Rang e Dale: Farmacologia
Anticorpos monoclonais
outras condições (ver Capítulo 27). O etanercepte consiste no domínio de
ligação ao ligante tirado do receptor do fator de necrose tumoral (TNF),
acoplado ao domínio Fc de um anticorpo imunoglobulina G. A zona do
receptor sequestra o ligante TNF endógeno em forma de complexo
inativado, enquanto a imunoglobulina aumenta a persistência do fármaco no
sangue. A redução da imunogenicidade por meio da bioengenharia é
discutida mais adiante.
ANTICORPOS MONOCLONAIS
Embora as preparações antisséricas possam ser usadas para conferir
imunidade passiva, existe uma série de desvantagens inerentes que limitam
a sua utilidade. Convencionalmente, os antissoros são produzidos por
intermédio do sangue de humanos ou animais imunizados. O antissoro
contendo níveis elevados de anticorpos específicos (p. ex., toxina do tétano
ou veneno de cobra) é preparado por meio do plasma, e isso pode ser usado
depois terapeuticamente para neutralizar patógenos ou outras substâncias
perigosas no sangue do paciente.
Figura 5.1 Produção de anticorpos monoclonais “quiméricos” e “humanizados”
construídos por engenharia. A molécula de anticorpo com formato em Y consiste em dois domínios principais: o domínio Fc (constante) e o domínio Fab (de ligação ao antígeno). Na extremidade das regiões Fab (nos braços do “Y”) estão as regiões hipervariáveis que efetivamente se ligam ao antígeno. Os anticorpos quiméricos são produzidos por meio da reposição da região murina Fc com o seu equivalente humano mediante alteração e correção do gene. Para anticorpos humanizados, apenas as regiões murinas hipervariáveis são retidas, sendo o resto da molécula de origem humana. (Segundo Walsh, 2004.)
Essas preparações são constituídas por anticorpos policlonais – isto é,
uma mistura polivalente de anticorpos de todos os clones de plasmócitos
que reagiram com aquele antígeno em particular. As verdadeiras
composição e eficácia destes variam ao longo do tempo, e certamente existe
um limite para quanto plasma pode ser coletado em uma mesma ocasião.
No entanto, em 1975, Milstein e Köhler2 descobriram um método de
produzir, por meio de ratos imunizados, um hibridoma imortalizado, a fusão de um clone linfocítico particular com uma célula tumoral
imortalizada. Isso originou um método de produção de anticorpos
monoclonais (mAb) – uma única espécie de anticorpo monovalente – em
grande abundância in vitro. A linha celular do hibridoma poderia ser retida
e expandida indefinidamente ao mesmo tempo que se preservaria a
integridade do seu produto.
Os mAb podem ser classificados em reagentes de primeira ou segunda
geração de acordo com linhas semelhantes às outras proteínas terapêuticas
discutidas anteriormente. Os mAb de primeira geração eram simples
monoclones (ou fragmentos) de murino, mas tinham várias desvantagens.
Como proteínas de ratos, eles provocavam uma resposta imune em 50 a
75% de todos os receptores humanos, tinham meia-vida curta na circulação
humana e não eram capazes de ativar o complemento humano.
A maior parte destes problemas pode ser agora ultrapassada por meio da
utilização de mAb quiméricos ou humanizados. Estes dois termos referem-
se ao grau em que foram desenhados por engenharia. A Figura 5.1 mostra
como isso é feito; a molécula de anticorpo consiste em um domínio
constante (Fc) e no domínio de ligação ao anticorpo (Fab), com regiões
hipervariáveis que reconhecem o antígeno em questão e se ligam a este. Os
genes para os mAb quiméricos são desenhados por engenharia para conter o
cDNA do domínio Fab murino ligado às sequências do domínio Fc
humano. Este aumenta grandemente (cerca de 5 vezes) a meia-vida
plasmática, porque embora a maior parte das proteínas plasmáticas se
renove de forma bastante rápida, as imunoglobulinas são uma exceção (é
fácil verificar por que isso constitui uma vantagem seletiva ao hospedeiro).
A incorporação de sequências Fc humanas também melhora a
funcionalidade do anticorpo na medicina humana. Mais um
desenvolvimento (e atualmente a abordagem preferida) é a reposição de toda a região Fc e Fab com o equivalente humano, com exceção das regiões
hipervariáveis, originando uma molécula que, embora essencialmente
humana em natureza, contém apenas os locais de ligação a anticorpos
murinos mínimos. O monoclone anticâncer ® Herceptin (trastuzumabe; ver
Capítulo 57) é um exemplo desse tipo de anticorpo, e alguns outros (em
conjunto com uma explicação do sistema de nomenclatura capaz de
distorcer a língua) são apresentados na Tabela 5.1.
Figura 5.2 Utilização dos oligonucleotídios antisense para corrigir a hiperlipidemia leve a moderada. O oligonucleotídio antisense mipomerseno foi administrado a 50 pacientes durante 13 semanas. Os dados mostram uma diminuição da média de colesterol de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) expressa em termos percentuais das leituras basais ao primeiro dia, com doses de 200 mg/semana (vermelho) e 400 mg/semana (azul) comparadas com o placebo (preto). A redução na expressão de apolipoproteína B causada pelo fármaco foi exatamente equivalente aos dados do colesterol LDL. Após a descontinuação do tratamento (indicada pela linha ponteada), os níveis no sangue mostraram sinais de retorno aos valores basais, mas ainda assim diminuíram em 20 a 30% no momento da conclusão do estudo nestas doses. (Redesenhada a partir de Geary et al., 2015.)