Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 64 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Anticorpos monoclonais

outras condições (ver Capítulo 27). O etanercepte consiste no domínio de

ligação ao ligante tirado do receptor do fator de necrose tumoral (TNF),

acoplado ao domínio Fc de um anticorpo imunoglobulina G. A zona do

receptor sequestra o ligante TNF endógeno em forma de complexo

inativado, enquanto a imunoglobulina aumenta a persistência do fármaco no

sangue. A redução da imunogenicidade por meio da bioengenharia é

discutida mais adiante.

 

ANTICORPOS MONOCLONAIS

Embora as preparações antisséricas possam ser usadas para conferir

imunidade passiva, existe uma série de desvantagens inerentes que limitam

a sua utilidade. Convencionalmente, os antissoros são produzidos por

intermédio do sangue de humanos ou animais imunizados. O antissoro

contendo níveis elevados de anticorpos específicos (p. ex., toxina do tétano

ou veneno de cobra) é preparado por meio do plasma, e isso pode ser usado

depois terapeuticamente para neutralizar patógenos ou outras substâncias

perigosas no sangue do paciente.

Figura 5.1 Produção de anticorpos monoclonais “quiméricos” e “humanizados”

construídos por engenharia. A molécula de anticorpo com formato em Y consiste em dois domínios principais: o domínio Fc (constante) e o domínio Fab (de ligação ao antígeno). Na extremidade das regiões Fab (nos braços do “Y”) estão as regiões hipervariáveis que efetivamente se ligam ao antígeno. Os anticorpos quiméricos são produzidos por meio da reposição da região murina Fc com o seu equivalente humano mediante alteração e correção do gene. Para anticorpos humanizados, apenas as regiões murinas hipervariáveis são retidas, sendo o resto da molécula de origem humana. (Segundo Walsh, 2004.)

 

Essas preparações são constituídas por anticorpos policlonais – isto é,

uma mistura polivalente de anticorpos de todos os clones de plasmócitos

que reagiram com aquele antígeno em particular. As verdadeiras

composição e eficácia destes variam ao longo do tempo, e certamente existe

um limite para quanto plasma pode ser coletado em uma mesma ocasião.

No entanto, em 1975, Milstein e Köhler2 descobriram um método de

produzir, por meio de ratos imunizados, um hibridoma imortalizado, a fusão de um clone linfocítico particular com uma célula tumoral

imortalizada. Isso originou um método de produção de anticorpos

monoclonais (mAb) – uma única espécie de anticorpo monovalente – em

grande abundância in vitro. A linha celular do hibridoma poderia ser retida

e expandida indefinidamente ao mesmo tempo que se preservaria a

integridade do seu produto.

Os mAb podem ser classificados em reagentes de primeira ou segunda

geração de acordo com linhas semelhantes às outras proteínas terapêuticas

discutidas anteriormente. Os mAb de primeira geração eram simples

monoclones (ou fragmentos) de murino, mas tinham várias desvantagens.

Como proteínas de ratos, eles provocavam uma resposta imune em 50 a

75% de todos os receptores humanos, tinham meia-vida curta na circulação

humana e não eram capazes de ativar o complemento humano.

A maior parte destes problemas pode ser agora ultrapassada por meio da

utilização de mAb quiméricos ou humanizados. Estes dois termos referem-

se ao grau em que foram desenhados por engenharia. A Figura 5.1 mostra

como isso é feito; a molécula de anticorpo consiste em um domínio

constante (Fc) e no domínio de ligação ao anticorpo (Fab), com regiões

hipervariáveis que reconhecem o antígeno em questão e se ligam a este. Os

genes para os mAb quiméricos são desenhados por engenharia para conter o

cDNA do domínio Fab murino ligado às sequências do domínio Fc

humano. Este aumenta grandemente (cerca de 5 vezes) a meia-vida

plasmática, porque embora a maior parte das proteínas plasmáticas se

renove de forma bastante rápida, as imunoglobulinas são uma exceção (é

fácil verificar por que isso constitui uma vantagem seletiva ao hospedeiro).

A incorporação de sequências Fc humanas também melhora a

funcionalidade do anticorpo na medicina humana. Mais um

desenvolvimento (e atualmente a abordagem preferida) é a reposição de toda a região Fc e Fab com o equivalente humano, com exceção das regiões

hipervariáveis, originando uma molécula que, embora essencialmente

humana em natureza, contém apenas os locais de ligação a anticorpos

murinos mínimos. O monoclone anticâncer ® Herceptin (trastuzumabe; ver

Capítulo 57) é um exemplo desse tipo de anticorpo, e alguns outros (em

conjunto com uma explicação do sistema de nomenclatura capaz de

distorcer a língua) são apresentados na Tabela 5.1.

 

Figura 5.2 Utilização dos oligonucleotídios antisense para corrigir a hiperlipidemia leve a moderada. O oligonucleotídio antisense mipomerseno foi administrado a 50 pacientes durante 13 semanas. Os dados mostram uma diminuição da média de colesterol de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) expressa em termos percentuais das leituras basais ao primeiro dia, com doses de 200 mg/semana (vermelho) e 400 mg/semana (azul) comparadas com o placebo (preto). A redução na expressão de apolipoproteína B causada pelo fármaco foi exatamente equivalente aos dados do colesterol LDL. Após a descontinuação do tratamento (indicada pela linha ponteada), os níveis no sangue mostraram sinais de retorno aos valores basais, mas ainda assim diminuíram em 20 a 30% no momento da conclusão do estudo nestas doses. (Redesenhada a partir de Geary et al., 2015.)