Rang e Dale: Farmacologia
LSD, psilocibina e mescalina
As substâncias psicodélicas (algumas vezes também chamadas de
substâncias alucinógenas ou psicotomiméticas) afetam o pensamento, a
percepção e o humor, sem causar estimulação ou depressão psicomotora
evidente (Nichols, 2004). Pensamentos e percepções tendem a se tornar
distorcidos e parecem sonhos, em vez de simplesmente mais vívidos ou
monótonos, e a mudança no humor é, da mesma forma, mais complexa do
que uma simples mudança em direção à euforia ou à depressão. Importante
saber, tais substâncias não causam dependência. As substâncias psicodélicas
comuns estão listadas na Tabela 49.2.
LSD, PSILOCIBINA E MESCALINA
Dietilamida do ácido lisérgico (LSD) é um fármaco psicotomimético
excepcionalmente potente, capaz de produzir efeitos fortes em seres
humanos com doses inferiores a 1 μg/kg. É um derivado químico do ácido
lisérgico, encontrado no fungo do cereal ergot (ver Capítulo 16).
▼ O LSD foi inicialmente sintetizado por Hoffman em 1943. Hoffman
tomou deliberadamente cerca de 250 μg de LSD (sabe-se hoje que a
dose-limite é de cerca de 20 μg) e, 30 anos depois, escreveu sobre a
experiência: “as faces das pessoas ao meu redor pareciam máscaras
coloridas grotescas… agitação motora acentuada, alternando com
paralisia… sensação de peso na cabeça, nos membros e em todo o
corpo, como se estivessem cheios de chumbo… reconhecimento nítido
da minha situação, em cujo estado eu às vezes observava, como um
observador independente, que eu próprio gritava de uma forma um
pouco insana.” Esses efeitos duraram algumas horas, após as quais
Hoffman adormeceu, “e acordou na manhã seguinte sentindo-se
perfeitamente bem.” Além desses efeitos psicológicos dramáticos, o ■ Efeitos farmacológicos
LSD tem alguns efeitos fisiológicos em seres humanos em doses que
causam alucinações.
Tabela 49.2 Principais substâncias psicodélicas.
Substâncias Modo(s) de ação Notas
Interage com os receptores 5-HT e DA
Acredita-se que os efeitos psicodélicos se
LSD Sem uso clínico atualmente
deem principalmente por intermédio da
ativação do receptor 5-HT2A
Mescalina Agonista nos receptores 5-HT e outros 5-2A Sem uso clínico atualmente HT Relacionado quimicamente com a Encontrado no cacto peiote anfetamina
Sem uso clínico atualmente Pode
Rapidamente metabolizada a psilocina,
ter potencial para o tratamento de
Psilocibina um agonista parcial nos receptores 5-HT2A
depressão e algumas formas de
Quimicamente relacionada com 5-HT
ansiedade
Agonista do receptor opioide κ (ver Sem uso clínico Encontrada na
Salvinorina A
Capítulo 43) Salvia divinorum (planta)
5-HT, 5-hidroxitriptamina; DA, dopamina; LSD, dietilamina do ácido lisérgico.
A mescalina, a qual é derivada do cacto peiote mexicano e tem sido
conhecida como um agente alucinógeno há muitos séculos, tornou-se
famosa por intermédio de Aldous Huxley em As portas da percepção.
A psilocibina origina-se de fungos (“cogumelos mágicos”). É
rapidamente desfosforilada em psilocina, a fração ativa. Seus efeitos são
semelhantes aos sentidos com o LSD. O potencial da psilocibina como
tratamento para depressão e algumas formas de ansiedade é discutido em
Carhart-Harris e Gregory (2017).
Os principais efeitos desses fármacos são na função mental, mais
notavelmente uma alteração da percepção, de maneira que as visões e os
sons parecem distorcidos e fantasiosos. Também ocorrem alucinações
(visuais, auditivas, táteis ou olfatórias), e as modalidades sensoriais podem
se tornar confusas, de forma que os sons são percebidos como visões. O
raciocínio tende a ficar ilógico e desconectado, mas os sujeitos mantêm o
conhecimento de que os distúrbios são induzidos por drogas, e geralmente
acham a experiência excitante. Por vezes, em especial se o usuário já for
ansioso, o LSD produz uma síndrome que é extremamente perturbadora (a
“viagem ruim”), na qual a experiência alucinógena adquire uma natureza
ameaçadora e pode ser acompanhada por delírios e paranoia. Foram
relatados flashbacks da experiência alucinatória semanas ou meses mais
tarde.
O LSD age em vários subtipos de receptores de 5-HT (ver Capítulos 16
e 40); acredita-se que os seus efeitos psicotomiméticos sejam mediados
principalmente pelas suas ações agonistas do receptor 5-HT 2A (Nichols, 2004). Ele inibe o disparo de neurônios que contêm 5-HT nos núcleos da
rafe (ver Capítulo 40), aparentemente por agir como um agonista nos
receptores inibitórios somatodendríticos 5-HT1A dessas células. O significado dessa resposta para o seu efeito psicotomimético ainda não está
claro. A psilocibina é desfosforilada a psilocina, que é um agonista fraco
em vários receptores 5-HT, incluindo o receptor 5-HT 2A. O mecanismo de ação da mescalina é menos bem-definido. Há relatos contraditórios sobre a
sua atividade em receptores 5-HT 2A. Também há relatos de sua ação como inibidor do transporte monoamina.
■ Dependência e efeitos adversos O LSD, a psilocibina e a mescalina raramente são autoadministrados por