Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 165 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Hipersensibilidade por desnervação

Como veremos nos capítulos subsequentes, tanto a membrana

plasmática quanto os transportadores vesiculares são alvos para muitos

fármacos. Definir o papel fisiológico e as propriedades farmacológicas

dessas moléculas tem sido o foco de muitas investigações.

 

HIPERSENSIBILIDADE POR DESNERVAÇÃO

Sabe-se, sobretudo pelos trabalhos de Cannon sobre o sistema simpático,

que quando um nervo é cortado e ocorre degeneração dos seus terminais, as

estruturas supridas por ele ficam hipersensíveis à substância transmissora

liberada pelos terminais. Desse modo, o músculo esquelético, que

normalmente responde à acetilcolina somente se esta for administrada em

uma dose elevada diretamente na circulação arterial, após a desnervação irá

responder contraindo-se na presença de quantidades muito menores. Outros

órgãos, como as glândulas salivares e os vasos sanguíneos, mostram

resposta semelhante de hipersensibilidade à acetilcolina e à norepinefrina

quando os nervos pós-ganglionares degeneram, existindo evidência de que

as vias no SNC sofrem do mesmo fenômeno.

 

Tabela 13.2 Exemplos de transmissores e cotransmissores

não adrenérgicos, não colinérgicos no sistema

nervoso periférico.

 

Transmissor Localização Função

Não peptídicos

ATP Neurônios pós-ganglionares simpáticos Despolarização/contração rápidas de células da

musculatura lisa (p. ex., vasos sanguíneos, canal

deferente)

GABA, 5-HT Neurônios entéricos Re exo peristáltico

Dopamina Alguns neurônios simpáticos (p. ex., rim) Vasodilatação

Nervos pélvicos Ereção

Óxido nítrico

Nervos gástricos Esvaziamento gástrico

Peptídicos

Facilita a ação constritora da norepinefrina; inibe

Neuropeptídio Y Neurônios pós-ganglionares simpáticos a liberação de norepinefrina (p. ex., vasos

sanguíneos)

Nervos parassimpáticos para as glândulas

Vasodilatação; cotransmissor com a acetilcolina

salivares

VIP

Inervação NANC da musculatura lisa das vias

Broncodilatação

respiratórias

Hormônio liberador de Despolarização lenta; cotransmissor com a

Gânglios simpáticos

gonadotro na acetilcolina

Despolarização lenta; cotransmissor com a

Substância P Gânglios simpáticos, neurônios entéricos

acetilcolina

Peptídio relacionado

Vasodilatação; extravasamento vascular;

com gene da Neurônios sensitivos não mielinizados

in amação neurogênica

calcitonina

5-HT, 5-hidroxitriptamina; ATP, adenosina trifosfato; GABA, ácido gama-aminobutírico; NANC, não noradrenérgico, não

colinérgico; VIP, peptídio intestinal vasoativo (do inglês, vasoactive intestinal peptide).

Figura 13.6 Principais cotransmissores em neurônios pós-ganglionares simpáticos

e parassimpáticos. Os diferentes mediadores geralmente fazem com que o órgão-alvo produza respostas rápidas, intermediárias ou lentas. ACh, acetilcolina; ATP, adenosina trifosfato; NE, norepinefrina; NO, óxido nítrico; NPY, neuropeptídio Y; VIP, peptídio intestinal vasoativo.

 

▼ Vários mecanismos contribuem para a hipersensibilidade por

desnervação, sendo que a extensão e os mecanismos desse fenômeno

variam de órgão para órgão. Os mecanismos identificados incluem os

seguintes (Luis e Noel, 2009).

• Proliferação de receptores. Particularmente acentuada no músculo esquelético, no qual o

número de receptores de acetilcolina aumenta 20 vezes ou mais após a desnervação; os

receptores, normalmente localizados na placa motora das fibras (ver Capítulo 14), espalham-se por toda a superfície. Em outros lugares, os aumentos no número de receptores são muito menores ou completamente ausentes

• Perda de mecanismos para a remoção de transmissores. Nas sinapses noradrenérgicas, a

perda da recaptação neuronal de norepinefrina (ver Capítulo 15) contribui substancialmente para a hipersensibilidade por desnervação. Nas sinapses colinérgicas, ocorre perda parcial de

colinesterases (ver Capítulo 14)

• Aumento da responsividade pós-juncional. As células musculares lisas ficam parcialmente

despolarizadas e hiperexcitáveis após a desnervação (em parte devido a uma redução da

atividade Na+ +-K-ATPase; ver Capítulo 4), e esse fenômeno contribui consideravelmente para a sua hipersensibilidade. Também pode ocorrer aumento da sinalização mediada pelo Ca2+, resultando em aumento do acoplamento excitação-contração.

Pode ocorrer hipersensibilidade, mas é menos acentuada, quando a

transmissão é interrompida por outros processos além da secção de nervo.

O bloqueio farmacológico da transmissão ganglionar, por exemplo, se

sustentado durante alguns dias, provoca algum grau de hipersensibilidade

dos órgãos-alvo. O bloqueio prolongado dos receptores pós-sinápticos

também provoca a proliferação dos receptores, tornando as células

hipersensíveis quando o agente inibidor é removido. Fenômenos como estes

são importantes no SNC, em que a hipersensibilidade pode provocar efeitos

de “rebote” quando fármacos que prejudicam a transmissão sináptica são

administrados durante algum tempo e posteriormente descontinuados.