Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 693 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Malária e fármacos antimaláricos

Leishmania induz o fator de transformação de crescimento-β, IL-10, inativa

a via do complemento e infrarregula muitos outros mecanismos

intracelulares de defesa (Singh et al., 2012). Mecanismos semelhantes

ocorrem durante a infestação por vermes (ver Capítulo 56).

O Toxoplasma gondii desenvolveu uma estratégia distinta: a

estimulação das respostas de defesa do hospedeiro. O hospedeiro definitivo

(i. e., onde a recombinação sexual ocorre) desse protozoário é o gato, porém

os seres humanos podem, inadvertidamente, tornar-se os hospedeiros

intermediários, abrigando a forma assexuada do parasito. Nos seres

humanos, o T. gondii infesta numerosos tipos de células e apresenta um

estágio replicativo altamente virulento. Para garantir que o hospedeiro

sobreviva, ele estimula a produção de interferona-γ, modulando as respostas

mediadas por células do hospedeiro, a fim de promover o encistamento (e

assim a persistência) do parasito nos tecidos.

 

MALÁRIA E FÁRMACOS ANTIMALÁRICOS

A malária1 é causada por parasitos pertencentes ao gênero Plasmodium.

Quatro espécies principais infectam os seres humanos: P. vivax, P.

falciparum, P. ovale e P. malariae. Um parasito relacionado que infecta

macacos, o P. knowlesi, também pode infectar os seres humanos e tem

causado crescente preocupação em algumas regiões, como no Sudeste

Asiático. Em todos os casos, o inseto vetor é a fêmea do mosquito

Anopheles. Reproduz-se em águas estagnadas, e a doença que transmite é

uma das principais causas de morte no planeta.

A malária foi erradicada da maioria dos países temperados no século

XX, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) tentou erradicar a malária

nos outros lugares usando inseticidas “residuais” poderosos e fármacos antimaláricos francamente efetivos que se tornaram disponíveis, como a

cloroquina. No final dos anos 1950, a incidência de malária caiu de forma

significativa. No entanto, durante os anos 1970 tornou-se claro que a

tentativa de erradicação havia falhado, devendo-se principalmente ao

aumento da resistência do mosquito aos inseticidas, e do parasito aos

fármacos antimaláricos.

Em grande parte devido a um aumento massivo nos gastos (atualmente

cerca de 3 bilhões de dólares) em campanhas de saúde pública como o

programa Roll Back Malaria (patrocinado por uma parceria entre

organizações transnacionais, incluindo a OMS e o Banco Mundial), a taxa

de mortalidade global por malária diminuiu aproximadamente em um

quarto nos últimos 5 anos, com algumas áreas geográficas chegando a uma

redução de quase 50% (p. ex., Oeste do Pacífico e Sudeste Asiático). Ainda

assim, as estatísticas globais tornam a leitura sombria. De acordo com o

relatório da OMS de 2016, metade da população mundial está em risco de

contrair a doença, e este continua sendo um problema de saúde pública

significativo em mais de 100 países. Em 2015, estimavam-se 212 milhões

de casos e > 400.000 mortes pela doença. Mais de 90% dessas mortes

ocorreram na África Subsaariana, e a maioria das vítimas é composta por

crianças. Mesmo aqueles que sobrevivem podem ficar com déficit mental

permanente. Outros grupos de alto risco incluem gestantes, refugiados e

trabalhadores que vão para regiões endêmicas. A malária também impõe

uma enorme carga econômica nos países em que a doença é predominante.

 

Tabela 55.1 Principais infecções protozoárias e os

tratamentos farmacológicos usuais.

 

Tipo Espécies Doença Tratamento farmacológico comum

Amebas Entamoeba histolytica Disenteria amebiana Metronidazol, tinidazol, diloxanida

Trypanosoma brucei

rhodesiense Suramina, pentamidina, melarpasol,

Doença do sono

e ornitina, nifurtimox

Trypanosoma brucei

gambiense

Nifurtimox, benznidazol, tafenoquina e

Trypanosoma cruzi Doença de Chagas

tetraciclina

 

Flagelados Leishmania tropica Calazar

Leishmania donovani Úlcera de Chiclero

Estibogliconato de sódio, anfotericina,

isetionato de pentamidina

Leishmania mexicana Espúndia

Leishmania braziliensis Ferida oriental

Trichomonas vaginalis Vaginite Metronidazol, tinidazol

Giardia lamblia Diarreia, esteatorreia Metronidazol, tinidazol, mepacrina

Plasmodium falciparum a Malária terçã maligna

Arteméter, atovaquona, cloroquina,

Plasmodium vivax clindamicina, dapsona, doxiciclina, Malária terçã benigna

lumefantrina, me oquina, primaquina,

Esporozoários Plasmodium ovale Malária terçã benigna proguanil, pirimetamina, quinina,

sulfadoxina, tafenoquina e tetraciclina

Plasmodium malariae Malária quartã

Encefalite, malformações

Toxoplasma gondii Pirimetamina-sulfadiazina

congênitas, doença ocular

 

Ciliados e Cotrimoxazol, atovaquona, isetionato de b Pneumocystis jirovecii Pneumonia outros pentamidina

a Ver também Tabela 55.2.

bEsse microrganismo é de classi cação incerta. Ver texto para mais detalhes e Capítulo 54 para outros comentários.

Malária

 

• A malária é causada por várias espécies de plasmódios, que são transmitidos pela fêmea

do mosquito anófeles. Os esporozoítos (a forma assexuada do parasito) são introduzidos

no hospedeiro pela picada do inseto, e estes se desenvolvem no fígado em:

– Esquizontes (o estágio pré-eritocítico), que libera merozoítos – estes infectam as

hemácias, formando trofozoítos móveis, os quais, após o desenvolvimento, liberam

outro grupo de merozoítos que infectam outros eritrócitos, causando febre; isso

constitui o ciclo eritrocítico

– Hipnozoítos dormentes, que, posteriormente (estágio exoeritrocítico), podem liberar

merozoítos

• Os principais parasitos da malária que causam a malária terçã (“cada terceiro dia”) são:

– P. vivax, que causa a malária terçã benigna

– P. falciparum, que causa a malária terçã maligna; diferentemente do P. vivax, esse

plasmódio não tem o estágio exoeritrocítico

• Alguns merozoítos desenvolvem-se em gametócitos, as formas sexuadas do parasito.

Quando ingeridos pelo mosquito, dão origem aos estágios adicionais do ciclo de vida do

parasito dentro do inseto.

 

Igualmente preocupante é o fato de a malária ter ganhado relevância em

outros países nos quais não é normalmente endêmica. Na Europa, por

exemplo, praticamente todos os casos relatados (> 6.000 em 2014) da

doença são de malária importada,2 e este número permaneceu

relativamente constante, ao contrário da queda global do número de casos.

Esse fenômeno se deve, em parte, ao aumento das viagens internacionais,

em parte à imigração de países onde a doença é endêmica e (possivelmente)

em parte por causa do aquecimento global.