações alérgicas. Cerca da metade

dos pacientes manifesta reações mucocutâneas (quase sempre, as palmas

das mãos são atingidas), e muitos desenvolvem hiperpirexia.

 

■ Mitomicina

Após a ativação enzimática, a mitomicina age como agente alquilante

bifuncional, ligando-se preferencialmente em O6 do núcleo da guanina. Faz

ligações cruzadas no DNA e também pode degradar o DNA por meio da

geração de radicais livres. Causa mielossupressão tardia acentuada e

também pode causar dano renal e fibrose do tecido pulmonar.