Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 238 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Receptores canabinoides

relativamente suaves e não causam ânsia compulsiva de consumir a

substância. A dependência psicológica de fato ocorre com a cannabis, mas

compele menos que as principais substâncias de uso abusivo (ver Capítulo

50), embora a dependência esteja aumentada em paralelo com o uso de

material mais potente (Maldonado et al., 2011).

 

RECEPTORES CANABINOIDES

Originalmente, concebeu-se que os canabinoides, sendo altamente

lipossolúveis, atuariam de forma similar aos anestésicos gerais. Todavia, em

1988, demonstrou-se uma ligação saturável de alta afinidade de um

canabinoide marcado com trítio em membranas preparadas a partir de

homogeneizados de cérebro de rato, o que levou à identificação de

receptores canabinoides específicos no cérebro. Estes são atualmente

denominados receptores CB 1, para distingui-los dos receptores CB2, subsequentemente identificados em tecidos periféricos. Os receptores

canabinoides são membros típicos da família dos receptores acoplados à

proteína G (ver Capítulo 3). Os receptores CB1 são vinculados, via Gi/o, à inibição de adenilato ciclase e de canais de cálcio operados por voltagem, e

à ativação de canais de potássio retificadores de entrada sensíveis à proteína

G (GIRK; do inglês, Gprotein-sensitive inwardly rectifying potassium

channels), causando hiperpolarização da membrana (Figura 20.2). Esses

efeitos são similares aos mediados por receptores opioides (ver Capítulo

43). Os receptores CB1 estão localizados na membrana plasmática das terminações nervosas e inibem a liberação de transmissor pelas terminações

pré-sinápticas, que é causada pela despolarização e pela entrada de cálcio

(Ca2+) (ver Capítulo 4). Os receptores CB também influenciam a expressão

gênica tanto diretamente, pela ativação da proteinoquinase ativada por mitógenos, quanto indiretamente, pela redução da atividade da

proteinoquinase A, em consequência da atividade reduzida de adenilato

ciclase (ver Capítulo 3).

Os receptores CB1 são abundantes no cérebro, em número semelhante ao dos receptores do glutamato e GABA – os principais neurotransmissores

centrais, excitatório e inibitório, respectivamente (ver Capítulo 39). Eles

não estão homogeneamente distribuídos, mas concentrados no hipocampo

(importante para os efeitos dos canabinoides sobre a memória), cerebelo

(importante para a perda de coordenação), hipotálamo (importante no

controle do apetite e da temperatura corporal; ver Capítulo 33 e mais

adiante neste capítulo), substância negra, vias dopaminérgicas

mesolímbicas que foram implicadas na “recompensa” psicológica (ver

Capítulo 50) e em áreas de associação do córtex cerebral. Existe uma

relativa escassez de receptores CB 1 no tronco encefálico, consistente com o fato de não haver depressão grave da função respiratória ou cardiovascular

com os canabinoides. Em nível celular, os receptores CB 1 estão localizados pré-sinapticamente e inibem a liberação de transmissores, conforme

descrito na Figura 20.2. Assim como os opioides, eles podem, contudo,

aumentar a atividade de algumas vias neuronais pela inibição de conexões

inibitórias, incluindo interneurônios GABAérgicos no hipocampo e na

amígdala.

Figura 20.2 Ações celulares dos canabinoides. A ativação do receptor CB impede a 1 liberação de neurotransmissor via inibição da entrada de Ca 2+ e hiperpolarização em função da ativação dos canais de potássio. Ocorre também alteração da expressão gênica. GIRK, canal de potássio sensível à proteína G; MAPK, proteinoquinase ativada por mitógenos; PKA, proteinoquinase A; CCV, canal de cálcio controlado por voltagem. (Redesenhada de Devane et al., 1992.)

 

Além de sua bem identificada localização no SNC, os receptores CB1 também são expressos em tecidos periféricos, incluindo células endoteliais,

adipócitos e nervos periféricos. Os canabinoides promovem lipogênese por

meio de ativação dos receptores CB1, uma ação que pode contribuir para o seu efeito sobre o peso corporal (DiPatrizio e Piomele, 2012).

O receptor CB2 contém apenas cerca de 45% de homologia de

aminoácidos com o CB1 e está localizado principalmente no tecido linfoide (baço, tonsilas e timo, bem como linfócitos e monócitos circulantes e

mastócitos dos tecidos). Os receptores CB 2 também estão presentes na micróglia – células imunológicas do SNC que, quando ativadas, contribuem

para a dor crônica (ver Capítulo 38). A localização de receptores CB2 nas células do sistema imunológico era inesperada, mas pode responder pelos

efeitos inibitórios da cannabis sobre a função imunológica. Os receptores

CB2 diferem dos receptores CB1 em relação à sua responsividade aos

ligantes canabinoides (Tabela 20.1). Eles estão vinculados via Gi/o a adenilato ciclase, canais GIRK e proteinoquinase ativada por mitógenos

similarmente aos receptores CB1, mas não aos canais de cálcio operados por voltagem (que não são expressos em células imunológicas). Até o

momento, pouco se conhece sobre sua função. Eles estão presentes em

lesões ateroscleróticas (ver Capítulo 24), e os agonistas do CB 2 têm efeitos potencialmente antiateroscleróticos nos macrófagos e células espumosas

(Chiurchiu et al., 2014).

 

Tabela 20.1 Endocanabinoides definidos e possíveis.

 

Endocanabinoide Seletividade

Endocanabinoides de nidos

 

Anandamida CB > CB 12

2-Araquidonoil glicerol CB = CB 12

Candidatos endocanabinoides menos bem estabelecidos

 

Virodamina CB > CB 21

Noladina CB >> CB 12

N-Araquidonoil dopamina CB >> CB 12