Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 119 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Volume de distribuição

náuseas causadas por agonistas dopaminérgicos, como a apomorfina,

usados para o tratamento dos estágios avançados da doença de Parkinson.

Isso é conseguido sem perda de efetividade, pois os receptores de dopamina

nos núcleos da base só são acessíveis a fármacos que tenham atravessado a

barreira hematencefálica.

O brometo de metilnaltrexona é um antagonista de receptor opioide μ

de ação periférica utilizado para o tratamento de constipação intestinal

induzida por opioides, como parte de um tratamento paliativo (ver Capítulo

43). Apresenta absorção gastrintestinal limitada e não atravessa a barreira

hematencefálica; portanto, não bloqueia os efeitos desejados dos opioides

no SNC. Diversos peptídios, incluindo a bradicinina, aumentam a

permeabilidade da barreira hematencefálica. Existe interesse em explorar

esse efeito para melhorar a penetração dos fármacos anticâncer no

tratamento de tumores cerebrais.

 

VOLUME DE DISTRIBUIÇÃO

O volume de distribuição aparente Vd (ver Capítulo 11) é definido como o volume necessário para conter a quantidade total do fármaco (Q) no

organismo, na mesma concentração presente no plasma (Cp):

 

É importante evitar a identificação, de modo muito rígido, de uma

determinada faixa de Vd com um determinado compartimento anatômico. Os fármacos podem atuar em concentrações muito baixas no

compartimento específico que dá acesso aos seus receptores. Por exemplo,

a insulina tem um Vd semelhante ao volume da água plasmática, mas exerce seu efeito em músculo, tecido adiposo e fígado por meio de receptores que

são expostos ao líquido intersticial, e não ao plasma (ver Capítulo 32).

 

Fármacos em grande parte confinados ao compartimento plasmático

O volume de plasma é de aproximadamente 0,05 l/kg de peso corporal.

Alguns fármacos, como a heparina (ver Capítulo 25), ficam confinados ao

plasma porque a molécula é muito grande para atravessar a parede dos

capilares com facilidade. Mais frequentemente, a retenção de um fármaco

no plasma após uma dose única reflete uma forte ligação às proteínas

plasmáticas. No entanto, é a fração livre do fármaco no líquido intersticial

que tem efeitos farmacológicos. Após doses repetidas, ocorre equilíbrio e o

Vd medido aumenta. Alguns corantes, como o azul de Evans, ligam-se tão

fortemente à albumina plasmática, que seu V d é usado experimentalmente para medir o volume plasmático.

 

Fármacos distribuídos no compartimento extracelular

O volume extracelular total é de aproximadamente 0,2 l/kg, e esse é o Vd aproximado para muitos compostos polares, tais como o vecurônio (ver

Capítulo 14), a gentamicina e a carbenicilina (ver Capítulo 52). Esses

fármacos não conseguem entrar com facilidade nas células por sua baixa

lipossolubilidade, não atravessando livremente a barreira hematencefálica

nem a placenta. Muitos biofármacos macromoleculares, especialmente

anticorpos monoclonais (ver Capítulo 5), distribuem-se no espaço

extracelular e alcançam os receptores de superfície das células, mas não

entram nas células facilmente. Os biofármacos com base em ácidos

nucleicos, que atuam no DNA e RNA intracelulares, são frequentemente

formulados em sistemas de liberação especiais (p. 131) que facilitam o

acesso ao interior da célula.

Distribuição na água do organismo

A água total do organismo representa em torno de 0,55 l/kg. Esse valor

aproxima-se da distribuição de muitos fármacos que atravessam as

membranas celulares facilmente, como a fenitoína (ver Capítulo 46) e o

etanol (ver Capítulo 50). A ligação dos fármacos fora do compartimento

plasmático, ou sua partição na gordura, aumenta o Vd acima do conteúdo total de água corporal. Consequentemente, também existem muitos

fármacos com Vd maior que o volume total da água corporal, tais como

morfina (ver Capítulo 43), antidepressivos tricíclicos (ver Capítulo 48) e

haloperidol (ver Capítulo 47). Tais fármacos não são removidos do

organismo com eficiência pela hemodiálise, que é, pois, inútil no tratamento

de superdosagens com esses agentes.

Distribuição dos fármacos

 

• Os principais compartimentos são:

– Plasma (5% do peso corporal)

– Líquido intersticial (16%)

– Líquido intracelular (35%)

– Líquido transcelular (2%)

– Gordura (20%)

• O volume de distribuição (Vd) é de nido como o volume de solvente no qual se encontra

todo o fármaco no corpo (Q) a uma concentração igual à plasmática medida (Cp), Vd = Q/Cp

• Fármacos que não são lipossolúveis cam con nados principalmente no plasma e no

líquido intersticial; a maioria não penetra no cérebro após uma dose aguda

• Os fármacos lipossolúveis chegam a todos os compartimentos, podendo acumular-se na

gordura

Para os fármacos que se acumulam fora do plasma (p. ex., na gordura ou ligados nos

•

tecidos), o Vd pode exceder o volume corporal total.

 

Interações farmacológicas causadas por alteração da absorção

(ver Capítulo 12 para uma abordagem geral das interações farmacológicas)

A absorção gastrintestinal é retardada por fármacos que inibem o

esvaziamento gástrico, como a atropina e os opioides, ou acelerada por

fármacos que promovem o esvaziamento gástrico (p. ex., a

metoclopramida; ver Capítulo 31). De modo alternativo, o fármaco A pode

interagir física ou quimicamente com o fármaco B no intestino e inibir a sua

absorção. Por exemplo, tanto o Ca2+ como o Fe2+ formam complexos insolúveis com a tetraciclina, retardando a sua absorção; a colestiramina,

uma resina de ligação ao ácido biliar, se liga a diversos fármacos (p. ex.,

varfarina, digoxina), inibindo a sua absorção se for administrada

simultaneamente. Outro exemplo é a adição de epinefrina a injeções de

anestésicos locais; a vasoconstrição resultante retarda a absorção dos

anestésicos, prolongando o efeito local (ver Capítulo 44). Atualmente, já é

utilizada a modelagem farmacológica para prever de forma quantitativa os

efeitos dos polimorfismos genéticos dos transportadores de fármacos no

intestino e nos hepatócitos, bem como das interações fármaco-fármaco

secundárias à competição por esses transportadores (Yoshida et al., 2013).

 

Interações farmacológicas causadas por alteração da

distribuição (ver Capítulo 12 para uma abordagem geral das interações farmacológicas)

Um fármaco pode alterar a distribuição de outro por competição por um

local de ligação comum na albumina plasmática ou na proteína tecidual,

mas essas interações raramente são clinicamente importantes, exceto se

forem acompanhadas por algum efeito na eliminação do fármaco (ver

Capítulos 10 e 12). O deslocamento de um fármaco do seu local de ligação

no plasma ou tecidos aumenta transitoriamente a concentração de fármaco

livre (não ligado). No entanto, isso é seguido de aumento da eliminação,

resultando em um novo estado de equilíbrio no qual a concentração total de

fármaco no plasma está reduzida, mas a concentração de fármaco livre é

igual à anterior, antes da introdução do segundo fármaco “deslocador”. As

consequências clínicas potencialmente importantes incluem:

 

• Dano devido ao aumento temporário na concentração de fármaco livre

antes de ser alcançado o novo estado de equilíbrio • Se a dose for ajustada de acordo com os valores da concentração

plasmática total, deve-se considerar que a faixa de concentração

terapêutica desejada será alterada pela coadministração de um fármaco

deslocador

• Quando o fármaco deslocador reduz também a eliminação do primeiro,

de tal modo que a concentração livre seja aumentada não somente de

maneira aguda, mas também de forma crônica ao novo estado de

equilíbrio, pode seguir-se toxicidade grave.

 

Embora muitos fármacos tenham apreciável afinidade pela albumina

plasmática e, portanto, possam ter potencial de interagir nesse sentido, há

poucos exemplos de interações desse tipo clinicamente importantes. Os

fármacos ligados a proteínas, que são administrados em doses

suficientemente elevadas para agir como agente de deslocamento, incluem

diversas sulfonamidas e o hidrato de cloral; o ácido tricloroacético, um

metabólito do hidrato de cloral, liga-se fortemente à albumina plasmática. O

deslocamento da bilirrubina da albumina por tais fármacos, em neonatos

prematuros ictéricos, pode ter consequências clinicamente desastrosas: o

metabolismo da bilirrubina está subdesenvolvido no fígado prematuro e a

bilirrubina não ligada pode atravessar a barreira hematencefálica imatura e

causar kernicterus (coloração dos núcleos da base pela bilirrubina). Isso

provoca um distúrbio de movimento intolerável e permanente conhecido

como coreoatetose, caracterizado por movimentos involuntários de

contorção e flexão na criança.

A dose de fenitoína é ajustada de acordo com a verificação de sua

concentração no plasma, e tal medição não distingue rotineiramente a

fenitoína ligada da livre (i. e., ela reflete a concentração total do fármaco).

A introdução de um fármaco que a desloca, em paciente epiléptico cuja

condição é estabilizada com a fenitoína (ver Capítulo 46), reduz a concentração plasmática total desse fármaco devido ao aumento da