Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 611 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Estimulantes psicomotores

comportamentais e mecanismos de ação.

 

ESTIMULANTES PSICOMOTORES

A Tabela 49.1 lista os principais estimulantes psicomotores e seus

mecanismos de ação e usos clínicos.

 

ANFETAMINAS1

A DL-anfetamina(speed), o seu dextroisômero ativo dextroanfetamina

(bolinha), e a metanfetamina(cristal ou ice) apresentam propriedades

químicas e farmacológicas muito semelhantes (Figura 49.1).

 

■ Efeitos farmacológicos

As anfetaminas agem mediante liberação de monoaminas, principalmente a

dopamina (DA) e a norepinefrina (NE), a partir de terminações nervosas no

cérebro, e o fazem de diversas formas. Elas são substratos para os

transportadores de captação de monoamina da membrana plasmática

neuronal DAT e NET, mas não SERT (ver Capítulos 15, 16 e 40), agindo

dessa maneira como inibidores competitivos, reduzindo a recaptação de DA

e NE. Além disso, elas entram nos terminais nervosos por meio dos

processos de recaptação ou por difusão e interagem com a bomba

monoamina vesicular VMAT-2 para inibir a captação para dentro das

vesículas sinápticas da DA e NE citoplasmáticas. As anfetaminas são

captadas para dentro das vesículas de armazenamento pela VMAT-2 e

deslocam as monoaminas endógenas das vesículas para dentro do

citoplasma. Em altas concentrações, as anfetaminas podem inibir a

monoamina oxidase, que sem elas degradaria as monoaminas

citoplasmáticas, e os inibidores da monoamina oxidase (ver Capítulo 48) aumentam os efeitos da anfetamina. As monoaminas citoplasmáticas

podem, então, ser transportadas para fora das terminações nervosas por

intermédio dos transportadores DAT e NET da membrana plasmática

trabalhando no sentido oposto, um processo que se pensa ser facilitado pela

ligação da anfetamina a esses transportadores. Todos estes se juntam para

aumentar a concentração extracelular de DA e NE nas imediações da

sinapse (ver Capítulos 15 e 40).

Em animais, a administração prolongada resulta em degeneração das

terminações nervosas que contêm monoaminas e, eventualmente, em morte

celular. Esse efeito é observado com doses tóxicas e provavelmente deve-se

ao acúmulo de metabólitos reativos dos compostos originais dentro das

terminações nervosas. Em estudos de imagem de cérebros humanos, foi

observada uma redução de DAT e receptores D 2 no cérebro de usuários de anfetamina. No entanto, não está claro se isso se deve à exposição

prolongada à substância, levando a dano nervoso, ou se é uma patologia

subjacente que foi responsável pela procura do fármaco em primeira

instância.

 

Tabela 49.1 Principais estimulantes psicomotores do

sistema nervoso central.

 

Substâncias Modo(s) de ação Signi cado clínico Notas

Anfetamina e compostos Liberação de DA e NE Dexanfetamina usada para Risco de dependência, efeitos

relacionados (p. ex., Inibição da captação de DA e tratar TDAH em crianças; de colaterais simpaticomiméticos

dexanfetamina, NE outra forma, uso clínico e hipertensão pulmonar

metanfetamina) muito limitado Alguns usam Mais importantes como

para tratar narcolepsia substâncias de uso abusivo

Fenetilina é um profármaco que é degradado para liberar

tanto anfetamina quanto

teo lina. É um fármaco de uso

abusivo popular em países

árabes

Estruturalmente relacionado

com as anfetaminas (ver Figura

Inibição da captação de DA e Usado para tratar TDAH em

Metilfenidato 49.1)

NE crianças

O etilfenidato tem ações semelhantes

Pode ser útil para reduzir a

Moda nila Inibição da recaptação de DA fadiga e aumentar a —

cognição

Risco de dano fetal

Inibição da captação de DA, Ocasionalmente usada para

Principal substância de uso

Cocaína 5-HT e NE anestesia nasofaríngea e

abusivo

Anestésico local oftalmológica (ver Capítulo

44)

Outras substâncias

relacionadas são 3,4-

Pode ter potencial no metilenodioxianfetamina

Libera 5-HT e inibe a

MDMA (ecstasy) tratamento do transtorno do (MDA), 4-bromo-2,5-

captação

estresse pós-traumático dimetoxifenetilamina (2CB)

e 4-metiltioanfetamina (4-MTA)

Frequentemente adicionada a,

ou vendida como MDMA, a

Parametoxianfetamina Libera 5-HT e bloqueia a

— parametoximetanfetamina

(PMA) captação

(PMMA) é semelhante, mas

menos potente

Metilona Inibe a captação de NE, DA e — Derivado da catinona contendo

5-HT o anel dioxi da MDMA

Etilona e butilona são semelhantes

Tem propriedades semelhantes

às de MDMA e anfetamina

Exemplos incluem 1-

Libera 5-HT e NE e inibe a

Derivados do benzofurano — (benzofurano-5-il)-

captação

propano-2-amina (5APB) e 1-(benzofurano-6-il)-

propano-2-amina (6APB)

Substância de uso abusivo

Inibição da captação de DA e Derivada da catinona

Mefedrona —

5-HT Metedrona e mexedrona

são semelhantes

Inibição da captação de DA,

 

Benzilpiperazina (BZP) NE e 5-HT Agonista α-2 — Substância de uso abusivo adrenorreceptor, agonista 5-

HT2A

Teo lina usada por ação nos Cafeína é um constituinte de

Inibição da fosfodiesterase

Metilxantinas (p. ex., músculos cardíaco e bebidas e tônicos. Também

Antagonismo dos receptores

cafeína, teo lina) brônquico (ver Capítulos 22 e está disponível na forma de

da adenosina A 2

29) comprimidos

Estimula e dessensibiliza os

Nicotina receptores nicotínicos (ver — —

Capítulos 14 e 40)

Estimulante leve presente na

noz de betel (noz-de-areca). O

Arecolina Agonista muscarínico — uso é disseminado em Índia,

Tailândia, Indonésia e outros

países asiáticos

TDAH, transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade; DA, dopamina; 5-HT, 5-hidroxitriptamina; NE, norepinefrina.

Figura 49.1 Estruturas de anfetamina, MDMA e substâncias relacionadas.

 

 

Os principais efeitos centrais das substâncias semelhantes à anfetamina

são:

 

• Estimulação locomotora

• Euforia e excitação

• Insônia

• Aumento da energia

• Anorexia

• Efeitos psicológicos a longo prazo: sintomas psicóticos, ansiedade,

depressão e alteração cognitiva.

 

Além disso, as anfetaminas têm ações simpaticomiméticas periféricas (ver

Capítulo 15), produzindo aumento da pressão arterial e inibição da

motilidade gastrintestinal.

Em seres humanos, as anfetaminas causam euforia; isso pode ser tão

intenso com a injeção intravenosa que é descrito como “orgástico”. Ratos

rapidamente aprendem a puxar uma alavanca para obter uma dose de anfetamina – um indício de que a substância é gratificante. Os seres

humanos se tornam confiantes, hiperativos e tagarelas, e diz-se que o desejo

sexual fica mais intenso. A fadiga, tanto física quanto mental, fica reduzida.

As anfetaminas (e fármacos semelhantes, como dexfenfluramina e

sibutramina) causam anorexia acentuada, mas com a administração

continuada, esse efeito desaparece e a ingestão de comida retorna ao

normal. Como tal, já não são usadas clinicamente para perda de peso (ver

Capítulo 33). São ineficazes para produzir perda de peso sustentada, e seus

efeitos no sistema nervoso central (SNC) e cardiovasculares são

prejudiciais.

Os efeitos colaterais das anfetaminas incluem sentimentos de ansiedade,

irritabilidade e desassossego. Doses altas podem induzir pânico e paranoia.

Os efeitos locomotores e gratificantes da anfetamina devem-se

principalmente à liberação de DA, em vez de NE, uma vez que tanto a

destruição do núcleo accumbens que contém DA (ver Capítulo 40) quanto a

administração de antagonistas do receptor D 2 (ver Capítulo 47) inibem essas respostas, que estão ausentes em ratos geneticamente modificados para não

possuírem DAT.

 

■ Uso crônico, tolerância e dependência

Se as anfetaminas forem usadas repetidamente ao longo de alguns dias,

pode desenvolver-se um estado de “psicose por anfetamina”, semelhante a

uma crise aguda de esquizofrenia (ver Capítulo 47), com alucinações,

paranoia e comportamento agressivo. Ao mesmo tempo, pode suceder-se o

desenvolvimento de comportamento repetitivo estereotipado. A semelhança

dessa condição com a esquizofrenia e a eficácia de fármacos antipsicóticos

para o seu controle é consistente com a teoria da DA para a esquizofrenia

(ver Capítulo 47).

A tolerância desenvolve-se rapidamente para os efeitos eufóricos e

anoréxicos das anfetaminas, porém mais lentamente para os outros efeitos.

A tolerância ocorre presumivelmente devido à depleção de DA nas

terminações nervosas.

A dependência psicológica às anfetaminas, uma consequência da

memória insistente da euforia, é bastante intensa (ver Capítulo 50). Quando

o consumo da substância é interrompido, em geral há um período de sono

profundo e, ao acordar, o sujeito sente-se letárgico, deprimido, ansioso,

irritado (algumas vezes até mesmo suicida) e faminto. Esses efeitos

posteriores podem ser o resultado da depleção dos estoques normais de DA

e NE. Estima-se que cerca de 10 a 15% dos usuários evoluam para

dependência completa, sendo o padrão usual o aumento da dose com o

desenvolvimento de tolerância, e depois ocorrem consumos excessivos

descontrolados, nos quais o usuário utiliza a substância repetidamente ao

longo de um ou mais dias, permanecendo continuamente intoxicado. Nessas

situações de consumo excessivo, doses altas podem ser utilizadas, com alto

risco de toxicidade, e a demanda pela substância afasta todos os outros

pensamentos.

Devido ao acesso ilimitado à anfetamina, animais de laboratório usam

quantidades tão grandes que morrem devido aos efeitos cardiovasculares

em alguns dias. Quando oferecidas quantidades limitadas, eles também

desenvolvem um padrão de dependência que inclui situações de consumo

excessivo.

 

■ Aspectos farmacocinéticos

As anfetaminas são prontamente absorvidas do trato gastrintestinal; no

entanto, para aumentar a intensidade do uso, elas podem ser inaladas ou

injetadas. Na forma de cristais, a base livre da metanfetamina pode ser acendida e fumada de forma semelhante ao crack (p. 627). As anfetaminas