Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 346 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Asma brônquica

abordadas em outras partes neste livro, incluindo infecções (ver Capítulos

52 a 56), malignidades (ver Capítulo 57) e doenças ocupacionais e

reumatológicas; os fármacos (p. ex., amiodarona, metotrexato) podem

lesionar o tecido pulmonar e causar fibrose pulmonar. A insuficiência

cardíaca leva ao edema pulmonar (ver Capítulo 23). Doença

tromboembólica (ver Capítulo 25) e hipertensão pulmonar (ver Capítulo 23)

afetam a circulação pulmonar. Neste capítulo, concentramo-nos em duas

doenças importantes das vias respiratórias: asma e DPOC.

 

ASMA BRÔNQUICA

A asma afeta cerca de 8% da população; é a doença crônica mais comum

em crianças de países desenvolvidos, sendo também comum em adultos.

Trata-se de uma doença inflamatória na qual há obstrução recorrente e

reversível das vias respiratórias em resposta a estímulos irritantes que são

fracos demais para afetar os não asmáticos. A obstrução geralmente causa

sibilos e merece tratamento medicamentoso,2 embora a história natural da

asma inclua remissões espontâneas. A reversibilidade da resposta das vias

respiratórias na asma contrasta com a DPOC, em que a obstrução não é

reversível ou, na melhor das hipóteses, é incompletamente reversível por

broncodilatadores.

 

Características da asma

Os pacientes asmáticos apresentam crises intermitentes de sibilos, falta de

ar – com dificuldade especialmente na expiração – e, algumas vezes, tosse.

Como explicado anteriormente, as crises agudas são reversíveis, mas o

distúrbio patológico subjacente pode progredir em pacientes mais idosos,

até um estado crônico que se assemelha superficialmente à DPOC.

A asma grave aguda (também conhecida como estado de mal asmático)

não é facilmente revertida e causa hipoxemia. É necessária a hospitalização,

pois a condição, que pode ser fatal, exige tratamento pronto e enérgico.

A asma se caracteriza por:

 

• Inflamação das vias respiratórias

• Hiper-reatividade brônquica

• Obstrução reversível das vias respiratórias.

 

O termo hiper-reatividade brônquica (ou hiper-responsividade) refere-se à

sensibilidade anormal a uma ampla variedade de estímulos, como os

irritantes químicos, o ar frio e fármacos estimulantes, todos os quais podem

resultar em broncoconstrição. Na asma alérgica, essas características podem

ser iniciadas pela sensibilização a alergênio(s), mas, uma vez estabelecidas,

as crises de asma podem ser desencadeadas por vários estímulos, como

infecção viral, exercício (no qual o estímulo pode ser o ar frio e/ou

ressecamento das vias respiratórias) e poluentes atmosféricos, como o

dióxido de enxofre. A dessensibilização imunológica aos alergênios, como

o pólen ou ácaros da poeira, é popular em alguns países, mas não é superior

ao tratamento convencional com fármacos inalatórios.

 

Patogênese da asma

A patogênese da asma envolve fatores genéticos e ambientais, e a própria

crise asmática consiste, em muitos indivíduos, em duas fases principais:

uma imediata e uma tardia (Figura 29.1).

Numerosas células e mediadores têm participação, e os detalhes

completos dos eventos complexos envolvidos ainda são controversos

(Walter e Holtzman, 2005). O relato simplificado a seguir pode fornecer uma base para compreensão do uso racional de fármacos no tratamento da

asma.

Os asmáticos têm linfócitos T ativados, com um perfil T-helper (Th2)

de produção de citocinas (ver Capítulo 19 e Tabela 19.2) em sua mucosa

brônquica. Não se compreende completamente como essas células são

ativadas, mas os alergênios (Figura 29.2) são um dos mecanismos. As

citocinas Th2 liberadas fazem o seguinte:

 

• Atraem outros granulócitos inflamatórios, especialmente os eosinófilos,

para a superfície da mucosa. A interleucina (IL)-5 e o fator estimulante

de colônias de granulócitos-macrófagos induzem os eosinófilos a

produzir cisteinil-leucotrienos (ver Capítulo 18) e a liberar proteínas dos

grânulos que lesam o epitélio. Esse dano é uma causa de hiper-

responsividade brônquica

• Promovem síntese de imunoglobulina (Ig)E e responsividade em alguns

asmáticos (a IL-4 e a IL-13 “ligam” os linfócitos B para síntese de IgE e

causam expressão de receptores de IgE em mastócitos e eosinófilos;

também aumentam a adesão de eosinófilos ao endotélio).

 

Alguns asmáticos, além desses mecanismos, também são atópicos – ou seja,

produzem uma IgE específica para alergênios que se liga a mastócitos nas

vias respiratórias. O alergênio inalado estabelece ligações cruzadas de

moléculas de IgE nos mastócitos, desencadeando sua desgranulação com

liberação de histamina e leucotrieno B4, ambos broncoconstritores poderosos aos quais os asmáticos são especialmente sensíveis em razão de

sua hiper-responsividade das vias respiratórias. Este fato proporciona um

mecanismo para a exacerbação aguda da asma em indivíduos atópicos

expostos a alergênios. A eficácia do omalizumabe (um anticorpo anti-IgE;

ver p. 378) serve para enfatizar a importância da IgE na patogênese da asma como em outras doenças alérgicas. Gases nocivos (p. ex., dióxido de

enxofre, ozônio) e desidratação das vias respiratórias também podem causar

desgranulação de mastócitos.

 

Figura 29.1 Duas fases da asma demonstradas pelas alterações do volume

expiratório forçado em 1 s (VEF ) após inalação de pólen de grama em indivíduo 1

alérgico. (De Cockcroft, D.W., 1983. Lancet ii, 253.)

 

Os clínicos costumam falar em asma atópica ou “extrínseca” e asma não

atópica ou “intrínseca”; neste texto, damos preferência aos termos alérgica e

não alérgica.

 

■ Fase imediata da crise asmática

Na asma alérgica, a fase imediata (i. e., a resposta inicial à provocação pelo

alergênio) ocorre abruptamente e é causada, principalmente, por espasmo

da musculatura lisa brônquica. A interação do alergênio com a IgE fixada

em mastócitos causa liberação de histamina, leucotrieno B 4 e prostaglandina

(PG) D2 (ver Capítulo 18).

Outros mediadores liberados incluem IL-4, IL-5, IL-13, proteína

inflamatória 1α dos macrófagos e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α).

Várias quimiotaxinas e quimiocinas (ver Capítulo 19) atraem leucócitos

– particularmente eosinófilos e células mononucleares –, preparando o

terreno para a fase tardia (Figura 29.3).

 

■ Fase tardia

A fase tardia ou resposta tardia (ver Figuras 29.1 e 29.3) pode ser noturna.

Em essência, trata-se de uma reação inflamatória progressiva cujo início

ocorreu durante a primeira fase, sendo de particular importância o influxo

de linfócitos Th2. As células inflamatórias incluem eosinófilos ativados.

Estes liberam cisteinil-leucotrienos; IL-3, IL-5 e IL-8; e as proteínas

tóxicas, proteína catiônica de eosinófilos, proteína básica maior e

neurotoxina derivada de eosinófilos. Estas desempenham parte importante

nos eventos da fase tardia, sendo que as proteínas tóxicas causam lesão e

perda de epitélio. Outros supostos mediadores do processo inflamatório na

fase tardia são a adenosina (atuando no receptor A1; ver Capítulo 17), NO

induzido (ver Capítulo 21) e neuropeptídios (ver Capítulo 19).

 

Figura 29.2 Papel desempenhado pelos linfócitos T na asma alérgica. Em indivíduos geneticamente suscetíveis, o alergênio (círculo verde) interage com as células dendríticas e linfócitos T CD4+, levando ao desenvolvimento de linfócitos Th0, que dão origem a um clone de linfócitos Th2. Estes, então, (1) geram um ambiente de citocinas que desvia linfócitos B/plasmócitos para a produção e liberação de imunoglobulina (Ig)E; (2) geram citocinas, como a interleucina (IL)-5, que promovem diferenciação e ativação de eosinófilos; e (3) citocinas (p. ex., IL-4 e IL-13) que induzem expressão de receptores de IgE. Os glicocorticoides inibem a ação das citocinas especificadas. APC (antigen-presenting dendritic cell), célula dentrítica apresentadora de antígeno; B, linfócito B; P, plasmócito; Th, linfócito T-helper.

 

Asma

 

• De ne-se asma como obstrução recorrente e reversível das vias respiratórias, com crises de

sibilos, falta de ar e, muitas vezes, tosse noturna. As crises graves causam hipoxemia e

colocam a vida em risco

• As características essenciais incluem:

– In amação das vias respiratórias, que causa

– Hiper-responsividade brônquica, que, por sua vez, resulta em

– Obstrução recorrente reversível das vias respiratórias

• A patogênese envolve exposição de indivíduos geneticamente dispostos aos alergênios; a

ativação de linfócitos Th2 e a geração de citocinas promovem:

– Diferenciação e ativação de eosinó los

– Produção e liberação de IgE

– Expressão de receptores para IgE em mastócitos e eosinó los

• Mediadores importantes incluem leucotrieno B 4 e cisteinil-leucotrienos (C4 e D4);

interleucinas IL-4, IL-5, IL-13; e proteínas dos eosinó los que causam lesões teciduais

• Os fármacos antiasmáticos compreendem:

– Broncodilatadores

– Agentes anti-in amatórios

• O tratamento é monitorado medindo-se o VEF1 ou o PFE e, em doença grave aguda, a

saturação de oxigênio e gasometria arterial.

Figura 29.3 Fases imediata e tardia da asma, com ações dos principais fármacos.

CysLT, cisteinil-leucotrienos (leucotrienos C e D ); ECP (eosinophil cationic protein), 4 4 proteína catiônica de eosinófilos; EMBP (eosinophil major basic protein), proteína básica maior de eosinófilos; H, histamina; iNO, óxido nítrico induzido. (Para mais detalhes das

citocinas derivadas de Th2 e quimiocinas, ver Capítulo 17 e Capítulo 6, Figura 6.4.)

Figura 29.4 Diagrama esquemático de um corte transversal de um bronquíolo,

 

mostrando as alterações que ocorrem na asma grave crônica. Os elementos individuais retratados não estão, é claro, desenhados em escala.

 

Fatores de crescimento liberados de células inflamatórias atuam sobre

as células musculares lisas, causando hipertrofia e hiperplasia, e a

musculatura lisa pode, ela mesma, liberar mediadores pró-inflamatórios e

fatores de crescimento (ver Capítulos 6 e 19). A Figura 29.4 mostra

esquematicamente as alterações que têm lugar nos bronquíolos. Perda de

células epiteliais significa que receptores de irritantes e fibras C ficam mais

acessíveis a estímulos de irritantes – um importante mecanismo da hiper-

reatividade brônquica.

 

■ Asma “sensível ao ácido acetilsalicílico”

▼ Os anti-inflamatórios não esteroides (AINE), especialmente o ácido

acetilsalicílico, podem precipitar asma em indivíduos sensíveis. Tal

asma sensível ao ácido acetilsalicílico (ver Capítulo 27) é relativamente