Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 705 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos anti-helmínticos

pele e em outros tecidos). A Trichinella spiralis causa triquinose; as

larvas dos vermes-fêmeas vivíparos do intestino migram para o músculo

esquelético, onde se encistam. Na doença do verme-da-guiné,1 as larvas

de D. medinensis, liberadas pelos crustáceos em poços e nascentes, são

ingeridas e migram a partir do trato intestinal para amadurecer e

acasalar nos tecidos; a fêmea grávida, então, migra para os tecidos

subcutâneos da perna ou do pé, e pode fazer protrusão através de uma

úlcera na pele. O verme pode ter até 1 metro de comprimento e deve ser

removido cirurgicamente ou pelo enrolamento mecânico lento do verme

em um bastão por um período de dias, para assegurar que este não

arrebente, porque os restos iriam apodrecer

• Hidátide. São cestoides da espécie Echinococcus, para os quais os cães

são os hospedeiros primários, e as ovelhas, os hospedeiros

intermediários. O estágio primário, intestinal, não ocorre nos seres

humanos, porém, em algumas circunstâncias, os seres humanos podem

atuar como hospedeiros intermediários, caso em que as larvas se

desenvolvem em cistos hidáticos no interior dos tecidos, às vezes com

consequências fatais.

 

Alguns nematoides, que, em geral, vivem no trato GI dos animais, podem

atingir os seres humanos e penetrar nos tecidos. Uma infestação da pele,

chamada erupção rasteira ou larva migrans cutânea, é causada pelas larvas

dos nematoides filiformes dos cães e gatos que entram através do pé. A

larva migrans visceral é causada pelas larvas dos nematelmintos do gênero

Toxocara de cães e gatos.

 

FÁRMACOS ANTI-HELMÍNTICOS

Os primeiros medicamentos anti-helmínticos eficazes foram descobertos no

século XX e incorporavam metais tóxicos, como arsênio (atoxil) ou antimônio (tártaro emético). Foram usados para tratar infecções por

tripanossomos e esquistossomos.

Atualmente, os medicamentos anti-helmínticos geralmente agem por

paralisação do parasito (p. ex., evitando a contração muscular), por dano ao

verme, de forma que o sistema imune do hospedeiro possa eliminá-lo, ou

alterando o metabolismo do parasito (p. ex., afetando a função dos

microtúbulos). Uma vez que as exigências metabólicas desses parasitos

variam muito de uma espécie para outra, os fármacos que são altamente

eficazes contra um tipo de verme podem revelar-se ineficazes contra outros.

Para produzir efeito, o fármaco deve ser capaz de penetrar na dura

cutícula exterior do verme ou ter acesso a seu trato alimentar. Isso pode

apresentar dificuldades porque os helmintos têm diferentes estilos de vida, e

alguns vermes são exclusivamente hematófagos (“comedores de sangue”),

enquanto outros são mais bem descritos como “pastores de tecido”. A

complicação adicional é que muitos helmintos contêm bombas de efluxo de

substâncias ativas que reduzem a concentração do fármaco no parasito. A

via de administração e a dose de medicamentos anti-helmínticos são,

portanto, importantes. Em uma inversão da ordem natural das coisas, vários

fármacos anti-helmínticos empregados na medicina humana foram

originalmente desenvolvidos para uso veterinário.

Alguns fármacos anti-helmínticos individuais são descritos

resumidamente a seguir, e a Tabela 56.1 fornece indicações para seu uso.

Muitos desses fármacos não são autorizados no Reino Unido porque são

usados na base de “paciente nomeado”:2 em alguns casos (p. ex.,

mebendazol), formas de dosagem restrita estão disponíveis nas farmácias.

 

Benzimidazóis Este grupo inclui mebendazol, tiabendazol e albendazol, que são anti-

helmínticos de largo espectro amplamente utilizados. Considera-se que

atuem por meio da inibição da polimerização da betatubulina helmíntica,

interferindo, assim, nas funções dependentes dos microtúbulos, como, por

exemplo, a captura de glicose. Apresentam ação inibidora seletiva, sendo

250 a 400 vezes mais efetivos na produção desse efeito no tecido

helmíntico do que no tecido do mamífero. No entanto, o efeito leva algum

tempo para se desenvolver, e os vermes podem não ser expelidos por vários

dias. As taxas de cura costumam ficar entre 60 e 100% na maioria dos

parasitos.

Apenas 10% do mebendazol é absorvido depois da administração oral,

porém uma refeição gordurosa aumenta a absorção. É rapidamente

metabolizado, sendo os metabólitos eliminados na urina e na bile em 24 a

48 horas. Em geral, é administrado em dose única para os nematoides

filiformes e 2 vezes/dia, por 3 dias, no caso de infestações por ancilóstomo

e por nematelminto. O tiabendazol é rapidamente absorvido pelo trato GI,

metabolizado muito velozmente e eliminado pela urina na forma conjugada.

Ele pode ser administrado 2 vezes/dia, por 3 dias, em infestações por

filárias e Strongyloides, e por até 5 dias em infestações pelo ancilóstomo e

pelos nematelmintos. O albendazol é também mal absorvido, mas, como

acontece com o mebendazol, a absorção é aumentada pelos alimentos,

especialmente gorduras. É metabolizado extensivamente pelo metabolismo

pré-sistêmico em metabólitos de sulfóxido e sulfona. É provável que o

primeiro seja a forma farmacologicamente ativa.

Os efeitos adversos são poucos com o albendazol ou com o

mebendazol, embora algumas alterações GI possam ocorrer

ocasionalmente. Os efeitos adversos com o tiabendazol são mais frequentes,

porém, em geral, revelam-se transitórios; as alterações GI são as mais comuns, embora tenham sido relatadas cefaleia, tonturas e sonolência e

possam ocorrer algumas reações alérgicas (febre, erupções cutâneas). O

mebendazol não deve ser administrado a gestantes ou crianças com menos

de 2 anos de idade.

 

Tabela 56.1 Principais fármacos usados em infecções

helmínticas e algumas indicações comuns.

 

Helminto Principal(is) fármaco(s) utilizado(s)

Mebendazol, piperazina (não no Reino

Enterobius vermicularis

Unido)

Nematoide liforme (oxiúro)

Strongyloides stercoralis (nematoide

Ivermectina, albendazol, mebendazol

liforme nos EUA)

Levamisol, mebendazol, piperazina (não no

Nematoide comum Ascaris lumbricoides

Reino Unido)

Outros nematoides ( lárias) Filariose linfática, “elefantíase”

Dietilcarbamazina, ivermectina

(Wuchereria bancrofti, Brugia malayi)

Filariose subcutânea, “larva do olho”

Dietilcarbamazina

(Loa loa)

Oncocercose, “cegueira dos rios”

Ivermectina

(Onchocerca volvulus)

Verme-da-guiné (Dracunculus

Praziquantel, mebendazol

medinensis)

Triquiníase (Trichinella spiralis) Tiabendazol, mebendazol

Cisticercose (infestação pela larva Taenia

Praziquantel, albendazol

solium)

Tênia (Taenia saginata, Taenia solium) Praziquantel, niclosamida

Hidatidose (Echinococcus granulosus) Albendazol

Ancilostomíase (Ancylostoma duodenale,

Mebendazol, albendazol, levamisol

Necator americanus)

Tricuríase (Trichuris trichiura) Mebendazol, albendazol, dietilcarbamazina

Fascíolas sanguíneas Bilharzíase: S. haematobium, S.

Praziquantel

(Schistosoma spp.) mansoni, S. japonicum

Larva migrans cutânea Ancylostoma caninum Albendazol, tiabendazol, ivermectina

Larva migrans visceral Toxocara canis Albendazol, tiabendazol, dietilcarbamazina

 

Praziquantel

O praziquantel é um fármaco anti-helmíntico de amplo espectro e muito

ativo que foi introduzido há mais de 20 anos. É o fármaco de escolha para

todas as formas de esquistossomíase e também o agente geralmente adotado

nos programas de larga escala para erradicação do esquistossomo. Também

é útil na cisticercose. Afeta não apenas os esquistossomos adultos, mas

também as formas imaturas e as cercárias – a forma do parasito que infesta

os seres humanos por meio de penetração pela pele.

Este fármaco compromete a homeostase do Ca2+ no parasito, unindo-se

aos locais de ligação reconhecidos da proteinoquinase C, em uma

subunidade β dos canais de cálcio controlados por voltagem do

esquistossomo (Greenberg, 2005). Isso induz o influxo do Ca2+, com

contração rápida e prolongada da musculatura, e também eventual paralisia

e morte do verme. O praziquantel compromete, ainda, o tegumento do

parasito, disponibilizando novos antígenos, e assim pode tornar o verme

mais suscetível às respostas imunológicas normais do hospedeiro.

Administrado por via oral, o praziquantel é bem absorvido; parte

significativa do fármaco é rapidamente transformada em metabólitos inativos na primeira passagem pelo fígado, e esses metabólitos são

eliminados na urina. A meia-vida plasmática do composto original é de 60 a

90 minutos.

O praziquantel apresenta efeitos adversos mínimos em sua dosagem

terapêutica. Tais efeitos, quando ocorrem, costumam ser transitórios e

raramente têm importância clínica. Incluem alterações gastrintestinais,

tontura, dores musculares e articulares, erupções cutâneas e febre baixa. Os

efeitos podem ser mais marcantes nos pacientes com infestação acentuada

de vermes e podem ser causados pelos produtos liberados pelos vermes

mortos. O praziquantel é considerado seguro em gestantes e lactantes,

propriedade importante para um fármaco que é comumente adotado nos

programas de controle nacional da doença. Desenvolveu-se alguma

resistência a esse fármaco.

 

Piperazina

A piperazina (descontinuada no Reino Unido) pode ser usada para tratar

infestações pelos nematelmintos comuns (A. lumbricoides) e pelo

nematoide filiforme (E. vermicularis). Essa substância inibe, de modo

reversível, a transmissão neuromuscular no verme, provavelmente

simulando o GABA (ver Capítulo 39), nos canais de cloreto controlados

pelo GABA no músculo do nematoide. Os vermes paralisados são expelidos

vivos pelos movimentos peristálticos intestinais normais. É administrada

em conjunto com um laxante, como o sene (ver Capítulo 31), a fim de

facilitar a expulsão dos vermes.

A piperazina é administrada por via oral e parte, porém não toda, é

absorvida. É parcialmente metabolizada, e o restante é eliminado, de modo

inalterado, pelos rins. O fármaco apresenta pouca ação farmacológica no

hospedeiro. Quando usada para tratar os nematelmintos, a piperazina é efetiva em dose única. No caso dos nematoides filiformes, faz-se necessário

usá-la por um período maior (7 dias), em dosagem menor.

Os efeitos adversos podem incluir alterações GI, urticária e

broncospasmo. Alguns pacientes apresentam tonturas, parestesias, vertigens

e dificuldade de coordenação. O fármaco não deve ser administrado a

pacientes grávidas ou com função renal ou hepática comprometidas.

 

Dietilcarbamazina

A dietilcarbamazina é um derivado da piperazina ativo nas infecções pelas

filárias causadas por B. malayi, W. bancrofti e L. loa. A dietilcarbamazina

rapidamente remove as microfilárias da circulação sanguínea e apresenta

efeito limitado nos vermes adultos dentro dos linfáticos, com pouca ação

nas microfilárias in vitro. Pode agir alterando o parasito, de modo que este

se torne suscetível às respostas imunológicas normais do hospedeiro ou

interferindo no metabolismo araquidônico helmíntico.

Esse fármaco é bem absorvido por administração oral e é distribuído

pelas células e tecidos do corpo, exceto o tecido adiposo. É parcialmente

metabolizado, e tanto o fármaco original quanto seus metabólitos são

totalmente eliminados na urina em 48 horas.

Os efeitos adversos são comuns, porém transitórios, desaparecendo em

cerca de um dia, ainda que o fármaco continue a ser administrado. Os

efeitos adversos do fármaco em si incluem alterações GI, artralgias, cefaleia

e sensação geral de fraqueza. Os efeitos adversos alérgicos referentes aos

produtos das filárias mortas são comuns e variam de acordo com a espécie

do verme. Em geral, começam durante o primeiro dia de tratamento e

duram de 3 a 7 dias, incluindo reações cutâneas, aumento das glândulas

linfáticas, tonturas, taquicardia, além de alterações GI e respiratórias.

Quando esses sintomas desaparecem, doses maiores do fármaco podem ser administradas sem problemas adicionais. O fármaco não é usado em

pacientes com oncocercose, nos quais podem surgir importantes efeitos

adversos.

 

Niclosamida

A niclosamida é amplamente usada no tratamento das infestações pela

tênia, juntamente com o praziquantel. O escólex (a cabeça do verme que se

liga ao intestino do hospedeiro) e um segmento proximal são

irreversivelmente danificados pelo fármaco; assim, o verme separa-se da

parede intestinal e é expelido. Para a T. solium, o fármaco é administrado

em dose única, após refeição leve, em geral seguida por purgativo 2 horas

depois, no caso de os segmentos danificados de tênia liberarem ovos, os

quais não são afetados pelo fármaco. No caso de outras infecções pela tênia,

essa precaução não é necessária. A absorção é desprezível no trato GI.

Efeitos adversos: podem ocorrer náuseas, vômitos, prurido e cefaleia de

leve intensidade, mas, em geral, esses efeitos são poucos, infrequentes e

transitórios.

 

Levamisol

O levamisol é efetivo nas infestações pelo nematelminto mais comum (A.

lumbricoides). Apresenta ação nicotina-símile (ver Capítulo 14),

estimulando e, subsequentemente, bloqueando as junções neuromusculares.

Os vermes paralisados são, então, expelidos nas fezes. Os ovos não são

destruídos. Administrado por via oral, o fármaco é rapidamente absorvido e

amplamente distribuído, atravessando a barreira hematencefálica. É

metabolizado no fígado em metabólitos inativos, que são eliminados pelo

rim. Sua meia-vida plasmática é de 4 horas. Apresenta efeitos imunomoduladores e, no passado, foi usado para tratar vários tumores

sólidos.

Pode causar distúrbios no sistema nervoso central (SNC) e GI, bem

como outros efeitos indesejados que incluem agranulocitose. O fármaco foi

retirado do mercado norte-americano.

 

Ivermectina

Introduzida inicialmente em 1981 para uso veterinário, a ivermectina é

segura e muito efetiva em seres humanos; com frequência é usada em

campanhas de saúde pública em todo o mundo,3 sendo o fármaco de

primeira linha no tratamento de muitas infecções filariais. Produz bons

resultados contra a W. bancrofti, causadora da elefantíase. A dose única

destrói as microfilárias imaturas de O. volvulus, porém não os vermes

adultos. A ivermectina é também a primeira escolha de fármaco para a

oncocercose, que causa a cegueira do rio, reduzindo a incidência de

cegueira em até 80%. Também se mostra ativa contra vermes redondos:

nematoides comuns, verme-chicote e vermes chatos, tanto do Reino Unido

(E. vermicularis) quanto na variante americana (S. stercoralis), mas não é

ativa nos ancilóstomos.

Quimicamente, a ivermectina é um agente semissintético derivado de

um grupo de substâncias naturais, as avermectinas, obtidas a partir de um

microrganismo actinomicético. O fármaco é administrado por via oral e tem

meia-vida de 11 horas. Considera-se que a ivermectina destrua o verme

pelas aberturas dos canais iônicos de cloreto controlados pelo glutamato

(encontrados apenas nos invertebrados) e pelo aumento da condutância ao

Cl−; ou por se ligar a receptores de GABA ou por se ligar em um novo local

alostérico no receptor nicotínico da acetilcolina, levando ao aumento na

transmissão e à paralisia motora.