Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 427 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Hipotireoidismo

nadolol (ver Capítulo 15), não são propriamente agentes antitireoidianos,

mas são úteis na redução de vários dos sinais e sintomas do

hipertireoidismo – taquicardia, arritmias, tremor e agitação. São usados no

preparo de pacientes com tireotoxicose para a cirurgia, bem como na

maioria daqueles com hipertireoidismo durante o período inicial de

tratamento, enquanto os tioureilenos e o iodo radioativo atuam ou são

empregados como parte do tratamento da crise aguda de hipertireoidismo.

Os colírios que contêm guanetidina, um bloqueador noradrenérgico (ver

Capítulo 15), são usados para melhorar a exoftalmia do hipertireoidismo

(que não é reduzida pelos fármacos antitireoidianos); ela atua no

relaxamento do músculo liso inervado pelo simpático e que faz a retração

da pálpebra. Os glicocorticoides (p. ex., prednisolona ou hidrocrotisona)

ou a descompressão cirúrgica podem ser necessários para reduzir a

exoftalmia grave na doença de Graves.

 

HIPOTIREOIDISMO

Não existem fármacos que aumentem, especificamente, a síntese ou

liberação dos hormônios tireoidianos. O único tratamento efetivo para o

hipotireoidismo, a menos que a alteração seja causada pela deficiência de

iodo (tratada com iodeto), é administrar os hormônios tireoidianos em si,

como terapia de reposição. T4 (nome oficial: levotiroxina) e T3 (nome oficial: liotironina) sintéticas, idênticas aos hormônios naturais, são

administradas por via oral. A levotiroxina, como sal de sódio em doses de

50 a 100 μg/dia, é o fármaco de primeira linha normalmente escolhido. A

ação da liotironina tem início mais rápido, mas duração menor. Ela é

reservada, em geral, para emergências como o coma mixedematoso,

condição rara em que suas propriedades são vantajosas.

Em casos de superdosagem, podem ocorrer efeitos adversos, que

incluem, além dos sinais e sintomas de hipertireoidismo, o risco de angina

pectoris, arritmias cardíacas ou até insuficiência cardíaca. Os efeitos das

superdosagens menos intensas são mais insidiosos; o paciente sente-se bem,

mas ocorre aumento da reabsorção óssea, levando à osteoporose (ver

Capítulo 37).

A utilização de fármacos para o tratamento de câncer da tireoide é um

assunto para especialistas e não será abordado aqui. Bikas et al. (2016)

revisaram a última geração de medicamentos para serem utilizados com

esse propósito.

Finalmente, o hormônio estimulante da tireoide humana recombinante

(rhTSH) é utilizado algumas vezes com propósitos de diagnóstico pós-

cirúrgico.

A utilização de fármacos para tratar distúrbios da tireoide é resumida no

boxe clínico a seguir.

Usos clínicos de fármacos que atuam na tireoide

 

Iodo radioativo (131I)

• Hipertireoidismo (doença de Graves, bócio tóxico multinodular)

• Recidiva de hipertireoidismo após falha do tratamento clínico ou cirúrgico.

 

Carbimazol ou propiltiouracila

• Hipertireoidismo (bócio tóxico difuso); é necessário pelo menos 1 ano de tratamento

• Preparo para cirurgia no caso de bócio tóxico

• Parte do tratamento da tempestade tireotóxica (hipertireoidismo muito grave); a

propiltiouracila é a melhor opção, combinada com um antagonista beta-adrenérgico (p.

ex., propranolol).

 

Hormônios tireoidianos e iodo

• A levotiroxina (T4) é a terapia de reposição padrão para o hipotireoidismo

• A liotironina (T3), administrada por injeção intravenosa lenta, é usada no coma

mixedematoso

• O iodo em solução aquosa de iodeto de potássio (“iodo de Lugol”) é usado a curto prazo

para controlar a tireotoxicose no pré-operatório. Reduz a vascularização da glândula.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Bassett, J.H.D., Harvey, C.B., Williams, G.R., 2003. Mechanisms of thyroid hormone receptor-

specific nuclear and extranuclear actions. Mol. Cell. Endocrinol. 213, 1–11. (Uma excelente e

abrangente revisão que trata das ações dos hormônios da tireoide por meio dos receptores

nucleares, bem como de outras ações por meio dos receptores acoplados à proteína G e de outras

vias)

Bikas, A., Vachhani, S., Jensen, K., Vasko, V., Burman, K.D., 2016. Targeted therapies in thyroid

cancer: an extensive review of the literature. Expert Rev. Clin. Pharmacol. 1–15. (Essa referência

revisa as propriedades de alguns dos fármacos de última geração para serem utilizados no

carcinoma da tireoide, tais como os inibidores da tirosinoquinase)

Blackburn, C.M., McConahey, W.M., Keating, F.R., Jr., Albert, A., 1954. Calorigenic effects of

single intravenous doses of L-triiodothyronine and L-thyroxine in myxedematous persons. J.

Clin. Invest. 33, 819–824.

Bou Khalil, R., Richa, S., 2011. Thyroid adverse effects of psychotropic drugs: a review. Clin.

Neuropharmacol. 34, 248–255. (Muitos pacientes que recebem medicamentos psicotrópicos

apresentam problemas de tireoide. Este artigo aborda o papel desempenhado pelos antipsicóticos

neste fenômeno)

Cignini, P., Cafa, E.V., Giorlandino, C., Capriglione, S., Spata, A., Dugo, N., 2012. Thyroid

physiology and common diseases in pregnancy: review of literature. J. Prenat. Med. 6, 64–71.

(Mostra que taxas aumentadas de anomalias da tireoide têm sido vistas durante a gravidez e que

muitas não são diagnosticadas. Também trata da gestão clínica destes casos)

Furth, E.D., Becker, D.V., Schwartz, M.S., 1963. Significance of rate of response of basal metabolic

rate and serum cholesterol in hyperthyroid patients receiving neomercazole and other antithyroid

agents. J. Clin. Endocrinol. Metab. 23, 1130–1140.

Hadj Kacem, H., Rebai, A., Kaffel, N., et al., 2003. PDS is a new susceptibility gene to autoimmune

thyroid diseases: association and linkage study. J. Clin. Endocrinol. Metab. 88, 2274–2280.

(Artigo interessante sobre a proteína transportadora na síndrome de Pendred e sua contribuição

para a suscetibilidade à doença)

Kahaly, G.J., Dillmann, W.H., 2005. Thyroid hormone action in the heart. Endocr. Rev. 26, 704–728.

(Uma revisão muito interessante sobre as ações cardíacas dos hormônios da tireoide; muitos

detalhes históricos)

Kelly, G.S., 2000. Peripheral metabolism of thyroid hormones: a review. Altern. Med. Rev. 5, 306–

333. (Esta revisão enfoca o papel do metabolismo periférico na ação dos hormônios da tireoide)

Kojic, K.L., Kojic, S.L., Wiseman, S.M., 2012. Differentiated thyroid cancers: a comprehensive

review of novel targeted therapies. Exp. Rev. Anticancer Ther. 12, 345–357. (Uma revisão que

trata da farmacoterapia do tipo mais comum de câncer da tireoide, o carcinoma diferenciado da

tireoide)

Lai, S., Zhang, S., Wang, L., et al., 2015. A rare mutation in patients with resistance to thyroid

hormone and review of therapeutic strategies. Am. J. Med. Sci. 350, 167–174. (Vale a pena ler se

estiver interessado nesta doença rara)

Lee, H.J., Li, C.W., Hammerstad, S.S., Stefan, M., Tomer, Y., 2015. Immunogenetics of autoimmune

thyroid diseases: a comprehensive review. J. Autoimmun. 64, 82–90. (Uma perspectiva

imunológica de distúrbios como as doenças de Graves e de Hashimoto. Interessante, mas

moderadamente complexo)

Mastorakos, G., Karoutsou, E.I., Mizamtsidi, M., Creatsas, G., 2007. The menace of endocrine

disruptors on thyroid hormone physiology and their impact on intrauterine development.

Endocrine 3, 219–237. (Uma revisão das rupturas endócrinas e seus efeitos sobre a tireoide. Não

se trata de uma unanimidade, mas é um tópico interessante)

McAninch, E.A., Bianco, A.C., 2016. The history and future of treatment of hypothyroidism. Ann.

Intern. Med. 164, 50–56. (Uma história muito abrangente do diagnóstico e tratamento do

hipotireoidismo. Uma boa revisão se quiser se aprofundar este assunto com mais detalhe)

Nilsson, M., 2001. Iodide handling by the thyroid epithelial cell. Exp. Clin. Endocrinol. Diabetes

109, 13–17. (Revisão útil e de fácil leitura do metabolismo do iodeto pela glândula tireoide)

Roberts, C.G., Ladenson, P.W., 2004. Hypothyroidism. Lancet 363, 793–803. (Revisão fidedigna e

acessível que trata dessa patologia da tireoide)

Sheehan, M.T., 2016. Biochemical testing of the thyroid: TSH is the best and, oftentimes, only test

needed - A review for primary care. Clin. Med. Res. 14, 83–92. (Essa revisão foi escrita

primariamente para médicos dos cuidados primários que precisavam testar a função tireoidiana

nos seus pacientes. No entanto, ela contém uma pequena revisão da fisiologia e endocrinologia

da tireoide, assim como bastante informação acerca de testes de tireoides anormais. Fácil de ler

e recomendada)

Surks, M.I., Ortiz, E., Daniels, G.H., et al., 2004. Subclinical thyroid disease: scientific review and

guidelines for diagnosis and management. JAMA 291, 228–238. (Discute e revisa os detalhes do

tratamento da doença subclínica da tireoide; de interesse primordial para os estudantes de

medicina)

Yen, P.M., 2001. Physiological and molecular basis of thyroid hormone action. Physiol. Rev. 81,

1097–1142. (Revisão abrangente da interação do hormônio da tireoide com o receptor e dos

efeitos do hormônio da tireoide sobre os tecidos-alvo)

Zhang, J., Lazar, M., 2000. The mechanism of action of thyroid hormones. Annu. Rev. Physiol. 62,

439–466. (Revisão detalhada dos aspectos moleculares da interação hormônio da tireoide-

receptor)

____________

1 Chamada assim por estar envolvida na fisiopatologia da síndrome de

Pendred, cujo nome é derivado do médico inglês que descreveu pela

primeira vez esse tipo de bócio familiar autossômico recessivo, associado à

surdez neurossensorial.

2 “Pescoço de derbyshire” foi o nome atribuído a essa condição em uma

região do Reino Unido onde as fontes alimentares de iodo eram escassas.

3 Por essa razão, a correção do hipotireoidismo pela administração de T

4

leva 2 a 3 semanas até alcançar o equilíbrio.

4 Foi reconhecida após um médico de Dublin, que relacionou “palpitações

violentas e longamente continuadas em mulheres” com o aumento da

glândula tireoide. Suas queixas de batimentos do coração e caroços na

garganta haviam sido previamente atribuídas a histeria.

5 John F. Kennedy Jr. sofreu de doença de Graves. Ele herdou uma

propensão para doenças autoimunes de seu pai, JFK, que, por sua vez,

sofreu de doença de Addison autoimune, em que as glândulas suprarrenais

são os principais órgãos afetados. A irmã de JFK, Eunice, também sofreu de

doença de Addison.

6 Produtos químicos feitos pelo homem, tais como pesticidas ou herbicidas

(p. ex., bifenilos policlorados), que persistem no ambiente e são ingeridos

nos gêneros alimentícios. O sistema endócrino é particularmente sensível a

eles, em especial durante o desenvolvimento.

7 O termo antigo para essa condição, cretinismo, não é mais usado.

Capítulo 35

 

35.1 TEMA

A síntese dos hormônios tireoidianos tri-iodotironina (T3) e tiroxina (T4) nas células foliculares envolve a oxidação do iodeto e a iodação dos resíduos de

tirosina da tireoglobulina.

Qual das seguintes opções leva a uma diminuição na reação de iodação?

 

A. Aumento da expressão da pendrina (PDS)

 

B. Aumento do peróxido de hidrogênio

 

C. Níveis aumentados de tireoperoxidase

 

D. Diminuição da somatostatina

 

E. Níveis plasmáticos elevados de iodeto

 

Resposta – – A A pendrina é um transportador de I /Cl na membrana apical, envolvido no

transporte de iodeto plasmático para o lúmen. Por conseguinte, um aumento na sua

expressão aumentará a reação de iodação.

Alternativa B incorreta: O peróxido de hidrogênio é necessário para a

oxidação/organi cação do iodeto nas células foliculares para a sua incorporação na

tireoglobulina.

Alternativa C incorreta: A tioperoxidase é a enzima necessária para a oxidação do

iodeto para incorporação na tireoglobulina.

Alternativa D incorreta: A somatostatina inibe naturalmente a liberação do

hormônio estimulante da tireoide, de modo que a presença de níveis diminuídos de

somatostatina permitiria maior síntese de TSH e hormônio.

Alternativa E incorreta: Níveis plasmáticos elevados de iodeto.

Enquanto os níveis siológicos de iodeto estimulam a produção de hormônio, a

presença de níveis plasmáticos elevados ou excessivos suprime a atividade da glândula

tireoide; esse efeito é utilizado terapeuticamente para tratar o hipertireoidismo.

 

Concluir questão

 

35.2 TEMA

A tiroxina (T4) e a tri-iodotironina (T3) desempenham funções fundamentais na

homeostasia.

Qual dos seguintes efeitos não é um efeito siológico desses hormônios

tireoidianos?

 

A. Aumento da taxa metabólica basal

 

B. Aumento da termogênese

 

C. Aumento do débito cardíaco

 

D. Redução do consumo de oxigênio

 

E. Maturação do sistema nervoso central

 

Resposta A Os hormônios tireoidianos T3 e T4 aumentam o metabolismo dos carboidratos, das proteínas e das gorduras na maioria dos tecidos.

Alternativa B incorreta: O aumento do metabolismo basal causa aumento na

produção de calor.

Alternativa C incorreta: Os hormônios aumentam frequência e débito cardíacos.

Alternativa D incorreta: Redução do consumo de oxigênio.

Os hormônios tireoidianos atuam de modo sinérgico com outros hormônios para

aumentar a taxa metabólica basal, que exige aumento no consumo de oxigênio.

Alternativa E incorreta: Os hormônios tireoidianos são essenciais para o crescimento

normal e a manutenção do sistema nervoso central.

 

Concluir questão

 

35.3 TEMA

A hiperatividade da glândula tireoide e a secreção excessiva de hormônios

podem causar uma variedade de sintomas, incluindo nervosismo, tremor e

sudorese.

Qual dos seguintes agentes não seria bené co no tratamento do

hipertireoidismo.

 

A. Carbimazol

 

B. Propiltouracila

 

C. Levotiroxina

 

D. Propranolol

 

E. 131Iodo

Resposta A O carbimazol reduz a produção de hormônio ao diminuir a iodação da

tireoglobulina.

Alternativa B incorreta: A propiltiouracila inibe a oxidação do iodeto catalisada pela

tireoperoxidase e reduz a desiodação da T4 em T3.

Alternativa C incorreta: Levotiroxina.

Trata-se de um análogo sintético da T4, que é utilizado no hipotireoidismo como terapia de reposição.

Alternativa D incorreta: O propranolol não atua diretamente sobre a glândula

tireoide; entretanto, por ser um β-antagonista, reduz os sintomas de taquicardia, tremor

e agitação.

Alternativa E incorreta: As emissões β do iodo radioativo são citotóxicas, causando

morte das células foliculares da tireoide.

 

Concluir questão

 

35.4 TEMA

As doenças da tireoide estão entre as doenças endócrinas mais comuns.

Qual das seguintes condições iria se bene ciar da administração de

levotiroxina?

 

A. Tireotoxicose

 

B. Tireoidite de Hashimoto

 

C. Doença de Graves

 

D. Bócio nodular tóxico

E. Adenomas de tireoide

 

Resposta A A tireotoxicose consiste em hipertireoidismo causado pela produção

excessiva de hormônios tireoidianos.

Alternativa B incorreta: Tireoidite de Hashimoto.

Trata-se de uma condição autoimune, que resulta em diminuição da secreção endógena

dos hormônios tireoidianos, de modo que é necessária a terapia de reposição com

levotiroxina.

Alternativa C incorreta: A doença de Graves é uma condição autoimune que resulta

de autoanticorpos estimuladores que se ligam ao receptor de TSH, desencadeando a

síntese e a secreção de hormônios tireoidianos.

Alternativa D incorreta: O bócio nodular tóxico é causado por um tumor benigno,

resultando em secreção excessiva de hormônios tireoidianos.

Alternativa E incorreta: O adenoma de tireoide é um tipo de câncer maligno (porém

raro), que causa secreção excessiva de hormônio.

 

Concluir questão

 

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