Rang e Dale: Farmacologia
Efeitos prejudiciais do tabagismo
Farmacologia da nicotina
• Em nível celular, a nicotina age nos receptores nicotínicos da acetilcolina (nAChR) para
aumentar a liberação do neurotransmissor e eleva a excitação neuronal. Seus efeitos
centrais são bloqueados por antagonistas de receptores como a mecamilamina
• Em nível comportamental, a nicotina produz uma mistura de efeitos inibitórios e
excitatórios
• A nicotina mostra propriedades de reforço, associadas com aumento da atividade na via
dopaminérgica mesolímbica, e a autoadministração pode ser suscitada em estudos
animais
• As alterações na eletroencefalogra a mostram uma resposta de excitação, e os sujeitos
relatam aumento da atenção acompanhado de redução da ansiedade e tensão
• O aprendizado, particularmente sob estresse, é facilitado pela nicotina
Os efeitos periféricos da nicotina devem-se principalmente à estimulação ganglionar:
•
taquicardia, aumento da pressão arterial e redução da motilidade gastrintestinal.
Rapidamente se desenvolve tolerância a tais efeitos
• A nicotina é metabolizada em cotinina, principalmente no fígado, dentro de 1 a 2 horas
• A nicotina leva a tolerância, dependência física e dependência psicológica ( ssura).
Tentativas a longo prazo de cessação são bem-sucedidas em apenas cerca de 20% dos
casos
• A terapia de reposição de nicotina (cigarro eletrônico, goma de mascar ou adesivo
cutâneo) aumenta as chances de cessação tabágica quando combinada com psicoterapia
ativa.
EFEITOS PREJUDICIAIS DO TABAGISMO
A expectativa de vida dos fumantes é menor do que a de não fumantes. O
tabagismo causa quase 90% das mortes por câncer de pulmão, cerca de 80%
das mortes por bronquite e enfisema e 17% das mortes por doença cardíaca.
O aumento do uso dos cigarrros eletrônicos deve reduzir o número dessas
mortes. Cerca de um terço de todas as mortes por câncer podem ser
atribuídas ao fumo. O tabagismo é, com uma ampla margem, a maior causa
evitável de morte, responsável por cerca de 1 em cada 10 mortes de adultos
em todo o mundo. Apesar da introdução dos cigarros eletrônicos, as mortes
por fumo em todo o mundo continuam aumentando. Em 2015, estimou-se
que o tabagismo tenha sido responsável por cerca de 6,4 milhões de mortes
(e de aproximadamente 800.000 mortes adicionais para não fumantes por
inalação secundária involuntária).
Os principais riscos à saúde são os seguintes:
• Câncer, em especial de pulmão e de trato respiratório superior, mas
também de esôfago, pâncreas e bexiga. Estima-se que fumar 20 cigarros
por dia aumente o risco de câncer de pulmão em cerca de 10 vezes. O
alcatrão, e não a nicotina, é o responsável pelo risco de câncer. Variantes
genéticas das subunidades do receptor nicotínico têm sido associadas ao
câncer de pulmão, embora os mecanismos por trás dessa associação não
sejam claros (Hung et al., 2008)
• Doença cardíaca coronariana e outras formas de doença vascular
periférica. A mortalidade entre homens com idade entre 55 e 64 anos
por trombose coronariana é cerca de 60% maior em homens que fumam
20 cigarros por dia do que em não fumantes. Apesar de o aumento do
risco ser menor do que para câncer de pulmão, o número real de mortes
adicionais associadas ao tabagismo é maior, porque a doença cardíaca
coronariana é muito comum. Outros tipos de doença vascular (p. ex.,
acidente vascular encefálico [AVE], claudicação intermitente e gangrena
diabética) também estão fortemente associados ao tabagismo. Os
cigarros eletrônicos e as preparações de nicotina, usados para ajudar os
fumantes a abandonarem os cigarros, parecem não ter um risco
importante. O monóxido de carbono (ver adiante) poderia ser um fator.
No entanto, não há aumento claro na doença cardíaca isquêmica entre
fumantes de cachimbo e charuto, apesar de serem atingidas
concentrações sanguíneas semelhantes de nicotina e carboxi-
hemoglobina, sugerindo que outros fatores possam ser responsáveis
pelo risco associado com os cigarros
• Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC; ver Capítulo 29) é um
importante problema de saúde mundial. O fumo de cigarros é a
principal causa. A cessação tabágica diminui a progressão da doença.
Bronquite, a inflamação das mucosas dos brônquios, é muito mais
comum em fumantes do que em não fumantes. Tais efeitos
provavelmente se devem ao alcatrão e a outros irritantes, e não à
nicotina
• Efeitos prejudiciais na gravidez. O tabagismo, em particular durante a
segunda metade da gravidez, reduz significativamente o peso ao
nascimento (até cerca de 8% em mulheres que fumam 25 ou mais
cigarros por dia durante a gravidez) e aumenta a mortalidade perinatal
(em uma estimativa de 28% em bebês nascidos de mães que fumaram
na segunda metade da gravidez). Há evidência de que crianças nascidas
de mães fumantes ficam para trás tanto no desenvolvimento físico
quanto mental, por pelo menos 7 anos. Aos 11 anos de idade, a
diferença não é mais significativa. Esses efeitos do fumo, apesar de
mensuráveis, são muito menores que os efeitos de outros fatores, como
classe social e ordem de nascimento. Várias outras complicações da
gravidez são também mais comuns em mulheres que fumam, incluindo Outros efeitos do tabagismo
aborto espontâneo (aumentado em 30 a 70% pelo tabagismo), parto
prematuro (aumentado em cerca de 40%) e placenta prévia (em que a
placenta obstrui o parto vaginal normal, aumentada em 25 a 90%). A
nicotina é excretada no leite materno em quantidades suficientes para
causar taquicardia no bebê.
Os agentes provavelmente responsáveis pelos efeitos danosos são os
seguintes:
• Alcatrão e irritantes, como dióxido de nitrogênio e formaldeído. A
fumaça do cigarro contém muitos hidrocarbonetos cancerígenos
conhecidos, bem como promotores de tumores, que em conjunto são
responsáveis por risco aumentado de câncer. É provável que as várias
substâncias irritantes também sejam responsáveis pelo aumento de
bronquite e enfisema
• A nicotina é provavelmente responsável pelo atraso do desenvolvimento
fetal devido às suas propriedades vasoconstritoras
• Monóxido de carbono. A fumaça do cigarro contém cerca de 3% de
monóxido de carbono. O monóxido de carbono tem alta afinidade pela
hemoglobina, e o conteúdo médio de carboxi-hemoglobina no sangue
de fumantes de cigarros é de cerca de 2,5% (comparados com 0,4% para
moradores urbanos não fumantes). Em fumantes muito pesados, até
15% da hemoglobina pode estar carboxilada, um nível que afeta o
desenvolvimento fetal em camundongos. A hemoglobina fetal tem
maior afinidade pelo monóxido de carbono do que a hemoglobina do
adulto, e a proporção de carboxi-hemoglobina é maior no sangue fetal
do que no materno
• O aumento do estresse oxidativo pode contribuir para aterogênese (ver
Capítulo 24) e DPOC (ver Capítulo 29).
A doença de Parkinson é aproximadamente duas vezes mais comum em não
fumantes do que em fumantes. É possível que isso reflita um efeito protetor
da nicotina. Colite ulcerativa parece ser uma doença de não fumantes. Ex-
fumantes estão sob alto risco de desenvolver colite ulcerativa, ao passo que
fumantes apresentam o menor risco. Esta tendência indica que fumar
cigarros pode prevenir o surgimento de colite ulcerativa. Em contraste, o
fumo tende a piorar os efeitos da doença de Crohn (outro tipo de doença
inflamatória intestinal). Relatos antigos de que a doença de Alzheimer é
menos comum em fumantes não foram confirmados; sem dúvida, há
evidência de que o tabagismo possa aumentar a ocorrência de doença de
Alzheimer em alguns grupos genéticos.
Efeitos do tabagismo
• O tabagismo é responsável por mais de 10% das mortes em todo o mundo,
principalmente por:
• – Câncer, especialmente câncer de pulmão, em que 90% dos casos estão
relacionados com o fumo; alcatrões carcinogênicos são os principais responsáveis
• – Bronquite crônica; alcatrões são os principais responsáveis
• Na gravidez, o tabagismo reduz o peso ao nascimento e retarda o desenvolvimento
infantil. Também aumenta as taxas de aborto e a mortalidade perinatal. A nicotina e,
possivelmente, o monóxido de carbono são os responsáveis
• O uso de cigarro eletrônico (vapeadores) evita a inalação de alcatrão e monóxido de
carbono que ocorre com o fumo
• A incidência de doença de Parkinson é menor em fumantes do que em não fumantes. FÁRMACOS QUE AUMENTAM A COGNIÇÃO