Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 624 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

LSD, psilocibina e mescalina

As substâncias psicodélicas (algumas vezes também chamadas de

substâncias alucinógenas ou psicotomiméticas) afetam o pensamento, a

percepção e o humor, sem causar estimulação ou depressão psicomotora

evidente (Nichols, 2004). Pensamentos e percepções tendem a se tornar

distorcidos e parecem sonhos, em vez de simplesmente mais vívidos ou

monótonos, e a mudança no humor é, da mesma forma, mais complexa do

que uma simples mudança em direção à euforia ou à depressão. Importante

saber, tais substâncias não causam dependência. As substâncias psicodélicas

comuns estão listadas na Tabela 49.2.

 

LSD, PSILOCIBINA E MESCALINA

Dietilamida do ácido lisérgico (LSD) é um fármaco psicotomimético

excepcionalmente potente, capaz de produzir efeitos fortes em seres

humanos com doses inferiores a 1 μg/kg. É um derivado químico do ácido

lisérgico, encontrado no fungo do cereal ergot (ver Capítulo 16).

▼ O LSD foi inicialmente sintetizado por Hoffman em 1943. Hoffman

tomou deliberadamente cerca de 250 μg de LSD (sabe-se hoje que a

dose-limite é de cerca de 20 μg) e, 30 anos depois, escreveu sobre a

experiência: “as faces das pessoas ao meu redor pareciam máscaras

coloridas grotescas… agitação motora acentuada, alternando com

paralisia… sensação de peso na cabeça, nos membros e em todo o

corpo, como se estivessem cheios de chumbo… reconhecimento nítido

da minha situação, em cujo estado eu às vezes observava, como um

observador independente, que eu próprio gritava de uma forma um

pouco insana.” Esses efeitos duraram algumas horas, após as quais

Hoffman adormeceu, “e acordou na manhã seguinte sentindo-se

perfeitamente bem.” Além desses efeitos psicológicos dramáticos, o ■ Efeitos farmacológicos

LSD tem alguns efeitos fisiológicos em seres humanos em doses que

causam alucinações.

 

Tabela 49.2 Principais substâncias psicodélicas.

Substâncias Modo(s) de ação Notas

Interage com os receptores 5-HT e DA

Acredita-se que os efeitos psicodélicos se

LSD Sem uso clínico atualmente

deem principalmente por intermédio da

ativação do receptor 5-HT2A

 

Mescalina Agonista nos receptores 5-HT e outros 5-2A Sem uso clínico atualmente HT Relacionado quimicamente com a Encontrado no cacto peiote anfetamina

Sem uso clínico atualmente Pode

Rapidamente metabolizada a psilocina,

ter potencial para o tratamento de

Psilocibina um agonista parcial nos receptores 5-HT2A

depressão e algumas formas de

Quimicamente relacionada com 5-HT

ansiedade

Agonista do receptor opioide κ (ver Sem uso clínico Encontrada na

Salvinorina A

Capítulo 43) Salvia divinorum (planta)

5-HT, 5-hidroxitriptamina; DA, dopamina; LSD, dietilamina do ácido lisérgico.

 

A mescalina, a qual é derivada do cacto peiote mexicano e tem sido

conhecida como um agente alucinógeno há muitos séculos, tornou-se

famosa por intermédio de Aldous Huxley em As portas da percepção.

A psilocibina origina-se de fungos (“cogumelos mágicos”). É

rapidamente desfosforilada em psilocina, a fração ativa. Seus efeitos são

semelhantes aos sentidos com o LSD. O potencial da psilocibina como

tratamento para depressão e algumas formas de ansiedade é discutido em

Carhart-Harris e Gregory (2017).

Os principais efeitos desses fármacos são na função mental, mais

notavelmente uma alteração da percepção, de maneira que as visões e os

sons parecem distorcidos e fantasiosos. Também ocorrem alucinações

(visuais, auditivas, táteis ou olfatórias), e as modalidades sensoriais podem

se tornar confusas, de forma que os sons são percebidos como visões. O

raciocínio tende a ficar ilógico e desconectado, mas os sujeitos mantêm o

conhecimento de que os distúrbios são induzidos por drogas, e geralmente

acham a experiência excitante. Por vezes, em especial se o usuário já for

ansioso, o LSD produz uma síndrome que é extremamente perturbadora (a

“viagem ruim”), na qual a experiência alucinógena adquire uma natureza

ameaçadora e pode ser acompanhada por delírios e paranoia. Foram

relatados flashbacks da experiência alucinatória semanas ou meses mais

tarde.

O LSD age em vários subtipos de receptores de 5-HT (ver Capítulos 16

e 40); acredita-se que os seus efeitos psicotomiméticos sejam mediados

principalmente pelas suas ações agonistas do receptor 5-HT 2A (Nichols, 2004). Ele inibe o disparo de neurônios que contêm 5-HT nos núcleos da

rafe (ver Capítulo 40), aparentemente por agir como um agonista nos

receptores inibitórios somatodendríticos 5-HT1A dessas células. O significado dessa resposta para o seu efeito psicotomimético ainda não está

claro. A psilocibina é desfosforilada a psilocina, que é um agonista fraco

em vários receptores 5-HT, incluindo o receptor 5-HT 2A. O mecanismo de ação da mescalina é menos bem-definido. Há relatos contraditórios sobre a

sua atividade em receptores 5-HT 2A. Também há relatos de sua ação como inibidor do transporte monoamina.

 

■ Dependência e efeitos adversos O LSD, a psilocibina e a mescalina raramente são autoadministrados por