Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 311 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Ácido fólico e vitamina B12

Ferro

 

• Ferro é importante para a síntese de hemoglobina, mioglobina, citocromos e outras

enzimas

• 3+ 2+ Íon férrico (Fe ) precisa ser convertido em íon ferroso (Fe) para ser absorvido no trato

gastrintestinal

• A absorção envolve transporte ativo para as células da mucosa no duodeno e jejuno (o íleo

proximal), de onde pode ser transportado para o plasma e/ou armazenado

intracelularmente em forma de ferritina

• Ferro corporal total é controlado exclusivamente pela sua absorção; na de ciência de ferro,

mais ferro é transportado para o plasma e armazenado como ferritina na mucosa do

jejuno

• A perda de ferro ocorre basicamente por descamação de células mucosas que contêm

ferritina

• Ferro no plasma encontra-se ligado à transferrina, e a maior parte é usada para

eritropoese. Parte é armazenada como ferritina em outros tecidos. O ferro de eritrócitos

senescentes entra no plasma para ser reutilizado

• A principal preparação terapêutica é o sulfato ferroso; o sacarato de ferro pode ser

administrado por infusão intravenosa

• Os efeitos adversos incluem distúrbios gastrintestinais. A ingestão de altas doses causa

efeitos tóxicos graves; tal intoxicação aguda pode ser tratada com desferroxamina, um

quelante de ferro também usado na sobrecarga crônica de ferro em doenças como a

talassemia.

 

ÁCIDO FÓLICO E VITAMINA B12

A vitamina B 12 e o ácido fólico, necessários para a síntese de DNA e, consequentemente, para a proliferação celular, são constituintes essenciais

da dieta humana. Suas ações bioquímicas são interdependentes (ver boxe de

pontos-chave, p. 339), e o tratamento com ácido fólico corrige algumas,

mas não todas, das características da deficiência de vitamina B12. A

deficiência de vitamina B 12 ou de ácido fólico afeta os tecidos com renovação (turnover) celular rápida, particularmente a medula óssea.

Entretanto, a deficiência de vitamina B 12 também causa alterações neuronais importantes, as quais não são corrigidas (ou podem até piorar) pelo

tratamento com ácido fólico. A deficiência dessas vitaminas causa

hematopoese megaloblástica, na qual ocorre diferenciação eritroblástica

alterada e eritropoese defeituosa na medula óssea. Surgem precursores

eritrocíticos grandes anormais na medula, com uma alta relação RNA:DNA

decorrente da diminuição da síntese de DNA. Os eritrócitos circulantes

anormais (“macrócitos” – p. ex., eritrócitos grandes) são células grandes e

frágeis, geralmente com morfologia distorcida. A anemia é geralmente

acompanhada de leucopenia moderada e trombocitopenia (i. e., contagem

baixa de leucócitos e plaquetas), e os núcleos dos leucócitos

polimorfonucleares (PMN) são estruturalmente anormais

(hipersegmentados – quando os jovens PMN amadurecem, o seu núcleo

adquire “lóbulos” com forma de pequenas protuberâncias, levando à

hipersegmentação em células pós-maduras. Os núcleos dos megaloblastos –

os precursores dos eritrócitos macrócitos em pacientes com deficiência de

B12 ou ácido fólico – são funcionalmente assíncronos e fracamente ativos, comparados com as células com menos quantidade de ferro. As alterações

neurológicas causadas pela deficiência de vitamina B 12 incluem neuropatia

periférica e demência, assim como degeneração combinada subaguda3 da

medula espinal. A deficiência de ácido fólico é causada por insuficiência dietética, especialmente durante o aumento da demanda (p. ex., durante a

gravidez – especialmente importante devido à conexão entre deficiência de

folato e defeitos do tubo neural do feto [ver Capítulo 58], ou devido à

hemólise crônica em pacientes com hemoglobinopatias como a anemia

falciforme – ver p. 341). A deficiência de vitamina B12, entretanto, geralmente decorre de diminuição da absorção (p. 338).

 

Ácido fólico

Alguns aspectos da estrutura e do metabolismo do folato são abordados nos

Capítulos 51 e 57, visto que vários fármacos antibacterianos e

antineoplásicos importantes são antimetabólitos que interferem na síntese

de folato (também conhecido como vitamina B 9) em microrganismos ou células tumorais. O fígado e as verduras verdes são fontes ricas de folato.

Em adultos sadios fora da gestação, a necessidade diária é de cerca de 0,2

mg, mas esta se encontra aumentada durante a gravidez. O desenvolvimento

neural fetal saudável, em particular, requer quantidade suficiente de folatos

na dieta da mãe, levando, ainda, a defeitos no seu desenvolvimento neural

fetal caso estas quantidades sejam insuficientes.

 

■ Mecanismo de ação

A redução do ácido fólico, catalisada pela di-hidrofolato redutase em dois

estágios, gera di-hidrofolato (FH 2) e tetra-hidrofolato (FH4), cofatores que transferem grupamentos metil (transferências de um carbono) em várias

vias metabólicas importantes. O FH4 é essencial para a síntese do DNA devido ao seu papel como cofator na síntese de purinas e pirimidinas.

Também é necessário para as reações que envolvem o metabolismo de

aminoácidos.

O FH4 é importante para a conversão do desoxiuridilato monofosfato (DUMP) a desoxitimidilato monofosfato (DTMP). Essa reação é limitante

na síntese de DNA em mamíferos e é catalisada pela timidilato sintetase,

com o FH4 atuando como doador de metil.

 

■ Aspectos farmacocinéticos

Terapeuticamente, o ácido fólico é administrado por via oral e absorvido no

íleo. O metil-FH4 é a forma na qual o folato geralmente é transportado no sangue e entra nas células. Ele é funcionalmente inativo até ser desmetilado

em uma reação dependente de vitamina B 12 (p. 338). O folato é captado pelos hepatócitos e pelas células da medula óssea por transporte ativo.

Dentro das células, o ácido fólico é reduzido e recebe um grupo formil

antes de ser convertido à forma ativa de poliglutamato. O ácido folínico,

um FH4 sintético, é convertido muito mais rapidamente à forma de poliglutamato.

Usos clínicos do ácido fólico e da vitamina B (hidroxocobalamina) 12

 

Ácido fólico (vitamina B9)

• Tratamento de anemia megaloblástica resultante da de ciência de folato, que pode ser

causada por:

– Dieta pobre (comum em alcoólatras)

– Síndromes de má absorção

– Fármacos (p. ex., fenitoína)

• Tratamento ou prevenção de toxicidade por metotrexato, um antagonista do folato (ver

Capítulos 27 e 57)

• Pro laticamente em indivíduos com risco de desenvolver de ciência de folato, por

exemplo:

– Mulheres grávidas e antes da concepção (especialmente se houver risco de defeitos

congênitos)

– Prematuros

– Pacientes com anemias hemolíticas crônicas graves, incluindo as hemoglobinopatias

(p. ex., anemia falciforme).

 

Vitamina B12 (hidroxocobalamina)

• Tratamento da anemia perniciosa e outras causas de de ciência de vitamina B 12

• Pro laticamente após cirurgias que removam o local de produção do fator intrínseco

(estômago) ou de absorção de vitamina B 12 (íleo terminal).

 

■ Efeitos adversos

Não ocorrem efeitos indesejados mesmo com altas doses de ácido fólico –

exceto, possivelmente, na presença de deficiência de vitamina B12, quando é possível que a administração de ácido fólico possa melhorar a anemia e ao mesmo tempo exacerbar a lesão neurológica. Por isso, é importante

determinar se a anemia megaloblástica é causada por deficiência de folato

ou de vitamina B 12 e tratá-la apropriadamente.

 

Vitamina B12

A vitamina B 12, também denominada cobalamina, corrige a anemia

perniciosa. A preparação da vitamina B 12 usada em terapia é a hidroxocobalamina, derivada de culturas de microrganismos. As principais

fontes dietéticas são carne (especialmente o fígado, onde é armazenada),

ovos e laticínios. Para serem ativas, as cobalaminas precisam ser

convertidas em metilcobalamina (metil-B12) ou 5’-

desoxiadenosilcobalamina (ado-B12). A dieta europeia de um indivíduo

médio contém 5 a 25 μg de vitamina B 12 ao dia, e a necessidade diária é de 2 a 3 g. A absorção requer fator intrínseco (uma glicoproteína secretada

pelas células parietais gástricas). A vitamina B12, complexada com o fator intrínseco, é absorvida por transporte ativo no íleo terminal. O estômago

normal secreta fator intrínseco em grande excesso, mas em pacientes com

anemia perniciosa (uma doença autoimune em que ocorre atrofia da mucosa

gástrica) ou após gastrectomia total, o fornecimento de fator intrínseco é

inadequado para a manutenção da absorção de vitamina B12 a longo prazo. A remoção cirúrgica do íleo terminal, por exemplo, para tratamento da

doença de Crohn (ver Capítulo 31), pode também prejudicar a absorção de

B12.

A vitamina B12 é transportada no plasma por proteínas de ligação chamadas transcobalaminas. É armazenada no fígado, com uma quantidade

total no organismo de aproximadamente 4 mg. Esse estoque é tão

desproporcionalmente grande em comparação à necessidade diária que, se a

absorção de vitamina B 12 for subitamente interrompida – como ocorre após gastrectomia total – somente dentro de 2 a 4 anos os sinais da deficiência se

manifestarão.

 

■ Mecanismo de ação

▼ A vitamina B12 é necessária para duas principais reações bioquímicas

em seres humanos.

Conversão de metil-FH4 em FH4. As atividades metabólicas da

vitamina B 12 e do ácido fólico estão ligadas à síntese de DNA. Também

é por meio dessa via que o tratamento com folato/vitamina B12 pode

diminuir a concentração sérica de homocisteína. Como o aumento das

concentrações de homocisteína pode gerar efeitos vasculares deletérios

(ver Capítulo 24, Tabela 24.1), este fato pode trazer potenciais

implicações terapêuticas e em saúde pública. A reação envolve a

conversão tanto de metil-FH4 a FH4 como de homocisteína a metionina.

A enzima responsável (homocisteína-metionina metiltransferase) requer

vitamina B 12 como cofator e metil-FH4 como doador de grupos metil. O

grupo metil de metil-FH 4 é primeiramente transferido para a vitamina

B12 e depois à homocisteína para formar metionina. A deficiência de

vitamina B12, então, aprisiona o folato na forma metil-FH4 inativa,

depletando, assim, as coenzimas folato poliglutamato necessárias para a

síntese de DNA. A síntese de metionina dependente de vitamina B12

também afeta a síntese de coenzimas folato poliglutamato por

mecanismo adicional. O substrato preferido para a síntese de

poliglutamato é o formil-FH4, e a conversão de FH4 a formil-FH4 requer

um doador de formato como a metionina.

Isomerização de metilmalonil-CoA em succinil-CoA. Esta reação de

isomerização é parte de uma via na qual o propionato é convertido em

succinato. Por meio desta via, o colesterol, os ácidos graxos de cadeia