Rang e Dale: Farmacologia
Malária e fármacos antimaláricos
Leishmania induz o fator de transformação de crescimento-β, IL-10, inativa
a via do complemento e infrarregula muitos outros mecanismos
intracelulares de defesa (Singh et al., 2012). Mecanismos semelhantes
ocorrem durante a infestação por vermes (ver Capítulo 56).
O Toxoplasma gondii desenvolveu uma estratégia distinta: a
estimulação das respostas de defesa do hospedeiro. O hospedeiro definitivo
(i. e., onde a recombinação sexual ocorre) desse protozoário é o gato, porém
os seres humanos podem, inadvertidamente, tornar-se os hospedeiros
intermediários, abrigando a forma assexuada do parasito. Nos seres
humanos, o T. gondii infesta numerosos tipos de células e apresenta um
estágio replicativo altamente virulento. Para garantir que o hospedeiro
sobreviva, ele estimula a produção de interferona-γ, modulando as respostas
mediadas por células do hospedeiro, a fim de promover o encistamento (e
assim a persistência) do parasito nos tecidos.
MALÁRIA E FÁRMACOS ANTIMALÁRICOS
A malária1 é causada por parasitos pertencentes ao gênero Plasmodium.
Quatro espécies principais infectam os seres humanos: P. vivax, P.
falciparum, P. ovale e P. malariae. Um parasito relacionado que infecta
macacos, o P. knowlesi, também pode infectar os seres humanos e tem
causado crescente preocupação em algumas regiões, como no Sudeste
Asiático. Em todos os casos, o inseto vetor é a fêmea do mosquito
Anopheles. Reproduz-se em águas estagnadas, e a doença que transmite é
uma das principais causas de morte no planeta.
A malária foi erradicada da maioria dos países temperados no século
XX, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) tentou erradicar a malária
nos outros lugares usando inseticidas “residuais” poderosos e fármacos antimaláricos francamente efetivos que se tornaram disponíveis, como a
cloroquina. No final dos anos 1950, a incidência de malária caiu de forma
significativa. No entanto, durante os anos 1970 tornou-se claro que a
tentativa de erradicação havia falhado, devendo-se principalmente ao
aumento da resistência do mosquito aos inseticidas, e do parasito aos
fármacos antimaláricos.
Em grande parte devido a um aumento massivo nos gastos (atualmente
cerca de 3 bilhões de dólares) em campanhas de saúde pública como o
programa Roll Back Malaria (patrocinado por uma parceria entre
organizações transnacionais, incluindo a OMS e o Banco Mundial), a taxa
de mortalidade global por malária diminuiu aproximadamente em um
quarto nos últimos 5 anos, com algumas áreas geográficas chegando a uma
redução de quase 50% (p. ex., Oeste do Pacífico e Sudeste Asiático). Ainda
assim, as estatísticas globais tornam a leitura sombria. De acordo com o
relatório da OMS de 2016, metade da população mundial está em risco de
contrair a doença, e este continua sendo um problema de saúde pública
significativo em mais de 100 países. Em 2015, estimavam-se 212 milhões
de casos e > 400.000 mortes pela doença. Mais de 90% dessas mortes
ocorreram na África Subsaariana, e a maioria das vítimas é composta por
crianças. Mesmo aqueles que sobrevivem podem ficar com déficit mental
permanente. Outros grupos de alto risco incluem gestantes, refugiados e
trabalhadores que vão para regiões endêmicas. A malária também impõe
uma enorme carga econômica nos países em que a doença é predominante.
Tabela 55.1 Principais infecções protozoárias e os
tratamentos farmacológicos usuais.
Tipo Espécies Doença Tratamento farmacológico comum
Amebas Entamoeba histolytica Disenteria amebiana Metronidazol, tinidazol, diloxanida
Trypanosoma brucei
rhodesiense Suramina, pentamidina, melarpasol,
Doença do sono
e ornitina, nifurtimox
Trypanosoma brucei
gambiense
Nifurtimox, benznidazol, tafenoquina e
Trypanosoma cruzi Doença de Chagas
tetraciclina
Flagelados Leishmania tropica Calazar
Leishmania donovani Úlcera de Chiclero
Estibogliconato de sódio, anfotericina,
isetionato de pentamidina
Leishmania mexicana Espúndia
Leishmania braziliensis Ferida oriental
Trichomonas vaginalis Vaginite Metronidazol, tinidazol
Giardia lamblia Diarreia, esteatorreia Metronidazol, tinidazol, mepacrina
Plasmodium falciparum a Malária terçã maligna
Arteméter, atovaquona, cloroquina,
Plasmodium vivax clindamicina, dapsona, doxiciclina, Malária terçã benigna
lumefantrina, me oquina, primaquina,
Esporozoários Plasmodium ovale Malária terçã benigna proguanil, pirimetamina, quinina,
sulfadoxina, tafenoquina e tetraciclina
Plasmodium malariae Malária quartã
Encefalite, malformações
Toxoplasma gondii Pirimetamina-sulfadiazina
congênitas, doença ocular
Ciliados e Cotrimoxazol, atovaquona, isetionato de b Pneumocystis jirovecii Pneumonia outros pentamidina
a Ver também Tabela 55.2.
bEsse microrganismo é de classi cação incerta. Ver texto para mais detalhes e Capítulo 54 para outros comentários.
Malária
• A malária é causada por várias espécies de plasmódios, que são transmitidos pela fêmea
do mosquito anófeles. Os esporozoítos (a forma assexuada do parasito) são introduzidos
no hospedeiro pela picada do inseto, e estes se desenvolvem no fígado em:
– Esquizontes (o estágio pré-eritocítico), que libera merozoítos – estes infectam as
hemácias, formando trofozoítos móveis, os quais, após o desenvolvimento, liberam
outro grupo de merozoítos que infectam outros eritrócitos, causando febre; isso
constitui o ciclo eritrocítico
– Hipnozoítos dormentes, que, posteriormente (estágio exoeritrocítico), podem liberar
merozoítos
• Os principais parasitos da malária que causam a malária terçã (“cada terceiro dia”) são:
– P. vivax, que causa a malária terçã benigna
– P. falciparum, que causa a malária terçã maligna; diferentemente do P. vivax, esse
plasmódio não tem o estágio exoeritrocítico
• Alguns merozoítos desenvolvem-se em gametócitos, as formas sexuadas do parasito.
Quando ingeridos pelo mosquito, dão origem aos estágios adicionais do ciclo de vida do
parasito dentro do inseto.
Igualmente preocupante é o fato de a malária ter ganhado relevância em
outros países nos quais não é normalmente endêmica. Na Europa, por
exemplo, praticamente todos os casos relatados (> 6.000 em 2014) da
doença são de malária importada,2 e este número permaneceu
relativamente constante, ao contrário da queda global do número de casos.
Esse fenômeno se deve, em parte, ao aumento das viagens internacionais,
em parte à imigração de países onde a doença é endêmica e (possivelmente)
em parte por causa do aquecimento global.