Rang e Dale: Farmacologia
Hipotireoidismo
nadolol (ver Capítulo 15), não são propriamente agentes antitireoidianos,
mas são úteis na redução de vários dos sinais e sintomas do
hipertireoidismo – taquicardia, arritmias, tremor e agitação. São usados no
preparo de pacientes com tireotoxicose para a cirurgia, bem como na
maioria daqueles com hipertireoidismo durante o período inicial de
tratamento, enquanto os tioureilenos e o iodo radioativo atuam ou são
empregados como parte do tratamento da crise aguda de hipertireoidismo.
Os colírios que contêm guanetidina, um bloqueador noradrenérgico (ver
Capítulo 15), são usados para melhorar a exoftalmia do hipertireoidismo
(que não é reduzida pelos fármacos antitireoidianos); ela atua no
relaxamento do músculo liso inervado pelo simpático e que faz a retração
da pálpebra. Os glicocorticoides (p. ex., prednisolona ou hidrocrotisona)
ou a descompressão cirúrgica podem ser necessários para reduzir a
exoftalmia grave na doença de Graves.
HIPOTIREOIDISMO
Não existem fármacos que aumentem, especificamente, a síntese ou
liberação dos hormônios tireoidianos. O único tratamento efetivo para o
hipotireoidismo, a menos que a alteração seja causada pela deficiência de
iodo (tratada com iodeto), é administrar os hormônios tireoidianos em si,
como terapia de reposição. T4 (nome oficial: levotiroxina) e T3 (nome oficial: liotironina) sintéticas, idênticas aos hormônios naturais, são
administradas por via oral. A levotiroxina, como sal de sódio em doses de
50 a 100 μg/dia, é o fármaco de primeira linha normalmente escolhido. A
ação da liotironina tem início mais rápido, mas duração menor. Ela é
reservada, em geral, para emergências como o coma mixedematoso,
condição rara em que suas propriedades são vantajosas.
Em casos de superdosagem, podem ocorrer efeitos adversos, que
incluem, além dos sinais e sintomas de hipertireoidismo, o risco de angina
pectoris, arritmias cardíacas ou até insuficiência cardíaca. Os efeitos das
superdosagens menos intensas são mais insidiosos; o paciente sente-se bem,
mas ocorre aumento da reabsorção óssea, levando à osteoporose (ver
Capítulo 37).
A utilização de fármacos para o tratamento de câncer da tireoide é um
assunto para especialistas e não será abordado aqui. Bikas et al. (2016)
revisaram a última geração de medicamentos para serem utilizados com
esse propósito.
Finalmente, o hormônio estimulante da tireoide humana recombinante
(rhTSH) é utilizado algumas vezes com propósitos de diagnóstico pós-
cirúrgico.
A utilização de fármacos para tratar distúrbios da tireoide é resumida no
boxe clínico a seguir.
Usos clínicos de fármacos que atuam na tireoide
Iodo radioativo (131I)
• Hipertireoidismo (doença de Graves, bócio tóxico multinodular)
• Recidiva de hipertireoidismo após falha do tratamento clínico ou cirúrgico.
Carbimazol ou propiltiouracila
• Hipertireoidismo (bócio tóxico difuso); é necessário pelo menos 1 ano de tratamento
• Preparo para cirurgia no caso de bócio tóxico
• Parte do tratamento da tempestade tireotóxica (hipertireoidismo muito grave); a
propiltiouracila é a melhor opção, combinada com um antagonista beta-adrenérgico (p.
ex., propranolol).
Hormônios tireoidianos e iodo
• A levotiroxina (T4) é a terapia de reposição padrão para o hipotireoidismo
• A liotironina (T3), administrada por injeção intravenosa lenta, é usada no coma
mixedematoso
• O iodo em solução aquosa de iodeto de potássio (“iodo de Lugol”) é usado a curto prazo
para controlar a tireotoxicose no pré-operatório. Reduz a vascularização da glândula.
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR
Bassett, J.H.D., Harvey, C.B., Williams, G.R., 2003. Mechanisms of thyroid hormone receptor-
specific nuclear and extranuclear actions. Mol. Cell. Endocrinol. 213, 1–11. (Uma excelente e
abrangente revisão que trata das ações dos hormônios da tireoide por meio dos receptores
nucleares, bem como de outras ações por meio dos receptores acoplados à proteína G e de outras
vias)
Bikas, A., Vachhani, S., Jensen, K., Vasko, V., Burman, K.D., 2016. Targeted therapies in thyroid
cancer: an extensive review of the literature. Expert Rev. Clin. Pharmacol. 1–15. (Essa referência
revisa as propriedades de alguns dos fármacos de última geração para serem utilizados no
carcinoma da tireoide, tais como os inibidores da tirosinoquinase)
Blackburn, C.M., McConahey, W.M., Keating, F.R., Jr., Albert, A., 1954. Calorigenic effects of
single intravenous doses of L-triiodothyronine and L-thyroxine in myxedematous persons. J.
Clin. Invest. 33, 819–824.
Bou Khalil, R., Richa, S., 2011. Thyroid adverse effects of psychotropic drugs: a review. Clin.
Neuropharmacol. 34, 248–255. (Muitos pacientes que recebem medicamentos psicotrópicos
apresentam problemas de tireoide. Este artigo aborda o papel desempenhado pelos antipsicóticos
neste fenômeno)
Cignini, P., Cafa, E.V., Giorlandino, C., Capriglione, S., Spata, A., Dugo, N., 2012. Thyroid
physiology and common diseases in pregnancy: review of literature. J. Prenat. Med. 6, 64–71.
(Mostra que taxas aumentadas de anomalias da tireoide têm sido vistas durante a gravidez e que
muitas não são diagnosticadas. Também trata da gestão clínica destes casos)
Furth, E.D., Becker, D.V., Schwartz, M.S., 1963. Significance of rate of response of basal metabolic
rate and serum cholesterol in hyperthyroid patients receiving neomercazole and other antithyroid
agents. J. Clin. Endocrinol. Metab. 23, 1130–1140.
Hadj Kacem, H., Rebai, A., Kaffel, N., et al., 2003. PDS is a new susceptibility gene to autoimmune
thyroid diseases: association and linkage study. J. Clin. Endocrinol. Metab. 88, 2274–2280.
(Artigo interessante sobre a proteína transportadora na síndrome de Pendred e sua contribuição
para a suscetibilidade à doença)
Kahaly, G.J., Dillmann, W.H., 2005. Thyroid hormone action in the heart. Endocr. Rev. 26, 704–728.
(Uma revisão muito interessante sobre as ações cardíacas dos hormônios da tireoide; muitos
detalhes históricos)
Kelly, G.S., 2000. Peripheral metabolism of thyroid hormones: a review. Altern. Med. Rev. 5, 306–
333. (Esta revisão enfoca o papel do metabolismo periférico na ação dos hormônios da tireoide)
Kojic, K.L., Kojic, S.L., Wiseman, S.M., 2012. Differentiated thyroid cancers: a comprehensive
review of novel targeted therapies. Exp. Rev. Anticancer Ther. 12, 345–357. (Uma revisão que
trata da farmacoterapia do tipo mais comum de câncer da tireoide, o carcinoma diferenciado da
tireoide)
Lai, S., Zhang, S., Wang, L., et al., 2015. A rare mutation in patients with resistance to thyroid
hormone and review of therapeutic strategies. Am. J. Med. Sci. 350, 167–174. (Vale a pena ler se
estiver interessado nesta doença rara)
Lee, H.J., Li, C.W., Hammerstad, S.S., Stefan, M., Tomer, Y., 2015. Immunogenetics of autoimmune
thyroid diseases: a comprehensive review. J. Autoimmun. 64, 82–90. (Uma perspectiva
imunológica de distúrbios como as doenças de Graves e de Hashimoto. Interessante, mas
moderadamente complexo)
Mastorakos, G., Karoutsou, E.I., Mizamtsidi, M., Creatsas, G., 2007. The menace of endocrine
disruptors on thyroid hormone physiology and their impact on intrauterine development.
Endocrine 3, 219–237. (Uma revisão das rupturas endócrinas e seus efeitos sobre a tireoide. Não
se trata de uma unanimidade, mas é um tópico interessante)
McAninch, E.A., Bianco, A.C., 2016. The history and future of treatment of hypothyroidism. Ann.
Intern. Med. 164, 50–56. (Uma história muito abrangente do diagnóstico e tratamento do
hipotireoidismo. Uma boa revisão se quiser se aprofundar este assunto com mais detalhe)
Nilsson, M., 2001. Iodide handling by the thyroid epithelial cell. Exp. Clin. Endocrinol. Diabetes
109, 13–17. (Revisão útil e de fácil leitura do metabolismo do iodeto pela glândula tireoide)
Roberts, C.G., Ladenson, P.W., 2004. Hypothyroidism. Lancet 363, 793–803. (Revisão fidedigna e
acessível que trata dessa patologia da tireoide)
Sheehan, M.T., 2016. Biochemical testing of the thyroid: TSH is the best and, oftentimes, only test
needed - A review for primary care. Clin. Med. Res. 14, 83–92. (Essa revisão foi escrita
primariamente para médicos dos cuidados primários que precisavam testar a função tireoidiana
nos seus pacientes. No entanto, ela contém uma pequena revisão da fisiologia e endocrinologia
da tireoide, assim como bastante informação acerca de testes de tireoides anormais. Fácil de ler
e recomendada)
Surks, M.I., Ortiz, E., Daniels, G.H., et al., 2004. Subclinical thyroid disease: scientific review and
guidelines for diagnosis and management. JAMA 291, 228–238. (Discute e revisa os detalhes do
tratamento da doença subclínica da tireoide; de interesse primordial para os estudantes de
medicina)
Yen, P.M., 2001. Physiological and molecular basis of thyroid hormone action. Physiol. Rev. 81,
1097–1142. (Revisão abrangente da interação do hormônio da tireoide com o receptor e dos
efeitos do hormônio da tireoide sobre os tecidos-alvo)
Zhang, J., Lazar, M., 2000. The mechanism of action of thyroid hormones. Annu. Rev. Physiol. 62,
439–466. (Revisão detalhada dos aspectos moleculares da interação hormônio da tireoide-
receptor)
____________
1 Chamada assim por estar envolvida na fisiopatologia da síndrome de
Pendred, cujo nome é derivado do médico inglês que descreveu pela
primeira vez esse tipo de bócio familiar autossômico recessivo, associado à
surdez neurossensorial.
2 “Pescoço de derbyshire” foi o nome atribuído a essa condição em uma
região do Reino Unido onde as fontes alimentares de iodo eram escassas.
3 Por essa razão, a correção do hipotireoidismo pela administração de T
4
leva 2 a 3 semanas até alcançar o equilíbrio.
4 Foi reconhecida após um médico de Dublin, que relacionou “palpitações
violentas e longamente continuadas em mulheres” com o aumento da
glândula tireoide. Suas queixas de batimentos do coração e caroços na
garganta haviam sido previamente atribuídas a histeria.
5 John F. Kennedy Jr. sofreu de doença de Graves. Ele herdou uma
propensão para doenças autoimunes de seu pai, JFK, que, por sua vez,
sofreu de doença de Addison autoimune, em que as glândulas suprarrenais
são os principais órgãos afetados. A irmã de JFK, Eunice, também sofreu de
doença de Addison.
6 Produtos químicos feitos pelo homem, tais como pesticidas ou herbicidas
(p. ex., bifenilos policlorados), que persistem no ambiente e são ingeridos
nos gêneros alimentícios. O sistema endócrino é particularmente sensível a
eles, em especial durante o desenvolvimento.
7 O termo antigo para essa condição, cretinismo, não é mais usado.
Capítulo 35
35.1 TEMA
A síntese dos hormônios tireoidianos tri-iodotironina (T3) e tiroxina (T4) nas células foliculares envolve a oxidação do iodeto e a iodação dos resíduos de
tirosina da tireoglobulina.
Qual das seguintes opções leva a uma diminuição na reação de iodação?
A. Aumento da expressão da pendrina (PDS)
B. Aumento do peróxido de hidrogênio
C. Níveis aumentados de tireoperoxidase
D. Diminuição da somatostatina
E. Níveis plasmáticos elevados de iodeto
Resposta – – A A pendrina é um transportador de I /Cl na membrana apical, envolvido no
transporte de iodeto plasmático para o lúmen. Por conseguinte, um aumento na sua
expressão aumentará a reação de iodação.
Alternativa B incorreta: O peróxido de hidrogênio é necessário para a
oxidação/organi cação do iodeto nas células foliculares para a sua incorporação na
tireoglobulina.
Alternativa C incorreta: A tioperoxidase é a enzima necessária para a oxidação do
iodeto para incorporação na tireoglobulina.
Alternativa D incorreta: A somatostatina inibe naturalmente a liberação do
hormônio estimulante da tireoide, de modo que a presença de níveis diminuídos de
somatostatina permitiria maior síntese de TSH e hormônio.
Alternativa E incorreta: Níveis plasmáticos elevados de iodeto.
Enquanto os níveis siológicos de iodeto estimulam a produção de hormônio, a
presença de níveis plasmáticos elevados ou excessivos suprime a atividade da glândula
tireoide; esse efeito é utilizado terapeuticamente para tratar o hipertireoidismo.
Concluir questão
35.2 TEMA
A tiroxina (T4) e a tri-iodotironina (T3) desempenham funções fundamentais na
homeostasia.
Qual dos seguintes efeitos não é um efeito siológico desses hormônios
tireoidianos?
A. Aumento da taxa metabólica basal
B. Aumento da termogênese
C. Aumento do débito cardíaco
D. Redução do consumo de oxigênio
E. Maturação do sistema nervoso central
Resposta A Os hormônios tireoidianos T3 e T4 aumentam o metabolismo dos carboidratos, das proteínas e das gorduras na maioria dos tecidos.
Alternativa B incorreta: O aumento do metabolismo basal causa aumento na
produção de calor.
Alternativa C incorreta: Os hormônios aumentam frequência e débito cardíacos.
Alternativa D incorreta: Redução do consumo de oxigênio.
Os hormônios tireoidianos atuam de modo sinérgico com outros hormônios para
aumentar a taxa metabólica basal, que exige aumento no consumo de oxigênio.
Alternativa E incorreta: Os hormônios tireoidianos são essenciais para o crescimento
normal e a manutenção do sistema nervoso central.
Concluir questão
35.3 TEMA
A hiperatividade da glândula tireoide e a secreção excessiva de hormônios
podem causar uma variedade de sintomas, incluindo nervosismo, tremor e
sudorese.
Qual dos seguintes agentes não seria bené co no tratamento do
hipertireoidismo.
A. Carbimazol
B. Propiltouracila
C. Levotiroxina
D. Propranolol
E. 131Iodo
Resposta A O carbimazol reduz a produção de hormônio ao diminuir a iodação da
tireoglobulina.
Alternativa B incorreta: A propiltiouracila inibe a oxidação do iodeto catalisada pela
tireoperoxidase e reduz a desiodação da T4 em T3.
Alternativa C incorreta: Levotiroxina.
Trata-se de um análogo sintético da T4, que é utilizado no hipotireoidismo como terapia de reposição.
Alternativa D incorreta: O propranolol não atua diretamente sobre a glândula
tireoide; entretanto, por ser um β-antagonista, reduz os sintomas de taquicardia, tremor
e agitação.
Alternativa E incorreta: As emissões β do iodo radioativo são citotóxicas, causando
morte das células foliculares da tireoide.
Concluir questão
35.4 TEMA
As doenças da tireoide estão entre as doenças endócrinas mais comuns.
Qual das seguintes condições iria se bene ciar da administração de
levotiroxina?
A. Tireotoxicose
B. Tireoidite de Hashimoto
C. Doença de Graves
D. Bócio nodular tóxico
E. Adenomas de tireoide
Resposta A A tireotoxicose consiste em hipertireoidismo causado pela produção
excessiva de hormônios tireoidianos.
Alternativa B incorreta: Tireoidite de Hashimoto.
Trata-se de uma condição autoimune, que resulta em diminuição da secreção endógena
dos hormônios tireoidianos, de modo que é necessária a terapia de reposição com
levotiroxina.
Alternativa C incorreta: A doença de Graves é uma condição autoimune que resulta
de autoanticorpos estimuladores que se ligam ao receptor de TSH, desencadeando a
síntese e a secreção de hormônios tireoidianos.
Alternativa D incorreta: O bócio nodular tóxico é causado por um tumor benigno,
resultando em secreção excessiva de hormônios tireoidianos.
Alternativa E incorreta: O adenoma de tireoide é um tipo de câncer maligno (porém
raro), que causa secreção excessiva de hormônio.
Concluir questão
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