Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 350 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Doença pulmonar obstrutiva crônica

antagonista peptídico do receptor β 2 da bradicinina (ver Capítulo 9), é eficaz para crises agudas de angioedema hereditário. Administrado SC, mas pode

causar náuseas, dor abdominal e obstrução nasal.

 

DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA

A DPOC é um grande problema de saúde pública – projeções recentes

sugerem que seja a terceira causa de morte dentro de 3 anos (Adeloye et al.,

2015). O tabagismo é a causa principal e está aumentando no mundo em

desenvolvimento. A poluição do ar, também etiologicamente importante,

também está aumentando e há uma necessidade imensa não satisfeita de

fármacos eficazes. Um ressurgimento do interesse em novas abordagens

terapêuticas ainda deve trazer resultados, mas há vários caminhos

promissores, em particular na definição de subgrupos dessa doença bastante

heterogênea que respondem a medidas terapêuticas específicas (McDonald,

2017).

Quadro clínico. O quadro clínico se inicia com crises de tosse matinal

durante o inverno e evolui para tosse crônica com exacerbações

intermitentes, muitas vezes iniciadas por uma infecção das vias respiratórias

superiores, quando o escarro se torna purulento. Há dispneia progressiva.

Alguns pacientes têm um componente reversível de obstrução do fluxo de

ar identificável por melhora do VEF1 após uma dose de broncodilatador.

Hipertensão pulmonar (ver Capítulo 23) é uma complicação tardia,

causando sintomas de insuficiência cardíaca (cor pulmonale). As

exacerbações podem ser complicadas por insuficiência respiratória (i. e.,

redução da PAO2), exigindo internação e cuidados intensivos. Traqueostomia e ventilação artificial, ainda que prolonguem a sobrevida, podem servir

apenas para trazer uma vida infeliz ao paciente.

Patogênese. Há fibrose das pequenas vias respiratórias, resultando em

obstrução e/ou destruição de alvéolos e de fibras de elastina no parênquima

pulmonar. Estas últimas características são marcas do enfisema,5 que se

pensa terem como causa proteases, inclusive a elastase, liberadas durante a

resposta inflamatória. Há inflamação crônica (“bronquite”),

predominantemente nas pequenas vias respiratórias e no parênquima

pulmonar, caracterizando-se por aumento do número de macrófagos,

neutrófilos e linfócitos T. Os mediadores inflamatórios não têm sido

definidos tão claramente quanto na asma. Os mediadores lipídicos,

peptídios inflamatórios, espécies reativas de oxigênio e de nitrogênio,

quimiocinas, citocinas e fatores de crescimento estão todos implicados

(Barnes, 2004).

Princípios do tratamento. Abandonar o tabagismo (ver Capítulo 49)

torna mais lenta a progressão da DPOC. Os pacientes devem ser

imunizados contra influenza e Pneumococcus, porque infecções superpostas

por esses organismos são potencialmente letais. Os glicocorticoides são

menos eficazes que na asma. Esse contraste com asma é intrigante porque,

em ambas as doenças, são ativados múltiplos genes inflamatórios e se pode

esperar que sejam desativados pelos glicocorticoides. A ativação dos genes

inflamatórios resulta da acetilação de histonas nucleares, a qual abre a

estrutura da cromatina, permitindo que prossigam a transcrição genética e a

síntese de proteínas inflamatórias. A HDAC desacetila histonas e suprime a

produção de citocinas pró-inflamatórias. Os corticosteroides recrutam

HDAC para genes ativados, desativando a transcrição de genes

inflamatórios (Barnes et al., 2004). Há uma ligação entre intensidade da

DPOC (mas não da asma) e redução da atividade de HDAC no tecido

pulmonar (Ito et al., 2005); além disso, a atividade de HDAC é inibida pelo

estresse oxidativo relacionado ao tabagismo, o que pode explicar a relativa falta de eficácia dos glicocorticoides nos pacientes com DPOC em

comparação com aqueles com asma. Os esteroides inalatórios não

influenciam o declínio progressivo da função pulmonar nos pacientes com

DPOC, mas melhoram a qualidade de vida, provavelmente como resultado

de uma modesta redução nos internamentos hospitalares. Tal é

contrabalanceado pelo aumento do risco de pneumonia associado ao uso de

corticosteroides inalatórios em pacientes com DPOC.

Os broncodilatadores de ação prolongada proporcionam benefício

modesto, mas não alteram a inflamação subjacente. Nenhum tratamento

atualmente permitido reduz a progressão da DPOC ou suprime a inflamação

em pequenas vias respiratórias e no parênquima pulmonar. Vários novos

tratamentos que visam ao processo inflamatório estão em desenvolvimento

clínico (Barnes, 2013). Alguns, como os antagonistas das quimiocinas, são

direcionados contra o influxo de células inflamatórias para as vias

respiratórias e parênquima pulmonar, enquanto outros visam às citocinas

inflamatórias, como o TNF-α. O inibidor da PDE IV roflumilaste está

licenciado como adjunto dos broncodilatadores para pacientes com DPOC

grave e exacerbações frequentes. Outros fármacos que inibem a sinalização

celular (ver Capítulos 3 e 6) incluem os inibidores da proteinoquinase

ativada por mitógenos p38, fator nuclear κβ e fosfoinositida-3 quinase-γ.

Abordagens mais específicas são administração de antioxidantes, inibidores

de NO sintase induzível e antagonistas do leucotrieno β4. Outros tratamentos têm o potencial de combater a hipersecreção de muco, e há uma

busca por serino-proteases e inibidores da metaloprotease da matriz para

impedir a destruição pulmonar e o desenvolvimento de enfisema.

Aspectos específicos do tratamento. Os broncodilatadores inalatórios

com ação curta e longa podem ser paliativos úteis em pacientes com

componente reversível. Os principais fármacos com ação curta são o ipratrópio e o salbutamol; fármacos de ação prolongada incluem

antagonistas muscarínicos (p. ex., o tiotrópio) que são muitas vezes

administrados em conjunto com agonistas β2 (como salmeterol ou

formoterol) (ver Capítulos 14 e 15; Cohen et al., 2016). A teofilina (ver

Capítulo 17) pode ser administrada por via oral, mas não se tem certeza do

seu benefício. Seu efeito estimulante respiratório pode ser útil para

pacientes que tendem a reter CO 2. Outros estimulantes respiratórios (p. ex., doxapram) são eventualmente usados por um curto período na

insuficiência respiratória aguda (p. ex., no pós-operatório), mas têm sido

amplamente substituídos por ventilação não invasiva, bem como por

suporte ventilatório mecânico (ventilação com pressão positiva

intermitente).

A oxigenoterapia a longo prazo administrada em domicílio prolonga a

vida em pacientes com doença grave e hipoxemia (pelo menos se não

fumarem – um incêndio por oxigênio não é um modo agradável de morrer).

Exacerbações agudas. As exacerbações agudas de DPOC são tratadas

com O2 inalado em uma concentração (inicialmente, pelo menos) de 24 a

28% de O2, ou seja, apenas pouco acima da concentração atmosférica de O2 (aproximadamente 20%). A necessidade de cautela é pelo risco de

precipitar a retenção de CO2 em consequência do bloqueio do impulso hipóxico para a respiração. Monitoram-se os gases arteriais e a saturação de

oxigênio tecidual, e o O2 inspirado é em seguida devidamente ajustado. Antibióticos como as aminopenicilinas, os macrolídios ou as tetraciclinas

são recomendados se houver evidência de infecção. Os broncodilatadores

inalatórios podem proporcionar certa melhora sintomática.

Embora de modesta eficácia, é rotineira a administração de um

glicocorticoide sistemicamente ativo (hidrocortisona intravenosa ou

prednisolona oral).