Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 98 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Princípios gerais dos ensaios biológicos

Preencher a lacuna entre eventos em nível molecular e em termos

fisiológico e terapêutico apresenta dificuldades, pois, com frequência, as

doenças humanas não podem ser reproduzidas com precisão em animais

experimentais. O uso de animais transgênicos para simular as doenças

humanas é discutido posteriormente com mais detalhes.

 

PRINCÍPIOS GERAIS DOS ENSAIOS BIOLÓGICOS

 

Uso de padrões

Em 1950, J.H. Burn assinalou: “Atualmente, os farmacologistas repelem o

braço do rei, mas têm de engolir o sapo, o rato e o camundongo, isso para

não falar do porquinho-da-índia e do pombo”. Burn fazia referência ao fato

de que o “braço do rei” (a braça) fora abandonado havia muito tempo como

unidade de comprimento, enquanto a atividade dos fármacos continuava a

ser definida em termos da dose necessária para causar, por exemplo, vômito

em um pombo ou parada cardíaca em um camundongo. Uma pletora de

“unidades-pombo”, “unidades-camundongo” e outras semelhantes, sobre as

quais não havia consenso entre os laboratórios, contaminou a literatura.3

Mesmo que dois laboratórios não concordassem – porque seus pombos

eram diferentes – quanto à atividade em unidades-pombo da mesma

amostra de uma substância ativa, eles podiam, contudo, concordar que a

preparação X era, digamos, 3,5 vezes mais ativa do que a preparação padrão

Y no teste do pombo. Portanto, os ensaios biológicos são projetados para

medir a potência relativa de duas preparações – em geral, um padrão e

outra desconhecida. A manutenção de preparações estáveis de diferentes

hormônios, antissoros e outros materiais biológicos, como padrões de

referência nos EUA, é função do UK National Board for Biological

Standards Control.

Figura 8.2 Medição do efeito dos fármacos glicocorticoides na expressão do

 

receptor de superfície celular usando FACS (separação de células ativada por fluorescência). A tecnologia FACS permite a detecção e a medição de anticorpos marcados por fluorescência ligados a estruturas de células individuais. Nesse experimento, é testado o efeito de três glicocorticoides na expressão de um receptor removedor de hemoglobina de superfície celular (CD 163). Monócitos humanos foram isolados do sangue venoso (A) e incubados por 8 h (B), sozinhos ou com diversas concentrações dos

glicocorticoides dexametasona, prednisona ou hidrocortisona (ver Capítulos 27 e 34). Em seguida, as células foram colocadas no gelo e incubadas com anticorpos marcados por fluorescência dirigidos ao receptor (C). Após, as células foram fixadas, lavadas (D) e sujeitas à análise FACS (E). De acordo com essa técnica, as células fluem por um pequeno tubo e são escaneadas por laser. A luz refletida é, então, analisada pela utilização de filtros (de modo que possam ser usadas marcas fluorescentes de diferentes cores), e os dados são recolhidos como unidades de intensidade de fluorescência, comparados com um padrão (FITC) e expressos como “equivalentes FITC” para produzir os resultados finais (F), que podem ser convertidos em uma curva log da concentração convencional. (Dados são cortesia de N. Goulding.)

 

Planejamento de ensaios biológicos

▼ Dado o objetivo de se comparar a atividade de duas preparações –

uma padrão (P) e uma desconhecida (D) – em uma preparação

específica, o ensaio biológico deve fornecer uma estimativa da dose ou

da concentração de D que produza o mesmo efeito biológico de uma

dose ou concentração conhecida de P. Como mostra a Figura 8.3, desde

que as curvas log dose-efeito para P e D sejam paralelas, a razão, M, das

doses equiativas não dependerá da magnitude de resposta escolhida.

Assim, M fornece uma estimativa da razão de potência entre as duas

preparações. Uma comparação da magnitude dos efeitos produzidos por

doses iguais de P e D não fornece uma estimativa de M (Figura 8.3).

O principal problema com todos os tipos de ensaios biológicos é a

variação biológica, e o planejamento do ensaio tem como objetivos:

• Minimizar a variação

• Evitar os erros sistemáticos resultantes da variação

• Estimar os limites de erro dos resultados obtidos.

Comumente, as comparações se baseiam em análises de curvas dose-

resposta, a partir das quais as doses equivalentes de P e D são

calculadas. O uso da escala logarítmica da dose significa que as curvas

para P e D normalmente serão paralelas, e a razão da potência (M) é

calculada a partir da distância horizontal entre as duas curvas (ver

Figura 8.3). Ensaios desse tipo são conhecidos como ensaios de linhas

paralelas, cujo formato mínimo é o ensaio 2 + 2, em que são usadas

duas doses da substância padrão (P1 e P2) e duas da desconhecida (D1 e

D2). As doses são escolhidas para dar respostas que caiam na parte

linear da curva log dose-resposta, sendo administradas repetidas vezes,

de forma aleatória, fornecendo uma medida inerente da variabilidade do

sistema de teste que possa ser adotada, por meio de uma análise

estatística simples, para estimar os limites de confiança do resultado

final.

A Figura 8.4 mostra um exemplo simples de experimento para comparar

dois fármacos analgésicos, morfina e codeína (ver Capítulo 43), em

humanos, com base em um esquema 2 + 2 modificado. Cada uma das

quatro doses foi administrada em ocasiões diferentes para cada um dos

quatro indivíduos, em ordem aleatória, levando-se em conta que nem o

paciente nem o observador estavam cientes da dose empregada. O alívio

subjetivo da dor foi avaliado por um observador treinado, e os

resultados demonstraram que a morfina é 13 vezes mais potente que a

codeína. É claro que isso não prova sua superioridade, mostrando

apenas que é preciso recorrer a uma dose menor para produzir o mesmo

efeito. Entretanto, tal determinação é um passo preliminar e essencial

para se avaliarem os méritos terapêuticos relativos dos dois fármacos,

pois qualquer comparação com outros fatores, como efeitos colaterais,

duração de ação, tolerância ou dependência, precisa ser feita com base

em doses analgésicas equivalentes.

Os problemas surgem se as duas curvas log dose-resposta não forem

paralelas ou se a resposta máxima for diferente, o que pode acontecer se

o mecanismo de ação dos dois fármacos for diferente, ou se um deles

for um agonista parcial (ver Capítulo 2). Nesse caso, não é possível

definir, sem ambiguidade, as potências relativas de S e U por intermédio

de uma razão simples, e o investigador precisa lidar com o fato de que a

comparação requer a medição de mais do que uma dimensão da

potência.

 

Figura 8.3 Ensaio biológico comparando a potência de uma substância

desconhecida e um padrão. Observe que a comparação da magnitude das respostas produzidas pela mesma dose (i. e., volume) do padrão e da desconhecida não fornece uma estimativa quantitativa de sua potência relativa. (As diferenças A e A dependem da dose 1 2 escolhida.) A comparação das doses equieficazes entre a substância padrão e a desconhecida oferece uma medida válida de suas potências relativas. Como as linhas são paralelas, a magnitude do efeito escolhido para a comparação não é importante, ou seja, o log M é o mesmo em todos os pontos das curvas.

Figura 8.4 Ensaio de morfina e codeína como analgésicos em seres humanos.

 

Cada um dos quatro pacientes (numerados de 1 a 4) recebeu, em ocasiões sucessivas e em ordem aleatória, quatro tratamentos diferentes (morfina em doses alta e baixa, e codeína em doses alta e baixa) por injeção intramuscular, tendo sido calculado o grau de analgesia subjetiva para cada um. As retas de regressão calculadas forneceram uma estimativa da razão de potências de 13 para os dois fármacos. (Conforme Houde, R.W. et al., 1965. In: Analgetics. Academic Press, New York.)