Rang e Dale: Farmacologia
Oligonucleotídios
Voltamo-nos, depois, para outro tipo de biofármaco, desta vez baseado em
estruturas de oligonucleotídios. Estes oferecem uma forma alternativa de
modificação de material genético que é bem menos problemática do que
entregar genes inteiros (ver adiante). Entre as abordagens mais úteis está o
uso de oligonucleotídios antisense. Estes são oligonucleotídios curtos
complementares a parte do gene ou produto de gene que se pretende
modificar ou suprimir. O oligômero tem de ter pelo menos 15 bases para
conferir especificidade e uma ligação coesa à sua sequência-alvo (a maior
parte tem entre 15 e 25). Tais sequências de material genético podem ser
desenhadas para suprimir a expressão de um gene deletério por meio da
formação de um tríplex (uma hélice de três cadeias) com um componente
regulador de DNA cromossômico, ou mediante complexação de uma região
de mRNA como um dúplex. Ao contrário das construções de genes inteiros,
os oligonucleotídios podem atravessar as membranas plasmáticas e
nucleares por endocitose, bem como por difusão direta, apesar de seu
tamanho molecular e carga. Para evitar destruição por nucleotidases que são
ubíquas em fluidos biológicos, foram desenvolvidos o metilfosforato,
fosfotiorato ou outros análogos enzima-resistentes.
Após a administração parenteral, esses oligômeros distribuem-se
amplamente pelo corpo (embora não pelo SNC) e trabalham, em parte,
interferindo na transcrição do mRNA e em parte por meio do estímulo da
sua degradação pela ribonuclease H. Mipomerseno, a primeira terapia
antisense a ser licenciada (2013), é um análogo de fosfotiorato que suprime
a expressão da apolipoproteína B e atua por meio deste mecanismo. Pode
ser usada para tratar uma forma rara de hipercolesterolemia (Figura 5.2).
Outro fármaco oligonucleotídio recentemente (2016) aprovado pela FDA,
eteplirsena, tem como alvo uma região específica do gene distrofina, que está mutado na distrofia muscular de Duchenne, alterando a forma de
leitura e causando a remoção do éxon defeituoso, com o resultado de que o
produto final traduzido é uma versão parcialmente funcional da proteína.
Depois de um início lento, com apenas dois agentes chegando ao
mercado antes de 2017, no momento em que este livro é escrito, vários
fármacos candidatos estão sendo testados para uso no tratamento de
doenças virais, incluindo infecção pelo HIV, citomegalovírus e vírus
hemorrágico, bem como câncer, atrofia muscular espinal e outras doenças.
Uma abordagem relacionada (Castanatto e Rossi, 2009), que constitui
um silenciamento mais eficiente de genes do que os oligonucleotídios
antisense, é o uso de RNA curto de interferência (siRNA),3 em que
segmentos curtos de RNA de cadeia dupla recrutam um complexo
enzimático, conhecido como RISC (RNA-induced silencing complex), que
degrada seletivamente o mRNA correspondente produzido pela célula,
bloqueando, assim, a expressão. Essas sequências de RNA silenciador
podem também ser produzidas de forma eficiente em uma célula infectada
com um vírus construído para expressar a sequência correta. Ensaios
clínicos de terapia com siRNA estão em curso.
Tabela 5.2 Diferenças entre biofármacos e fármacos de
moléculas pequenas convencionais.
Propriedade Fármaco convencional Biofármaco
Geralmente > 5.000 kDa (103), por exemplo,
Dimensões 2 3 3 4 Geralmente < 500 kDa (10 ) oligonucleotídios, 10 ; pequenas proteínas 10 a 10;
mAb 105 6 ; genes > 10
Síntese Fácil de sintetizar séries idênticas A maior parte dos biofármacos é única (exceto
pequenos peptídios e pequenos oligonucleotídios que
podem ser sintetizados quimicamente)