Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 621 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Efeitos prejudiciais do tabagismo

Farmacologia da nicotina

 

• Em nível celular, a nicotina age nos receptores nicotínicos da acetilcolina (nAChR) para

aumentar a liberação do neurotransmissor e eleva a excitação neuronal. Seus efeitos

centrais são bloqueados por antagonistas de receptores como a mecamilamina

• Em nível comportamental, a nicotina produz uma mistura de efeitos inibitórios e

excitatórios

• A nicotina mostra propriedades de reforço, associadas com aumento da atividade na via

dopaminérgica mesolímbica, e a autoadministração pode ser suscitada em estudos

animais

• As alterações na eletroencefalogra a mostram uma resposta de excitação, e os sujeitos

relatam aumento da atenção acompanhado de redução da ansiedade e tensão

• O aprendizado, particularmente sob estresse, é facilitado pela nicotina

Os efeitos periféricos da nicotina devem-se principalmente à estimulação ganglionar:

•

taquicardia, aumento da pressão arterial e redução da motilidade gastrintestinal.

Rapidamente se desenvolve tolerância a tais efeitos

• A nicotina é metabolizada em cotinina, principalmente no fígado, dentro de 1 a 2 horas

• A nicotina leva a tolerância, dependência física e dependência psicológica ( ssura).

Tentativas a longo prazo de cessação são bem-sucedidas em apenas cerca de 20% dos

casos

• A terapia de reposição de nicotina (cigarro eletrônico, goma de mascar ou adesivo

cutâneo) aumenta as chances de cessação tabágica quando combinada com psicoterapia

ativa.

 

EFEITOS PREJUDICIAIS DO TABAGISMO

A expectativa de vida dos fumantes é menor do que a de não fumantes. O

tabagismo causa quase 90% das mortes por câncer de pulmão, cerca de 80%

das mortes por bronquite e enfisema e 17% das mortes por doença cardíaca.

O aumento do uso dos cigarrros eletrônicos deve reduzir o número dessas

mortes. Cerca de um terço de todas as mortes por câncer podem ser

atribuídas ao fumo. O tabagismo é, com uma ampla margem, a maior causa

evitável de morte, responsável por cerca de 1 em cada 10 mortes de adultos

em todo o mundo. Apesar da introdução dos cigarros eletrônicos, as mortes

por fumo em todo o mundo continuam aumentando. Em 2015, estimou-se

que o tabagismo tenha sido responsável por cerca de 6,4 milhões de mortes

(e de aproximadamente 800.000 mortes adicionais para não fumantes por

inalação secundária involuntária).

Os principais riscos à saúde são os seguintes:

 

• Câncer, em especial de pulmão e de trato respiratório superior, mas

também de esôfago, pâncreas e bexiga. Estima-se que fumar 20 cigarros

por dia aumente o risco de câncer de pulmão em cerca de 10 vezes. O

alcatrão, e não a nicotina, é o responsável pelo risco de câncer. Variantes

genéticas das subunidades do receptor nicotínico têm sido associadas ao

câncer de pulmão, embora os mecanismos por trás dessa associação não

sejam claros (Hung et al., 2008)

• Doença cardíaca coronariana e outras formas de doença vascular

periférica. A mortalidade entre homens com idade entre 55 e 64 anos

por trombose coronariana é cerca de 60% maior em homens que fumam

20 cigarros por dia do que em não fumantes. Apesar de o aumento do

risco ser menor do que para câncer de pulmão, o número real de mortes

adicionais associadas ao tabagismo é maior, porque a doença cardíaca

coronariana é muito comum. Outros tipos de doença vascular (p. ex.,

acidente vascular encefálico [AVE], claudicação intermitente e gangrena

diabética) também estão fortemente associados ao tabagismo. Os

cigarros eletrônicos e as preparações de nicotina, usados para ajudar os

fumantes a abandonarem os cigarros, parecem não ter um risco

importante. O monóxido de carbono (ver adiante) poderia ser um fator.

No entanto, não há aumento claro na doença cardíaca isquêmica entre

fumantes de cachimbo e charuto, apesar de serem atingidas

concentrações sanguíneas semelhantes de nicotina e carboxi-

hemoglobina, sugerindo que outros fatores possam ser responsáveis

pelo risco associado com os cigarros

• Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC; ver Capítulo 29) é um

importante problema de saúde mundial. O fumo de cigarros é a

principal causa. A cessação tabágica diminui a progressão da doença.

Bronquite, a inflamação das mucosas dos brônquios, é muito mais

comum em fumantes do que em não fumantes. Tais efeitos

provavelmente se devem ao alcatrão e a outros irritantes, e não à

nicotina

• Efeitos prejudiciais na gravidez. O tabagismo, em particular durante a

segunda metade da gravidez, reduz significativamente o peso ao

nascimento (até cerca de 8% em mulheres que fumam 25 ou mais

cigarros por dia durante a gravidez) e aumenta a mortalidade perinatal

(em uma estimativa de 28% em bebês nascidos de mães que fumaram

na segunda metade da gravidez). Há evidência de que crianças nascidas

de mães fumantes ficam para trás tanto no desenvolvimento físico

quanto mental, por pelo menos 7 anos. Aos 11 anos de idade, a

diferença não é mais significativa. Esses efeitos do fumo, apesar de

mensuráveis, são muito menores que os efeitos de outros fatores, como

classe social e ordem de nascimento. Várias outras complicações da

gravidez são também mais comuns em mulheres que fumam, incluindo Outros efeitos do tabagismo

aborto espontâneo (aumentado em 30 a 70% pelo tabagismo), parto

prematuro (aumentado em cerca de 40%) e placenta prévia (em que a

placenta obstrui o parto vaginal normal, aumentada em 25 a 90%). A

nicotina é excretada no leite materno em quantidades suficientes para

causar taquicardia no bebê.

 

Os agentes provavelmente responsáveis pelos efeitos danosos são os

seguintes:

 

• Alcatrão e irritantes, como dióxido de nitrogênio e formaldeído. A

fumaça do cigarro contém muitos hidrocarbonetos cancerígenos

conhecidos, bem como promotores de tumores, que em conjunto são

responsáveis por risco aumentado de câncer. É provável que as várias

substâncias irritantes também sejam responsáveis pelo aumento de

bronquite e enfisema

• A nicotina é provavelmente responsável pelo atraso do desenvolvimento

fetal devido às suas propriedades vasoconstritoras

• Monóxido de carbono. A fumaça do cigarro contém cerca de 3% de

monóxido de carbono. O monóxido de carbono tem alta afinidade pela

hemoglobina, e o conteúdo médio de carboxi-hemoglobina no sangue

de fumantes de cigarros é de cerca de 2,5% (comparados com 0,4% para

moradores urbanos não fumantes). Em fumantes muito pesados, até

15% da hemoglobina pode estar carboxilada, um nível que afeta o

desenvolvimento fetal em camundongos. A hemoglobina fetal tem

maior afinidade pelo monóxido de carbono do que a hemoglobina do

adulto, e a proporção de carboxi-hemoglobina é maior no sangue fetal

do que no materno

• O aumento do estresse oxidativo pode contribuir para aterogênese (ver

Capítulo 24) e DPOC (ver Capítulo 29).

A doença de Parkinson é aproximadamente duas vezes mais comum em não

fumantes do que em fumantes. É possível que isso reflita um efeito protetor

da nicotina. Colite ulcerativa parece ser uma doença de não fumantes. Ex-

fumantes estão sob alto risco de desenvolver colite ulcerativa, ao passo que

fumantes apresentam o menor risco. Esta tendência indica que fumar

cigarros pode prevenir o surgimento de colite ulcerativa. Em contraste, o

fumo tende a piorar os efeitos da doença de Crohn (outro tipo de doença

inflamatória intestinal). Relatos antigos de que a doença de Alzheimer é

menos comum em fumantes não foram confirmados; sem dúvida, há

evidência de que o tabagismo possa aumentar a ocorrência de doença de

Alzheimer em alguns grupos genéticos.

 

Efeitos do tabagismo

 

• O tabagismo é responsável por mais de 10% das mortes em todo o mundo,

principalmente por:

• – Câncer, especialmente câncer de pulmão, em que 90% dos casos estão

relacionados com o fumo; alcatrões carcinogênicos são os principais responsáveis

• – Bronquite crônica; alcatrões são os principais responsáveis

• Na gravidez, o tabagismo reduz o peso ao nascimento e retarda o desenvolvimento

infantil. Também aumenta as taxas de aborto e a mortalidade perinatal. A nicotina e,

possivelmente, o monóxido de carbono são os responsáveis

• O uso de cigarro eletrônico (vapeadores) evita a inalação de alcatrão e monóxido de

carbono que ocorre com o fumo

• A incidência de doença de Parkinson é menor em fumantes do que em não fumantes. FÁRMACOS QUE AUMENTAM A COGNIÇÃO